quinta-feira, 16 de outubro de 2014

A voz forte dos “Sem Terra”

Via O Diário.info

Geraldina Colotti (Roma, Il manifesto, 14 out 14)

Em vésperas da 2ª volta das eleições presidenciais no Brasil, publicamos esta entrevista do mais destacado dirigente dos “sem terra” brasileiros. Movimento combativo, persistente, mobilizador e implantado no povo que combateu as ilusões criadas com a eleição de Lula e depois de Dilma. Mas que não se alheia da disputa actual, em que o imperialismo tem em Aécio o candidato preferido.

1) Porque dá o MST o seu apoio a Dilma?

O MST não toma decisões eleitorais. Mantém a sua saudável autonomia nos confrontos dos partidos, dos governos, do estado, da igreja. Todavia, os seus militantes, a sua base social e os seus dirigentes têm que se posicionar como cidadãos frente aos desafios políticos que se apresentam nas eleições. O povo quer mudança, mas mudança que leve a condições de vida melhores. E para isso será necessário uma série de reformas estruturais, começando pela reforma política, a reforma tributária, a reforma agrária, a reforma da educação… Frente a esta situação, Aécio representa os interesses da classe dominante que pretende o regresso aos tempos duros do neoliberalismo, durante os quais, como MST, sofremos dois massacres, o de Eldorado dos Carajás e a chacina de Corumbiara.
E as forças que estão com Dilma apostam na continuidade do seu programa, mas levando mais para a frente a mudança no sentido das reformas sociais necessárias. Não é difícil perceber porque é que para os trabalhadores é necessário que Dilma derrote Aécio.

2) Marina Silva condicionou o seu apoio a Neves a que ele assuma as reivindicações do MST e dos indígenas. Que pensa da sua campanha e da personagem?

É um truque eleitoral, uma atitude própria da sua personalidade política instável. Na verdade, ela não representa classes sociais ou forças populares que tenham um projecto próprio para dialogar com outras forças.

3) Qual será o cenário no Brasil no plano económico, político e social no caso de vitória de cada um dos candidatos?

O Brasil esgotou o seu programa neodesenvolvimentista. A dependência da nossa economia do capital internacional pôs-nos de joelhos. Os problemas sociais necessitam de mudanças estruturais. E a política é um pântano, porque há uma crise de representação, porque a democracia está sequestrada pelas 117 empresas que financiam e elegem quem querem com o seu dinheiro e os seus gestores. Entramos assim num período histórico de necessidade de mudança. Se a burguesia vence e nos impõe um programa neoliberal, será um período de confrontação permanente. Se Dilma ganha, tem que fazer um governo mais de centro-esquerda, abandonar algumas alianças conservadoras que mantém e aproximar-se mais do povo. E nós, os dos movimentos sociais, temos sempre a mesma tarefa vença quem vencer: aumentar a consciência do povo, organizá-lo e travar a luta social por melhores condições de vida. E esperamos que no próximo período, para além de conquistar uma Assembleia constituinte, obteremos um período de avanço do movimento de massas, no qual o povo assuma o seu papel na rua.

4) O MST põe o tema de uma Assembleia constituinte, que é uma exigência avançada por todos os movimentos de esquerda na América Latina nos países onde não há mudança, como na Colômbia, ou onde estão conseguindo abrir caminho, como no Chile. Como imagina as etapas desse processo no Brasil?

O próximo passo será a aprovação de um decreto por parte do Congresso, único a poder fazê-lo, para convocação de um referendo legal e obrigatório no qual todos os eleitores decidam se querem ou não uma Assembleia constituinte. Se ganhar o sim, o Congresso deverá convocar a eleição dos deputados constituintes de forma independente do próprio Congresso em exercício, e deverá estabelecer um prazo, por exemplo um ano, para que se façam as novas leis de todo o sistema político brasileiro. Os movimentos acreditam que seja possível fazer o referendo em 2015 e convocar a Assembleia de modo a funcionar em 2016, de modo que as novas eleições seriam já com novas regras. Se isto não se conseguir, continuaremos com a luta social na rua e com cada vez mais força, porque as pessoas não se reconhecem nos políticos eleitos.

