segunda-feira, 29 de abril de 2013

Venezuela: WikiLeaks revela como os EUA utilizam as ONGs como instrumento de intervenção

Via Rebelión

Ryan Mallet-Outtrim (*)

Tradução do inglês para o espanhol: S. Legui

Tradução do espanhol para o português: Renzo Bassanetti

Os telegramas transmitidos pelo ex-embaixador do EUA na Venezuela, William Brownfield, filtrados por WikiLeaks, mostram o papel de respaldo do referido embaixador a grupos da oposição ao governo da Venezuela.

Na semana prévia às eleições presidenciais venezuelanas de 14 de abril, WikiLeaks publicou um telegrama classificado no qual se indicava que organizações de ajuda baseadas nos Estados Unidos estavam colaborando para derrotar o governo e defender os interesses das empresas norte-americanas no país andino.

O telegrama, enviado da Embaixada dos EUA em Caracas em novembro de 2006, detalha como dúzias de organizações não governamentais (ONGs) recebem financiamento do governo dos Estados Unidos por intermédio do organismo oficial para o desenvolvimento USAID (US Agency for International Developement) e do Escritório para Iniciativas de Transição (Office for Transition Initiatives – OTI. Esse dispositivo inclui “mais de 300 organizações da sociedade civil venezuelana”, que vão desde defensores de inválidos até programas educativos.

Muitas das iniciativas tem aspecto aparentemente bem intencionado, como as de apoio a um grupo de pressão ambiental, e a um programa de coleta de lixo em Caracas.

Contudo, o apoio da USAI/OTI a esses grupos de aspecto tão benévolo faz parte de um projeto mais amplo que tem quatro vertentes.

O citado embaixador na Venezuela, William Brownfield, descreve os objetivos da Embaixada em última instância, a saber: “a infiltração na base política de Chávez... a divisão do chavismo...a proteção dos interesses vitais dos EUA.. [e] o isolamento internacional de Chávez”.

Segundo Brownfield, o “objetivo estratégico” de desenvolver as “organizações da sociedade civil” (sic) alinhadas com a oposição... representa a maior parte do trabalho da USAID/OTI na Venezuela.

Contudo, entre as dezenas de grupos mencionados no documento, aparecem também os suspeitos habituais no universo intervencionista estadunidense.

Segundo o documento, a OTI financiou com U$ 1.100.000 um programa da Freedom House na Venezuela, enquanto que Development Alternatives Inc. (DAÍ) concedia à esta subvenções num total de U$ 726.000 no próprio nome.

A DAÍ tem um longo histórico de atividades destinadas a debilitar os governos que se opõem à hegemonia dos EUA, e não é a primeira vez que suas operações na Venezuela levantam dúvidas.

Em 2002, a DAÍ colaborou com a Fundação Nacional para a Democracia (National Endowment for Democracy – NED) no financiamento de uma campanha de propaganda da extrema direita durante a greve patronal da indústria petrolífera em 2002, dirigida para derrubar o governo de Chávez.

Esses grupos estão sendo agora processados pela família de um subcontratista que foi preso em 2009 quando trabalhava em Cuba.

Alan Gross estava trabalhando em uma iniciativa da USAID para instalar sistemas de comunicação por satélite para uso civil, quando foi detido pelas autoridades cubanas por “atos contra a integridade do Estado”, e agora cumpre uma pena de prisão de 15 anos. Sua esposa, Judy Gross, acusa a DAÍ de tê-lo enganado e de não proporcionar-lhe uma formação adequada.

Documentos divulgados pela DAÍ diante do tribunal indicam, sem dar lugar a dúvidas, que a iniciativa da USAID e da DAÍ apresentava aspectos mais obscuros que os admitidos no primeiro momento.

Em 18 de janeiro, a DAÍ apresentou documentação relativa ao caso que demonstra que se estavam disponibilizando equipamentos de comunicações às comunidades com a finalidade de “proporcionar uma base de onde os cubanos pudessem desenvolver visões alternativas do futuro”.

Na sua apresentação diante da Corte, a DAÍ afirmou também que causa-lhe “profunda preocupação que o desenvolvimento deste dossiê durante a resolução deste litígio possa criar riscos significativos para a segurança nacional do governo dos EUA, sua política exterior e seus interesses nos direitos humanos”.

Em outras palavras, a DAÍ prefere manter em segredo seu programa em Cuba porque a segurança nacional tem prioridade sobre um subcontratista preso.

Como a DAÍ, a Freedom House prioriza as preocupações geopolíticas dos EUA acima dos direitos humanos.

Algumas das passadas façanhas da Freedom House incluem seu apoio à Guerra do Vietnam, sua oposição às iniciativas de integração dos EUA à Corte Penal Internacional , sua não condenação a Guantánamo, e seu recebimento de fundos da extrema direita, como os da Lynde & Harry Bradley Foundation.

Contudo, onde a Freedom House realmente mostra sua excelência é quando se trata de interferir em eleições, como em 2004 na Ucrânia.

Durante a campanha presidencial da Ucrânia, a Freedom House administrou fundos da Iniciativa de Cooperação Polônia-América-Ucrânia (PAUCI, por sua sigla em inglês), que supostamente financiou grupos que fizeram campanha a favor do candidato presidencial Victor Yuschenko.

Nesse momento, o porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Richard Boucher respondeu as acusações de que se estavam encaminhando fundos públicos para a campanha de Yuschenko com as seguintes declarações aos meios de comunicação: “Nosso dinheiro não vai para as mãos dos candidatos. Ele é distribuído para as instituições necessárias para levar a cabo uma eleição livre e justa”.

Uma dessas ONGs financiadas pelos EUA era o Centro Internacional de Estudos Políticos, de cuja junta diretiva Victor Yuschenco era membro.

Quando Brownfield escreveu o telegrama agora revelado em 2006, a Freedom House contava com o financiamento de U$ 1.100.000 em fundos da USAID e OTI para manter seu jogo na Venezuela.

Segundo seu site WEB, a Freedom House continua operando na Venezuela com a finalidade de “reforçar as instituições democráticas com a finalidade de melhorar a governabilidade democrática”.

Entre suas atividades mais recentes, incluem-se sua oposição às sentenças da Corte Suprema em janeiro e em março.

Em ambas as ocasiões, a Freedom House regurgitou sem críticas as interpretações da Constituição da Venezuela que a principal coalizão de oposição, a Mesa da Unidade Democrática (MUD).

Da mesma forma que nas eleições da Ucrânia em 2004, parece que a Freedom House decidiu centrar seus esforços no apoio ao seu candidato preferido, em vez de perseguir seu objetivo declarado de “reforçar as instituições democráticas”.

Como se ilustra no documento de WikiLeaks, a relação entre a Embaixada dos EUA em Caracas e grupos como Freedom House e DAÍ é estreita.

Em 2007, Brownfield foi acusado pelo governo de Hugo Chávez de interferir nos assuntos internos da Venezuela. Em 5 de março deste ano, dia em que Chávez falecia, dois funcionários da embaixada dos EUA foram expulsos depois que o governo os acusou de tratar de fomentar outro golpe.

Não há dúvidas de que existe um imperativo comum para pôr fim à revolução, seja através da violência ou das aparentemente inocentes atividades da “sociedade civil”.

Embora os métodos variem, há uma constante no enfoque de Washington sobre a Venezuela: conseguir a mudança de regime a todo custo e voltar à relação neocolonial dos anos anteriores à Chávez.

(*) Ryan Mallett-Outtrim é jornalista de Green Left Weekly, residente en Mérida, Venezuela

Fonte: http://www.rebelion.org/noticia.php?id=167323

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