sexta-feira, 28 de novembro de 2014

As grandes empresas farmacêuticas: Capitalismo mafioso fora de controle

Via Rebelión

Ralph Nader

Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti

CounterPunch

Duas notícias recentes sobre a voraz indústria farmacêutica deveriam fazer com que o indolente Congresso dos EUA acorde e inicie investigações sobre o preço dos medicamentos “paga ou morre”, que são demasiadamente comuns.

A primeira informação, um artigo de primeira página do New York Times, falava da fibrose  cística  (FC), e da Fundação Cystic Fibrosis (CF), que há 15 anos investiu 150 milhões de dólares na companhia de biotecnologia Vertex Pharmaceuticals, com a finalidade de desenvolver um medicamento contra essa grave doença pulmonar.

Em 19 de novembro, a Fundação informou de um lucro de 3,3 bilhões de dólares como resultado dessa iniciativa. Kalydeco, o medicamento desenvolvido através desse investimento, é tomado diariamente por pacientes de FC (que puderem pagar), custando cerca de 300 mil dólares anuais por paciente. Quem pode pagar esse preço?

A segunda notícia provém do Tufts Center for the Study of Drug Developement, financiado pela indústria farmacêutica. Joseph DiMasi, do Center, afirma que os custos para desenvolver um novo medicamento são de cerca de 2,558 bilhões de dólares, muito mais que o cálculo de 802 milhões de dólares que o Center mencionou em 2003.

Os promotores da indústria farmacêutica utilizam essa cifra absurda para justificar os altíssimos preços dos medicamentos para os consumidores. Por desgraça, a crítica a essas cifras exageradas não recebe a atenção adequada nos meios de comunicação.

Segundo a afirmação de DiMasi, a metade cobre custos de oportunidades perdidas se a companhia investisse seu dinheiro em outra parte.  Isso reduz seu cálculo quase à metade, 1,395 bilhões de dólares. Essa manobra dá um novo significado à “inflação”. Segundo o economista James P. Love, fundador da Knownledge Ecology International, DeMasi também convenientemente ignora subsídios governamentais, como os denominados créditos tributários por medicamentos órfãos,  subsídios de pesquisa dos Institutos Nacionais de Saúde, e o apoio governamental pelo custo de ensaios clínicos de qualificação  (Veja kelonline.org)

Love acrescenta que as companhias farmacêuticas gastam “muito mais em marketing do que em pesquisas e desenvolvimento”. Rohit Malpani, diretor de política e análise de Médicos sem Fronteiras (que recebeu o Prêmio Nobel de 1999) diz que, se forem aceitas as cifras de Tufts, cuja suposta análise de dados é em grande parte secreta, “também poderemos acreditar que a Terra é plana”.

Malpani cita o próprio diretor executivo da GlaxoSmithKline, Andrew Witty, que disse que a cifra de um bilhão de dólares para desenvolver um medicamento é um mito.

Malpani acrescenta que “o que sabemos, de pesquisas e estudos passados e da experiência de pesquisadores de medicamentos sem fins lucrativos é que um novo medicamento pode ser desenvolvido por uma fração do custo que é sugerido pelo relatório de Tufts. O custo do desenvolvimento desses produtos é variável, mas a experiência mostra que podem ser desenvolvidos novos medicamentos por somente 50 milhões de dólares, ou até por 186 milhões de dólares, se forem tomados em conta os fracassos...Não somente os contribuintes pagam um percentual considerável das pesquisas e desenvolvimento da indústria farmacêutica, mas também pagam o dobro por que então os afetam os altos preços dos medicamentos por si sós”.

Malpani se referia primordialmente aos EUA, onde as empresas farmacêuticas não mostram gratidão pelos generosos créditos tributários para pesquisas e desenvolvimento, financiados com dinheiro público (que a maioria recebe, gratuitamente). Se acrescentarmos a ausência de controle de preços, observa-se que o consumidor/paciente paga os preços de medicamentos mais elevados de todo o mundo.

Outro aspecto que geralmente é ignorado das pesquisas dessa indústria é que proporção desses produtos se ajusta, em vez de melhorar, aos resultados na saúde, como os medicamentos denominados “eu também”, que são lucrativos mas não beneficiam a saúde dos pacientes.

Assim mesmo, a lucrativa indústria farmacêutica sempre tem sido incapaz de limitar sua enganosa promoção de medicamentos e divulgação inadequada de seus efeitos adversos. Cerca de 100 mil norte-americanos morrem todos os anos por efeitos colaterais dos medicamentos. Dezenas de milhões dólares dos consumidores são desperdiçados com medicamentos com efeitos colaterais, em vez de serem investidos em produtos para as mesmas doenças, mas com menos efeitos colaterais (ver  https://blog.nader.org/citizen.org/hrg).

No anos de 2000, numa visita com médicos e cientistas militares ao Walter Reed Army Hospital, perguntei quanto gastavam em pesquisas para desenvolver drogas contra a malária e outros medicamentos. A resposta: de cinco a dez milhões de dólares por medicamento, o que incluía os testes clínicos e os salários dos pesquisadores.

Essa “entidade de pesquisa de medicamentos “ do Departamento de Defesa foi criada por que as empresas farmacêuticas se negaram a investir em vacinas ou medicamentos terapêuticos para a malária, na época a segunda principal causa de hospitalização de soldados norte-americanos no Vietnam (a primeira eram os ferimentos em campo de batalha). Por isso, a administração militar decidiu preencher esse vazio com seus próprios meios, com considerável êxito.

O problema da tacanhez da mal acostumada indústria farmacêutica privada em relação  às vacinas continua existindo. A tuberculose, resistente aos medicamentos, e outras doenças infecciosas em crescimento em países em desenvolvimento continuam custando milhões de vidas a cada ano.  A epidemia de ebola é uma ilustração letal de semelhante negligência.

A sobrevivência de muitos milhões de pessoas é importante demais para ser deixada nas mãos das companhias farmacêuticas. Por uma fração do que o governo  americano desperdiça na expansão e fracasso de guerras ilegais no exterior, pode ir além do exemplo do Walter Reed Army Hospital e transformar-se numa superpotência humanitária que produza vacinas e medicamentos para salvar vidas, por que o sofrimentos dos doentes deve importar mais que a chuva de lucros das grande empresas farmacêuticas.

O último livro de Ralph Nader é Unstoppable: the Emerging Left-Right Alliance to Dismantle the Corporate State.

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