sábado, 18 de outubro de 2014

Bolívia, a esperança; Brasil, a ameaça

Via Rebelión

Santiago Mayor (*) 

Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti

Notas – Periodismo Popular

As eleições de domingo na Bolívia são um enorme estímulo aos processos de mudança na América Latina. Contudo, o segundo turno no próximo dia 26 de outubro no Brasil paira como uma ameaça muito mais perigosa do que se imaginava até agora.

A esperança


Evo Morales arrasou nas eleições presidenciais, e seguirá à frente da revolução boliviana ao menos até 2020. Esse triunfo é sustentáculo a um dos processos de mudança mais radicalizados e disruptivos de nosso continente e do mundo.

O primeiro presidente indígena da história está fazendo o melhor governo que a Bolívia jamais viu, não somente sob uma perspectiva de esquerda ou progressista, mas também em termos macroeconômicos de cunho liberal.  Ele conseguiu estabilidade política  e econômica, acompanhada de uma grande melhora nas condições de vida da população.

Tudo isso foi conquistado não sem enfrentar poderosos inimigos externos e internos, com a embaixada dos EUA na cabeça. Vale lembrar a tentativa de “balcanização” da Bolívia, incentivada pelo imperialismo, que tentou separar a “Meia-Lua” oriental do restante do país.  Contudo, a revolução conseguiu superar essas etapas, tão bem teorizadas por seu mais lúcido intelectual, o vice-presidente Álvaro Garcia Linera. Assim, chegou-se ao momento atual, que o próprio Linera define como de “tensões criativas”.

Em contas resumidas, isso supõe que agora a disputa e a dinâmica social se dão dentro do processo revolucionário, e as tensões que se apresentam (muitas vezes manifestadas nas disputas dos próprios movimentos sociais com o governo e o Estado) ocorrem em prol de melhorar o processo, e fazem com que este avance e se aprimore.

Concretamente, isso pode ser observado no apoio que a Central Obrera Boliviana (COB) a Evo Morales nas últimas eleições. Pouco mais de um ano atrás, a COB (que tem um importante peso na economia devido à sua força entre os mineiros) enfrentava furiosamente o governo por um aumento salarial e melhores condições de trabalho.  Uma clara “tensão criativa”, que foi resolvida, com a revolução continuando a avançar.

A ameaça


O contraponto da Bolívia é, sem dúvida, o Brasil. Com a observação de que seu peso regional (político e econômico) é abismalmente diferente.

O gigante sul americano se encaminha para o segundo turno de suas eleições presidenciais no próximo dia 26 de outubro. Lá, a atual mandatária pelo Partido dos Trabalhadores (PT), Dilma Roussef, deverá enfrentar, deverá enfrentar o candidato do Partido Social Democrático (PSDB), Aécio Neves.

O cenário é completamente desalentador. O governo do PT vem do desgaste lógico de 12 anos de mandato, somado ao fato de que efetivamente não produziu uma transformação estrutural no Brasil. Sua políticas, de linha neo-desenvolvimentista, apontaram para um modelo mais parecido a um “capitalismo sério” argentino, do que para um do tipo revolucionário, como na Venezuela, Bolívia e Equador. Assim, as clivagens do poder no Brasil continuam nas mãos dos mesmos setores de sempre.

Se a isso somarmos uma  situação de conflitos sociais não tão distantes, como as enormes mobilizações de 2013 encabeçadas pelo Movimento Passe Livre ou os protestos contra o Mundial, a eleição já vinha complicando-se de antemão.

Aécio Neves, por seu lado, é o representante da Nova Direita latino-americana (como Capriles na Venezuela, Mauricio Rodas no Equador, ou Scioli, Macri e Massa na Argentina). Da mesma forma que estes, está apoiado por uma estrutura partidária tradicional, mas com um discurso adaptado aos novos tempos.

Seus 35% no primeiro turno – a somente 5 pontos de Dilma -, e o apoio de Marina da Silva, que com 21% dos votos situou-se em terceiro,  deixam o candidato social-democrata com sérias chances de ganhar. Seu triunfo implicaria num giro brutal no equilíbrio geopolítico da região.

E mesmo Dilma resultando vencedora, a pouca margem de diferença indubitavelmente se traduzirá em pouca margem na hora de governar.  A burguesia brasileira não hesitará em pressionar por menos políticas sociais e mais benefícios para seu setor, tal como já vem fazendo.

O futuro já chegou?


Desde os anos 60 pode-se observar o desenvolvimento do Brasil  como potência sub-imperialista da América do Sul. Ou seja, uma espécie de sargento do imperialismo mundial, que tem sua própria área de influência. Assim como tal, tem sua relativa autonomia.

Assim, os governos de Lula e Dilma, de linha progressista e neo-desenvolvimentista, ficaram em um meio termo entre os processos mais radicalizados e aqueles que mantiveram posições conservadoras e/ou neoliberais.

Desse modo, por exemplo, foi fundamental o reconhecimento do Brasil à apertada vitória de Maduro na Venezuela, por ocasião das eleições de 2013, ou na defesa da integridade territorial da Bolívia.

Contudo, também serve de contrapeso em relação aos projetos mais avançados em relação à integração regional. Por exemplo, o Banco del Sur, organismo que busca romper com a dependência a organismos multilaterais de crédito, como o Banco Mundial ou o Fundo Monetário Internacional, está travado no Congresso Brasileiro.

Esse delicado equilíbrio, que a potência mais importante da região soube manter na última década pode alterar-se abruptamente com um triunfo de Aécio Neves.

Uma aproximação dos governos a Aliança do Pacífico (Chile, Peru, Colômbia e México  o aprofundamento de políticas mais retrógradas a nível continental, como o tratado de livre comércio do Mercosul com a União Européia, e a definitiva paralisação das políticas de integração regional seriam uma realidade.

Se somarmos a isso que a Argentina certamente estará com um governo mais à direita em 2015, o horizonte latino-americano fica mais obscuro.

Bolivia, Venezuela, Equador e óbviamente Cuba aparecem como redutos de esperança, mas também de resistência para os próximos anos. Efetivamente, os governos com projetos mais transformadores e de esquerda são aqueles que emergem como capazes de construir uma alternativa.

Enquanto isso, os governos de linha progressista e neo-desenvolvimentista mostram as enormes limitações, que agora podem ser vistas no notório avanço da direita continental.

O futuro não parece muito venturoso, e será preciso preparar-se para uma nova etapa na América Latina, onde a unidade dos setores populares será fundamental para enfrentar a sempre latente ofensiva imperialista

No Brasil, em 26 de outubro, grande parte desse futuro estará em jogo.

(*) Jornalista argentino  (N. do T.)

Um comentário:

  1. A sempre e sempre ela, latente ofensiva imperialista, vai assegurar que o Brasil não se recupere jamais caso o fantoche Aécio seja eleito. É lamentável que o poder antagonista ao Brasil esteja tão profundamente arraigado, fazendo dos Brasileiros massa de manobra. Cidadãos padrão, votando em Aécio, farão mal a si próprios e, irão honrar compromissos dos quais não participaram.

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