sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Continuarão falando de “jornalistas independentes”, agora que serão dirigidos em Cuba por um ex-agente da CIA?

Via Rebelion

José Manzaneda

Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti

Os grandes meios internacionais continuam apresentando como “jornalistas independentes” os que, de Cuba se reportam à imprensa estrangeira, mas na realidade são contratados e pagos pelo governo dos Estados Unidos (1).

Boa parte dos 115 presos cubanos que o governo da ilha libertou entre 2010 e 2011, após um Acordo Humanitário com a Igreja Católica e o governo anterior da Espanha, foram então apresentados pelos meios internacionais como “jornalistas independentes”, que tinha sido punidos em Cuba por seus conteúdos informativos críticos(2). Contudo, os meios que assim os apresentaram convenientemente se calaram sobre para quem eles trabalhavam e que os pagava(3).

Há alguns dias, o jornalista norte-americano Tracey Eaton, em seu blog sobre Cuba “Along the Malecon”, dava a conhecer uma nova evidência de que a “imprensa independente” cubana era altamente dependente do Governo que bloqueava seu próprio país. Tracey Eaton tornava pública a contratação, por parte da Seção de Interesses dos Estados Unidos em Havana (SINA), a embaixada virtual, da Dan Gabriel, um ex-membro da CIA que trabalhou no Iraque e no Afeganistão(4) (5). Sua função será contratar, dirigir e pagar os referidos “jornalistas independentes” de Cuba.

Esse ex-agente da CIA, especialista em comunicações, relações públicas, redes sociais de Internet e ciberguerra, deverá coordenar uma equipe de uns 10 “jornalistas independentes” cubanos que, por sua vez, cumprirão um programa de trabalho bem definido: deverão gerar ao menos “cinco histórias por semana, incluindo pacotes de notícias em vídeo (de) entre dois e cinco minutos, imagens brutas, (...), gravar eventos, entrevistas e fragmentos de som, (...), fotos, (...), de acordo com o preço programado”.

Desde a década de 90 o escritório diplomático dos EUA na capital cubana, a SINA, tem se dedicado a capacitar e financiar, desde sua sede, a esta chamada “imprensa independente”(6). O objetivo: fabricar as notícias adequadas que, posteriormente, recorrerão o mundo através dos grandes meios, apresentando Cuba como um país fracassado, repressivo e com a necessidade de que – finalmente – intervenham nele. Já em 1993 era fundado, na própria SINA a chamada “Associação de Jornalistas Independentes”, que foi então apresentada à imprensa estrangeira por um diplomata norte-americano, dando prova assim de seu particular conceito de “independência”(7).

O citado ex-agente da CIA, Daniel Gabriel, trabalhou 10 anos em ações encobertas da agência, e chegou a completar seis visitas ao Afeganistão e ao Iraque, em apoio das chamadas “Operação Liberdade Duradoura” e “Operação Liberdade Iraquiana”, ou seja, dando cobertura de propaganda às invasões militares em ambos os países, com um saldo – recordemos -, de centenas de milhares de mortos .

Ainda há quem negue que os referidos “jornalistas independentes” cubanos sejam peões pagos por Washington dentro da sua estratégia de intervenção em Cuba. Também há, ainda, as que assinalam como uma violação da liberdade de imprensa a aplicação, a essas pessoas, das sanções penais previstas nas leis anti-ingerência, muito parecidas, - certamente – às que existem nos EUA e Europa(8). Contudo, evidências como as trazidas à luz pelo jornalista Tracey Eaton fazem com que cada dia sejam menos.

Notas

(1) http://www.elnuevoherald.com/2012/09/21/1305606/sip-pide-liberacion-de-periodista.html

(2) http://www.diarioelaguijon.com/noticia/1198/CIUDADANOS/Se-suicida-desesperado-un-antiguo-preso-politico-cubano-exiliado-en-Espana.html

(3) http://www.cubainformacion.tv/index.php?Itemid=86&id=16175&option=com_content&task=view

(4) http://alongthemalecon.blogspot.com/2012/11/ex-cia-agent-leads-new-team-of.html

(5) http://lapupilainsomne.wordpress.com/2012/11/19/agente-de-la-cia-con-experiencia-en-iraq-y-afganistan-dirige-periodistas-independientes-en-cuba/

(6) http://islamiacu.blogspot.com.es/2012/11/experto-de-la-cia-dirigira-equipo-de.html

(7) http://cambiosencuba.blogspot.com/2009/03/ni-periodistas-ni-independientes.html

(8)http://www.cubainformacion.tv/index.php?option=com_content&view=article&id=14168:iaplicamos-la-legislacion-de-otros-paises-a-los-disidentes-cubanos&catid=61&Itemid=65

Veja o vídeo cujo roteiro é este texto e coloque seus comentários

http://www.cubainformacion.tv/index.php/lecciones-de-manipulacion/46833-%C2%BFSeguiran-hablando-de-%60periodistas-independientes%C2%B4-ahora-que-seran-dirigidos-en-Cuba-por-un-exagente-de-la-CIA

José Manzaneda é coordenador de Cubainformación

Fonte: http://www.rebelion.org/noticia.php?id=159663&titular=%BFseguir%E1n-hablando-de-%22periodistas-independientes%22-ahora-que-ser%E1n-dirigidos-en-cuba-por-un-exagente-de-

Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti

A hora da verdade para Lula e o PT

Imagem original do Ricardo Kotscho foi substituída por essa do bloguezinho mequetrefe.

Via Balaio do Kotscho

 

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Caros leitores,

pelos comentários enviados até agora, dá para perceber como o tema do texto abaixo provocou opiniões polêmicas, com muitos discordando de mim, o que só mostra duas coisas: a riqueza da democracia e do debate na internet, em que não há espaço para a unanimidade, ao contrário do que ocore com o pensamento único da grande imprensa.

Só esqueci de responder uma coisa ao leitor Fernando Aleador, que me levou a escrever este post: imparcialidade não existe no jornalismo.

Todos os jornalistas e donos de meios de comunicação têm lado. Só escrevo o que penso e sinto, sem pedir licença nem querer agradar ou desagradar a ninguém.

Nem precisava dizer isso para quem acompanha meu trabalho há quase 50 anos, mas para os que estão chegando agora é bom repetir: meu lado é o do Lula, do PT e o da maioria do povo brasileiro, que venceu 500 anos de opressão e hoje vive num país melhor e mais justo.

Ricardo Kotscho

***

"Por que o bloguista inexplicavelmente não conta nada sobre Rosemary e o possível envolvimento do ex-presidente Lula em algumas operações ilícitas? Aonde está a sua imparcialidade de jornalista?", pergunta o leitor Fernando Aleador, em comentário enviado às 04h57 desta sexta-feira.

Tem toda razão o leitor.

Demorei para escrever e dar esta resposta porque, para mim, estes últimos foram os dias mais difíceis da minha já longa carreira, posto que os fatos envolvem não só velhos amigos meus, como é do conhecimento público, mas um projeto político ao qual dediquei boa parte da minha vida.

Simplesmente, não sabia mais o que dizer. Ao mesmo tempo, não podia brigar com os fatos nem aderir à guerra de extermínio de reputações e de desmonte da imagem do ex-presidente Lula e do PT que está em curso nos últimos meses.

A propósito, escrevi no começo de novembro um texto que se mostrou premonitório sob o título "O alvo agora é Lula na guerra sem fim", quando o STF consumou a condenação dos ex-dirigentes do PT José Dirceu, José Genoíno e Delúbio Soares.

De uma hora para outra, a começar pelo julgamento do mensalão, até chegar às revelações da Operação Porto Seguro, o que era um projeto vitorioso de resgate da cidadania reconhecido em todo o mundo levou um tiro na testa e foi jogado na sarjeta das iniquidades.

"O que me intriga é saber por que agora, por que assim e por que tamanha insistência. É claro que o esforço para acabar com a corrupção é legítimo e louvável, mas não terminaram recentemente de sangrar o PT até a entrada do necrotério? Quem estaria sedento por mais?", pergunta-se a colunista Barbara Gancia, na edição de hoje da Folha, e são exatamente estas as respostas que venho procurando para entender o que está acontecendo.

Talvez elas estejam na página A13 do mesmo jornal, em que se lê: "FHC acusa Lula de confundir interesses públicos e privados". Em discurso num evento promovido pelo PSDB no Jóquei Clube de São Paulo, na quinta-feira, o ex-presidente pontificou, mesmo correndo o risco de falar de corda em casa de enforcado:

"Uma coisa é o governo, a coisa pública, outra coisa é a família. A confusão entre seu interesse de família ou seu interesse pessoal com o interesse público leva à corrupção e é o cupim da democracia".

Sem ter o que propor ao eleitorado, após sofrer três derrotas consecutivas nas eleições presidenciais, e perder até mesmo em São Paulo na última disputa municipal, o PSDB e seus alíados na mídia e em outras instituições nacionais agora partem para o vale-tudo na tentativa desesperada de eliminar por outros meios o adversário que não conseguem vencer nas urnas.

Nada disso, porém, exime o ex-presidente Lula e o PT de virem a público para dar explicações à sociedade porque não dá mais para fazer de conta que nada está acontecendo e tudo se resume a uma luta política, que é só dar tempo ao tempo.

A bonita história do partido, que foi fundamental na redemocratização do país, e a dos milhões de militantes que ajudaram a levar o PT ao poder merecem que seus líderes venham a público, não só para responder a FHC e às denúncias sobre a Operação Porto Seguro publicadas diariamente na imprensa, mas para reconhecer os erros cometidos e devolver a esperança a quem acreditou em seu projeto político original, baseado na ética e na igualdade de oportunidades para todos.

Chegou a hora da verdade para Lula e o PT.

