sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Cadê o ouro que estava aqui?:A distorcer percepções da realidade económica

Via Resistir.info

Os manipuladores do ouro

Paul Craig Roberts [*] e Dave Kranzler [**]

Certificados não são ouro. O Federal Reserve e os seus agentes bancários para o ouro (JP Morgan, Scotia e HSBC) desde Setembro de 2011 têm utilizado vendas a descoberto (naked short-selling) para deitar abaixo o preço do ouro. O mais recente esforço de contenção começou em meados de Julho deste ano, depois de o ouro se ter movido para preços mais altos em relação ao princípio de Junho e estar a ameaçar subir para níveis técnicos decisivos, o que teria disparado uma inundação de compras por parte dos hedge funds.
O Fed e seus agentes manipulam o preço do ouro no mercado do New York Comex futures (ouro-papel). Os bancos do ouro têm a capacidade para imprimir uma oferta ilimitada de contratos-ouro, os quais são vendidos em grandes volumes nas ocasiões em que a actividade do Comex está fraca.
Geralmente, do outro lado da transacção, os compradores de contratos são grandes hedge funds e outros especuladores, os quais utilizam os contratos para especular sobre a direcção do preço do ouro. Os hedge funds e os especuladores não têm interesse em adquirir ouro físico e acertam as suas apostas em cash, o que torna possível para os bancos do ouro venderem direitos ao mesmo que eles não podem suportar com o metal físico. Contratos vendidos sem ouro subjacente para apoiá-los são chamados "contratos descobertos" ou "naked shorts". É ilegal o envolvimento em vendas a descoberto nos mercados de acções e de títulos, mas isso é permitido no mercado a termo de ouro (gold futures market).
O facto de que o preço do ouro é determinado num mercado de futuros no qual papeis com direitos a ouro são comerciados meramente para especular sobre o preço significa que o Fed e seus agentes bancários pode conter o preço do outro muito embora a procura por ouro físico esteja a ascender. Se houvesse exigências estritas de que vendas de ouro não poderiam ser a descoberto e teriam de ser apoiadas pela posse de ouro físico por parte do vendedor representado nos contratos futuros, o Federal Reserve e seus agentes seriam incapazes de controlar o preço do ouro e este seria muito mais alto do que é agora.
A manipulação do preço do ouro é utilizada quando a procura pela entrega de ouro físico (gold bullion) começa a fazer pressão ascendente sobre o preço do ouro e os hedge funds especulam sobre a ascensão do preço do ouro através da compra de grandes quantidades de contratos Comex futures (ouro-papel). Esta especulação acelera o movimento ascendente no preço do ouro. O TF Metals Report proporciona uma boa descrição desta manipulação ilegal do mercado de ouro:

Ao longo de um período de 10 semanas, no princípio do ano, os bancos do Comex ouro foram capazes de limitar a corrida para apenas 15% através do fornecimento ao "mercado" de 95 mil novos contratos de venda a descoberto. Isto equivale a 9,5 milhões de onças de pretenso ouro-papel, ou cerca de 295 toneladas métricas.
Ao longo de um período de apenas 5 semanas em Junho e Julho, os bancos do Comex ouro foram capazes de limitar a corrida a apenas 7% através do abastecimento ao "mercado" de 79 mil novos contratos de venda a descoberto. Isto equivale a 7,9 milhões de onças de pretenso ouro-papel, ou cerca de 246 toneladas métricas.

Em artigos anteriores documentámos a forte venda a descoberto em períodos de mercado fraco. Ver por exemplo aqui .

