domingo, 31 de março de 2013

Quem mandou ter o Mirisola como colunista? Aí vem ele destilando veneno contra tudo e todos

Via facebook do Gilberto Maringoni

 

A nova senzala (transversalidade)

Marcelo MirisolaMARCELO MIRISOLA

Não foi uma, nem duas, nem meia dúzia de vezes que tentei publicar um artigo na segunda página da Folha, na seção Tendências/Debates. Jamais consegui. Fiquei especialmente contrariado com duas recusas. O primeiro texto,“Boilesen ontem, hoje e sempre”, trata, como todo mundo está careca de saber, da Operação Oban. No segundo texto, “Setubão no forévis”, discorro sobre a morte de Olávo Setúbal, que foi banqueiro desde sempre e prefeito biônico da cidade de São Paulo, indicado por Paulo Egydio Martins num dos períodos mais turbulentos da ditadura militar (1975-79). Não me interessa, agora, divagar sobre esses textos. Vale que, no final das contas, os publiquei aqui no  Congresso em Foco. Nenhuma vírgula foi censurada. Só tenho a agradecer a Sylvio Costa, editor deste site.

Pois bem, não é de hoje que me chama a atenção a presença constante de dona Maria Alice Setúbal na seção Tendências/Debates, o filé mignon da Folha de S. Paulo. Dona Maria Alice, como indica o nome, é herdeira de Olavo Setúbal, e provavelmente deve ser acionista do banco Itaú. Nos créditos de seus artigos, consta que é doutora em Psicologia e presidente dos conselhos do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária da Fundação Tide Setúbal. Seus artigos são redundantes. Ela gosta de usar a palavra “transversalidade”.

Não faz muito tempo que os Setúbal se uniram aos Moreira Salles, hoje, os negócios das duas famílias se ramificam em vários segmentos “comunitários” e “culturais”, Waltinho Salles é o mais notório sintoma, digo, o mais notório representante da aliança entre os Salles e os Setúbal. Quem viu Diários de motocicleta poderia jurar que o diretor  é um revolucionário que, no lugar nas armas, teria optado pelo lirismo para combater o monstro das injustiças e do capitalismo. Mas é sempre bom lembrar que tanto ele como dona Maria Alice são – antes de qualquer coisa – banqueiros.

O Instituto Moreira Salles é um exemplo impecável de cuidado com o patrimônio artístico brasileiro. Só para se ter uma pequena ideia, o acervo do IMS reúne cerca de 550 mil fotografias, 100 mil músicas, uma biblioteca com 400 mil itens e uma pinacoteca com mais de 3 mil obras. As partituras, os arranjos, os suores e piolhos, tudo de Pixinguinha, inclusive a alma, está lá. As obras de Millôr, Vinicius de Moraes, Décio de Almeida Prado, entre dezenas de músicos, artistas plásticos e escritores, constam do espólio Moreira Salles. Aqui, eu me pergunto:  esse tesouro foi comprado ou doado? Caso a primeira opção seja verdadeira, seria correto dizer que as almas desses artistas – embora estejam abertas a visitação – são de propriedade dos Moreira Salles? Tudo estaria perdido se não fosse a benevolência dos Salles? O que o Estado brasileiro tem a dizer a respeito? E das calcinhas do Wando, quem é que cuida?

O império cultural dos banqueiros abarca, além do IML, digo, IMS, a folha de pagamento das mais ilustres mentes do país (estes – ainda – não morreram), e contabiliza, além da revista de ensaios Serrote, a revista Piauí, cujo editor-chefe é Joaozinho Salles, irmão de Waltinho. Às vezes, é curioso notar que a Piauí deixa escapar um certo ranço da praça Vilaboim, sobretudo na “publicidade inteligente” que vende antes das sessões de cinema, cujas salas de exibição são deles mesmos. Pois os irmãos Salles têm o domínio, digamos assim, de toda cadeia produtiva: desde os sets de filmagem até a pipoca antes, durante e depois dos Dogvilles aos quais somos pleonasticamente (e sem vaselina) incluídos. Existe – reparem – uma inércia materna (ou imanência…) que paira sobre os caixas eletrônicos e os cines-Itaú . A gente se ferra e acha que banco é cinema. Do que eu falava? Ah, sim de dona Maria Alice. Já volto à dona Maria Alice, agora vou falar um pouco da revista Piauí.

Ah, como eu queria escrever na Piauí! Uma revista que disfarça a afetação como quem não quer exatamente disfarçar a afetação que, afinal de contas, é sinônimo de qualidade e marca registrada da Pça. Villaboim, sabem aquele ricaço que não usa meia?  A revista dos Moreira Salles, além de forçar uma casualidade, cultiva um humor elegante na medida exata de um aparente descompromisso com a grossura e vulgaridade das demais publicações do ramo. Como se a Piauí, enfadada por natureza, proclamasse: “vejam só que lixo é a Bravo! … mais um produto  da linha de montagem da Abril, os bregas publicam Capricho e Veja, nós não: somos iguais mas somos diferentes”.

Piauí faz o tipo cínico elegante, avant-garde goiabada cascão, PT do PSDB,  mocassim sem meia. Mas não se enganem! Os publishers são banqueiros e esse descompromisso serve apenas para distrair os órfãos de uma direita envergonhada que sofre porque a calle 23 en El Vedado não  é uma travessa da Rua Maranhão (eu penso que isso é positivo, e  já enviei dois textos pra lá que foram recusados… será que dona Maria Alice também é colaboradora da Piauí?); e assim, resumidamente, numa barafunda de boas intenções e um inferno que está repleto de casualidades premeditadas, canelas nuas e um charme indisfarçável, guichês intransponíveis e juros estratosféricos, ficamos com a impressão de que a agiotagem é apenas um insignificante detalhe diante das inegáveis contribuições dos clãs Moreira Salles e Setúbal para a cultura brasileira.  Mas não é. Evidentemente não é. E eu digo isso porque sou correntista do banco Itaú, pago altos juros pra dona Maria Alice Setúbal e também sou leitor de suas intervenções na seção Tendências/ Debates da Folha de S. Paulo. Gostaria de acreditar que o jornal  ainda não foi absorvido pelo acervo do Instituto Moreira Salles.

Voltando à dona Maria Alice Setúbal.

O que madame teria de tão importante para acrescentar, tirante suas “transversalidades”, ao debate de ideias, ou, mais especificamente, por que as idéias dela são tão relevantes para desfilar na seção Tendências/ Debates da Folha?

Vou arriscar um diagnóstico.

Os textos de madame costumam ter a marca indelével que conduz do óbvio ao ululante, são como folders, propagandas de condomínio que indicam, ou melhor, cobram o caminho da felicidade, apesar de a felicidade, pobre e acuada felicidade, não ter sido consultada a respeito de tão nobre encaminhamento. Mas uma coisa dona Maria Alice sabe fazer, algo que circula em seu sangue de agiota, ela sabe cobrar.

No seu último artigo, “Novas formas de aprender e ensinar”, publicado no dia 27 de março, dona Maria Alice Setúbal aposta na “inteligência coletiva” que – segundo sua bola de cristal high-tech – está na iminência de ser consumada pela força da revolução tecnológica. Madame não costuma deixar lacunas porque cumpre sua função, repito, que é levar o nada a lugar nenhum com a marca da excelência, como se o mundo fosse uma agência bancária cor-de-laranja protegido por portas giratórias e slogans de publicidade.

Não obstante, dessa vez, madame deu uma vacilada.

Dona Maria Alice Setúbal esquece que o lado de fora não tem ar condicionado. Revolucionária, decreta o fim do ensino linear. Para madame, o ensino da maioria das escolas – que ainda trabalham com aulas expositivas e livros didáticos – não faz mais sentido diante do conhecimento que é “transversal e produzido nas conexões entre várias informações”. Bem, esses conhecimentos ou essas conexões, que eu saiba, só existem e funcionam em sua plenitude nos sistemas de cobrança do seu banco e na bolsa de valores. No mínimo, dona Maria Alice Setúbal, que se imagina mensageira do futuro, é uma debochada. Convenhamos que a “realidade transversal” que os nossos professores experimentam nas salas de aula têm outros nomes que nem o eufemismo mais engenhoso poderia disfarçar, tais como humilhação, porradaria, salário de merda. Para coroar seu pensamento revolucionário, dona Maria Alice, sentencia: “Essa transversalidade se expressa nas demandas das empresas e nas expectativas dos jovens”.

Que jovens são esses?  Aqueles que madame adestra em seus canis cor-de-laranja?  Qual a expectativa deles?  Telefonar pras nossas casas às sete horas da manhã para nos lembrar que somos devedores do Itaú? Ou a expectativa desses jovens é subir na vida, e virar gerente de banco?

Dona Maria Alice vai além e se entrega, ela acredita que a tecnologia vai produzir “pessoas que saibam resolver problemas, comunicar-se claramente, trabalhar em equipe e de forma colaborativa. Que usem as tecnologias com desenvoltura para selecionar, sistematizar e criticar informações. E que sejam inovadoras e criativas”.

Ora, madame quer empregados que não a incomodem, e encerra seu raciocínio ou exige, de forma impositiva e castradora: “E que sejam inovadoras e criativas”.  Não querendo fazer leitura subliminar, nem ser Lacaniano de buteco, mas esse “E que sejam inovadoras e criativas” é de amargar, hein, madame?

O artigo de dona Maria Alice é uma ordem de comando. A voz da dona, a mulher que visivelmente não pode ser contrariada. Difícil ler e não sentir-se um empregadinho dela. Ao mesmo tempo em que ordena “inovação e criatividade”, elimina a possibilidade de reação: “para fazer da tecnologia uma aliada da educação, é preciso vencer o medo do novo e superar a cultura da queixa”. Como se madame dissesse: “Publiquem meu artigo genial, obedeçam, e calem a boca. O futuro é meu, e se eu disser que é coletivo e cor-de-laranja, dá na mesma”.

O pior é que os filmes do Waltinho Salles são feitos no mesmo diapasão. A mesma lógica, a diferença é que ele ordena lirismo. Eles são banqueiros!  Em vez de desfilarem seus preconceitos e visões de mundo revolucionárias nas páginas dos jornais, na “pedagogia”, nos cinemas, no mundo do entretenimento e nas artes em geral, essa gente faria muito mais pela sociedade e pela cultura se extinguisse suas financeiras e baixasse os juros pros pobres coitados de seus correntistas. Não desejo a fila da Taií pros meus coleguinhas escritores nem pros rappers que frequentam os saraus do Itaú cultural. Até a alma do Leminski ( “ocupação Leminski”) eles compraram.