É preciso ter a grandeza de vir a público para tratar francamente tanto do caso do mensalão como do esquema de corrupção denunciado pela Operação Porto Seguro, a partir do escritório da Presidência da República em São Paulo, pois não podemos eternamente apenas culpar os adversários pelos males que nos afligem. Isso não resolve.

Mais do que tudo, é urgente apontar novos caminhos para o futuro, algo que a oposição não consegue, até porque não há alternativas ao PT no horizonte partidário, para uma juventude que começa a desacreditar da política e precisa de referências, como eu e minha geração tivemos, na época da luta contra a ditadura.

Conquistamos a democracia e agora precisamos todos zelar por ela.

Até os moderados enterram o PT em cova rasa

Via CartaCapital

Mino Carta

Dizia um velho e caro amigo que a corrupção é igual à graxa das engrenagens: nas doses medidas põe o engenho a funcionar, quando é demais o emperra de vez. Falava com algum cinismo e muita ironia. Está claro que a corrupção é inaceitável in limine, mas, em matéria, no Brasil passamos da conta.

Permito-me outra comparação. A corrupção à brasileira é como o solo de Roma: basta cavar um pouco e descobrimos ruínas. No caso de Roma, antigos, gloriosos testemunhos de uma grande civilização. Infelizmente, o terreno da política nativa esconde outro gênero de ruínas, mostra as entranhas de uma forma de patrimonialismo elevado à enésima potência.

Constatação. Apresentamos o verdadeiro relator da CPI do Cachoeira. Foto: Monique Renne/ D.A Press

A deliberada confusão entre público e privado vem de longe na terra da casa-grande e da senzala e é doloroso verificar que, se o País cresce, o equívoco fatal se acentua. A corrupção cresce com ele. Mais doloroso ainda é que as provas da contaminação até os escalões inferiores da administração governamental confirmem o triste destino do PT. No poder, porta-se como os demais, nos quais a mazela é implacável tradição.

Assisti ao nascimento do Partido dos Trabalhadores ainda à sombra da ditadura. Vinha de uma ideia de Luiz Inácio da Silva, dito Lula, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo até ser alvejado por uma chamada lei de segurança nacional. A segurança da casa-grande, obviamente.

Era o PT uma agremiação de nítida ideo­logia esquerdista. O tempo sugeriu retoques à plataforma inicial e a perspectiva do poder, enfim ao alcance, propôs cautelas e resguardos plausíveis. Mantinha-se, porém, a lisura dos comportamentos, a limpidez das ações. E isso tudo configurava um partido autêntico, ao contrário dos nossos habituais clubes recreativos.

O PT atual perdeu a linha, no sentido mais amplo. Demoliu seu passado honrado. Abandonou-se ao vírus da corrupção, agora a corroê-lo como se dá, desde sempre com absoluta naturalidade, com aqueles que partidos nunca foram. Seu maior líder, ao se tornar simplesmente Lula, fez um bom governo, e com justiça ganhou a condição de presidente mais popular da história do Brasil. Dilma segue-lhe os passos, com personalidade e firmeza.CartaCapital apoia a presidenta, bem como apoiou Lula. Entende, no entanto, que uma intervenção profunda e enérgica se faça necessária PT adentro.

Tempo perdido deitar esperança em relação a alguma mudança positiva em relação ao principal aliado da base governista, o PMDB de Michel Temer e José Sarney. E mesmo ao PDT de Miro Teixeira, o homem da Globo, a qual sempre há de ter um representante no governo, ou nas cercanias. Quanto ao PT, seria preciso recuperar a fé e os ideais perdidos.

Cabe dizer aqui que nunca me filiei ao PT como, de resto, a partido algum. Outro excelente amigo me define como anarcossocialista. De minha parte, considero-me combatente da igualdade, influenciado pelas lições de Antonio Gramsci, donde “meu ceticismo na inteligência e meu otimismo na ação”. Na minha visão, um partido de esquerda adequado ao presente, nosso e do mundo, seria de infinda serventia para este País, e não ouso afirmar social-democrático para que não pensem tucano.

O PT não é o que prometia ser. Foi envolvido antes por oportunistas audaciosos, depois por incompetentes covardes. Neste exato instante a exibição de velhacaria proporcionada pelo relator da CPI do Cachoeira, o deputado petista Odair Cunha, é algo magistral no seu gênero. Leiam nesta edição como se deu que ele entregasse a alma ao demônio da pusilanimidade. Ou ele não acredita mesmo no que faz, ou deveria fazer?

Há heróis indiscutíveis na trajetória da esquerda brasileira, poucos, a bem da sacrossanta verdade factual. No mais, há inúmeros fanfarrões exibicionistas, arrivistas hipócritas e radical-chiques enfatuados. Nem todos pareceram assim de saída, alguns enganaram crédulos e nem tanto. Na hora azada, mostraram a que vieram. E se prestaram a figurar no deprimente espetáculo que o PT proporciona hoje, igualado aos herdeiros traidores do partido do doutor Ulysses, ou do partido do engenheiro Leonel Brizola, ­obrigados, certamente, a não descansar em paz.

Seria preciso pôr ordem nesta orgia, como recomendaria o Marquês de Sade, sem descurar do fato que algo de sadomasoquista vibra no espetáculo. Não basta mandar para casa este ou aquele funcionário subalterno. Outros hão de ser o rigor, a determinação, a severidade. Para deixar, inclusive, de oferecer de graça munição tão preciosa aos predadores da casa-grande.

Argentina inicia maior julgamento de 'guerra suja' da ditadura militar

Via BBC

Ativistas diante da corte argentina, nesta quarta, com foto de Rodolfo Walsh, jornalista que desapareceu durante o regime militar (Reuters)

Milhares de pessoas (como Rodolfo Walsh, em foto carregada por ativistas) desapareceram no regime argentino

A Justiça argentina deu início nesta quarta-feira a audiências do maior julgamento de crimes cometidos durante a chamada "guerra suja", entre 1976 e 1983, no regime militar do país.

Sessenta e oito ex-oficiais enfrentam quase 800 acusações de sequestro, tortura e assassinato associadas à escola naval de elite do país, a Escola Mecânica da Armada (Esma), que abrigou um centro de detenção clandestino.

Entre os réus está Alfredo Astiz, conhecido como o "anjo loiro da morte", e oito pilotos dos chamados "voos da morte", em que corpos de prisioneiros políticos eram atirados de aviões no rio da Prata e no oceano Atlântico. O julgamento pode durar dois anos.

Dezenas de milhares de argentinos foram sequestrados e mortos pela junta militar que governou o país. Cinco mil deles foram detidos na Esma, em Buenos Aires. Poucos sobreviveram, e muitos corpos jamais foram recuperados.

Voos da morte

Pela primeira vez, a Argentina julgará os pilotos dos voos da morte, incluindo o ex-tenente Julio Poch, extraditado da Espanha à Argentina em 2010 após supostas confissões.

Outro réu é o ex-capitão da Marinha Emir Sisul Hess, que supostamente contou a parentes das vítimas como estas "caíam como formigas" de seu avião.

O julgamento é parte de uma série de iniciativas legais da Argentina contra militares associados à ditadura.

As iniciativas começaram em 1983, após a queda do regime, mas o presidente Raúl Alfonsín encerrou os julgamentos em 1986, argumentando que o país precisava olhar ao futuro e não ao passado.

Idas e vindas da Justiça

1976: Um golpe militar derruba a presidente Isabel Martínez de Perón

1983: Raúl Alfonsín é eleito presidente após o colapso da ditadura

1985: Gen. Jorge Videla é condenado

1986: Lei de anistia garante imunidade a militares

1990: Presidente Carlos Menem dá indulto ao general Videla e a outros oficiais

2003: Leis de anistia são revogadas

2010: Videla volta a ser condenado

Três leis de anistia a crimes cometidos na "guerra suja" foram aprovadas em 1986 e 1987. Elas foram revogadas em 2003. Desde então, diversas altas figuras do regime foram condenadas, incluindo os presidentes Jorge Videla e Reynaldo Bignone.

O general Videla já havia sido condenado por homicídio, tortura e sequestro em 1985, mas recebeu indulto do então presidente Carlos Menem em 1990.

Alfredo Astiz também foi condenado, no ano passado, por ter participado da infiltração de grupos esquerdistas e sua delação ao regime.

Maior julgamento

Outros oficiais da Esma já foram julgados previamente, mas o julgamento iniciado nesta quarta "será o maior de crimes cometidos contra a humanidade", disse à Associated Press o advogado de direitos humanos Rodolfo Yanzón.

"Há 68 réus e estimadas 900 testemunhas."

Entre as testemunhas está Graciela Palacio Lois, cujo marido, Ricardo, nunca retornou de um encontro da Juventude Peronista em 1976.

Ela se diz nervosa. "Uma coisa é olhar para eles (réus) do outro lado do vidro. Outra coisa é sentar no banco de testemunhas com eles na sua frente."

A festa dos inocentes

Sanguessugado do Gilvan Rocha

Parodiando Herbert Marcuse, poderíamos afirmar que a massa do povo, incluindo-se, é claro, a tão falada massa proletária, se encanta com pequenos ganhos obtidos no seu dia-a-dia, sejam esses ganhos fruto de sua luta ou obtidos como dádiva “generosa” dos senhores do poder.

Um diminuto espaço para morar, uma geladeira, um freezer, uma TV LCD e, (suprema felicidade!) um automóvel, são elementos suficientes para levar as camadas populares ao conformismo e à fácil cooptação política pela classe ora dominante.

Tal comportamento das massas populares não é próprio apenas do Brasil, e sim, de todos os recantos do mundo. Aqui, tivemos o exemplo patente do populismo lulo-petista, oferecendo ao capitalismo a paz social para que pudesse usufruir grandes lucros sem nenhuma ameaça.