5) O MST reuniu-se com outros movimentos sociais há pouco tempo em Caracas. Que foi decidido? E que se passa com os movimentos sociais “altermundialistas” de Porto Alegre? Muitas das suas instâncias são parte da “democracia participativa” da Venezuela e de outros governos socialistas.

Como parte desse processo do Fórum Social Mundial e da sua articulação, posso dizer que actualmente nos encontramos numa fase superior na América Latina e estamos a conseguir construir uma articulação continental dos movimentos sociais no interior da ALBA (Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América – NdR), ALBA entendida como um projecto de integração popular de todos os povos do continente, desde o Canadá até ao Chile. Enquanto os governos e os estados fazem a sua integração com a UNASUR, a CELAC, etc., nós estamos a construir a nossa. Temos já mais de um milhar de organizações em rede, temos organizações nacionais e uma coordenação continental constituída por dois dirigentes de cada país de todo o continente. E continuamos a reunir e a articular as lutas comuns no continente. Claramente, o tema da solidariedade com a luta dos povos está sempre presente e assim estamos em campanha pela saída das tropas estrangeiras do Haiti, ou pela solidariedade com a Venezuela numa altura em que o império e a direita interna tratam de preparar um golpe contra Maduro, assim como estamos solidários com a Argentina contra a tentativa de rapina do seu capital por parte dos Estados Unidos que pretendem o pagamento de uma dívida impagável…

6) No tema do ambiente, os movimentos sociais fizeram propostas sobre uma alteração do modelo produtivo. Qual a posição do MST?

Sobre este tema fizemos muitas reuniões, debates, assembleias, que se desenrolaram no Rio no âmbito da Rio+20, depois fizeram-se reuniões na Bolívia e mais recentemente no Peru. Trata-se de um tema muito presente nas lutas sociais do continente, sobretudo face às agressões das empresas multinacionais pelos recursos naturais dos nossos países, sejam eles minerais ou energéticos e petrolíferos ou de biodiversidade, como a ofensiva para a apropriação das florestas dos nativos, transformando-as em valor de créditos de carbono para os negociar com as empresas poluentes da Europa. Uma vergonha. No movimento Sem Terra e nos movimentos camponeses do continente da Via Camponesa temos acompanhado e lutado intensamente contra o domínio do capital sobre os bens naturais.

7) Um dos “demónios” para a direita no Brasil e a nível internacional é o perigo do “chavismo”. Que pensa do que se passa na Venezuela, onde o MST é muito escutado?

Chavismo, para já, é um termo pouco apropriado. Chávez foi um líder popular genial, com uma clareza política e uma coragem e um empenhamento com o povo venezuelano e latino-americano que jamais esqueceremos. Mas o que está em curso na Venezuela faz parte de um projecto de perspectivas mais amplas. Há uma crise do domínio imperialista em todo o continente e no entanto não conseguimos avançar para um projecto de maior integração popular, porque este depende da conjuntura de cada país. Por isso as dificuldades da mudança na Venezuela são tão grandes, porque é muito difícil fazer uma transição e enfrentar o imperialismo a partir de um único país.

8) Por estes dias, a FAO vai organizar encontros pela jornada mundial da alimentação. Que vai fazer o MST?

A FAO é um organismo dos governos e vive as contradições de no seu seio ter todo o tipo de governos, desde ditaduras e regimes neoliberais até governos de esquerda. O novo director, que é brasileiro, é nosso amigo. Mas, o problema não é de amizade, diz respeito à natureza do organismo. Por isso, a Via Camponesa mantém relações e apoia todo o tipo de debate, mas sabemos que as mudanças substanciais dependem da organização e da luta dos camponeses e essa é a nossa tarefa principal.

Tradução a partir do artigo original no Il Manifesto: Jorge Vasconcelos

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