Eu falava de madame (versão 2013) que diz que samba é coisa de gente elegante. Dessa vez a visita periódica que madame faz à sua cozinha, também conhecida como “Tendências/Debates”, ultrapassou o terror costumeiro, e, no lugar de marcar presença e autoridade, madame só fez azedar o cuscuz. Ela devia ser mais discreta, como Olavão, o patriarca, o banqueiro. Não se deve confiar demais na vassalagem (leia-se correntistas e leitores).

No mesmo dia que madame publicou seu artigo, aconteceu uma coincidência reveladora, logo acima do texto de sinhá, no “Painel do leitor”, uma dona de casa, Mara Chagas, reclamava enfurecida da nova lei das empregadas domésticas, e fazia coro – às avessas, mas coro – à mme. Setúbal: “As empregadas domésticas não trabalham aos sábados, não cumprem as oito horas diárias, o serviço tem que ser ensinado (não são mão de obra especializada), almoçam e lancham na casa dos patrões sem cobrança alguma e faltam sem avisar. Como ficará o empregador diante disso?”

Eis a questão.

Pelo menos dona Mara Chagas, a leitora, foi honesta e direta, e não precisou de “transversalidades” para exprimir suas ideias revolucionárias. E o melhor: ela não vai concorrer ao Oscar, e jamais vai se manifestar no “Tendências/ Debates”. Nem ela, nem eu.

Tudo por Eike, o bom burguês da era petista

Sanguessugado do Pedro Porfírio

De braços com Cabral, Lula usou seu capital político para garantir o lucro de Eike Batista no porto do Açu

Eike levou Lula ao porto do Açu e ganhou  seu apoio para tudo que queria

Um sol de 34 graus banhava o Porto do Açu, na quinta-feira, 24 de janeiro,  em São João da Barra, norte fluminense, quando o ex-presidente Luiz Inácio chegou a bordo do Gulfstream G550, o jatinho norte-americano de $ 60 milhões do empresário Eike Batista.

Fora ali em companhia de Eike, o  poderoso bom burguês da era petista, e  do seu lobista Pires Neto. Embora viesse sendo convidado desde 2007, essa eta a primeira visita que o ex-líder operário fazia  a esse polêmico empreendimento, implantado com o apoio da máquina do Estado comandada por Sérgio Cabral Filho, que enfrenta sucessivos processos abertos pelo Ministério Público:o último, sobre a salinização da água doce, protocolado na mesma semana da visita.

O que queria Eike Batista com a visita do seu velho parceiro? Apavorado com seus prejuízos recentes, que já estão lhe custando dificuldades de crédito e quedas brutais nas ações de suas empresas, ele pediu ajuda a Lula para sair do sufoco.

Uma lista de favores nem sempre éticos

Primeiro, queria que o governo brasileiro obrigasse o estaleiro Jurong Shipyard, de Singapura, a mudar o seu endereço no Brasil. Ao invés do município Aracruz, no Espírito Santo, onde já foram gastos 15% do valor total do investimento de R$ 500 milhões, o estaleiro teria de se transferir de malas e bagagens para o porto de Eike, que na melhor das hipóteses começa a operar no fim deste ano.

Segundo, intermediar uma aproximação com a Petrobrás, diante das resistências da sua presidenta, Graça Foster, a alguns pleitos do seu interesse, inclusive o de se associar ao porto do Açu, instalando-se lá.

Terceiro, interferir junto ao BNDES para a liberação de mais recursos, além dos R$ 10 bilhões já amealhados desde 2005, em especial a aprovação de financiamento de R$ 3 bilhões pleiteado pela MMX para a expansão da mina de Serra Azul (MG), e outro para a OSX construir uma plataforma de petróleo.

Um tipo de pressão que deixou o governo mal na fita

A bordo do jatinho, equipado com telefonia via satélite, Lula ligou direto para o governador Sérgio Cabral Filho, da tropa de  choque de Eike, e combinaram discutir a três  o  que fazer pelo dileto amigo e generoso financiador de campanhas.

Conforme o combinado pelos três, o próprio Lula contatou o ministro de Desenvolvimento, Fernando Pimentel e o da Fazenda, Guido Mantega   pedindo que acionassem o embaixador Luís Fernando Serra, e informasse do interesse do governo brasileiro em favorecer Eike e das compensações que poderiam ser estudadas no caso dos prejuízos com a transferência.

A mudança só não aconteceu porque a direção do Jurong Shipyard, estimando atraso de um ano na conclusão da obra em novo local, e já com algumas encomendas, passou a informação para o governador Renato Casagrande, que reagiu imediatamente junto com a bancada federal do Espírito Santo. Se começar a funcionar ainda em 2013, o estaleiro asiático já tem previsão de construir em Aracruz sete sondas e duas plataformas para a Petrobrás, orçadas em R$ 12 bilhões. Isso representa 5 mil empregos diretos.

Isso é o que se pode chamar intimidade com o poder

Em relação à Petrobrás, Lula marcou uma audiência rapidinho para  Eike  com a presidenta Dilma Rousseff,  que já visitou seu porto em abril de 2012 e garantiu naquela visita  financiamento para que a Vale do Rio Doce,  administradora da Ferrovia Centro Atlântica, implantasse uma via férrea de 40 Km até Campos, que garantirá ligação do seu porto a Minas e Espírito Santo.

A crise com a inviabilidade das siderúrgicas

Em novembro de 2012, a siderúrgica estatal chinesa Wuhan Iron and Steel Corporation - Wisco - , que já havia comprado por U$ 400 mnihões 21,5% das ações da mineradora MMX,  desistiu do complexo siderúrgico de porto do Açu, alegando que o Eike não construiu a infraestrutura necessária para o projeto.

"Ferrovias, terminais portuários - eles não construíram nada. O mercado também não está lá, portanto, nós paramos as conversas neste momento e não estamos pensando nisso", desabafou então o presidente da Wisco, Deng Qilin, à agência de notícias Reuters.

Em maio de 2012, o juiz da 1ª Comarca de São João da Barra já havia determinado a suspensão da obra da argentina Terminum,  a outra siderúrgica prevista como âncora do porto do Açu, comprada em setembro de 2010 da própria LLX Açu de Eike, cuja obra estava no começo com de todas as licenças concedidas pelos órgãos ambientais do governador Sérgio Cabral.

O magistrado acatou ação do Ministério Público, que demonstrou os danos daquele empreendimento para o meio ambiente. De acordo com a procuradoria, o licenciamento subavaliou os impactos ambientais do projeto. Os promotores alegaram que um dos resultados da operação siderúrgica é o lançamento na atmosfera de benzeno, produto químico com propriedades cancerígenas.

"A análise feita por técnicos do MPRJ demonstrou que o EIA (Estudo de Impacto Ambiental), requerido para projetos com grande potencial causador de degradação, possui falhas que descumprem normas legais e apresenta incorreções e omissões que subavaliam os impactos esperados do empreendimento", afirma nota do Ministério Público.

Diante de um quadro desfavorável, que contrariava seus planos originais, Eike s viu forçado a mudar o perfil do porto do Açu, mas para isso terá que envolver a Petrobrás.

"Dane-se a siderúrgica. Meu shopping mudou. Não existe um complexo nessa escala para servir a indústria do petróleo. Então, caramba, foi desenhado como um porto para minério de ferro e olha o que virou. Tenho agora uma clientela que me paga três vezes mais pelo metro quadrado. Só esse pessoal já paga R$ 100 milhões de aluguel, antes do porto funcionar. Ficou um negócio mais nobre e isso ninguém fala", afirmou o empresário à FOLHA DE SÃO PAULO em 11 de novembro do ano passado.

Advocacia de interesses que não pega bem

O que se questiona é por que um ex-presidente da República, que tem ascendência sobre a sucessora, a quem elegeu, e um governador de Estado se empenham nesse nível na advocacia de interesses do mega-empresário, titular de uma das maiores fortunas do mundo,   como se gaba insistentemente.

Em relação à tentativa de retirar o estaleiro do Espírito Santo, envolvendo dois ministros e um embaixador, sua interferência abusiva beira à torpeza e à deslealdade. Não há nenhum pretexto plausível para esse tipo de lobby, que só não deu certo por causa do cronograma do estaleiro. Mas o fato de que seu principal cliente aqui é a Petrobrás já teria funcionado como uma pressão irresistível.

O ex-presidente tem prestado serviço às empreiteiras e outras empresas brasileiras no exterior. Diz-se que as 30 viagens que fez desde 2011 tiveram esse escopo e foram pagas pelos interessados. Nesse caso, pode-se até inferir que, por osmose, está cuidando de interesses nacionais. Mas será difícil alguém acreditar que toda essa mão de obra é por puro patriotismo.

Nas concorrências em que interferiu, ele teve a seu favor a influência que exerce sobre o governo brasileiro e, em especial, sobre o BNDES, que sempre financia os empreendimentos das empresas brasileiras no exterior.

Essa é apenas uma das faces dos desvios de conduta de um grupo que entende o poder pela ótica mais nociva do patrimonialismo sem recato, frustrando uma expectativa bem diferente de quem ainda tem juízo crítico, acreditou no seu palanque, mas não está atrelado à máquina de cooptação que imobiliza lideranças e formadores de opinião.

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Historiador americano fala sobre a ditadura militar e homossexualidade

 

Na entrevista para o Milênio (Globo News), James Green dá detalhes da pesquisa que se transformou no livro "Apesar de vocês", que conta como a opinião pública norte-americana se organizou para pressionar o governo dos EUA a retirar o apoio ao regime militar brasileiro e também na América Latina.

Brasil, Ame-o ou Deixe-o

GilsonSampaio

Ame-o ou deixe-o assinatura

Com este slogan os golpistas de '64 mostraram ao país de forma cristalina seu caráter troglodita. Apoiados pela direita fundamentalista, burguesia, mídia corrupta e a igreja católica, a ditadura se assumiu como se a própria fosse o país.

Jihadistas sujam rebelião síria.

Sanguessugado do Olhar o Mundo

Quando o governo sírio acusou os rebeldes de terem lançado bombas químicas contra seu exército na cidade de Alepo, matando 26 pessoas e ferindo várias dezenas, o Ocidente ficou chocado.

Mas os adversários de Assad se apressaram em negar e, por sua vez, declararam que foram as forças do presidente que tinham usado os artefatos proibidos.

Barack Obama acreditou.

