domingo, 29 de dezembro de 2013

NÃO SOU UMA QUALQUER - STANISLAW PONTE PRETA

Sanguessugado do Cultura, Esporte e Política

Ela notou que ele estava meio bronqueado por causa das respostas monossilábicas que dava às suas perguntas. Conhecia-o muito bem. Quando ele ficava emburrado para falar é porque estava com minhoca na cuca.

- Que é que há, meu bem? Você tá meio chateado!

Ele não respondeu logo, meteu um suspensezinho legal, puxando uma tragada forte do cigarro. Depois caminhou até o armário da sala, tirou uma garrafa de uísque e deu aquele gole prolongado no mais belo e ultrapassado estilo Humphrey Bogart. Depois sentou-se na poltrona, cruzou as pernas e disse:

- É... andaram me buzinando aí umas coisas.

- A meu respeito? – e ela espalmou a mão sobre o cobiçado busto.

Novo silencio, e a distinta, muito preocupada, levantou-se de onde estava e foi se aninhar no colo dele. Fez vozinha de crinaça:

- Meu queridinho, contra pra ela, vá! Deve ser mais uma fofoca dessa gente, mas é melhor você contar logo pra ela, sabe? Assim a gente tira logo as dúvidas. Não gosto de ver o meu querido zangado não – e começou a enfiar os dedos esguios e bem tratados pelos cabelos dele.

O cara suspirou, todo despenteado, e foi soltando o que tinham contado pra ele. Tinha sido na noite de apresentação do Charles Aznavour, no Copacabana Palace, a mais recente badalação de grã-fino com renda para excepcionais. Agora a moda é esta: tudo o que é festa de grã-fino é para dar renda para excepcionais, pois ninguém é mais excepcional que um grã-fino.

Ela tinha ido à tal apresentação do cantor francês e fizera muito sucesso. A Lea Maria deu até uma nota no Caderno B, dizendo que ela estava um show. De fato (enquanto ele falava ela ia se recordando), o seu vestido op-art, com mini-saia, foi um sucesso. Era daquela saia que, quando a mulher senta, a saia some e aparece o que a saia tinha obrigação de fazer sumir. Um fenômeno da elevação dos costumes – como diz a veneranda Tia Zulmira.

- Me disseram que você flertou a noite toda – o cara falou.

Ela esticou-se, ainda sentada nas suas pernas. Outra vez a mão espalmada sobre o cobiçado busto:

- Eu????

Ele ratificou. Ela mesma. Tinham contado para ele que ela dançara de rtosto colado com um tal de Collatini.

- Cola aonde? – perguntou ela.

- Collatini.

Ela ficou indignada. De fato, os Collatini, de SãoPaulo, estavam na mesa dela, mas isto era uma infâmia. Imaginem logo quem? O Collatini, aquele velhote. De maneira nenhuma. De mais a mais, a Bequinha, mulher do Collatini, era sua amiga de infância. Essa gente é assim mesmo. Quando não tem nada para comentar sobre uma mulher... inventa. Dela eles não podiam dizer nada, tá bem? Absolutamente nada. Nunca deu margem para falatório nenhum. Pelo contrario: procurava se portar em público – aliás, procurava se portar em qualquer lugar, ora esta! – com a máxima dignidade, justamente por isso. Porque sabia que essa gente de sociedade é fogo; não pode ver uma mulher bonita fora da panelinha desses cretinos, que começa logo a tentar descobrir coisas, para fazer dos outros gente igual a eles. É isso mesmo: falam só para justificar a vida que levam, esses amorais. Mas com ela não.

- Comigo não – repetia indignada: – Eu não sou uma qualquer!

Ele, impressionado com a reação dela, puxou-a para o seu regaço. Deu-lhe mais um beijo e falou bainho que sabia disso, sabia que ela não era uma qualquer.

Pouco depois ela se levantava do colo dele, ia até o banheiro: ajeitou-se, pintou-se e de lá mesmo perguntou:

- Meu beem! Que horas são?

- Quase 6! – respondeu o cara.

Ela veio espavorida lá de dentro, deu-lhe um beijinho rápido, apanhou uns embrulhinhos de compras que deixara sobre a mesa, quando chegara, e despediu-se:

- Tchau, querido! Deixa eu correr se não meu marido me mata!

Foi embora

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