segunda-feira, 30 de junho de 2014

Fukushima – cataclisma em andamento

Via Rebelion

John Saxe-Fernández

Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti

La Jornada

Pouco depois do maremoto que desencadeou o desastre na central de Fukushima, em andamento desde março de 2011, um dos encarregados das salvaguardas nucleares no México, em entrevista radiofônica, simplesmente não deu importância maior à magnitude do caso. Parecia mais preocupado com o negócio da “nucleoeletricidade”, uma forma cara e muito perigosa de mover uma turbina e gerar eletricidade, como diz Barry Commoner, do que com a saúde da população. Não é algo novo, nem somente local. O encobrimento da intensidade e da extensão dos danos causados e dos riscos generalizados à saúde pela radioatividade espalhada sobre seres humanos, animais e vegetais tem acompanhado os grandes acidentes de Three Miles Island(1979), Chernobyl (1986) e o de Fukushima, com efeitos potencialmente devastadores sobre a vida no Oceano Pacífico e no planeta.

O analista Harvey Wassermann, ao informar sobre “as crianças de Fukushima”, sintetizou: “a indústria nuclear e seus defensores continuam negando essa tragédia em relação à saúde pública” (www.rebelion.org), ao citar que 48% dos 375 mil jovens examinados pela Universidade Médica de Fukushima, ou seja, perto de 200 mil crianças, sofrem de “transtornos pré-cancerígenos de tireóide, nódulos e quistos, numa taxa que se acelera (ibid).

Enquanto que o Comitê Científico da ONU sobre os efeitos da radiação atômica (UNCEAR) afirma que “não se esperam efeitos discerníveis sobre a saúde relacionados com a radiação entre as pessoas expostas”, os dados obtidos depois de 39 meses do desastre mostram que “as taxas de câncer de tireóide ... dispararam mais de 40 vezes acima das normais”(ibid). A saúde tem sido grandemente afetada e os riscos para a população japonesa e mundial poderiam ser muito sérios, como advertiram, com dados nas mãos, Helen Caldicott, Robert Alvarez, Arnie Gundersen, além de grupos internacionais de pesquisas e cientistas de universidades japonesas.

Fukushima é um desastre de dimensão ainda não registrada na história. Assim sintetizou Naoto Kan, primeiro-ministro do Japão durante o início do evento em andamento e, antes do sinistro, um entusiasta da energia nuclear. Em entrevista com Amy Goodmann em Democracy Now (março, 2014), Naoto Kan advertiu que Fukushima foi algo “maior e mais severo que Chernobyl, sem deixar de reconhecer a imensa tragédia ucraniana ocasionada pela fusão de um reator”, e lembrou que no Japão são três os reatores afetados, e que “um alto número de barras de combustível já usados está em posição precária”, além do que “até o dia de hoje persiste a fuga de material radioativo”, o que tem “efeitos de muito longo alcance daqui pela frente”, pelo que considera que “... o desastre Fukushima foi maior que o de Chernobyl, e continua desdobrando-se até os dias de hoje”.

Naoto Kan não se equivoca. De um total de pouco mais de 11 mil barras de combustível, no edifício do reator 4 há 1533 barras usadas que pesam 400 toneladas, e que contém uma radioatividade estimada em 14 mil vezes à que atingiu as pessoas de Hiroshima, e a uns 50 metros desse reator , 6 mil barras estão armazenadas em tanques especiais . Em relação aos outros três reatores, hoje ninguém nem a Tepco, empresa responsável pela usina de Fukushima, sabe onde eles estão localizados, por que seus núcleos atravessaram o grosso concreto dos edifícios 1, 2 e 3 da central, segundo informam Kevin Seese e Margareth Flowers em Thruthout News Analysis. Sem conhecer sua localização exata sob a terra, a Tepco lança água onde eles poderiam estar para evitar que os núcleos se aqueçam. Como em algumas ocasiões saem rodas de vapor, assume-se que os núcleos estão quentes(ibid). Enquanto isso, continua aumentando a quantidade de água muito radioativa (fala-se de mais de 330 mil toneladas acumuladas até o fim de 2013), que está armazenada em mais de mil tanques sobre a superfície, cujo volume vai crescendo rapidamente, e parte dela se infiltra ou é lançada ao Pacífico a um ritmo de mais de 272 mil litros diários, com contaminantes radiativos, dentre outros o Césio-134 (com meia-vida de 2, 65 anos) e Césio-137 (meia vida de 30,17 anos).

Essa é a maior quantidade de radiação vertida por um acidente nuclear na história. Informa-se ainda que, sob a central nuclear, há um grande aqüífero que, se for contaminado, alguns cenários contemplam a evacuação de milhões de habitantes dos arredores de Tóquio.

Os mais destacados cientistas e especialistas tem se dirigido à ONU e de maneira especial à Organização Mundial da Saúde (OMS) para o desdobramento, a nível global, de estudos e divulgação sobre a presença e os riscos da radiação por isótopos, hoje com ainda mais urgência. As respostas tem sido neutras, quando não de supressão de informações. Assim ocorreu em relação a Chernobyl. Na aparência, e por acordos vinculantes (1959) entre OMS e a Agência Internacional de Energia Atômica, promotora das questões nucleares, as respostas nessa matéria tem sido nulas, quando não cínicas.

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