E logo tratou de ameaçar o governo sírio. Disse que, sendo ele culpado, os EUA mudariam de atitude, insinuando um aumento de sua participação na guerra.

Como Obama continua contra intervenções militares diretas, parece claro que a “mudança de jogo” a que a se referiu consistiria nos EUA passar a suprir os rebeldes com armamentos.

Bem que ele poderia ser menos afoito.

Para surpresa do presidente americano, tanto o governo Assad, quanto seus protetores, os governos da China e da Rússia, exigiram uma investigação da ONU sobre o caso.

Obama deve ter engolido em seco já que essa postura denota uma inquietante presunção de estar com a verdade.

Rapidamente, autoridades americanas recuaram, garantindo que não havia evidências do uso de armas químicas na guerra.

Foi uma tentativa de apagar o fogo antes que o presidente se queimasse.

Não adiantou.

Segundo fontes de inteligência, tudo indica que foram mesmo os rebeldes que pisaram na risca.

As mortes foram por sufocação, causadas por um gás baseado em clorido, injetado numa ogiva.

Trata-se de um tipo de arma química de tecnologia pouco sofisticada, que não existe nos arsenais do governo sírio.

Seja como for, seu uso é considerado um sério crime de guerra pelas leis internacionais.

Outro fato que aponta a culpa para os rebeldes é o ataque ter matado apenas soldados de Assad. Evidentemente, ninguém acredita que ele iria alvejar soldados que lutam a seu favor.

Tudo indica que a ação deve ser de responsabilidade das facções de jihadistas da AL-Qaeda ou aliados. São eles os mais capazes disso nas hostes do exército da revolução.

Alguns dias antes, esses milicianos haviam praticado um devastador atentado a bomba numa mesquita, matando importante clérigo pró-Assad e mais 41 civis, além de causar ferimentos em outros 84.

E alguns dias depois do ataque com armas químicas, eles explodiram um carro na cidade de Damasco, deixando mortos e dezenas de feridos, entre soldados e civis.

Ainda em Damasco, a Anistia Internacional informou que seus pesquisadores descobriram uma sepultura cheia de corpos de civis, inclusive crianças, vitimados por ajudar o governo.

Até agora, as diversas organizações da comunidade internacional, embora também admitindo culpas dos rebeldes, afirmavam que o governo sírio tinha cometido muito mais violações dos direitos humanos e das leis internacionais.

Depois do ataque com armas químicas, o jogo ficou empatado.

O crescimento do poder dos jihadistas na revolução tem preocupado o governo americano.

É a razão pela qual ele se nega a fornecer armas na quantidade e qualidade requeridas pelos rebeldes.

Teme que caiam nas mãos dos jihadistas, os quais, mais tarde, poderiam voltá-las contra os próprios americanos seus inimigos.

Recentemente, na Jordânia, o Presidente Obama alertou contra o perigo, de, uma vez vencido Assad, a Síria tornar-se um “paraíso para os terroristas.”

Seria o caso do feitiço virar-se contra o feiticeiro.

Os grupos seculares da revolução síria também não se sentem confortáveis com a situação.

Mas estão divididos.

Parte apoia os jihadistas, por sua eficiência no combate às forças de Assad, como, aliás, aconteceu no ano passado.

Nessa ocasião,a Casa Branca quis neutralizar a al- Nussra-  grupo  ligado à AL- Qaeda- classificando-o como terrorista e foi repelida por cerca de 94 batalhões que saíram em defesa dos jihadistas.

No entanto, há também muitos seculares inimigos deles.

Começam a estourar choques armados entre os dois lados.

Na cidade de Tal Abyad, combates entre os Batalhões Farouq, de seculares, e os milicianos do Nussra já causaram 4 mortes.

A tentativa de assassinato do comandante do Farouq, Mohammad aL-Daher, foi o estopim que fez explodir tensões, já muito fortes na região.

A conclusão da investigação sobre o uso de armas químicas poderá ter sérias  consequências.

Ninguém dúvida que os rebeldes serão considerados culpados.

Ficará difícil continuarem se apresentando como “good guys”, em luta contra os “bad guys” de Assad.

De outro lado, Obama ganhará argumentos para convencer os grupos seculares e islâmicos moderados de que a permanência dos jihadistas prejudica a causa da revolução.

Na Jordânia, ele já começou sua campanha, afirmando; “Temos trabalhado diligentemente, em cooperação com a comunidade internacional, para ajudar a organizar e mobilizar uma oposição política que tenha credibilidade porque, na ausência de uma oposição com credibilidade, será impossível a transição para uma estrutura de governo na Síria mais pacifica, representativa e legitima.”

Há sérias dúvidas quanto a ideia de expulsar os jihadistas do campo revolucionário.

Os comandantes seculares concordarão com a retirada compulsória de aliados decisivos em várias batalhas?

Os jihadistas aceitarão sair sem luta?

Havendo luta, o exército do governo não se aproveitaria para ganhar posições contra o inimigo, enfraquecido internamente pela divisão?

Sem os jihadistas, os rebeldes terão força para derrubar Assad?

VOLTAR AO HOMEM

Sanguessugado do Mauro Santayana

“Estamos perdendo a alma, no abismo profundo do egoísmo – ou, na melhor teologia, no abismo do inferno. Esse é o verdadeiro suicídio da Humanidade, que poucos percebem. Podemos refletir hoje, à margem das homilias dos sacerdotes e da bela liturgia da paixão, sobre estes dois tristes episódios de nosso país e nosso tempo, entre outros: o martírio de uma mulher infeliz, que sonhou com a segurança e a riqueza para seu filho, e a petulância de um falso religioso, impiedoso e hipócrita, misógino e racista, que responde a processo por estelionato no STF, infelizmente eleito por cidadãos de São Paulo - que se orgulha de ser o mais rico e mais civilizado dos estados brasileiros.”

(JB) - Este foi um ano, no Brasil e no mundo, contra o homem. Esta Sexta Feira  da Paixão, que lembra a morte de Cristo, deveria ser consagrada a todos os flagelados, torturados e mortos, sob o signo da ignomínia na história. Ano a ano, cresce a esperança de paz entre os verdadeiros cristãos, e ano a ano, essa esperança se desfaz, diante da brutalidade e da indiferença de uma sociedade devotada ao culto da violência.

        Há poucos dias, um jogador de futebol que se destacara como goleiro de popular clube do Rio, confirmou, no tribunal, que um comparsa matara uma de suas eventuais amantes, esquartejara o corpo e atirara as partes a cães famintos. A notícia foi lida com aparente indiferença. Nenhuma das mais conhecidas personalidades públicas brasileiras manifestou sua indignação contra crime tão hediondo. Durante o processo, em que se investigava o desaparecimento da jovem, surgiram informações de sua vida irregular, como garota de programa e atriz de filmes pornográficos, como se tal comportamento devesse ser punido com a morte.

        O horror a que essa jovem foi submetida, pelo fato de exigir do pai de seu filho que assumisse a responsabilidade devida, não espantou ninguém. E a ignomínia do expediente assumido pelos assassinos, de fazer com que os cães devorassem seus restos, a fim de oculta-los, tampouco trouxe indignação a uma sociedade tão preocupada com a sobrevivência de rãs e lagartos.

         Confirma-se a previsão de grandes pensadores do passado, de que a tecnologia, ao nos oferecer instrumentos mágicos, nos devolveria à barbárie. Como estamos no Brasil, poucos se espantam (embora em número bem maior do que ocorreu com a morte da “namorada” do goleiro) com a escolha do “pastor” Marco Feliciano para presidir à Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. O estranho religioso, que deveria estar na cadeia pela ofensa feita à metade da população brasileira, negra e mestiça, aferra-se ao cargo, com a protérvia de afirmar que só sai dali morto.

        Flagrado em vídeo que o mostra em pleno ato de estelionato, ao exigir de um fiel a senha de seu cartão de crédito, o “pastor” não foi expelido  da Comissão, pela negligência ética e cumplicidade corporativa da Câmara.  Ele e o seu partido, que se intitula “cristão”, são uma blasfêmia e um insulto ao homem de Nazaré que nos dá a sua mão na difícil travessia da vida. Se a Câmara guardar um mínimo de ética deve ir além – e cassar o seu mandato. Vamos ver como agirá nesta segunda feira, que lembra a Ressurreição.

        Estamos perdendo a alma, no abismo profundo do egoísmo – ou, na melhor teologia, no abismo do inferno. Esse é o verdadeiro suicídio da Humanidade, que poucos percebem. Podemos refletir hoje, à margem das homilias dos sacerdotes e da bela liturgia da paixão, sobre estes dois tristes episódios de nosso país e nosso tempo, entre outros: o martírio de uma mulher infeliz, que sonhou com a segurança e a riqueza para seu filho, e a petulância de um falso religioso, impiedoso e hipócrita, misógino e racista, que responde a processo por estelionato no STF, infelizmente eleito por cidadãos de São Paulo - que se orgulha de ser o mais rico e mais civilizado dos estados brasileiros.

Azenha: Globo e governo Dilma parecem estar perto da vitória

Sanguessugado do Rovai

Azenha anunciou que vai fechar o Viomundo depois de perder ação na justiça movida pela Globo. É uma notícia-bomba. Uma derrota parcial da luta pela democratização no país. E quando alguém perde, outro alguém ganha. Os vencedores são os grandes grupos econômicos de comunicação, mas também uma boa parte do governo que anda mais preocupada com negócios do que em construir políticas públicas que modifiquem a imensa concentração deste segmento.

No momento, estou em Tunis, na Túnisia, cobrindo o Fórum Social Mundial. Antes de vir pra cá estive em Brasília. Conversei com muita gente. E confirmei o que já imaginava. Primeiro, que o governo Dilma não vai mexer no que considera um vespeiro, a regulamentação da comunicação. Segundo, que o ministro Paulo Bernardo deixou de ser apenas uma adversário desta tese. Passou a se um inimigo. E mais do que isso, agora instrumentaliza nossa luta para conquistar ainda mais poder.

Bernardo hoje é o homem dos grandes grupos de comunicação no PT. É o sujeito que livra as teles e a Globo dos “monstros” que querem a regulamentação e a democratização. E o que fazemos, no fundo, o ajuda a ampliar seu poder. Foi neste contexto que seu secretário-executivo, Cezar Alvares, teria dito a frase de que o governo Dilma não faria a regulamentação das comunicações. Aquilo não foi um deslize. Foi a assinatura de um contrato público com o povo da radiodifusão. Foi a Carta ao Povo Brasileiro de Dilma com esses setores. Eles queriam um sinal claro. Bernardo deu.