Respeitando os pilares fundantes da política econômica implantada pelo Plano Real, o lulo-petismo teve condições de implementar algumas políticas sociais que implicaram em pequenas melhorias na condição de vida das massas e isso tem sido razão para que elas levem a cabo a festa dos inocentes que se expressou na vitória eleitoral da candidata Dilma Rousseff em 2010 à Presidência da República e a de Fernando Haddad a prefeito de São Paulo.

Não percebe o povo, incluindo-se, como já foi dito, a massa proletária, que ele tem direitos históricos muito maiores do que as migalhas que lhe são ministradas pelo sistema capitalista no Brasil através do governo lulo-petista. Não percebe, que do ponto de vista histórico, tem o povo o direito supremo de libertar-se dos grilhões de um sistema cuja alma é a busca incessante de lucros e foi, justamente o lucro, medula do capitalismo, que foi assegurado à burguesia, nesses últimos anos, especialmente na gestão petista, que tão bem se aproveitou o velho sistema.

Diante desses fatos, resta-nos a nós, socialistas revolucionários, a tarefa de despertar as massas populares de sua inocência e nunca acalentar suas fantasias como tem feito o PT, o PCdoB e o PSB que funcionam como o braço esquerdo do sistema.

O BRASIL E A PEC DA INDÚSTRIA NACIONAL

Sanguessugado do Mauro Santayana

 

  (Carta Maior) -       O deputado Assis Melo, do PCdoB do Rio Grande do Sul, conseguiu aprovar, na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados, proposta de emenda constitucional  que restaura o artigo 170, da Constituição Federal de 1988. É o dispositivo que define o que é empresa brasileira e o que é empresa nacional, distinguindo ambas das empresas estrangeiras e multinacionais.

         Nem todos se lembram, hoje, da Comissão de Estudos Constitucionais que, sob a presidência do professor Afonso Arinos, elaborou proposta de anteprojeto da Constituição de 1988. Poucos – e sou um dos privilegiados – têm em seu poder o texto entregue solenemente ao Presidente Sarney, em 1986. Nele se encontram os dispositivos mais importantes que os constituintes acolheriam no documento a que Ulysses Guimarães deu o nome de Constituição Cidadã.

        Como membro daquele grupo - e pelo dever de ofício, por ter sido seu secretário executivo -  registro que a defesa do interesse nacional prevaleceu, e de longe, nas discussões e na redação final do anteprojeto. E entre os mandamentos que propúnhamos, houve um contra o qual ninguém se opôs, ainda que houvesse entre nós conservadores notórios e empresários associados a empreendedores estrangeiros. Trata-se do artigo 323, de nossa proposta, assim como foi redigido, por Barbosa Lima Sobrinho e aprovado por todos:

“Só se considerará empresa nacional, para todos os fins de direito, aquela cujo controle de capital pertença a brasileiros e que, constituída e com sede no País, nele tenha o centro de suas decisões”.

         Os constituintes partiram da sugestão de Barbosa Lima Sobrinho e aprovaram os seguintes dispositivos, no texto original, de 5 de outubro de 1988:

“Art. 171. São consideradas:

    I -  empresa brasileira a constituída sob as leis brasileiras e que tenha sua sede e administração no País;

    II -  empresa brasileira de capital nacional aquela cujo controle efetivo esteja em caráter permanente sob a titularidade direta ou indireta de pessoas físicas domiciliadas e residentes no País ou de entidades de direito público interno, entendendo-se por controle efetivo da empresa a titularidade da maioria de seu capital votante e o exercício, de fato e de direito, do poder decisório para gerir suas atividades.

§ 1º A lei poderá, em relação à empresa brasileira de capital nacional:

    I -  conceder proteção e benefícios especiais temporários para desenvolver atividades consideradas estratégicas para a defesa nacional ou imprescindíveis ao desenvolvimento do País;

    II -  estabelecer, sempre que considerar um setor imprescindível ao desenvolvimento tecnológico nacional, entre outras condições e requisitos:

a) a exigência de que o controle referido no inciso II do caput se estenda às atividades tecnológicas da empresa, assim entendido o exercício, de fato e de direito, do poder decisório para desenvolver ou absorver tecnologia;

b) percentuais de participação, no capital, de pessoas físicas domiciliadas e residentes no País ou entidades de direito público interno.

§ 2º Na aquisição de bens e serviços, o poder público dará tratamento preferencial, nos termos da lei, à empresa brasileira de capital nacional”.

Em obediência ao Consenso de Washington, uma das primeiras iniciativas do governo entreguista e antinacional de Fernando Henrique Cardoso foi a de promover, em agosto de 1995 – oito meses depois da posse – a supressão do artigo 170, acima transcrito, e que definia o que se poderia considerar empresa brasileira e empresa nacional. Com isso, qualquer empresa que se organizasse no Brasil, como tantas o fizeram, e continuam a fazer, como subsidiária de sua matriz estrangeira tem o mesmo tratamento das empresas realmente nacionais.

    O então presidente abria caminho, com essa emenda, para o crime maior, o da privatização das empresas públicas. Com criminoso cinismo, as empresas estrangeiras que adquiriram o controle das empresas estatais brasileiras foram financiadas com o dinheiro do FAT (Fundo de Amparo aos Trabalhadores) administrado pelo BNDES. A primeira providência dessas empresas foi o da “reengenharia” administrativa, com a demissão de milhares de trabalhadores. Eles haviam financiado, com o FAT, a sua própria miséria.

    Com o desastre que o neoliberalismo provocou no mundo e atinge agora os países centrais que supunham ganhar com a globalização, o Congresso tem a sua oportunidade de se redimir da vergonhosa capitulação de há 17 anos.

    O momento é favorável a que a emenda do deputado Assis Melo tenha trâmite rápido no Congresso, para que não ocorra, de novo aqui o que está ocorrendo com os povos europeus. É também um teste para a maioria parlamentar e para o próprio governo. Se a emenda do parlamentar gaúcho  for rejeitada, o grande vencedor virá a ser  o agente ostensivo, no Brasil,  da ordem neoliberal – Fernando Henrique Cardoso.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Solidariedade ao Ornitorrinco e ao German: Fé obtusa dá nisso: crentes de merda não querem que seus filhos brinquem com meu neto

Sanguessugado do Ornitorrinco

PAULO R. CEQUINEL

Eu já havia falado sobre o ateísmo de German, meu formidável e inoxidável neto que vive aqui em casa.

Pois hoje, completa e justamente puto dentro das calças, contou-me o piazote que pais de alguns de seus amigos aqui do bairro proibiram que seus filhos brincassem com ele por ser ateu, condição que proclama sempre que acha necessário.

E há quem exija que eu respeite estas montanhas de merda fedida que são as religiões.

É obvio que meu ateísmo influenciou o meu menino, é óbvio que ele prestou atenção em mim. Mas eu nunca disse a ele que não fosse amigo de quem acredita em deus, o patifão esfumaçado, nunca disse a ele para não brincar com crianças que acreditam num deus tão completamente apatifado.Mas os merdas obtusos, os merdas que falam nesta coisa abjeta e inexistente chamada "amor de deus", ah, estes cocozões são capazes de separar crianças em nome deste patife esfumaçado, deste patife filho da puta que vocês, cristãos, chamam de deus.

Tenho nojo derramado e definitivo desta fé obtusa que os impele a discriminar meu neto que, exatamente como seus filhos, estava apenas querendo brincar, seus merdas.Vocês são completamente doentes, vão para a PUTA QUE OS PARIU!

Termino dizendo que German - ele me contou - disse aos meninos que amigos de verdade são amigos mesmo que não acreditem em deus, o que é prova acabada e robusta de que ele entendeu o sentido mesmo da vida, da amizade e do amor.

Permitam-me, cristãos de merda: meu neto está aprendendo a ser parte do mundo sendo o que é e aceitando quem dele discorda e aceitando a diferença. 

Vocês, obtusamente doentios, enfiarão seus filhos não no mundo, mas em igrejas de intolerância, de ódio, de exclusão e de violência.German Martins da Rocha, este seu avô destrambelhado está aqui com você. Incondicionalmente

Nós amamos. Eles odeiam. Eles que se fodam em cristo!

Ainda goteja a fonte do crime!

Sanguessugado do Palavras Insurgentes

Elaine Tavares

Foi num 29 de novembro. Reunião da ONU. 1947. Bem longe da Palestina, onde Fátima colhia azeitonas, Marta recolhia as folhas do quintal e Rachid tomava seu chá de maravia à sombra do alpendre da casa simples. Eles não sabiam, mas naquele dia estava sendo decidido seus destinos. Destino de violência, morte e dor. Havia acabado a segunda grande guerra, guerra feia, dura, grotesca. Nela, o governo alemão tinha promovido o massacre do povo judeu, dos ciganos e de outras gentes que apareciam à seus olhos como “diferentes”. Os judeus foram os mais atingidos, em função do grande número. Foi um holocausto. Por conta disso, no fim da guerra, os vencedores, comandados pelos Estados Unidos decidiram que havia de dar uma terra essa gente oprimida, roubada e esfacelada.

O lugar escolhido para a criação de um estado judeu foi a região da Palestina, por ali estar também o núcleo originário do povo hebreu. Naquele espaço haviam nascido as 12 tribos de Judá e era para onde os judeus sonhavam voltar. Mas, esse desejo nunca foi discutido ou compartilhado com as gentes que ali viviam há outras centenas de anos, os palestinos. Então, numa decisão vinda de cima para baixo, os 57 países que conformavam a ONU naquele então decidiram entregar 57% do território palestino para a formação do Estado de Israel. O argumento era de que lá não havia gente, era deserto, portanto, livre para ser ocupado. Mas, essa não era a verdade. Ali viviam milhares de seres, tal qual Fátima, Marta e Rachid. Ainda assim, numa sessão dirigida pelo brasileiro Osvaldo Aranha – qualificado por Alfredo Braga como um desonesto - 25 países votaram pelo sim, 13 foram contra e 17 se abstiveram. Nascia então, por desejo dos vencedores da grande guerra, o estado de Israel. Já para os palestinos, aquele dia ficou conhecido como o "dia da catástrofe".

