quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Reunidos no próximo Conclave, os cardeais apenas escolherão o novo pontífice: não serão capazes de salvar a Igreja.

Via Jornal do Brasil

Eis o Homem

“Para isso é preciso voltar ao Concílio Vaticano II e ir muito além; é preciso retornar à fraternidade primitiva dos cristãos. Cristo, dizem-nos os Evangelhos, recomendou, ao moço que queria segui-l'O, que antes se desfizesse de seus bens, distribuindo-os aos pobres.”

Mauro Santayana

A mais forte frase do Evangelho é a de Pilatos, ao exibir Cristo, ensanguentado e humilhado ao extremo pelos seus algozes, à  multidão enfurecida: "Eis o homem". Como outras passagens dos textos que a fé autêntica — mais do que as provas históricas — as duas palavras ditas em latim, pronunciadas por um romano, são, em si mesmas, todo um enunciado teológico.  Pilatos não mostrava um criminoso, nem um inimigo de Roma, mas o homem. Cristo não era um homem qualquer, em sua individualidade, mas O Homem, ser coletivo e único no conjunto da vida, dotado da consciência do bem e do mal.

Pilatos, evidentemente, não tinha essa clareza do significado. Queria dizer apenas que se era Cristo  quem eles queriam, ali estava o homem, para que decidissem entre ele e Barrabás.  Em um só homem frágil, açoitado e vilipendiado, estava todo o Mistério e todo o poder da Vida.

Sobre a fragilidade física de Cristo é que deviam fundar-se todas as Igrejas cristãs

O cristianismo se funda na absoluta fragilidade dos seres humanos. Um poema anônimo espanhol do século 16 vai à mesma verdade. O poeta desdenha o oportunismo medieval que, em nome de Cristo, ameaça com o inferno e promete o céu, e vai ao núcleo da sua fé: “Tú me mueves, Señor, muéveme el verte / clavado en una cruz y escarnecido,/ muéveme ver tu cuerpo tan herido/ muévenme tus afrentas y tu muerte.

Sobre essa emblemática fragilidade física, que chega a comprometer a resistência do espírito nos momentos finais, em que o Crucificado se queixa do Pai, por tê-l'O abandonado aos carrascos, é que deviam fundar-se todas as Igrejas cristãs — a Católica e as que, em protesto pelos seus desmandos no alvorecer do século 16, surgiram como falsas restauradoras da fé primitiva.

Instituição política, estabelecida na velha associação entre o poder temporal e o senso do Absoluto, a Igreja se pretende eterna. Ora, os 16 séculos de sua existência não são tanto tempo assim na História.  O cristianismo não é  seita judaica, nem  religião monoteísta como as outras. Sua mensagem é mais do que o alento à consciência de mortalidade dos homens: é necessária para que possamos construir aqui — e agora — o nosso pleno destino. Nesse mandamento, esquecido, está a salvação da espécie humana e, provavelmente, a salvação de toda a vida no planeta.

É preciso voltar ao Concílio Vaticano II e retornar à fraternidade primitiva dos cristãos

A Igreja se encontra, nestes dias, como o pecador junto ao confessionário — e o sacerdote que a ouve é a consciência do mundo. Para purgar os seus pecados não bastam as preces de contrição. Reunidos no próximo Conclave, os cardeais apenas escolherão o novo pontífice: não serão capazes de salvar a Igreja. Só os cristãos autênticos, aqueles que entenderam a frase enigmática de Pilatos, poderão salvá-la, participem ou não da Hierarquia. Para isso é preciso voltar ao Concílio Vaticano II e ir muito além; é preciso retornar à fraternidade primitiva dos cristãos. Cristo, dizem-nos os Evangelhos, recomendou, ao moço que queria segui-l'O, que antes se desfizesse de seus bens, distribuindo-os aos pobres.

É um conselho, a ser seguido pelo Vaticano e pelas ricas dioceses espalhadas na Terra. E por todas as outras confissões que também se dizem cristãs e da mesma forma se afastaram do Nazareno.

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