Mas não é só isso. Paulo Bernardo (e não só ele) também tem se referido a blogueiros como vagabundos e pilantras. E completa a frase com “e o governo ainda sustenta essa gente…”. Convenhamos, isso é bobagem. O que não é bobagem é que ele tem feito pressão pessoal para que ninguém mais apoie os poucos veículos que ainda recebem alguma verba publicitária. (Aliás, se você quer saber o tamanho deste apoio, leia este artigo do Miguel do Rosário.)

Nos Correios, por exemplo, a ordem é clara. Se algum centavo for destinado a esse “povo”, cabeças rolarão. Procure algo dos Correios em qualquer veículo da mídia alternativa ou livre. Mas também procure na Veja, na Globo, na Folha e no Estadão…

Azenha não está anunciando o fechamento do seu blogue por causa da Secom e do Paulo Bernardo. Mas também não está fazendo isso só por causa da Globo. Se a gente tivesse nesta luta pela democratização da mídia, mas não se sentisse sendo usado, talvez ele não tivesse tomado esta atitude.

Espero que ela ainda reflita e que um movimento cidadão o anime a seguir em frente. Azenha nunca teve um centavo de recurso público no seu blogue. E desde que o conheço nunca se mostrou interessado neste tipo de financiamento. Mas ele sonhou junto com muitos de nós que teríamos condição de melhorar a correlação de forças da comunicação no Brasil. Imaginou que tínhamos aliados. E ouviu, como eu, discursos de muitos se comprometendo com a causa.

E com o tempo passando, foi percebendo que só estávamos sendo usados. É este o exato sentimento: usados. E talvez essa sua decisão seja um sinal para um movimento que pode se tornar bastante importante. O Azenha não pode ficar sozinho nisso. É hora de refletir.

Greve de fome de prisioneiros de Guantánamo chega a sete semanas

Via Brasil de Fato

Porta-voz do presídio admitiu que oito pessoas já precisaram receber nutrientes por meio de tubos devido à perda de peso decorrente do movimento

 

Opera Mundi

A greve de fome promovida por prisioneiros de Guantánamo, que chegou nesta quarta-feira (27) a sete semanas de duração e soma um número crescente de adeptos, fez com que o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) adiantasse sua visita ao presídio estadunidense localizado em território cubano.

Em anúncio realizado nesta quarta-feira, a organização informou que a delegação que visitará a prisão é composta por duas pessoas, com um médico entre elas.

“Para tentar entender as tensões atuais e a greve de fome em curso, decidimos começar essa visita antes. O CIVC tinha previsto inicialmente visitar os prisioneiros de Guantánamo a partir de 1º de abril”, afirmou o porta-voz do organismo Bijan Farnudi, segundo a agência AFP. Será a 92ª visita que a organização realizará à prisão.

A greve de fome é um protesto dos prisioneiros pelo tratamento que recebem no local e por sua reclusão indefinida, na maioria das vezes realizada sem julgamento.

O movimento teve início no dia 6 de fevereiro quando, durante uma inspeção, alguns detentos afirmaram que os carcereiros confiscaram bens pessoais como fotografias, cartas e exemplares do Corão, fato considerado como uma “profanação religiosa”.

Segundo o Center for Constitutional Rights, grande parte dos 130 presos que se encontram no Campo 6 da prisão aderiram ao protesto. Segundo o capitão Robert Durand, um dos porta-vozes do presídio, no entanto, 24 presos realizam greve de fome, dos quais oito perderam tanto peso que foram obrigados a receber nutrientes líquidos através de tubos.

No início do ano, a ONU divulgou um comunicado no qual expressou que os EUA violam a legislação internacional dos direitos humanos por manter cidadãos não julgados presos indefinidamente. Antes de iniciar seu primeiro mandato, em 2009, o agora reeleito presidente dos EUA, Barack Obama, havia prometido o fechamento da prisão, o que ainda não ocorreu.

Foto: Reprodução

sábado, 30 de março de 2013

Se Jesus andasse por aí hoje, certamente apanharia do povo

Sanguessugado do Sakamoto

Hoje é Sábado de Aleluia. Dia da Malhação do Judas.

Para quem não é ou não foi cristão, nem acompanha as notícias, a tradição consiste em fazer um boneco de pano, papel, serragem, jornal, o que seja, para representar Judas Iscariotes – o delator de Jesus – e humilhá-lo, xingá-lo, surrá-lo, queimá-lo, alfinetá-lo, explodi-lo.

Quando me lembro das vezes em que dei paulada em Judas na época de moleque, fico pensando como essas tradições esquisitas são consumidas por nós como a coisa mais normal do mundo, assentando-se em nossa formação com seu rosário de símbolos e significados (lembrando, é claro, que Judas resolveu ele próprio se enforcar, não sendo necessária nenhuma turba enfurecida, de acordo com a mitologia cristã). Não estou dizendo que é por causa da Malhação de Judas que aceitamos tão passivamente o ato de linchar alguém quando reina a sensação de que a Justiça convencional não será o bastante. Mas essas ações públicas de justiciamento com as próprias mãos me dão calafrios.

A massa na sua versão descontrolada – a turba – é idiota. Em 2010, um homem foi espancado até a morte e teve a casa incendiada e o bar destruído após ser acusado de ter sido o responsável pela morte de uma adolescente no interior de São Paulo. A investigação, contudo, mostrava que a jovem poderia ter morrido por outro motivo. A turba idiota não quis saber e rolou, ladeira abaixo, uma bola de neve de rumores, fofocas e maldizeres, decidindo que ele era culpado. Ao final, questionado pela barbárie, um dos participantes da loucura declarou: “Se a gente fez, ele deve. Alguma coisa ele deve”.

Adoraria discordar de Oscar Wilde. Mas, nesse caso, ele cai como uma luva: “Há três tipos de déspotas. Aquele que tiraniza o corpo, aquele que tiraniza a alma e o que tiraniza, ao mesmo tempo, o corpo e a alma. O primeiro é chamado de príncipe, o segundo de papa e o terceiro de povo”…

Conversei com amigos de denominações protestantes revoltados com os Felicianos da vida, que jogam na lama a fé de milhões de outras pessoas no intuito de realizar seus projetos pessoais.

(Aliás, durante a Santa Inquisicão que se tornou a campanha eleitoral de 2010, cravei que, um dia, a gente iria descobrir que tanto Dilma quando Serra são ateus ou, no máximo, agnósticos não-praticantes, mas que ajoelharam e fizeram o sinal da cruz para vencer. E como na política cabe tudo, de repente o presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias também é ateu e a gente ainda não sabe…)

Mas o discurso fácil que, consumido, decantado, enraizado e ativado, transforma a massa em turba provoca distorções de entendimento sobre as palavras que estão na origem da fé das pessoas. Estudei em escola adventista por nove anos e, ao mesmo tempo, participei bastante da vida na igreja católica perto de casa, tendo sido até coroinha. Por conta, sei razoavelmente o que está escrito nos evangelhos – inclusive nos apócrifos, bem mais interessantes, mas isso é outra história. E, certamente, não é esse discurso de intolerância que grassa em muitos cultos, dos católicos aos neopentecostais.

Sei que cada um interpreta do jeito que melhor lhe cabe. E que o processo de decodificação de uma mensagem é sim um ato que depende do filtro de cada um que, por sua vez, depende da experiência de vida, classe social, formação, enfim, de cada um. Mas a interpretação é um processo que pode ser conduzido e é carregado de política, pois dá o tom da forma como algo deve ser visto pelos demais. Quem faz prevalecer a sua visão de mundo ganha o rebanho.

Não dá para entrar num culto do Malafaia e gritar a pelos pulmões algo como “vocês não entenderam nada do que o Nazareno disse!”. Seria muito arrogante e ofensivo à liberdade de que ele dispõe. Mas que dá vontade, ah, dá, principalmente porque liberdade não é algo absoluto, acaba quando você a usa para causar dor a alguém. O fato é que se tivessem interpretado por uma forma mais humana o que significa amar o seu semelhante como a si mesmo, dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus, e todo o restante, entenderiam que professar homofobia, racismo e machismo não faz sentido algum. O que significa amar alguém de verdade? E o que significa submeter alguém à minha vontade?

Dito isso, tenho a certeza de que se Jesus, o personagem histórico, vivesse hoje, defendendo a mesma ideia presentes nas escrituras sagradas do cristianismo, mas atualizando-a para os novos tempos, seria humulhado, xingado, surrado, queimado, alfinetado e explodido não só num Sábado de Aleluia, mas também em dias menos santos. Seria taxado de defensor de bicha, mendigo e sem-terra vagabundo. Olhada como subversivo, acusado de “heterofóbico” e “cristofóbico”. Alcunhado como agressor da família e dos bons costumes.

Pelos príncipes. Pelos papas. Pelo povo.

Daí, outra passagem que gosto muito, em Lucas, capítulo 23, versículo 34: “Pai, perdoai. Eles não sabem o que fazem.”

Barack Obama blinda outro terrorista: Monsanto

Via Insurgente

RT.com

Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti

EUA, um santuário terrorista: Obama aprova lei que libera de responsabilidades legais a Monsanto. Hoje em dia, os temas relacionados ao meio ambiente, diante da apropriação dos diferentes recursos naturais e a exploração dos mesmos através das multinacionais, são temas dos mais revolucionários e de maior confrontação com o Império e suas ferramentas de colonialismo do século XXI. Obama toma suas precauções, e não somente tem protegido a Posada Carriles (*); agora blinda também a Monsanto, ambos terroristas.

Barack Obama assinou nesta quinta a lei financeira de prazo limitado H.R.933, uma parte da qual, conhecida como de Segurança Agrária, protege as empresas de sementes transgênicas como a Monsanto diante de litígios suscitados pela venda de seus produtos.

A lei tem sido promovida pelo senador republicano do Missouri, Roy Blunt, que, segundo o jornal New York Daily News, colaborou com a Monsanto para elaborar o texto da lei. O mesmo senador esgrime que o texto faz parte da lei HR933, que é uma medida legislativa de prazo restrito (até setembro de 2013).

Segundo dados do Centro para a Política Responsável (The Center for Responsive Politics), o senador Blunt recebeu 64.250 dólares de apoio entre 2008 e 2012. O site Web Money Monocle considera Blunt como o principal político republicano beneficiado por financiamentos da Monsanto nos últimos tempos.

