domingo, 30 de junho de 2013

Dilma em seu labirinto

Sanguessugado do Cinema & Outras Artes

Maurício Caleiro

 

Tenho uma profunda admiração pelo ser humano Dilma Rousseff, alguém que, em plena juventude e correndo alto risco, lançou-se à luta contra um regime ditatorial que usurpou ilegalmente o poder; uma mulher que, capturada, suportou as piores sevícias, sendo física e psicologicamente torturada e, sem ter delatado companheiros de luta, encarou altivamente seus carrascos no simulacro de julgamento a que teve direito.

Embora intimamente discordasse do modo como foi escolhida como candidata – com o dedazo substituindo a saudável disputa intrapartidária – votei em Dilma Rousseff nos dois turnos e com convicção, pois a continuidade – e o aprofundamento das conquistas - da presidência Lula afiguravam-se, para mim, no contexto daquela eleição, como o único caminho então possível para a melhoria do país.

Ética e simbolismos

A importância histórica de termos, pela primeira vez em nossa história, uma mulher – e uma ex-guerrilheira - no mais alto cargo do país colaborava para a impressão de que tal voto significaria um avanço para a democracia brasileira e um bom presságio para o tratamento das questões de gênero no país.

Não tenho dúvidas de que a presidente Dilma Rousseff é uma mandatária bem-intencionada, honesta e dedicada, que quer o melhor para o país e para o povo e se empenha muito para isso.

No entanto, infelizmente, tais histórico e retidão pessoal têm se mostrado insuficientes para assegurar um bom desempenho à frente da Presidência do país – e há razões concretas e objetivas que ajudam a entender o porquê dessa lacuna, as quais, como veremos ao longo deste artigo, vão desde fatores externos, relativos à economia mundial, passam por questões de personalidade e estilo administrativo e culminam com opções econômicas e políticas questionáveis.

Estas, além de terem sacrificado no altar das coligações religiosas os esperados avanços no tratamento das questões de gênero, não raro foram ditadas, olhos nas eleições, pela ambição em ampliar a hegemonia político-partidária, associando-se a figuras públicas que protagonizam tanto as páginas de política quanto o noticiário criminal e com forças partidárias cuja identificação programáticas com o PT é nenhuma. E isso mesmo depois de Dilma ter assumido com uma base aliada bem maior que a de Lula em seus dois mandatos.

Os danos à ética e os efeitos danosos em termos de desideologização da política que tal pragmatismo gera foram amplamente negligenciados à época, mas agora, nas ruas - e futuramente, nas urnas - cobram o seu preço.

Alertas em vão

Quem acompanha há tempos este blog não se espanta com a queda brutal dos índices de aprovação de Dilma (de 57% em março para 30% em final de junho, segundo o Datafolha). Pelo contrário: nos últimos dois anos e meio boa parte dos textos aqui publicados se dedicou a examinar criticamente o seu governo, a desvendar porque, ao invés de aprofundar conquistas seminais do governo Lula, a atual administração preferiu dar uma guinada conservadora que, exatamente como diversas vezes prevemos, a leva agora a perder parte do eleitorado à esquerda - que se sentiu traído - e ver o recém-adquirido eleitorado conservador bater asas aos primeiros indícios de crise econômica. Se algo surpreende, é que tal queda tenha demorado tanto para ocorrer - e que ocorra de forma tão brusca.

Não é com satisfação ou orgulho que vejo tais previsões se confirmarem – pelo contrário: é com profundo pesar, pela certeza de que o governo Dilma Rousseff desperdiçou uma chance histórica única de aprofundar conquistas da esquerda e lançar pás de cal ao neoliberalismo. Preferiu, ao invés disso, apostar num modelo arcaico de desenvolvimentismo a qualquer custo, que restabeleceu o primado do economicismo sobre as políticas sociais e, cometendo o estelionato eleitoral de ressuscitar as privatizações que na campanha eleitoral combatera, embaçou a distinção com a agenda da direita e abriu flancos que o conservadorismo certamente explorará nas próximas eleições.

O contexto econômico internacional

O cenário internacional exerce, sem dúvida, um importante papel nesse retrocesso, pois a queda do preço internacional das matérias-primas tem afetado incisivamente o Brasil, que mantém um modelo exportador arcaico, baseado no agronegócio e em commodities: estima-se que, com tal baratamento, o país tenha perdido algo em torno de U$20 bilhões entre 2011 e 2013. Há ainda os fatores decorrentes da prolongação da crise na Europa, que diminuiu drasticamente investimentos no país, e, neste momento, da sinalização mais clara de recuperação da economia dos EUA, que tende a atrair parte considerável do montante financeiro internacional antes passível de ser investido no Brasil.

Por outro lado, há de se levar em conta que o momento mais agudo da crise mundial como tal foi vivenciado ao final do segundo mandato de Lula, e que o país reagira de forma consideravelmente bem ao choque – faltou, portanto, habilidade para lidar com suas decorrências. Mais importante, os demais BRICs e países situados fora da Europa – aí incluídos vários de nossos vizinhos latino-americanos, e, mais recentemente, alguns dos "tigres asiáticos" -, sob as mesmas condições internacionais vivenciadas pelo governo Dilma, vêm apresentando um desempenho econômico incomparavelmente melhor do que o Brasil, como a comparação entre os PIBs nacionais deixa claro.