Contam os historiadores que, naqueles dias que antecederam a votação – bastante tumultuada – diplomatas receberam cheques em branco, outros foram ameaçados e as mulheres dos políticos receberam casacos de visom. Portanto, foi alavancado na corrupção que vingou Israel.

A proposta da ONU foi de metade do território, o que deixa bem claro que todos sabiam que aquela não era uma terra vazia. A conversa nos corredores é de que também seria criado um Estado Palestino e cada povo seguiria seu rumo. Para os que viviam na terra doada aos judeus, os meses que se seguiram foi de terror. Famílias inteiras tiveram de deixar suas casas, seu olivais, sua história. A maioria foi desalojada na força, e muitos não entendiam o que se passava. Como suas terras tinham sido doadas? Naqueles tristes dias de nada adiantou o grito da gente palestina, não se soube dos mortos, nem da destruição. A informação demorava a chegar nos lugares. Quando o mundo se deu conta do terror, já era tarde demais.

Tão logo se instalou, o governo israelense decidiu ampliar seus domínios. Não aceitou a metade, queria mais e abocanhou, na força das armas, 78% do território. os palestinos tiveram de migrar, abandonar suas vidas e tudo o que era seu. O Estado da Palestina nunca foi criado.

Todo o terror imposto por Israel ao povo palestino não terminou por aí. No ano de 1967, o governo sionista, de novo com a força dos canhões, expandiu ainda mais o território em busca do domínio das regiões mais férteis, passando a ocupar mais de 80% da área,  massacrando outras tantas milhares de famílias palestinas.

Ao longo desses anos todos, por várias vezes Israel arremeteu contra o povo palestino, numa tentativa de dizimar a população. Sem conseguir, decidiu criar então um imenso campo de concentração à céu aberto. Praticamente todo o território ocupado por palestinos está cercado por enormes muros de concreto. As pessoas vivem como prisioneiras, muitas famílias foram separadas e não podem mais se ver. Muitos são os documentários que mostram as famílias se comunicando através dos muros e cercas de arame farpado, aos gritos, sem poderem se abraçar.

Nos últimos dias, Israel começou nova escala de violência, com bombardeios à Faixa de Gaza, onde se concentram os palestinos. O argumento que a televisão e as empresas de jornalismo passam é o que fala de "direito de defesa" de Israel. Vendem a ideia de que é esse estado militarizado e terrorista o que está sendo agredido.

Ora, qualquer pessoa de mediana inteligência sabe que a força de um menino com uma pedra é abissalmente inferior a de um canhão ou mísseis teleguiados. Israel quer destruir o povo palestino, quer "limpar a área", região absolutamente estratégica para a proposta de poder dos Estados Unidos, principal parceiro de Israel nesse massacre continuado.

A resposta dos palestinos é a resposta dos desesperados. Pessoas como Fátima, Rachid, Hadija ou Kaleb nada mais querem do que viver suas vidas, estudar, sonhar com algum amor, casar, ter filhos, comer azeitonas no cair da tarde. Uma vida como a de qualquer ser humano no mundo. Mas, eles não podem fazer isso. Estão continuamente humilhados,  ameaçados pelas balas, pelos soldados, pelos tanques, pelos bombardeios. Vivem em alerta 24 horas no dia. Quando podem, reagem. Com pedras, com bombas caseiras, com autoimolação. Sim, respondem às vezes com violência extrema, mas nada menos do que o que aprendem no cotidiano de uma vida de prisioneiro em sua própria casa, acossado pelo exército invasor.

Agora, nesses dias, as famílias palestinas estão vendo morrer seus filhos, crianças despedaçadas, jovens estraçalhados. Morrem mães e pais, avós, gente simples, que está no quintal varrendo as folhas. Garotinhos que brincam nas ruas de terra. Não são terroristas, nem carregam armas. São pessoas comuns, calejadas na opressão. Não é uma guerra, onde se batem os exércitos. É um genocídio, um massacre, no qual perecem as pessoas comuns.

Pelo mundo inteiro gritam as gentes, as imagens de dor se espalham pela internet, o mundo inteiro sabe o que acontece  no imenso campo de concentração que Israel criou. Mas, toda a ação das gente é inútil. As bombas seguem caindo, armas químicas são usadas (o fósforo, que queima inteira a pessoa) e o que se vê são os governantes do chamado "mundo livre" apoiando a ação de Israel. Os Estados Unidos, que invadiu o Iraque por uma "suspeita" de que estavam fabricando armas químicas por lá, observa o uso das mesmas sobre os palestinos e diz que é um "direito de defesa" de Israel. Ou seja, se quem usa armas químicas é amigos dos EUA, está tudo bem. Hipocrisia, cinismo.

Para os movimentos sociais e militantes da causa humana, o que fica é o absurdo sentimento de impotência. Desde tão longe só o que se pode fazer é gritar, denunciar, contar essa velha história para que ela não se perca no meios da mentiras que os noticiários contam todos os dias. O conflito Israel x Palestina nada tem de religioso. Usa-se a religião para legitimar determinadas ações, os judeus julgam-se o "povo eleito". Mas, o que se esconde por trás da aparência é a configuração geopolítica de poder. Os palestinos estão num espaço da terra que é muito importante para o projeto de dominação do Oriente Médio. Ficam na entrada principal e não são amigos dos Estados Unidos. Por isso é necessário que sejam extintos.

As bombas seguem caindo sobre as famílias palestinas, dor e morte é o que têm. Mas, os palestinos seguem defendendo sua terra e suas vidas. Não haverão de se extinguir. Estão por todo o mundo e nunca esquecerão sua história.  Cabe a nós solidarizar com esse povo valente porque nada no mundo justifica o que acontece hoje na Palestina ocupada. Israel haverá de responder à história pelos seus crimes. Mais dia, menos dia. Porque, se como dizia o grande poeta Mahmud Darwish, "ainda goteja a fonte do crime", há que estancá-la. 

Assembleia Geral da ONU eleva status da Palestina a Estado observador

Via Opera Mundi

Decisão foi aprovada por 138 membros com direito a voto; apenas nove foram contrários

O povo palestino vivenciou nesta quinta-feira (29/11) um de seus maiores avanços diplomáticos e conquistou na Assembleia Geral das Nações Unidas o status de Estado observador. Dos Estados membros com direito a voto no plenário, 138 concordaram com a proposta e apenas nove foram contrários à decisão. Outros 41 países se abstiveram.

Agência Efe

Diplomatas aplaudem discurso de Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Nacional Palestina, na sede da ONU

Antes da votação, palestinos em Gaza e na Cisjordânia já davam como certa a aprovação e ocupavam as ruas de diversas cidades com comícios e celebrações. Embora em meio às multidões estivessem presentem faixas e símbolos dos dois principais partidos políticos do país, o Hamas e o Fatah, o que prevalecia eram retratos do falecido líder Yasser Arafat e a bandeira nacional palestina.

No discurso que precedeu o pleito, o presidente da ANP (Autoridade Nacional Palestina), Mahmoud Abbas, afirmou que a Palestina "acredita na paz" e que a comunidade internacional está diante da "última oportunidade" para a solução dos conflitos entre os dois Estados.

"A Palestina vem hoje perante a Assembleia Geral porque acredita na paz e porque seu povo, como provou nos últimos dias, a necessita desesperadamente", disse. Ele foi ovacionado pela grande maioria dos membros da Assembleia Geral, boa parte deles de pé, e afirmou que a votação de hoje apresenta "uma obrigação moral". A seu ver a janela de oportunidade para a paz "está se reduzindo e o tempo se esgota rapidamente".

Abbas alega que não foi à ONU para buscar a deslegitimação do Estado de Israel, "mas para afirmar a legitimidade de um Estado que deve agora conseguir sua independência".

O gesto é interpretado por diplomatas da maior parte dos membros da ONU como uma forma de evitar que as negociações de paz entre israelenses e palestinos tornem-se impossíveis. Idealizador dos recentes bombardeios à Gaza, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, chegou a afirmar que não haverá um Estado palestino até que Israel seja reconhecido como um "Estado judeu", independentemente de "quantas mãos sejam levantadas" na Assembleia Geral.

"A votação na ONU não mudará nada no terreno. Não antecipará a criação de um Estado palestino, a adiará. Nossa mão (...) sempre estará estendida à paz ", disse o primeiro-ministro em um ato público no Centro Menachem Begin.

Não é o que pensa o ex-primeiro ministro israelense Ehud Olmert, que ao longo dos últimos dias enfatizou seu apoio ao ingresso da Palestina como Estado observador. “Eu acredito que o pedido palestino às Nações Unidas é coerente com o conceito básico da solução de dois Estados. Portanto, não vejo razões para me opor a isso. Uma vez que as Nações Unidas lancem as bases dessa ideia, nós, israelenses, teremos de aceitar um sério processo de negociações”, disse o ex-premiê ao portal norte-americano Daily Beast.

O governo dos Estados Unidos já anunciou que se opõe a essa resolução e que acredita que uma resolução eficiente só poderá ser alcançada bilateralmente entre Israel e Palestina. Ainda submersa em uma crise diplomática com o Irã, o gabinete do democrata Barack Obama tenta preserver ao máximo as relações com o governo de Benjamin Metanyahu, em Israel.

A 67ª sessão também foi marcada pela divulgação de um novo relatório do CEIRPP (Comitê pelos Direitos Inalienáveis do Povo Palestino, na sigla em inglês) sobre a situação da nova troca de agressões entre Israel e Palestina.

De acordo com o órgão, que foi fundado em 1975 pelas Nações Unidas, “Israel se recusa veementemente a refrear seus assentamentos ilegais, que continuam a intensificar o sentimento de desconfiança, a elevar as tensões e a prejudicar uma solução baseada em dois Estados”.