A parte da lei aprovada conhecida como Lei de Segurança Agrária (Farmer Assurance Provision) – que seus oponentes denominam como Monsanto Protection Act, por considerarem que ela foi indiretamente elaborada pela empresa Monsanto, - nega autoridade às cortes federais para sustar imediatamente a plantação e a venda de colheitas transgênicas que possam representar um risco para a saúde dos consumidores.

Antes dessa lei ser assinada, o Departamento Estadunidense de Agricultura (USDA) deveria dar aprovação a toda semeadura e venda de sementes transgênicas. As mudanças na base legal permitem agora que empresas como a Monsanto plantem suas sementes modificadas sem a autorização da USDA.

(*) ex-agente da CIA de nacionalidade venezuelana, foragido daquele país enquanto aguardava julgamento por ter sido responsável pela explosão de um avião da empresa aérea Cubana de Aviación em 1976, que provocou a morte dos 73 passageiros. (N.do T.)

Globo consegue o que a ditadura não conseguiu: calar imprensa alternativa

Sanguessugado do Viomundo

 

Luiz Carlos Azenha

Meu advogado, Cesar Kloury, me proíbe de discutir especificidades sobre a sentença da Justiça carioca que me condenou a pagar 30 mil reais ao diretor de Central Globo de Jornalismo, Ali Kamel, supostamente por mover contra ele uma “campanha difamatória” em 28 posts do Viomundo, todos ligados a críticas políticas que fiz a Kamel em circunstâncias diretamente relacionadas à campanha presidencial de 2006, quando eu era repórter da Globo.

Lembro: eu não era um qualquer, na Globo, então. Era recém-chegado de ser correspondente da emissora em Nova York. Fui o repórter destacado para cobrir o candidato tucano Geraldo Alckmin durante a campanha de 2006. Ouvi, na redação de São Paulo, diretamente do então editor de economia do Jornal Nacional, Marco Aurélio Mello, que tinha sido determinado desde o Rio que as reportagens de economia deveriam ser “esquecidas”– tirar o pé, foi a frase — porque supostamente poderiam beneficiar a reeleição de Lula.

Vi colegas, como Mariana Kotscho e Cecília Negrão, reclamando que a cobertura da emissora nas eleições presidenciais não era imparcial.

Um importante repórter da emissora ligava para o então ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, dizendo que a Globo pretendia entregar a eleição para o tucano Geraldo Alckmin. Ouvi o telefonema. Mais tarde, instado pelo próprio ministro, confirmei o que era também minha impressão.

Pessoalmente, tive uma reportagem potencialmente danosa para o então candidato a governador de São Paulo, José Serra, censurada. A reportagem dava conta de que Serra, enquanto ministro, tinha autorizado a maior parte das doações irregulares de ambulâncias a prefeituras.

Quando uma produtora localizou no interior de Minas Gerais o ex-assessor do ministro da Saúde Serra, Platão Fischer-Puller, que poderia esclarecer aspectos obscuros sobre a gestão do ministro no governo FHC, ela foi desencorajada a perseguí-lo, enquanto todos os recursos da emissora foram destinados a denunciar o contador do PT Delúbio Soares e o ex-ministro da Saúde Humberto Costa, este posteriormente absolvido de todas as acusações.

Tive reportagem sobre Carlinhos Cachoeira — muito mais tarde revelado como fonte da revista Veja para escândalos do governo Lula — ‘deslocada’ de telejornal mais nobre da emissora para o Bom Dia Brasil, como pode atestar o então editor Marco Aurélio Mello.

Num episódio específico, fui perseguido na redação por um feitor munido de um rádio de comunicação com o qual falava diretamente com o Rio de Janeiro: tratava-se de obter minha assinatura para um abaixo-assinado em apoio a Ali Kamel sobre a cobertura das eleições de 2006.

Considero que isso caracteriza assédio moral, já que o beneficiado pelo abaixo-assinado era chefe e poderia promover ou prejudicar subordinados de acordo com a adesão.

Argumentei, então, que o comentarista de política da Globo, Arnaldo Jabor, havia dito em plena campanha eleitoral que Lula era comparável ao ditador da Coréia do Norte, Kim Il-Sung, e que não acreditava ser essa postura compatível com a suposta imparcialidade da emissora. Resposta do editor, que hoje ocupa importante cargo na hierarquia da Globo: Jabor era o “palhaço” da casa, não deveria ser levado a sério.

No dia do primeiro turno das eleições, alertado por colega, ouvi uma gravação entre o delegado da Polícia Federal Edmilson Bruno e um grupo de jornalistas, na qual eles combinavam como deveria ser feito o vazamento das fotos do dinheiro que teria sido usado pelo PT para comprar um dossiê contra o candidato Serra.

Achei o assunto relevante e reproduzi uma transcrição — confesso, defeituosa pela pressa – no Viomundo.

Fui advertido por telefone pelo atual chefão da Globo, Carlos Henrique Schroeder, de que não deveria ter revelado em meu blog pessoal, hospedado na Globo.com, informações levantadas durante meu trabalho como repórter da emissora.

Contestei: a gravação, em minha opinião, era jornalisticamente relevante para o entendimento de todo o contexto do vazamento, que se deu exatamente na véspera do primeiro turno.

Enojado com o que havia testemunhado ao longo de 2006, inclusive com a represália exercida contra colegas — dentre os quais Rodrigo Vianna, Marco Aurélio Mello e Carlos Dornelles — e interessado especialmente em conhecer o mundo da blogosfera — pedi antecipadamente a rescisão de meu contrato com a emissora, na qual ganhava salário de alto executivo, com mais de um ano de antecedência, assumindo o compromisso de não trabalhar para outra emissora antes do vencimento do contrato pelo qual já não recebia salário.

Ou seja, fiz isso apesar dos grandes danos para minha carreira profissional e meu sustento pessoal.

Apesar das mentiras, ilações e tentativas de assassinato de caráter, perpretradas pelo jornal O Globo* e colunistas associados de Veja, friso: sempre vivi de meu salário. Este site sempre foi mantido graças a meu próprio salário de jornalista-trabalhador.

O objetivo do Viomundo sempre foi o de defender o interesse público e os movimentos sociais, sub-representados na mídia corporativa. Declaramos oficialmente: não recebemos patrocínio de governos ou empresas públicas ou estatais, ao contrário da Folha, de O Globo ou do Estadão. Nem do governo federal, nem de governos estaduais ou municipais.

Porém, para tudo existe um limite. A ação que me foi movida pela TV Globo (nominalmente por Ali Kamel) me custou R$ 30 mil reais em honorários advocatícios.

Fora o que eventualmente terei de gastar para derrotá-la. Agora, pensem comigo: qual é o limite das Organizações Globo para gastar com advogados?

O objetivo da emissora, ainda que por vias tortas, é claro: intimidar e calar aqueles que são capazes de desvendar o que se passa nos bastidores dela, justamente por terem fontes e conhecimento das engrenagens globais.

Sou arrimo de família: sustento mãe, irmão, ajudo irmã, filhas e mantenho este site graças a dinheiro de meu próprio bolso e da valiosa colaboração gratuita de milhares de leitores.

Cheguei ao extremo de meu limite financeiro, o que obviamente não é o caso das Organizações Globo, que concentram pelo menos 50% de todas as verbas publicitárias do Brasil, com o equivalente poder político, midiático e lobístico.

Durante a ditadura militar, implantada com o apoio das Organizações Globo, da Folha e do Estadão — entre outros que teriam se beneficiado do regime de força — houve uma forte tentativa de sufocar os meios alternativos de informação, dentre os quais destaco os jornais Movimento e Pasquim.

Hoje, através da judicialização de debate político, de um confronto que leva para a Justiça uma disputa entre desiguais, estamos fadados ao sufoco lento e gradual.

E, por mais que isso me doa profundamente no coração e na alma, devo admitir que perdemos. Não no campo político, mas no financeiro. Perdi. Ali Kamel e a Globo venceram. Calaram, pelo bolso, o Viomundo.

Estou certo de que meus queridíssimos leitores e apoiadores encontrarão alternativas à altura. O certo é que as Organizações Globo, uma das maiores empresas de jornalismo do mundo, nominalmente representadas aqui por Ali Kamel, mais uma vez impuseram seu monopólio informativo ao Brasil.

Eu os vejo por aí.

PS do Viomundo: Vem aí um livro escrito por mim com Rodrigo Vianna, Marco Aurelio Mello e outras testemunhas — identificadas ou não — narrando os bastidores da cobertura da eleição presidencial de 2006 na Globo, além de retratar tudo o que vocês testemunharam pessoalmente em 2010 e 2012.

PS do Viomundo 2: *Descreverei detalhadamente, em breve, como O Globo e associados tentaram praticar comigo o tradicional assassinato de caráter da mídia corporativa brasileira.

sexta-feira, 29 de março de 2013

Entrevista a Uday Al Zaidi, uno de los organizadores de las revueltas en Irak desde 2011

Via Rebelion

 

"Se necesitará todo un siglo para la recuperación de Irak"

Olga Rodríguez

eldiario.es

El pasado mes de diciembre una mujer recién salida de una prisión iraquí decidió contactar con diversas cadenas de televisión del país para relatarles su experiencia en cautiverio. No ahorró en detalles. Relató el maltrato, las torturas, las humillaciones. Describió cómo la golpeaban a ella y al resto de sus compañeras. Contó cómo una de las prisioneras, en avanzado estado de gestación, dio a luz a un bebé muerto a causa de las torturas sufridas.

“Besábamos los zapatos de los policías para que dejaran de pegarnos”, confesó.

Su testimonio impactó a mucha gente. Un grupo de mujeres de la provincia de Anbar decidió organizar manifestaciones en varias ciudades para mostrar solidaridad con las detenidas y exigir un trato digno para ellas.

“Y de ese modo resurgieron las protestas que ya habían nacido en el año 2011, al calor de las revueltas en otros países árabes, pero que se habían apagado poco después”, relata Yaroub Alí, iraquí exiliado que colabora en la Campaña de Solidaridad Internacional con los presos políticos iraquíes.

“Y así hasta el día de hoy. No hay semana en la que no se registren grandes protestas en diversas ciudades del país. Los viernes se celebran las más multitudinarias, con tiendas de campaña y todo”, añade.

Es lo que muchos llaman las revueltas iraquíes. Su importancia es tal que incluso el popular clérigo chií Muqtada Al Sáder las apoya públicamente. En ellas los manifestantes demandan la caída del Gobierno del primer ministro, Nuri Al Maliki, y reclaman libertad, dignidad, trabajo y electricidad, entre otras cosas.

