sábado, 11 de outubro de 2014

Os desafios de Dilma Roussef, na visão do hermano Atílio Borón

Via Rebelión

Atílio Borón

Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti

Resumen Latinoamericano

Complica-se o cenário no Brasil, por várias razões.

Primeiro, porque Dilma teve a pior votação no primeiro turno desde que o PT triunfou nas eleições presidenciais de 2002. No primeiro turno desse ano, Lula obteve 45,4% dos votos e 48,6% em 2006. Em 2010, Dilma conseguiu – favorecida pelo alto nível de aprovação de Lula – 46% dos votos da população. Em troca, no domingo passado conseguiu apenas 41,5% dos votos. O pulo para agora chegar à maioria absoluta será maior, e será preciso verificar de onde virão os votos que faltam. É provável que alguns dos que votaram em Marina achem inaceitável canalizar suas preferências em direção a Aécio Neves, mas são somente conjeturas. Dilma, Aécio e Marina somaram 96% dos votos válidos, de forma que não há grandes contingentes de eleitores que possam se redistribuir entre os dois finalistas além dos votantes em Marina, ou de uma possível diminuição da abstenção eleitoral, que chegou a 19,4%.

Segundo: a situação se complica por que seu adversário  já  não é uma volúvel e fugaz estrela midiática, mas um representante orgânico do establishment  conservador brasileiro. Membro do PSDB, partido do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, Aécio foi um ardoroso crítico dos governos petistas, a quem acusa de afugentar os investidores estrangeiros e criar um clima pouco favorável para os negócios, imputações que não tem amparo na realidade.  Neves é um dos que acreditam que pouco ou nada tem que fazer na América Latina, Seu destino é associar-se aos projetos imperiais dos Estados Unidos e seus cúmplices europeus. Como tantos na direita latino-americana, não percebe o que as mentes mais atiladas do império vem alertando há tempo: que os EUA entraram em lento, progressivo e irreversível declínio, e que sua agonia estará marcada por violentos estertores e inumeráveis guerras.  Nessa curva descendente, não haverá amigos permanentes, como espera Aécio da relação do Brasil com os EUA, mas sim interesses permanentes; e para Washington, os             amigos de ontem (Saddam Hussein, Osama Bin Laden ou os sunitas fanáticos que ajudou a criar) podem transformar-se da noite para o dia – como ocorre hoje com o Estado Islâmico – nos infames inimigos da liberdade e da democracia.

Terceiro: para preponderar, Dilma deverá reconquistar  uma parte da base social do PT que, desiludida com seu governo, manifestou seu desencanto votando em Marina.Para isso, deverá demonstrar que seu segundo turno será diferente que o primeiro, ao menos em algumas matérias sensíveis, como as ares econômica e social. Se sua proposta se assemelhar a de seu rival, ela estará perdida, por que as pessoas invariavelmente preferem o original à cópia.  Terá que diferenciar-se pela esquerda, aprofundando as reformas que ponham fim à intolerável desigualdade econômica e social do Brasil, aos estragos do agronegócio, à depredação ambiental, à sua vergonhosa regressão tributária e aos escandalosos lucros embolsados pelo capital financeiro e pelos oligopólios durante os governos petistas.

Quarto e último: para isso, será preciso abandonar o caminho que, a partir de 2003,  desmobilizou o PT, transformando o outrora vibrante partido socialista dos anos 80 e 90 em um espectro que vegeta nos recintos parlamentares e nas repartições da burocracia estatal. Agora, Dilma não tem partido, e o mesmo pode ser dito de Aécio. Contudo, esse tem como suprir essa carência: os oligopólios midiáticos, todos jogando do seu lado. O PT perdeu as ruas e a paixão do povo por que desde sua chegada ao governo caiu na velha armadilha da ideologia burguesa, e a arte da política se transformou em gestão tecnocrática, enquanto a primeira era desqualificada como politicagem. Erro fatal, por que Dilma somente poderá ser salva pela política, e não por suas presumíveis aptidões gerenciais. A maioria eleitoral que Lula soube construir não conseguiu transformar-se em hegemonia política, ou seja, numa direção intelectual e moral que garantisse a irreversibilidade dos importantes avanços registrados em algumas áreas da vida social, mas que, na visão da cidadania, foram insuficientes.

Foram mudanças que melhoraram as condições da população, mas que não foram protagonizadas  por essa população, mas sim por um poder filantrópico, que de cima desmobilizava, despolitizava e induzia à passividade em troca da inédita generosidade oficial. A atividade política era um ruído que alterava a calma requerida pelos mercados para continuar enriquecendo os ricos.  O PT no poder não soube contrapor essa estratégia, e agora precisa repolitizar em três semanas um setor importante da população brasileira. Oxalá que consiga, já que a vitória de Aécio seria um desastre para a América Latina, porque liquidaria com os avanços duramente conquistados no Mercosul, na Unasur e na Celac, e os EUA contariam finalmente com o Cavalo de Tróia perfeito para destruir desde dentro o sonho da Pátria Grande Latino-americana.          

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