O documento também acusa Israel de agir “punitivamente” por ocasião da admissão da Palestina como Estado membro da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), em outubro do ano passado. À época, Tel Aviv “congelou as remessas de impostos sobre valor agregado à ANP” e “anunciou a construção de mais duas mil moradias em assentamentos”.

Discussão dos Royalties, críticas à Petrobras e continuidade dos leilões: ‘encomendas’ do cartel do petróleo

 

Via Correio da Cidadania

VALÉRIA NADER E GABRIEL BRITO

Entra ano, sai ano, e o petróleo prossegue sendo um dos itens mais aclamados e discutidos mundialmente, ainda que o aquecimento global e a destruição cabal da natureza estejam se acirrando e chamando por uma menor utilização dos combustíveis fósseis. No Brasil, não é diferente. Vieram as descobertas do petróleo, a tão comemorada criação da Petrobras, o fim do monopólio do petróleo pela empresa na era FHC, a reversão parcial deste retrocesso no governo Lula e, agora, as discussões se acaloram novamente em torno ao Pré-Sal, às novas rodadas de leilões e à distribuição dos Royalties.

Para novamente avaliar este tema, o Correio conversou com Fernando Siqueira, engenheiro sempre sintonizado e especialista na área do petróleo, atual vice-presidente da Aepet (a Associação de Engenheiros da Petrobrás) e do Clube de Engenharia. Novamente o engenheiro enfatizou o caminho tortuoso e distorcido sob o qual se dão os debates sobre a área petrolífera no país, alimentado, especialmente, pelo interesse dos grandes grupos econômicos internacionais, pelo poder de mediação dos lobistas internos e pela sempre tendenciosa mídia nacional. As acaloradas polêmicas sobre a distribuição dos Royalties petrolíferos entre estados produtores e não produtores talvez sejam aquelas que mais se encaixem nestas distorções: “dois governadores entreguistas introduziram a discussão da distribuição dos royalties para tumultuar o processo e não deixar aprovar a lei de partilha. Foram lobistas do cartel internacional”, ressalta Siqueira.

Em meio ao tiroteio econômico promovido pela mídia, pelo cartel do petróleo e pelos lobistas, a Petrobrás é um dos alvos principais. Com inúmeras notícias girando em torno ao prejuízo de 1,3 bilhão de reais nas contas da empresa no segundo bimestre, ela é diuturnamente atacada em sua eficiência tecnológica e capacidade financeira para explorar o Pré-Sal sozinha. Para o engenheiro consultado, trata-se de notícias insidiosas, que exploram um fenômeno conjuntural e falseiam a realidade: “a Petrobrás tem muito mais condição do que qualquer empresa multinacional, por conhecer melhor a tecnologia. E recursos financeiros não faltam para quem tem reservas que são o ativo mais aceito como garantidor de financiamentos”.

Siqueira acredita, finalmente, ser importante retomar as ações da Petrobrás que FHC ‘vendeu/doou’ aos investidores americanos, além se ser possível e essencial caminhar para a retomada do monopólio do petróleo pela União. Antes que tal cenário possa se configurar, a pressão nacional será essencial para que a exploração do Pré-Sal não se renda ao ritmo imposto pelas empresas estrangeiras, interessadas em recompor suas reservas dilapidando o território nacional e exportando o petróleo bruto, de baixíssimo valor agregado.

Leia a seguir a entrevista completa.

Correio da Cidadania: Como enxerga o atual momento do país em torno da gestão de suas riquezas de petróleo e gás, novamente no centro de importantes debates políticos?

Fernando Siqueira: Houve uma melhora considerável com a nova legislação recém-aprovada. Lembro que a lei anterior, a 9478/97, do governo Fernando Henrique, dava 100% do petróleo a quem produzisse, e a obrigação de pagar, em dinheiro, apenas 10% de royalties. A nova Lei, 12.351, retoma a propriedade do petróleo para a União, que paga o custo de produção em petróleo e fica com uma parte do óleo-lucro, embora o ideal fosse fixar um percentual mínimo (da ordem de 70%) para essa parcela.

Outro ponto positivo da nova Lei é que a Petrobrás será a operadora única do Pré-Sal, ficando, no mínimo, com 30%. Este ponto é positivo por dois motivos principais: 1) a Petrobrás é a que mais compra no país, gera tecnologia nacional e dá mais emprego a brasileiros; 2) a Petrobrás, sendo uma empresa estatal, é controlada pela sociedade. Por isto ela não faz as concessões contra a segurança, como recém fizeram a British Petroleum, no México, e a Chevron, na bacia de Campos.

Ambas contrataram a Transocean para fazer a perfuração dos poços, mas, por economia, mandaram a empresa deixar de executar o projeto correto de perfuração, comprometendo a segurança e gerando duas catástrofes. A Transocean já perfurou mais de vinte poços do Pré-Sal para a Petrobrás, e não teve qualquer problema, porque a Petrobrás não faz esse tipo de transgressão. As transnacionais não são controladas por ninguém. Ao contrário, controlam governos de muitos países produtores.

Correio da Cidadania: O que pensa a respeito da promoção de novas rodadas de leilões de bacias petrolíferas, as do Pós-Sal programadas para maio de 2012 e as do Pré-Sal, para novembro do mesmo ano?

Fernando Siqueira: Esta é outra falha do projeto da Lei do Lula. Ele não teve cacife político nem coragem para acabar com os leilões. Estes não trazem qualquer benefício para o país. Explicando: a perfuração é feita por empresa especializada contratada; a completação do poço no fundo do mar também é feita com equipamentos de um grupo especializado de fornecedores; a mesma coisa ocorre com os tubos flexíveis, que ligam esse equipamento no fundo do mar ao navio de processo, cabendo a outro grupo de especialistas.

Assim, as petroleiras são intermediárias dessa tecnologia. A Petrobrás mantém novamente duas vantagens sobre as demais, sendo a melhor intermediária: 1) foi quem primeiro acreditou nas águas profundas, ajudou a desenvolver essas tecnologias e, portanto, é a que tem maior experiência em todas as tecnologias; 2) a segunda vantagem é a mesma acima narrada, relativa ao conteúdo que a empresa gera nacionalmente. Assim, continuar com os leilões é um equívoco lamentável, que prossegue no governo Dilma.

Correio da Cidadania: Nos últimos tempos, as discussões mais acaloradas, entre parlamentares e políticos de alto coturno, têm se dado em torno da distribuição dos royalties do petróleo brasileiro. Como tem enxergado essas discussões, que adquiriram bastante espaço público?

Fernando Siqueira: É como disse o ex-diretor Ildo Sauer: “Os caras se preocupam com o rabo e deixam de olhar o elefante todo”. No caso é um pouco pior: dois governadores entreguistas introduziram a discussão da distribuição dos royalties para tumultuar o processo e não deixar aprovar a lei de partilha. Foram lobistas do cartel internacional. Não deixaram suas bancadas sentarem para discutir a melhor forma de distribuição dos royalties, radicalizaram e correram o risco de perder tudo, pois eram dois estados contra cerca de 22. Também puseram em risco a existência dos royalties: no mundo, onde há produção em águas profundas, em torno de 1000 metros, os royalties foram abolidos sob argumentos de alto risco e baixo retorno.

No Pré-Sal, a lâmina d’água é superior a 2000 metros, portanto, as corporações iriam pressionar pelo fim dos royalties. Se somente seis estados o recebessem, seria fácil para elas “convencerem” os parlamentares dos outros 21 estados a acabar com os royalties. Afinal, boa parte se elege gastando mais de R$ 5 milhões na campanha. Como recuperar isto em quatro anos? Mas se todos os estados e municípios receberem royalties, fica difícil para os parlamentares contrariarem seus eleitores.

Felizmente, os parlamentares dos demais estados tiveram consideração e acabaram gerando uma Lei que não penaliza tanto esses dois estados, que são confrontantes, e não produtores, pois o petróleo a distâncias superiores a 300 km não tem estados produtores, mas confrontantes. No final, restou um projeto bem razoável nesse aspecto, apesar do comportamento totalmente inadequado dos governadores Sergio Cabral (RJ) e Paulo Hartung (ES). Cabral continua com sua demagogia eleitoreira. Não fosse nossa vigilância no Congresso, poderíamos estar amargando uma lei nova quase tão ruim quanto a outra, feita por FHC.

Correio da Cidadania: No mesmo sentido, o que pensa do debate que se travou a respeito da destinação de renda dos royalties a um fundo educacional, idéia que acabou derrotada em votação?

Fernando Siqueira: Outra maluquice. O problema da educação brasileira não se resolve com verbas distribuídas para alguns municípios e outros não, como proposto. A própria União não destinava o seu royalty. A educação brasileira tem problemas estruturais sérios: no auge do neoliberalismo, implantou-se o sistema de progressão automática dos alunos. Este, além de desmotivar e desautorizar os professores, reduziu drasticamente o aprendizado dos alunos. Não se estabeleceram metas de ensino, como, por exemplo, o aluno do ensino fundamental sair sabendo ler, interpretar, redigir e fazer contas. Este crime continua se espalhando pelos demais estados, destruindo o que seria a base da educação ideal.

No final do primeiro grau, esses alunos não sabem nada. O Pisa, programa internacional que avalia desempenho dos alunos no mundo todo, constatou o Brasil em 58º lugar entre 65 países pesquisados. Uma lástima. E não é difícil a solução para esta situação criminosa: treinar, motivar e remunerar corretamente os professores, dar reforço escolar para evitar evasão e repetência e estabelecer tempo integral para as escolas fazerem esse reforço, incluindo eventos culturais e recreação com atividades esportivas.