No son protestas de carácter sectario, y de hecho en ellas participan suníes y chiíes que denuncian la persecución política de activistas y la existencia de una discriminación oficializada en función de la confesión religiosa. Muchos de los participantes estuvieron presentes también en las manifestaciones que surgieron en 2011.

En las últimas semanas las fuerzas de seguridad han cortado carreteras para evitar que diversas marchas se unan, han levantado nuevos puestos militares para dividir barrios e incluso han disparado contra grupos de manifestantes, provocando la muerte de al menos diez personas.

Además cientos de iraquíes han sido detenidos por participar en las protestas, entre ellos Uday Al Zaidi, uno de los líderes de estas revueltas, y hermano de Muntadar al Zaidi, célebre por haber arrojado un zapato a Bush en 2008, un gesto por el que sufrió diez meses de prisión y torturas por parte de los agentes de seguridad de George Bush, según denunció posteriormente.

Desde 2011 Uday al Zaidi vive casi en la clandestinidad, cambiando continuamente de vivienda. No duerme más de tres noches seguidas en el mismo sitio. Ha sido arrestado en nueve ocasiones, y ha sufrido tortura por parte de las fuerzas de seguridad. De confesión chií, se ha erigido como uno de los grandes defensores de la comunidad suní iraquí, discriminada por el Gobierno.

Preside el Frente Popular para la Liberación de Irak, y acaba de ser premiado por el Brussels Tribunal por ser uno de los organizadores de las protestas desde 2011. Cuando su hermano arrojó el zapato a Bush, él fue despedido del Ministerio de Cultura, donde trabajaba como funcionario.

Eldiario.es ha contactado con él a través de Skype.

Pregunta: ¿Cuáles son las demandas de la gente que está participando en estas protestas multitudinarias en Irak?

Respuesta: La gente está pidiendo derechos legítimos: una vida digna, con libertad, con seguridad. Queremos lo que cualquier pueblo del mundo querría. Queremos un gobierno que represente los intereses del pueblo iraquí, y no queremos a gobernantes que han llegado a través de los ocupantes estadounidenses, como es el caso actual. El Gobierno iraquí llegó de la mano de la ocupación.

P: ¿Cree que estas protestas perdurarán o se irán diluyendo?

R: Seguro que las protestas van a continuar, porque estamos sufriendo mucho, con un líder de gobierno que ejerce prácticas dictatoriales, que dispone de poder sobre todas las instituciones del país, y que cuenta con un fuerte apoyo de EEUU y sobre todo de Irán. El Gobierno controla potentes milicias que cuentan con más armamento que el Ejército y las fuerzas de seguridad. Esas milicias son una herramienta que emplea para golpear a sus enemigos. Este Gobierno es tiránico y opresor, no será fácil deshacerse de él, pero hay mucha gente con voluntad de continuar manifestándose.

P: Hace unas semanas le han vuelto a arrestar de nuevo.

R: No es la primera vez que me arrestan y no será la última, es la novena vez que soy detenido por las fuerzas de seguridad, por el simple hecho de manifestarme pacíficamente. Me han tratado de forma cruel, con insultos, me han esposado, me han golpeado y torturado, me han obligado a prometer que no me manifestaría de nuevo, ignorando así los artículos de la Constitución, escrita por el propio Gobierno, y que indica que "manifestarse es un derecho garantizado por la Constitución".

En 2011 llegaron a aplicarme descargas eléctricas, me rompieron la clavícula, me dislocaron una muñeca y me rompieron la pierna izquierda [esta periodista estuvo con él en 2011, cuando aún llevaba la pierna escayolada a causa de los daños sufridos].

P: ¿A quién representa el Gobierno iraquí, cuáles son sus intereses?

R: El Gobierno actúa con arrogancia y fuerza contra cualquier tipo de oposición, ya sea política o social. Quiere dividir Irak. Su objetivo es la partición de Irak y la toma de control de sus riquezas naturales más preciadas, para colocarlas bajo control iraní y de esa forma abrir una puerta trasera para que Irán pueda escapar de la sombra de las sanciones que le ha impuesto la comunidad internacional.

P: Usted ha dicho que de alguna forma la ocupación estadounidense continúa en el país. ¿De qué modo?

R: Quien diga que la ocupación estadounidense ha terminado está muy equivocado. La ocupación está todavía presente, y no exagero cuando digo que es incluso más fuerte, porque es más sutil y con menos que perder, porque ha pasado de ser una ocupación a través de fuerzas militares expuestas a la muerte, a una ocupación a través de los servicios de inteligencia y de colaboradores que trabajan en el terreno.

Cuenta además con una fuerza militar que no ha desaparecido en la base de Taji, al sur de Bagdad, al igual que en la Zona Verde, además de decenas de compañías de contratistas que trabajan en Bagdad. Hay también 5.000 trabajadores en la embajada estadounidense con la que excusa de proteger al personal diplomático. Todos estos elementos están preparados para batallar si así se lo ordenan.

P: ¿Cuál es el papel de Irán en Irak?

R: Irán lleva tiempo ocupando partes de Irak a través de milicias armadas que han llegado a controlar incluso cárceles. Combina una ocupación sectaria e ideológica con una ocupación logística y de seguridad. Casi todas las instituciones del Gobierno están controladas por Irán. Buena parte de la política y de los políticos son herramientas en manos de Irán. Teherán los lleva por donde quiere cuando quiere.

P: ¿Hay otros países con intereses en Irak?

R: Desde la ocupación Irak se ha convertido en un escenario donde diversas potencias ajustan cuentas y echan pulsos de poder, debido a su riqueza, especialmente en petróleo y minerales, además de su influyente posición estratégica en la región. Es objetivo de la avaricia de varios países, especialmente de países occidentales y de algunos vecinos de la región. Se ve afectado por las influencias de Irán, de Turquía, incluso de Kuwait, además de las de EEUU, Reino Unido e Israel. Todos ellos son los jugadores principales en el tablero iraquí.

P: ¿Cómo describiría la situación de Irak, la vida cotidiana?

R: Irak es considerado uno de los países más insoportables para vivir, de hecho millones de personas han emigrado, por la falta de empleo y de electricidad, y a causa de la terrible inseguridad que padece la población. Hay cada vez más gente que vive en la extrema pobreza.

A pesar de los enormes ingresos del país, no vemos resultados, porque la corrupción está instalada en la mayor parte de las instituciones. Irak retrocede en todo, en la agricultura, en la industria, en la educación. Se ha convertido en uno de los países del mundo con más problemas a causa del crimen organizado, del narcotráfico y del tráfico de órganos humanos. Las enfermedades se han extendido de manera dramática, especialmente entre los niños.

P: Proliferan las denuncias por torturas en cárceles de Irak y la situación de los derechos humanos es terriblemente frágil.

R: Irak se ha convertido en uno de los países con más impunidad del mundo, donde la tortura y las violaciones de los derechos humanos son habituales. La ocupación trajo a delincuentes de otros países para provocar desestabilidad, y recolectó a políticos que eran ladrones y asesinos, la mayoría de ellos pertenecientes a mafias islámicas que vivían en países vecinos. La ocupación impuso la tortura y los arrestos en función de la identidad de las personas, de su religión, de su etnia, de sus creencias, y lo hizo con la bendición del Estado.

P: ¿Hay alguna similitud con las protestas que surgieron en otros países árabes?

R: El contexto es diferente. Pero hay demandas similares: la libertad, la dignidad, una vida digna. Todos los países escenarios de las revueltas tienen en común que luchan contra gobiernos déspotas, gobiernos mafiosos con partidos políticos interconectados que tienen las manos manchados de sangre. Su caída no es fácil, pero no es imposible.

P: ¿Cómo influyen las compañías extranjeras que operan en Irak?

R: Las compañías petroleras extranjeras tienen un papel influyente en Irak. Practican una política maliciosa e intrusiva. A veces estas compañías son capaces de presionar a gente, en concreto a personas de los ministerios, del Ministerio del Petróleo. De hecho hay una compañía estadounidense que creó el cargo de viceprimer ministro de Petróleo y Energía e insistió en que el puesto lo ocupara Hussain al Shahristani, por sus servicios prestados.

P: ¿Cuánto tiempo hará falta para que Irak se recupere de los efectos de la ocupación y la guerra?

R: Las heridas de los iraquíes no cicatrizarán fácilmente. Los trágicos resultados de la invasión afectarán a generaciones enteras, se necesitará todo un siglo para la recuperación de Irak, las terribles consecuencias durarán todo un siglo, porque nos ha dejado con millones de muertos y heridos, con millones de viudas y huérfanos, con una infraestructura prácticamente destruida, con la ignorancia y el analfabetismo expandiéndose por el país, que se ha quedado sin casi tejido social, sin posibilidad de ofrecer una buena vida a nuestros jóvenes.

Confío en que los medios europeos presten atención al pueblo iraquí, porque algunos países de Europa fueron grandes impulsores de la ocupación y han deseado beneficiarse de ella. Deberían corregir sus errores y pagar por ello. Agradezco por tanto esta entrevista.

Fuente original: http://www.eldiario.es/internacional/Uday-Zaidi-necesitara-recuperacion-Irak_0_114088853.html

Maconha: Jamaica já era, a onda agora é Coreia do Norte

Via Diario Liberdade

A Coreia do Norte fuma maconha todo dia

     

kimCoreia do Norte - Outras Palavras - [Ben Young, Vice] Choque cultural: num dos países que mais restringem direitos civis e políticos, a erva é fumada livremente — e apreciada em especial pelos soldados...

Ilustrações: Emily Bakes

Há anos, o correspondente/freela de longa-data Alex Hoban vem desvendando a Coreia do Norte pra gente, mas aconteceu que ele tinha tanto para dizer sobre o assunto que decidiu abrir um site de notícias destinado ao país. NK NEWS é o resultado disso, e desde o seu lançamento no último mês de setembro, ótimas histórias têm saído diariamente – como esta que trazemos aqui, do Ben Young. Então vai conferir o site, siga os caras no Twitter e, se você estiver afim de grandes desafios, eles também têm esse misterioso formulário de cadastro que dá a chance de se unir a eles na próxima grande aventura no reino eremita.

Coreia do Norte, o país mais amordaçado, conservador e controlador do mundo também é um paraíso para os maconheiros. Apesar da postura séria do governo sobre uso e distribuição de drogas pesadas, como cristal de metanfetamina (que tem um legado notório no país), a maconha não é considerada droga. Como resultado, a escolha perspicaz bolada no papel de seda de arroz dos norte-coreanos sugere que, no mínimo para a maconheirada, a Coreia pode ser, enfim, o paraíso.