Os bancos do ouro não têm suficiente metal na sua posse para entregar aos compradores se estes decidirem optar pela entrega nos termos do contrato ouro-papel. A razão porque este esquema funciona é que a maioria dos compradores dos contratos são especuladores, não compradores de ouro, e nunca pedem a entrega do metal. Ao invés, eles liquidam os contratos em cash. Estão à procura de lucros no comércio a curto prazo, não de um ouro que os defenda contra a inflação da divisa. Se uma maioria dos que têm títulos longos (os compradores dos contratos) exigisse a entrega do ouro, os reguladores não tolerariam a extensão na qual o ouro é tomado a short com contratos a descoberto.
Na nossa opinião, a manipulação é ilegal porque se trata de comércio de iniciados (insider trading). Os bancos do ouro que vendem no mercado são membros da câmara de compensação do Comex/NYMEX/CME. Nesse papel, os bancos do ouro têm acesso ao sistema computacional utilizado para ajustar e acertar transacções, o que significa que os bancos do ouro têm acesso a todas as informações comerciais (trading positions), incluindo aquelas dos hedge funds. Quando os hedge funds estão na [posição] mais funda, os bancos do ouro despejam contratos a descoberto no Comex, reduzindo os preços futuros, os quais disparam vendas com ordens para travar perdas e pedidos de cobertura (margin calls) que conduzem o preço mais uma vez para baixo. Então os bancos do ouro compram os contratos a um preço mais baixo do que aquele a que venderam e embolsam a diferença, servindo simultaneamente o Fed ao proteger o dólar da sua política monetária frouxa através da redução do preço do ouro e prevenindo a preocupação que um preço do ouro em ascensão traria ao dólar.
Desde meados de Julho, quase toda noite nos EUA o preço do ouro permanece firme ou deriva para cima. Isto acontece quando os mercados do hemisfério oriental estão abertos e os participantes do mercado estão ocupados a comprar ouro físico para o qual a entrega é obrigatória. Mas tão regularmente quanto o mecanismo de um relógio, a seguir ao fecho dos mercados asiáticos abrem os mercados de ouro-papel de Londres e Nova York e o preço do ouro é imediatamente puxado para baixo quando contratos em ouro-papel inundam o mercado estabelecendo um tom negativo para a compra e venda no fim do dia.
O ouro serve como uma advertência às pessoas conscientes de que estão a fermentar perturbações financeiras e económicas.
Exemplo: a partir do período de tempo imediatamente anterior o colapso da bolha tech (Janeiro 2000) até pouco antes de o colapso do Bear Stearns ter disparado a Grande Crise Financeira (Março 2008), o ouro ascendeu em valor de US$250 para US$1020 por onça, ou simplesmente mais de 400%. Além disso, no período a partir do Grande Colapso Financeiro o ouro subiu 61% apesar das afirmações de que o sistema financeiro fora reparado. O aumento foi de até 225% (Setembro 2011) até que o Fed começou a sistemática redução e contenção do ouro a fim de proteger o dólar da criação maciça de novos dólares exigida pela Facilidade quantitativa (Quantitative Easing).
A economia e o sistema financeiro dos EUA estão em pior condição do que afirmam o Fed e o Tesouro e do que informam os media financeiros. Os fardos da divida, tanto pública como privada, são altos. Corporações estão a tomar emprestado de bancos a fim de comprar de volta suas próprias acções. Isto deixa as corporações com nova dívida mas sem fluxos de rendimento de novos investimentos com os quais possam servir a dívida. Lojas de retalho estão em perturbação, incluindo cadeias de lojas a dólar. O mercado habitacional está a mostrar sinais de retracção renovada. A divulgação em 16 de Setembro do relatório "Rendimento e pobreza em 2013" mostra que o rendimento familiar mediano real declinou para o nível de 1994, duas décadas atrás, e está realmente mais baixo do que no fim da década de 1960 e princípios da de 1970. A combinação de alto endividamento e declínio no rendimento real significa que não há motor para impelir a economia.
O dólar também está em perturbação porque o seu papel como divisa de reserva do mundo está ameaçado devido ao abuso deste papel a fim de ganhar hegemonia financeira sobre outros e punir com sanções aqueles países que não cumprem os objectivos a política externa dos EUA. A Doutrina Wolfowitz, que é a base da política externa estado-unidense, diz que é imperativo para Washington impedir a ascensão de outros países, tais como a Rússia e a China, que podem limitar o exercício do poder dos EUA.
As sanções e as ameaças de sanções encorajam outros países a abandonarem o sistema de pagamentos em dólar e a abandonar o petrodólar. Os BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul) formaram-se precisamente para fazer isso. A Rússia e a China organizaram um maciço acordo energético a longo prazo que evita a utilização do US dólar. Ambos os países estão a liquidar as contas comerciais entre si nas suas próprias divisas e esta prática está a propagar-se. A China está a considerar o yuan apoiado por ouro, o que tornaria a divisa chinesa altamente desejável como activo de reserva. É possível que o ataque do Fed ao ouro seja destinado a tornar a acumulação chinesa e russa de ouro menos apoiante das suas divisas. Uma divisa ligada a um ouro com preço cadente não é o mesmo que uma divisa ligada a um ouro com preço ascendente.
Não esta claro se a nova bolsa do ouro chinesa em Shangai substituirá os mercados de futuros em Londres e Nova York. A venda a descoberto não é permitida na bolsa chinesa de ouro. O mundo poderia acabar com dois mercados futuros de ouro: um baseado na avaliação da realidade e o outro baseado no jogo e na manipulação de preços (price-rigging).
O futuro também determinará se o papel de divisa de reserva foi superado pelo tempo. O US dólar assumiu esse papel no rescaldo da II Guerra Mundial, um tempo em que os EUA tinham a única economia industrial que não fora destruída na guerra. Era necessário um meio estável para estabelecer contas internacionais. Hoje há muitas economias que têm divisas comerciáveis e podem ser estabelecidas contas entre países nas suas próprias divisas.
Já não há mais necessidade de uma única divisa de reserva. Quando esta percepção se difundir, a pressão sobre o valor do dólar intensificar-se-á.
Durante algum tempo o Federal Reserve pode suportar o valor cambial do dólar pressionando o Japão e o Banco Central Europeu a imprimir suas divisas com que suportar o dólar através de compras no mercado de câmbios externo. Outros países, tais como a Suíça, imprimirão suas próprias divisas de modo a não por em perigo suas exportações devido a uma ascensão no preço em dólar das mesmas. Mas finalmente os grandes défices comerciais dos EUA, provocados pela deslocalização da produção de bens e serviços vendidos dentro dos mercados estado-unidenses e pelo colapso da classe média e da base fiscal causada pela deslocalização de empregos destruirá o valor do US dólar.
Quando chegar esse dia, os padrões de vida nos EUA, já em perigo, afundarão a pique. O poder americano terá sido destruído pela cobiça corporativa e a política do Fed de sacrificar a economia dos EUA a fim de salvar quatro ou cinco mega-bancos cujos antigos executivos controlam o Fed, o Tesouro e as agências regulatórias financeiras federais.

Ver também:

As bases americanas na Alemanha e a base ouro
  • Furor no mercado do ouro
    [*] Antigo secretário assistente do Tesouro dos EUA e editor associado do Wall Street Journal, autor de How the Economy Was Lost e de How America Was Lost .     [* *] Passou muitos anos a trabalhar em tarefas analíticas e de trading na Wall Street.
    O original encontra-se em www.counterpunch.org/2014/09/22/the-gold-riggers/ e em www.paulcraigroberts.org/...
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