O peso da personalidade

Além de sua relação com as decisões econômicas nacionais, com as alianças partidárias e com a economia mundial, um terceiro fator a ser considerado ante a crise do governo Dilma decorre de sua personalidade e seu estilo de administrar como presidente. Por algum tempo rejeitei esse tipo de crítica - e cheguei a escrever sobre isso no Observatório da Imprensa - , por interpretá-la como uma manifestação do entranhado machismo brasileiro, para o qual a mulher "dócil" e "feminina" careceria de autoridade para exercer o poder e a mulher "assertiva" e "determinada" – como Dilma - incorreria em autoritarismo. O tempo provaria que, em se tratando da atual presidente, não era esse o caso: mesmo analistas políticos os mais afinados com o governo são unânimes em apontar o excesso de autoritarismo no trato e a concentração excessiva de poder decisório – esta como método obsessivo de repressão à corrupção - como duas das características negativas principais da atual mandatária.

Trata-se de dois defeitos deletérios a uma boa gestão, que desestimulam a criatividade, a iniciativa, e coíbem a autonomia, restringindo drasticamente o raio de ação de cada ministro, fenômeno nítido na atual administração. Dilma é uma mulher muito inteligente, mas a recusa em delegar tarefas decisórias a especialistas muito mais capazes do que ela ajuda a compreender a impressão de marasmo e atrofia que se depreende de sua administração. Não acredita? Faça uma comparação caso a caso do desempenho dos ministros da era Lula com os da era Dilma. Sugiro começar contrapondo o ministério da Educação sob Haddad e sob Mercadante.

Estratégias diversionistas

Para piorar o quadro acima esboçado, setores e simpatizantes petistas que poderiam lutar internamente pela reversão de tais políticas preferiram adotar um comportamento de seita, saudando bovinamente o neoconservadorismo e toda e qualquer medida governamental e abrindo mão da necessária reflexão crítica - em prol, por um lado, de um "oba-oba, salve o rei" baseado em índices de aprovação e em projeções sobre as eleições de 2014, as quais eles consideravam favas contadas; por outro lado, pelo hábito entranhado de, ante a mínima crítica - ou mesmo apresentação de dado desfavorável ao governo -, desqualificar seu autor  e a fonte. Ficar se lamentando contra o "PIG" o STF ou Gurgel, como fizeram até agora durante todo o mandato de Lula e Dilma, pode ser uma experiência catártica redentora, mas em termos de ação politica é inócua. Equivale a perder tempo em lamentações enquanto os adversários se armam. Assim, o efeito final de tal comportamento dual foi tornar, a muitos, invisível a crise que ora explode.

O mesmo comportamento de avestruz ocorre, agora, ante as manifestações que têm lugar em todo o país. Não é por outro motivo que os blogueiros que apoiam incondicionalmente o governo, depois de inicialmente atacarem o movimento nos mesmíssimos termos utilizados por Arnaldo Jabor e de, ante a proliferação de protestos, recuarem estrategicamente para uma posição de empatia forçada e paternalismo, nas últimas semanas voltaram a procurar desqualificá-lo de todas as formas, temerosos de que o vácuo de autoridade e o caráter raivosamente antipartidário das manifestações as transformassem em um fator de desprestígio de Dilma Rousseff, como de fato ocorreu.

As manifestações, porém, são um fato: trazem um dado novo à política nacional, bagunçam o coro dos contentes e fazem as por si questionáveis previsões para 2014 tornarem-se ainda mais incertas. Mais importante: demonstram cabalmente, para quem não se recusa a ver, que há uma insatisfação difusa mas generalizada no país, a qual a fórmula conciliadora e assitencialista petista não foi capaz sequer de detectar, o que dizer de reverter minimamente. E que, para uma geração que nem tinha nascido quando o governo FHC começou (e tinha 7 ou 8 anos quando ele entregou o governo a Lula) não causa espécie ficar mostrando dados comparativos do desempenho econômico de FHC e de Lula (mesmo porque estamos no governo Dilma, cujo desempenho é não só bem pior mas muito mais conservador do que o de seu antecessor petista)

Volta às ruas?

Agora o PT promete sair as ruas, coisa que não fez nos últimos dez anos, nem mesmo quando as denúncias do "mensalão" bombardeavam o presidente Lula noite e dia, ou quando o julgamento tornou-se um reality-show com juízes aparentemente acuados ante a mídia, e nem mesmo sequer quando o tribunal, ante a escassez de evidências, inverteu o ônus da prova e recorreu a uma teoria pra lá de questionável como forma de condenar os réus.

E por que o PT assim agiu? Porque, marqueteiros a postos e pesquisas de opinião à mão, não se podia criar nenhuma marola que perturbasse os índices de aprovação de Dilma. Pois estes agora estão gravemente perturbados e em um cenário de ruas ocupadas. E agora? Persistirá a tática de culpar o PIG, o Joaquim Barbosa e o Facebook pela derrocada da candidata petista ou haverá gana, espaço e disposição para enfrentar os problemas e reverter o conservadorismo gritante e suas deletérias consequências, que ora se apresentam?

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