A NK NEWS recebe relatos frequentes de visitantes retornando da Coreia do Norte, dizendo que há plantas de maconha crescendo livremente ao longo das estradas, da cidade portuária de Chongjin, ao norte, até as ruas da capital Pyongyang, no sudoeste, onde é possível dar uma bola livremente pelas ruas e a doce marofa pega as suas narinas de surpresa. Nossas fontes são pessoas que nós sabemos que trabalham dentro da Coreia e fazem viagens para o país periodicamente.

Não existe tabu acerca da erva e seus apreciadores por lá – muitos residentes a conhecem e já a experimentaram. Na Coreia do Norte, a droga atende pelo nome de ip tambae, ou "folha de tabaco", comumente relatada por ser especialmente popular entre os jovens soldados do exército norte-coreano. Ao invés de ficarem viciados em alcatrão e nicotina como os milicos do Ocidente, eles conseguem relaxar acendendo um baseado king-size durante a folga na ronda.

Apesar do fato de o governo não pegar no pé do uso da maconha (ou do ópio) e do seu predomínio entre as pessoas comuns, os mochileiros-maconheiros ansiosos por uma amostra do broto da erva vão se decepcionar. Se um turista ocidental perguntar para o seu guia qual o melhor lugar para se conseguir a "planta especial", como é eufemisticamente chamada, o guia provavelmente evitará responder. A maioria deles é educada o suficiente quanto às legislações ocidentais a respeito da substância, e não sente a necessidade de promover algo que pode atrair propaganda negativa. Mas apareça com uma garrafa de conhaque e eles poderão ficar subitamente mais dispostos a lhe ajudar.coreiadn

As razões para se fumar maconha na Coreia do Norte diferem para o continente americano. Na Coreia, você não acende "unzinho" simplesmente para ficar chapado e rir até suas tripas saírem pra fora, você fuma para economizar e dar um tempo dos cigarros baratos locais. No mercado negro, maconha costuma ser vendida por um preço baixo e é fácil de se conseguir. Portanto, a droga é muito popular entre as pessoas das classes mais baixas da sociedade norte-coreana. Depois de um longo dia de trabalho duro manual, é normal para os trabalhadores locais dar um tapa para relaxar e acalmar os músculos.

Um dos grandes ensinamentos do senso comum norte-coreano e que nós já ouvimos milhares de vezes diz sobre os cidadãos não poderem dobrar seus jornais, para que não dobrem acidentalmente a foto de seus líderes. Mas, felizmente, não é toda página de jornal que traz esses homens poderosos em busca de atenção, então todas as partes do jornal mais fáceis de reciclar (esportes, previsão do tempo, programação da TV) acabam sendo usadas para enrolar tabaco e maconha.

O jornal Rodong Sinmun é a seda preferida entre os fumantes de lá. Ele é cortado em quadrados e então enrolado em forma de pequenos cones. Uma fonte confirmou à NK NEWS  que já encontrou uma ponta semifumada no chão de uma área rural do país, enrolada num Rodong Sinmun. A mesma fonte também notou, tragicamente, que a erva na Coreia Norte não é lá muito forte.

Embora cresça naturalmente pela península coreana, ela é cultivada mais formalmente em determinadas áreas. A maconha costuma ser cultivada em jardins particulares da Coreia do Norte. Um americano que viaja anualmente para lá comentou no Reddit: "Nós fomos a um jardim um dia, demos uma boa olhada e dissemos 'hei, isso é maconha!'. Nós olhamos de perto e nos certificamos de que era cannabis. Eu ouvi que era usada para fins medicinais, e encontrá-la foi interessante".

Relatos da erva na região vêm desde a formação do país. Após a Guerra da Coreia (1950-1953), soldados estadunidenses começaram a arrancá-la de áreas próximas da fronteira das Coreias e fumar. Histórias de tendas virarem saunas enfumaçadas por combatentes cansados são uma lembrança comum do folclore daqueles tempos difíceis.

De volta ao Ocidente, com a recente legalização nos estados de Washington e Colorado, alguns americanos estão clamando pela legalização em todo o país. Enquanto isso, permanece uma questão controversa o fato de a erva parecer costumeiramente usada na Coreia do Norte como uma fuga barata de uma sociedade rigidamente controlada, sugerindo que, para todas as outras preocupações que eles têm de aturar, pelo menos os norte-coreanos desfrutam de um privilégio negado às pessoas, como eu, que vivem aqui na terra dos livres.

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Delegação internacional vem ao Brasil denunciar violência no campo

Via Brasil de Fato

A visita é uma resposta ao aumento de casos de intimidação e violência contra ativistas sociais no país

da Redação

Uma delegação internacional do “Prêmio Nobel Alternativo” (Right Livelihood Award) visitará o Brasil entre os dias 1º e 4 de abril para cobrar justiça e esclarecimento de crimes contra integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e da Comissão Pastoral da Terra (CPT).

A visita é uma resposta ao aumento de casos de intimidação e violência contra ativistas sociais no Brasil. Somente em um ano, o número de ativistas ameaçados no país aumentou 117,6%. A delegação visitará a cidade de Marabá, no Pará, região norte do país.

Entre os integrantes do grupo internacional estão dois agraciados com o Prêmio Nobel Alternativo: Angie Zelter, representante da organização britânica Trident Ploughshares (RLA 2001), e o biólogo argentino Raúl Montenegro (RLA 2004). Também participará da comitiva a integrante do Conselho Diretivo da Fundação Right Livelihood Award (RLA) e ex-membro do Parlamento sueco, Marianne Andersson. Segundo ela, “a delegação chegará para expressar sua solidariedade aos ativistas brasileiros, denunciar os crimes e ataques que estão sofrendo os lutadores sociais nesse país e exigir a realização imediata da reforma agrária".

Violência no campo

A escolha do Pará para receber a visita da delegação deve-se ao fato de o estado possuir as taxas mais altas do país no que diz respeito à trabalho escravo e ameaças a defensores dos direitos humanos, segundo o Relatório de Investigação 2005 da Federação Internacional de Direitos Humanos (FIDH). A CPT afirma que de 29 assassinatos de ativistas rurais brasileiros ocorridos em 2011, 12 foram no Pará. Além disso, segundo o MST, o clima de impunidade é muito forte na região.

A CPT confirma que o número de ativistas ameaçados no país aumentou de 125 para 347 entre 2010 e 2011, segundo o relatório Conflitos no Campo Brasil. O caso mais recente de ataque contra ativistas brasileiros envolvidos na luta pela reforma agrária é o assassinato de Cícero Guedes, líder do MST, morto a tiros, no Rio de Janeiro, por pistoleiros ainda não identificados.

Participação

A deleção internacional participará de um debate público sobre a impunidade da qual gozam os violadores dos direitos humanos. A atividade será realizada na Universidade do Estado do Pará (UEPA), em Marabá, no dia 2 de abril.

Os integrantes da delegação integrarão, ainda o Júri Popular, nos dias 3 e 4 de abril, do caso do assassinato do casal de extrativistas de Nova Ipixuna, José Claudio Ribeiro e Maria do Espírito Santo, ocorrido em 2011. (com informações da Comissão Pastoral da Terra).

Catastroika – bom pra ver em tempos de ressurreição

Sugestão do leitor Gonçalves

quinta-feira, 28 de março de 2013

1º de abril: militares que resistiram ao golpe de 1964 relembram perseguição

Via RedeBrasilAtual

Especial da RBA narra histórias de integrantes das Forças Armadas que sofreram durante o regime; na primeira reportagem, membro da Marinha que viu 'a face da morte' lamenta atual desmobilização

Daniella Cambaúva, especial para a RBA

1º de abril: militares que resistiram ao golpe de 1964 relembram perseguição

Ferro Costa vê com ceticismo o presente: "Às vezes, eu vou a uma reunião de turma e parece que estou em uma reunião dos republicanos do Tea Party" (Foto: Daniella Cambaúva. RBA)

Rio de Janeiro – Esquecidas durante décadas, as histórias de militares vítimas da ditadura (1964-1985) finalmente começam a aflorar. Seja pelas mãos da Comissão Nacional da Verdade, seja pela mobilização dos integrantes das Forças Armadas cassados pelo regime, um dos lados esquecidos dos anos de chumbo ganha rosto e forma.

Ao longo do governo autoritário, oficialmente, estima-se que tenham morrido 357 pessoas, mas familiares de vítimas afirmam que esse número chega a 426, e que pode aumentar em decorrência das investigações da Comissão da Verdade (CNV), instituída em maio de 2012.

Nesse balanço, falta contabilizar opositores presos, torturados e aqueles que foram obrigados a se exilar. Essa história, porém, não estará completa se não registrar membros das Forças Armadas que resistiram ao golpe e se recusaram a obedecer ordens de seus superiores. Considerados subversivos, foram demitidos e, em alguns casos, perseguidos.

Com a finalidade de apurar denúncias, a Comissão da Verdade criou o Grupo de Trabalho Perseguição a Militares. A equipe foi criada em outubro de 2012, após a tomada de depoimento do brigadeiro da Aeronáutica Rui Moreira Lima, preso três vezes durante o regime. O grupo, liderado pelo pesquisador Cláudio Fonteles, prepara um trabalho grande sobre o tema, que será apresentado em abril.

Enquanto isso não ocorre, sobram histórias de militares que, assumindo uma postura totalmente contrária à dos golpistas de 1964, não se sujeitaram ao descumprimento da legalidade, às torturas e às mortes. No ano passado, aRBA recordou, no aniversário da derrubada do presidente constitucional João Goulart, a herança viva do regime, em uma série de reportagens que seguem atuais (sugere-se a leitura no box abaixo). Agora, aproveita a ocasião para dar voz àqueles que, depois de 49 anos, relembram o preço que tiveram de pagar por não aderir ao golpe. Nos próximos dias, serão cinco histórias. A começar pela de Paulo Henrique Ferro Costa, o homem “de sorte” que viu a “face da morte” e escapou.

Um homem de sorte

“Eu posso dizer que eu vi a face da morte. Aquela sala escura... Naquelas paredes, estava impregnado o grito de sangue de todos os torturados. E eu vi a face da morte ali. Eu me preparei para morrer. É horrível você morrer quando a natureza não programou aquele dia pra você”. Assim prossegue o relato de Paulo Henrique Ferro Costa, um dos membros da Marinha brasileira que resistiu ao golpe. Hoje aposentado, recebe a reportagem da RBA em sua casa em Niterói, rodeado por documentos. Solícito, tem a fala tranquila, com uma voz quase inaudível, sorrindo timidamente enquanto fala.