Outro crime cometido por imposição dos EUA foi a reforma de base do ensino, feita há vários anos, juntando o ensino primário com o ginasial, reduzindo o tempo escolar e das matérias fundamentais como português e matemática. Ou seja, o ensino tem que fazer parte do planejamento estratégico do país como um dos itens principais. É assim nos países desenvolvidos.

Correio da Cidadania: Qual a sua visão sobre o ritmo que tem sido impresso à exploração de nossas reservas petrolíferas?

Fernando Siqueira: Por enquanto, não está ruim, mas os entreguistas de plantão, incluindo a grande mídia que defende os interesses do cartel internacional, estão pressionando a todo vapor. Cobram a volta dos leilões (o recente congresso de petróleo no Riocentro teve como mote fundamental a retomada dos leilões, apoiada por editoriais diários dos jornalões) e a produção intensiva e açodada.

Ora, para que correr se o país já tem autossuficiência para mais de 30 anos? E não deve exportar petróleo bruto, perdendo, além da geração de empregos e tecnologia, mais de 30% em impostos (o petróleo bruto é isento de imposto de exportação). Ou seja, o tempo todo eles querem provar que a Petrobras não tem condições de explorar o Pré-Sal sozinha. E, como vimos acima, a Petrobrás tem muito mais condição do que qualquer empresa multinacional, por conhecer melhor a tecnologia. E recursos financeiros não faltam para quem tem reservas que são o ativo mais aceito como garantidor de financiamentos.

Correio da Cidadania: Aproveitando que o senhor citou nossa autossuficiência de longo prazo, há vozes que se levantam contrárias à própria exploração do Pré-Sal, vez que o modo acelerado e intenso de lidar com estas reservas poderia ser uma faca de dois gumes, acarretando mais retrocessos, ambientais, econômicos e sociais, do que avanços em nosso país. O que pensa disto?

Fernando Siqueira: Na verdade, como dito acima, eles não querem o Pré-Sal tendo a Petrobrás como operadora única. Querem entregá-lo às transnacionais do cartel do petróleo para produzirem rápido e resolverem seus problemas de falta de reservas. A Petrobrás já perfurou mais de 30 poços do Pré-Sal; já achou campos com potencial de reservas de mais de 40 bilhões de barris; já produz mais de 200 mil barris por dia no Pré-Sal e, até agora, não ocorreu qualquer acidente.

Não temos que correr. Mas há uma campanha insidiosa na mídia contra a empresa. Qualquer falha, por menor que seja, ganha as primeiras páginas dos jornalões. Um exemplo disto foi o escândalo feito com o prejuízo de R$ 1,3 bilhão no segundo trimestre, que é um prejuízo conjuntural, pois a Petrobrás se endividou em dólar para tocar os projetos e o dólar teve uma grande valorização, o que acarretou uma perda contábil de mais de R$ 6 bilhões nesse período. Mas se trata de algo conjuntural porque, quando o dólar cair, essa perda se reverte. E como nós sabemos, o dólar é emitido pelo FED (Banco Central estadunidense) sem qualquer lastro garantidor. “E um papel pintado. Não tem valor”, diz o insigne brasileiro e professor Bautista Vidal.

Correio da Cidadania: No que se refere a esta campanha midiática contra a maior empresa petrolífera do país e as notícias em torno às dificuldades de gestão e prejuízos da Petrobras, que têm sido abundantes nos últimos meses, o que está de fato a acontecer na empresa sob a gestão de Graça Foster?

Fernando Siqueira: Como eu falei acima, essa campanha visa descaracterizar a Petrobrás como operadora única do Pré-Sal, para entregá-lo às transnacionais, que não investiram nada, mesmo tendo essa área em seu poder por treze anos dos contratos de risco.

É um pouco preocupante o comportamento da Graça Foster. Em duas ocasiões, ela deu declarações infelizes. Na primeira, ao lançar o Plano de Negócios, ela falou que o planejamento era ruim, o que me pareceu uma campanha contra o Gabrielli e acabou sendo uma campanha contra a companhia. Ora, ela era diretora na época, por que não lutou por um planejamento melhor? Por que não gritou antes?

Na segunda, recente, ela disse que a experiência que a Petrobrás tem para projetar sistemas de produção ela não tem em projetos de refinarias. Ora, a engenharia básica do Cenpes começou com a área de refino. E não parou. O Cenpes ganhou concorrência internacional para o projeto do Comperj, concorrendo com Índia e China, os grandes experts da presidente, e outras multinacionais. Não sei se a presidenta está fazendo o jogo dessa mídia ou se é falta de bagagem para um cargo de tamanha responsabilidade. Preocupa ainda o fato de ela ter um viés neoliberal.

Tudo isto acaba ajudando uma campanha orquestrada para enfraquecer a Petrobrás. O que, aliás, ficou claro nos telegramas que o Wikileaks publicou, onde se mostra o inconformismo do cartel e do consulado americano com a mudança para a lei de partilha de produção e pelo fato de a Petrobrás ser operadora única. Ficou claro também que iriam jogar pesado para reverter isto. “Mas é preciso cautela para não despertar o patriotismo dos brasileiros”, diz um dos telegramas. “O lobby é formado pelo Instituto Brasileiro do Petróleo, Organização Nacional da Indústria do Petróleo e FIESP, e não vai parar de pressionar”, diz outro. É uma campanha de fora pra dentro.

Correio da Cidadania: Qual o nível de apropriação da renda do petróleo que o país tem garantido para si, e como nossa realidade se posicionaria num comparativo internacional?

Fernando Siqueira: A lei 9478/97 dá ao país o menor ganho do planeta (10% dos royalties em dinheiro). Defendíamos na nova Lei um percentual mínimo de 70% do óleo-lucro para a União. Este percentual ficou em aberto. Assim, dependendo do custo de produção, que pode ser da ordem de US$ 20 por barril, do preço internacional do barril e do percentual que o produtor oferecer à União, essa apropriação pode ser da ordem de 40% a 60%. Também pode ser menor, se não houver um controle forte nos custos de produção e na medição do petróleo produzido. No exterior, os países exportadores ficam, em média, com 80% da produção, em petróleo. Temos que buscar melhorar a lei nova, mesmo sendo melhor que a outra.

Correio da Cidadania: Neste sentido, ainda vigora, com alguma efetividade, discussões a respeito da retomada do monopólio do petróleo pela União, revertendo de fato e de vez a lógica de exploração privada imposta pelo governo Fernando Henrique? Considera, por sua vez, esta possibilidade como algo possível ou essencial?

Fernando Siqueira: Sim. Considero possível e essencial. Assim, é importante retomar as ações da Petrobrás que FHC vendeu/doou aos investidores americanos. Este fato, além de tolher as atividades da Petrobrás, transfere para acionistas estrangeiros, que não pagaram por isto, 36% do patrimônio da nossa empresa, inclusive reservas. Uma das conseqüências: por uma das leis do Lula, aquela que fala na capitalização da Petrobras através da cessão onerosa (a União cedeu alguns blocos à Petrobrás com uma reserva estimada de 5 bilhões de barris. A Petrobrás pagou essa reserva com títulos do governo. Com eles, o governo comprou ações da Petrobrás, elevando sua participação para 48% do capital total), a Petrobrás furou o primeiro poço no campo de Franco, e achou 8 bilhões de barris; perfurou Libra, o segundo, e achou cerca de 15 bilhões de barris. O que fez a ANP? Retirou Libra da cessão onerosa e quer leiloar um campo já descoberto. Dá para entender tamanho absurdo?

Nós devemos exigir a entrega de Libra e de vários outros campos para a Petrobrás, sem licitação. A nova Lei, a 12351/2011, prevê isto. Se voltar o monopólio da União e o governo tiver, pelo menos, 80% das ações da Petrobrás (hoje subiu para 48%), recomprando as ações vendidas a estrangeiros, teremos ainda mais motivação para acabar com os leilões.

Correio da Cidadania: O senhor crê, portanto, que, a depender de eventual novo ambiente jurídico e institucional - diante, por exemplo, da citada retomada do monopólio do petróleo pela União -, a empresa teria condições assumir sozinha a exploração do petróleo do Brasil?

Fernando Siqueira: Absolutamente sim. E com muito mais proveito para o povo brasileiro. Como eu falei acima, os três gargalos tecnológicos – perfuração, completação submarina e linhas flexíveis – são equipamentos e serviços fornecidos por empresas especializadas que os fornecem para toda e qualquer das empresas petroleiras. Sendo estas, portanto, intermediárias dessa tecnologia. E a Petrobras é disparadamente a melhor das intermediárias, por ser a pioneira, a mais experiente e a mais confiável. Assim, em termos tecnológicos não há problema. A inovação acontece, qualquer que seja a operadora.

Em termos financeiros também não há problema, porque quem tem reservas de petróleo, tem crédito fácil e barato. O que não podemos aceitar é o jogo de produzir a toque de caixa, para resolver o problema dos outros países e suas empresas e esgotar o Pré-Sal precocemente. Tem de haver uma produção racional que atenda aos interesses do povo brasileiro, além de se adequar o parque de refino para exportação de derivados, com valor agregado, ao invés de petróleo bruto, pelo qual o país perde emprego, tecnologia e impostos. Portanto, o monopólio da União é possível, viável e altamente desejável.

Tenho certeza de que, se o povo brasileiro tomar consciência da grandeza dessa riqueza, da maior oportunidade que ela gera para o Brasil deixar de ser o eterno país do futuro, e dos perigos que ela corre pelas pressões externas, deixando de ser nossa, esse povo irá para as ruas defender o seu patrimônio. Aos poucos, tais fatos estão ficando claros e é preciso, sim, despertar o nacionalismo do povo brasileiro, que é um dos fatores determinantes do crescimento dos países desenvolvidos.

Valéria Nader, jornalista e economista, é editora do Correio da Cidadania. Gabriel Brito é jornalista.

PT se acovarda diante da mídia

Sanguessugado do Cinema e Outras Artes

Maurício Caleiro

Determinada pela presidência do PT, a decisão do deputado Odair Cunha (MG), relator da CPI do Cachoeira, de deixar de indiciar cinco jornalistas suspeitos de ligação com o crime organizado – entre eles Policarpo Júnior, editor-chefe da Veja – e de abdicar da sugestão de que o Procurador-Geral da República, Roberto Gurgel, seja investigado pelo Conselho Nacional do Ministério Público tem causado indignação entre a militância petista, apoiadores do governo e cidadãos preocupados com o atual estágio das relações entre política, mídia e Justiça no Brasil.

Instalada a duras penas, a CPI representou uma rara oportunidade de promoção de uma investigação séria sobre as ligações entre mídia e crime organizado no país, a partir das para lá de suspeitas relações entre o criminoso condenado "Carlinhos" Cachoeira e a revista Veja. Tal oportunidade está perdida, e, embora a responsabilidade por tal retrocesso deva ser repartida com os demais membros da aliança governista – o PMDB, notadamente -, ele corrobora uma constatação que se difunde entre um número cada vez maior de pessoas: a de que, não importa o que a mídia apronte, o PT está acovardado e não reagirá.

Reação corporativa

Além da saraivada de ataques disparados pela imprensa, nos últimos dias, contra o indiciamento dos jornalistas – categoria profissional que, no Brasil, parece estar acima das leis – e do corporativismo extremado do Ministério Público em defesa de Gurgel, rondam o recuo petista ameaças menos ou mais veladas advindas do potencial supostamente explosivo da divulgação da correspondência entre o ex-presidente Lula e ex-chefe de gabinete da Presidência da República em São Paulo, Rosemary Noronha, indiciada na última sexta-feira pela Polícia Federal, com estridente alarde, mesmo para os padrões brasileiros.

Ainda que remota, a possibilidade de que Lula venha se candidatar a governador de São Paulo em 2014, com grandes chances de estabelecer hegemonia petista no município, no estado e no país, tem levado a mídia corporativa, linha-auxiliar do tucanato, a recrudescer as manifestações de ódio contra o ex-presidente, num exemplo claro do conflito de classes e de disputa de poder – e da posição que, neles, a mídia, que idealmente deveria buscar a imparcialidade, assume. Isso inclui, como índice de baixeza operacional da mídia, o desprezo pelo tratamento discreto da vida afetiva dos ex-presidentes da República, norma rigidamente seguida em relação a Fernando Henrique Cardoso, mas que as presentes insinuações em relação a Lula e Rosemary mandam às favas. Neste momento, reside no fuçar de e-mails e telefonemas entre eles a "grande esperança branca" do conservadorismo brasileiro – uma aposta, a meu ver, fadada ao fracasso.

O caso Rosemary

Dadas as condições materiais tipicamente de classe média de Rosemary e a vagueza das acusações de tráfico de influência - ainda mais contra uma agente radicada em São Paulo, longe do poder concentrado no Planalto Central - não se deve descartar a hipótese de que, assim como ocorreu com Erenice Guerra, com Luiz Gushiken e com Orlando Silva, trate-se, ao final, de mais um factoide para abastecer a mídia de manchetes escandalosas contra Lula e o PT. O modo como os jornais têm tratado as perfeitamente aceitáveis duas viagens oficiais ao ano efetuadas pela ex-secretária na última década– chamando-as de "a volta ao mundo de Rosemary" – sugere exatamente isso.

Já vimos esse filme várias vezes, e a sensação de déjà vu é inevitável: se, ao final, a acusada for proclamada inocente, como aconteceu com os personagens citados, uma notinha escondida na página 11 será a compensação pela enxurrada de manchetes e reportagens televisivas. Os danos morais, a desqualificação pessoal, o tratamento como criminoso dispensado a quem é apenas suspeito, o direito de resposta, o ouvir o outro lado? São detalhes que, naturalmente, não requerem o instrumento anacrônico da Lei de Imprensa, que a sapiência e o espírito democrático reinantes no STF extinguiram. Deixemos tudo à autorregulação, como sugeria o saudoso Ayres Britto.

Ufanismo fora de lugar

Os entusiastas do governo nas redes sociais dedicam horas e horas, diariamente, a prognosticar um golpe de Estado iminente, a destilar seu ódio contra o STF e a rebater todas as bobagens tendenciosas que Ricardo Noblat e Reinaldo Azevedo escrevem – o que dá mais audiência a tais "blogueiros", provocadores profissionais a soldo dos interesses da plutocracia mediática. Se esses internautas direcionassem uma pequena parte de sua energia a fins mais concretos – como pressionar o governo que apoiam a confrontar a mídia venal e a cumprir os compromissos assumidos em campanha -, não só aspossibilidades de ruptura institucional tornar-se-iam mais remotas, mas, entre outras áreas, seria outra a situação da saúde, da segurança pública e da educação (onde, conforme anunciado ontem, o Brasil ficou em 39o. lugar entre 40 países concorrentes noranking do Índice Global de Habilidades Cognitivas e Realizações Profissionais, evidencia que desmistifica e contraria o discurso ufanista predominante nessa área durante as administrações petistas). Além disso, poderíamos ao menos vislumbrar a possibilidade de regular a ação da mídia de acordo com parâmetros éticos

Ao invés disso, temos um cenário em que, como resume um dos maiores estudiosos da mídia no país, Venício A. de Lima, "Apesar do trabalho desenvolvido há décadas por pessoas e/ou entidades da sociedade civil, e apesar do inegável aumento da consciência coletiva sobre a centralidade da mídia na vida cotidiana, não tem havido resposta correspoindente dos poderes da República no sentido da proposta e/ou implementação de políticas poúblicas que promovam a universalização do direito à comunicação em nosso país".

Paz sem voz não é paz, é medo

O fato de a arena comunicacional do país ser dominada por uma mídia corporativa que age de forma parcial e partidarizada, tendo como métodos rotineiros a desqualificação agressiva, o escândalo e a mentira é uma herança do capitalismo selvagem e do patrimonialismo que por décadas vigeu no país – açulados, na última década, pela perda progressiva de poder e pelo ódio de classes.

Já o fato de tal distorção antidemocrática permanecer ativa e impune durante uma década de administração federal petista é resultado da omissão, pusilanimidade e covardia - e, quem sabe, de interesses não confessos – que têm caracterizado a inação do Partido dos Trabalhadores no que concerne à sua relação com a mídia, na qual não se limita a apanhar calado: continua a encher as burras das editoras e corporações midiáticas que, suspeitas de conluio com o crime organizado, o atacam e à democracia.

Como assinala Saul Leblon, em artigo de leitura obrigatória, o petismo no poder parece resignado após assinar uma "pax branca que concede ao conservadorismo o pleito da hegemonia intocável na esfera da comunicação". Esse conformismo, que hoje desqualifica reputações, envenena o jogo político e deturpa o debate democrático, pode vir a ter consequências ainda mais graves, institucionalmente traumáticas, para o partido e, pior, para o país. E fica cada vez mais evidente que o PT nada fará contra o inimigo que alimenta.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Ivan Pinheiro: "Não há mais espaço para ilusões reformistas"

Via Resistir.info

“A ocupação militar imperialista no Atlântico Sul permite o controle das rotas marítimas que unem a América do Sul à África e sua conexão com o continente da Antártica e com os países do Pacífico, através do Estreito de Magalhães. Ademais, permite o controle dos inúmeros recursos naturais da plataforma continental da América do Sul. É assim que a América Latina está cercada por terra e por mar pelas forças militares imperialistas, com a omissão da grande maioria dos governos locais”.

Ivan Pinheiro [*]

Ivan Pinheiro, em Beirute. O Comitê Central do Partido Comunista Brasileiro (PCB) saúda os partidos comunistas presentes, homenageando o anfitrião, o Partido Comunista Libanês, referência para todos os revolucionários e trabalhadores do mundo, com seu exemplo de luta sem tréguas contra o capital.

O aprofundamento da crise sistêmica do capitalismo coloca para o movimento comunista internacional um conjunto de complexos desafios.

Estamos diante de um estado de guerra permanente contra os trabalhadores, uma espécie de “guerra mundial”, na qual o grande capital busca sair da crise colocando o ônus na conta dos trabalhadores. Esta é uma guerra diferente das anteriores, que tinham como centro disputas interimperialistas.

Apesar de persistirem contradições interburguesas e interimperialistas na atual conjuntura, as grandes potências (sobretudo os Estados Unidos e os países hegemônicos da União Européia) promovem hoje uma guerra de rapina contra todos os países periféricos, sobretudo aqueles que dispõem de riquezas naturais não renováveis e contra todos os trabalhadores do mundo.

A guerra é o principal recurso do capitalismo para tentar sair da crise: ativa a indústria bélica e ramos conexos, permite o saque das riquezas nacionais e a queima de capitais; os capitalistas ganham também com a reconstrução dos países destruídos.

Os métodos são sempre os mesmos: satanização, manipulação, estímulo ao sectarismo e a divisões entre nacionalidades e religiões, cooptações, criação ou supervalorização midiática de manifestações e rebeldias, atentados de falsa bandeira.

Nesta guerra permanente, pelo menos nesta fase, têm sido poupados os chamados países emergentes, sócios minoritários do imperialismo, que legitimam a política das grandes potências, compondo, como atores coadjuvantes, o chamado Grupo dos 20.

Estes países (os chamados BRICS) se têm beneficiado da crise, na medida em que ajudam a superá-la; em seguida, poderão ser as próximas vítimas tanto da crise como de agressões militares.

Em nosso país, nunca os banqueiros, as empreiteiras, o agronegócio e os monopólios tiveram tanto lucro. A política econômica e a política externa do estado burguês brasileiro estão a serviço do projeto de fazer do Brasil uma grande potência capitalista internacional, nos marcos do imperialismo. As empresas multinacionais de origem brasileira, alavancadas por financiamentos públicos, já dominam alguns mercados em outros países, notadamente na América Latina.