Conta, com riqueza de detalhes, diversos momentos de sua vida até que, por um instante, seus olhos azuis se desviam. Ele olha para frente, e a parede de sua sala parece levá-lo para as dependências do quartel da Polícia do Exército, na rua Barão de Mesquita, zona norte do Rio de Janeiro. Ali ele esteve durante sua última prisão, no mês de maio de 1970 – a mais dura, conta.

“Vivia com uma menina que se envolveu na luta armada. Eu não aprovava. Eles iam prendê-la. Em um golpe de sorte, ela conseguiu escapar. E eles me prenderam na suposição de que eu soubesse onde ela estava. Eles me torturaram barbaramente”, conta. “Ela conseguiu escapar. Felizmente”, conclui, aliviado.

Natural de Belém do Pará, Ferro Costa havia terminado a Escola Naval em 1961 e era segundo-tenente em 1964. Não concordava com o golpe, nem com a ditadura. Afirma ter entrado na Marinha por convicção “de luta contra o fascismo”, com intuito de ajudar o Brasil e também de ter uma boa profissão. “Eu não entrei para dar golpe”, diz. 

Ferro Costa estava fazendo uma viagem de férias entre 31 de março e 1° de abril. A Marinha convocou a ele e outros que não haviam se apresentado imediatamente após o golpe. Ele conta que exercia papel de liderança junto aos marinheiros à época e tinha esperanças de uma possível resistência tanto por parte do presidente João Goulart, quanto de dentro das próprias Forças Armadas. “Dentro da Marinha, tivemos controle total. A esquadra toda estava nas nossas mãos, dos legalistas. Mesmo a cúpula militar sendo golpista, os navios não podiam sair porque os marinheiros não deixavam. Os oficiais que estavam no gabinete davam as ordens e a gente tinha o controle total, absoluto. O que aconteceu foi que o Jango não quis o enfrentamento. Ficou com receio de que essas coisas tivessem desdobramento”, afirma.

Em 12 de abril de 1964, foi levado ao Princesa Leopoldina, um transatlântico que manteve presos oficiais da Marinha, da Aeronáutica e do Exército. “Antes fui à casa de alguns colegas. Disse 'você sabe que estou me apresentando, se acontecer alguma coisa comigo, você sabe onde foi, quem foi'”. Era a primeira vez que ele entrava em um transatlântico. “As condições do navio eram suportáveis. A tortura eu não tive nos primeiros anos. Eu tive conhecimento dela em toda sua extensão no quartel da Barão de Mesquita.”

O próximo ato foi sua demissão da Marinha, em 19 de agosto. “Fui considerado morto, então, não tinha certidão de serviço militar. O decreto, inclusive, me considera morto”, diz, mostrando uma cópia do decreto expedido pelo Ministério da Marinha.

Foi preso novamente em 1965 e então condenado a cumprir 730 dias de prisão. Como já tinha ficado 257 dias na cadeia – 14 a mais do que o equivalente a um terço de sua pena –, foi solto. “Foi montado um inquérito contra mim, mas eles não tinham provas. Colocaram lá um rapaz que não era da Marinha, que não tinha o curso da Escola Naval. E ele faz um depoimento contra mim, dizia que eu o havia convidado para participar de um plano de comunicação da Marinha, cujo primeiro item era a sublevação dos marinheiros e o segundo item era a chacina dos oficiais. Gravíssimo. Mas eu não o conhecia, ele montou essa história”, lembra, segurando nas mãos a cópia de quatro folhas de papel pautado, com um depoimento escrito à mão, sem assinatura.

Ficou em liberdade até 1970, quando foi levado para o quartel da Barão de Mesquita, um dos maiores centros de detenção clandestina da ditadura. Foi lá onde morreu o deputado Rubens Paiva, segundo concluiu recentemente a Comissão da Verdade. Ferro Costa atribui sua sobrevivência à sorte. “Quando eu estava preso, depois de ser torturado, chamaram um oficial da comunidade de informação da Marinha. Por sorte, esse oficial tinha sido meu comandante no Colégio Naval. Ele me viu, me olhou... E eu disse: 'Olha, o curso que eu tenho é o mesmo que você tem, e eu não estudei no Colégio Naval para passar por isso'. E ele disse: 'Vou te tirar daqui'. E tirou”.

Sua saída foi dramática. Ficou por mais de duas horas algemado no porta-malas de um furgão, rodando pela cidade, tentando respirar através de uma passagem de ar muito pequena. “Fiquei me desidratando. Quase desmaio ali.”  Depois, ficou em uma prisão no Ministério da Marinha, em uma cela de 4 palmos por 11. “Não tinha água. Sabe esses sanitários que você tem aquele deposito de água para dar descarga? É dali que você tirava água para beber.”

Depois de uma semana, foi para a Base Naval da Ilha das Flores até que, mais uma vez, a sorte o favoreceu. “Minha família estava me procurando naquela angústia, porque as pessoas sumiam e ninguém sabia”. Foi quando seu pai telefonou ao Dops e, por coincidência, conversou com um general com quem havia servido o Exército e que era encarregado de seu inquérito. “E ele diz pro meu pai: 'Seu filho vai sair amanhã'. Sou um homem de sorte. Estou vivo mais por sorte do que por outra coisa.”

Questionado sobre sequelas físicas, ele responde que não as teve, mas conta que jamais conseguiu esquecer aquele período. “Dizem que a memória deleta a dor, mas a memória não deleta a dor da tortura. Ela permanece com a pessoa até a morte. É muito difícil você esquecer o que você passou lá.”

Ferro Costa já foi chamado de comunista inúmeras vezes. Nega ter tido qualquer ligação com grupos de resistência à ditadura. “Eu tinha leituras”, resume. Entre seus autores, estavam Darcy Ribeiro, Celso Furtado. Se lia Marx? “Todo mundo lia. Era uma efervescência incrível”, responde.  “Mas o que me influenciava mais era [Franz] Kafka, [Jean-Paulo] Sartre.”

Não tão otimista em relação à Comissão da Verdade, acredita na necessidade apurar casos de prisões arbitrárias e torturas, mas principalmente de se aprofundar no contexto histórico do Brasil na década de 1960. “A Comissão da Verdade vai apurar casos emblemáticos, como o do Rubens Paiva, do Herzog. Mas e o enredo do golpe? É fundamental, que não havia possibilidade de se implantar no Brasil um regime comunista, que muita gente honesta foi perseguida.”

Essa avaliação que se faz, para Ferro Costa, se deve em parte ao modo como ocorreu o fim do regime. Segundo ele, o ato se resumiu a um acordo. A anistia, em sua opinião, veio tarde.

Depois de sair de sua última prisão em 1970, exilou-se em Paris. Voltou no final dos anos 1970, quando já se discutia a anistia – nome que ele critica, preferindo usar “reparação”. Fez três concursos e foi aprovado. Sua primeira opção era a Eletronorte. Seu passado fichado, no entanto, impediu que ele assumisse o cargo. Acabou indo para a Fundação Educacional, em Brasília. 

“O que é mais grave é que a minha geração cristalizou essa verdade, de que os comunistas eram os verdadeiros inimigos do Brasil, e não a miséria e o atraso. Às vezes, eu vou em reunião de turma e parece que estou em uma reunião dos republicanos do Tea Party!”, conclui.

Leia especial sobre os 48 anos do golpe de 1964:

BRICS. A NOVA REVOLUÇÃO MUNDIAL

Sanguessugado do Mauro Santayana

 

(HD) -  Começou ontem, e se encerra hoje, em Durban, na República Sul-Africana, a quinta Cúpula Presidencial dos BRICS - aliança que une o Brasil à Rússia, Índia, China e África do Sul.

        Durante o encontro, como estava previsto, se realiza um fórum, sob o tema  “BRICS e África - Associação para a Cooperação, Integração, Industrialização e Desenvolvimento”, com a participação dos líderes, convidados, de 20 países do continente.

       De acordo com a imprensa sulafricana, já foi aprovada pelos chefes de Estado, e será destaque na Declaração Conjunta que será divulgada hoje, a criação de um Banco de Desenvolvimento para os BRICS, nos moldes do Banco Mundial, com capital inicial de 50 bilhões de dólares; um acordo de swap no valor de 100 bilhões de dólares, para empréstimo conjunto de recursos em caso de crise, nos moldes do que faz o FMI; e uma troca de moedas  entre o Brasil e a China, por três anos, em  valor equivalente a 30 bilhões de dólares por ano. A providencia garantirá o comércio de mercadorias, bens e serviços em moeda local, para ficar a salvo de eventuais flutuações da moeda norte-americana.

         China e o Brasil são, hoje, respectivamente, o primeiro e o terceiro credor individual externo dos EUA. Os países BRICS detêm, em conjunto, 4,5 trilhões de dólares em reservas internacionais, ou 40% do total do mundo.

        Com a criação do seu próprio banco de fomento, eles estão dizendo ao ocidente que se cansaram de esperar por reformas no Banco Mundial e no FMI, que lhes dessem poder equivalente nessas instituições, conforme o peso de seus recursos financeiros, sua população, seus  territórios, mercados, recursos naturais, e  dimensão geopolítica.

        Como ocorreu com o G-8, que se tornou uma sombra do que era antes, após a criação do G-20 - com a decisiva participação do Brasil - o FMI e o Banco Mundial poderão  minguar sua já decrescente importância na nova ordem multipolar no mundo do século XXI.

         Findou o tempo em que os países mais pobres tinham de ir aos EUA mendigar recursos para infraestrutura ou enfrentar crises geradas, como a atual, nas entranhas do descontrolado ultra- capitalismo.

        A partir de agora, eles terão outros interlocutores a procurar, em Brasília, Moscou, Nova Delhi, Pequim ou Pretoria, e não apenas em Washington, Londres ou Berlim.

       O Brasil, com a soja resistente à seca da Embrapa, a mais produtiva cana de açúcar  e o melhor gado tropical do mundo, suas construtoras e seus programas de combate à miséria e à fome, aliado à China, com seus gigantescos recursos financeiros, e aos russos e indianos, pode mudar, em poucas décadas, o futuro da população africana.

       Basta que, para isso, não cometamos os mesmos erros e os mesmos crimes do arrogante colonialismo ocidental, o mesmo que, depois de tantos séculos de espoliação e violência, acabou por nos reunir no BRICS.