Hoje, o governo brasileiro é o organizador da transferência da maior parte da renda e da riqueza produzida pelo país para as classes dominantes (através do superávit primário, da política de juros altos e do sistema tributário altamente regressivo). Cerca de 50% do orçamento se destina a pagar os juros e a amortização da dívida (externa e interna), para satisfação dos banqueiros internacionais e nacionais, assim como dos nossos rentistas (que não chegam a 1% da população).

Para atender aos interesses dos grandes empresários, das empreiteiras e do agronegócio, o governo promove a destruição do meio ambiente, desde o desmatamento da floresta amazônica à demolição da legislação ambiental. O novo Código Florestal brasileiro, um total desrespeito ao meio-ambiente, contou com o apoio de partidos que se dizem de esquerda, mas se caracterizam por um esvaziamento ideológico, pela adesão às medidas neoliberais e por se curvarem aos ditames do imperialismo. Em períodos eleitorais, rebaixam ainda mais o discurso e abandonam os símbolos que vagamente os ligam ao ideário socialista.

Em meio a esta grave crise, e sem a consolidação ainda de um importante pólo de resistência proletária, o capital realiza uma violenta ofensiva para retirar dos trabalhadores os poucos direitos que lhes restam. Para fazê-lo, tentam cada vez mais fascistizar as sociedades e criminalizar os movimentos políticos e sociais antagônicos à ordem. A correlação de forças ainda nos é desfavorável. Ainda sofremos o impacto da contra-revolução na União Soviética e da degeneração de muitos partidos ditos de esquerda e de setores do movimento sindical.

Por outro lado, estamos muito preocupados com o verdadeiro cerco militar que o imperialismo promove na América Latina. Realmente, a reativação da IV Frota norte-americana, com um poderio bélico maior do que a soma de todas as forças armadas dos países latino-americanos, traz ameaças à soberania e à paz na região. O estabelecimento de dezenas de bases militares dos EUA na América Latina inquieta os latinoamericanos. A considerar ainda a construção de um aeroporto militar ianque na cidade de Mariscal Estigarribia, no Paraguai, que possibilita o controle da região da tríplice fronteira (Brasil, Argentina e Bolívia) e onde se assenta a maior reserva mundial de água doce, o Aquífero Guarani.

Mas não é só o imperialismo estadunidense que cerca a Nossa América. A OTAN construiu, em 1986, na Ilha Soledad do Arquipélago das Malvinas, a grande base militar de Mount Pleasant, que dispõe de aeroporto e porto naval, de águas profundas, onde atracam submarinos atômicos e foram construídos silos para armazenar armas nucleares e instalações para aquartelar milhares de efetivos militares. Essa fortaleza das Malvinas contraria, expressamente, o contido na Resolução 41 da ONU, que considera o Atlântico Sul zona de paz e cooperação, isenta de armamentos e engenhos nucleares.

A considerar, ainda, a ilha de Ascensão, outra base militar da OTAN que fica a meio caminho da costa brasileira e da costa africana.

A OTAN criou uma zona de exclusão pesqueira de mais de um milhão de quilômetros quadrados em torno das ilhas Georgia e Sandwich do Sul, destinando essa zona exclusivamente às suas forças bélicas.

A ocupação militar imperialista no Atlântico Sul permite o controle das rotas marítimas que unem a América do Sul à África e sua conexão com o continente da Antártica e com os países do Pacífico, através do Estreito de Magalhães. Ademais, permite o controle dos inúmeros recursos naturais da plataforma continental da América do Sul. É assim que a América Latina está cercada por terra e por mar pelas forças militares imperialistas, com a omissão da grande maioria dos governos locais.

Analisando este quadro, o PCB tem feito algumas reflexões.

Nos marcos da ordem burguesa, o futuro é sombrio. Mais do que nunca o regime do capital virá acompanhado de crescente instabilidade econômica, absoluta irracionalidade no uso e na distribuição da riqueza, escandalosa desigualdade social, escalada da prepotência imperialista e inexorável perigo para as conquistas populares e dos trabalhadores.

A nosso juízo, não há mais espaço para ilusões reformistas. Aliás, os reformistas, mais do que nunca, são grandes inimigos da revolução socialista, pois iludem os trabalhadores e os desmobilizam, facilitando o trabalho do capital. Em cada país, as classes dominantes forjam um bipartidarismo – em verdade um monopartidarismo bicéfalo – em que as divergências, cada vez menores, se dão no campo da administração do capital.

Cada vez mais também faz menos sentido a “escolha” de aliados no campo imperialista e mesmo entre seus coadjuvantes emergentes, como se houvesse imperialismo do “bem” e do “mal”. A diferença é apenas na forma, não no conteúdo. Isto não significa subestimar as contradições que vicejam entre eles.

Não podemos conciliar com ilusões de transição ao socialismo por vias fundamentalmente institucionais, através de maiorias parlamentares e de ocupação de espaços governamentais e estatais. A luta de massas, em todas as suas formas, adaptada às diferentes realidades locais, é e continuará sendo a única arma de que dispõe o proletariado.

Temos avaliado também que o atual modelo de encontros de partidos comunistas e operários, que vêm cumprindo importante papel de resistência, precisa se adaptar às complexas necessidades da conjuntura mundial, com suas perspectivas sombrias no curto prazo e suas possibilidades de acirramento da luta de classes, com a emergência das lutas operárias.

Pensamos que é preciso romper com o “encontrismo” em que, ao final dos eventos, nossos partidos formulam um documento genérico e decidem a sede do próximo encontro e se despedem até o ano seguinte, inclusive aqueles dos países da mesma região.

Para potencializar o protagonismo dos partidos comunistas e do proletariado no âmbito mundial, é necessária e urgente a constituição de uma coordenação política que, sem funcionar como uma nova internacional, tenha a tarefa de organizar campanhas mundiais e regionais de solidariedade, contribuir para o debate de ideias, socializar informações sobre as lutas dos povos.

Mas, para além da indispensável articulação dos comunistas, parece-nos importante a formação de uma frente mundial mais ampla, de caráter antiimperialista, onde cabem forças políticas e individualidades progressistas, que se identifiquem com as lutas em defesa da autodeterminação dos povos, da paz entre eles, da preservação do meio ambiente, das riquezas nacionais, dos direitos trabalhistas, sociais e políticos; contra as guerras imperialistas e a fascistização das sociedades. Em resumo, as lutas em defesa da humanidade.

Deixamos claro que o nosso Partido valoriza qualquer forma de luta. Não podemos cair no oportunismo de fazer vistas grossas ao direito dos povos à rebelião e à resistência armada. Em muitos casos, esta é a única forma de fazer frente à violência do capital e de superá-lo. Os povos só podem contar com sua própria força.

Saudamos os povos que hoje enfrentam as mais duras batalhas. Saudamos os trabalhadores gregos, portugueses, espanhóis, que já se levantam em greves nacionais e grandes jornadas e os demais trabalhadores da Europa, que enfrentam terríveis planos do capital para tentar superar a crise, hoje mais acentuada no continente europeu mas que poderá agravar-se e espalhar-se para outros países e regiões.

Saudamos o povo palestino, em sua saga duradoura e dolorosa no enfrentamento ao sionismo que o sufoca e reprime, ocupa seu território, derruba suas casas, prende seus melhores filhos e impede seu direito a um Estado soberano.

Valorizamos o cessar-fogo celebrado recentemente no Egito, como uma vitória importante mas parcial da resistência palestina em Gaza. O sionismo - cuja intenção era claramente mais uma vez invadir Gaza com tropas e tanques - surpreendeu-se com a atual capacidade de reação militar palestina neste pequeno, isolado e sofrido territorio, de fato sob ocupação israelense: uma reação à altura das necesidades de autodefesa e da ampliação dos direitos do povo palestino.

Mas não podemos, de maneira alguma, subestimar a agressividade do imperialismo e do sionismo, que não desistirão de seu intento de dobrar a combatividade e destruir a identidade do povo palestino, ocupando todo seu territorio, como parte do plano expansionista que chamam de “Novo Oriente Médio”.

No entanto, a considerar a justa e proporcional reação do povo de Gaza e a extraordinária solidariedade internacional à luta dos palestinos, melhoram as condições de resistência aos planos sionistas.

E aqui pedimos a manifestação deste encontro em solidariedade à realização na próxima semana, no Brasil, do Forum Social Mundial Palestina Livre, que vem sofrendo ameaças da comunidade sionista em nosso país, inclusive, em desrespeito à soberanía brasileira, por parte da representação diplomática israelense.

Da mesma forma, saudamos os também sofridos povos do Iraque, do Afeganistão, da Líbia. Saudamos os povos do Egito, do Iêmen e de vários países árabes, em sua luta contra a tirania e a opressão.

Saudamos sírios e iranianos, contra os quais batem os tambores de guerra do imperialismo. Nosso Partido está incondicionalmente solidário à grande maioria do povo sírio e a seu direito à autodeterminação. Como na Líbia, trata-se na Síria do plano imperialista de fomentar guerras civis sectárias, valendo-se de mercenários e equipamentos militares estrangeiros, para dividir e ocupar o país. No caso da Síria, procura o imperialismo criar condições para uma posterior agressão militar ao Irã.

Solidarizamo-nos com os comunistas, os trabalhadores e as forças antiimperialistas libanesas diante da movimentação de setores da burguesía nacional aliados ao imperialismo, que procuram fomentar uma nova guerra civil, no contexto da divisão dos países do Oriente Médio por criterios sectários e religiosos, para facilitar a recolonização da região.

Chegando até nossa América Latina, saudamos nossa querida Cuba Socialista em sua luta contra o cruel bloqueio ianque. Saudamos nossos Cinco Heróis. Saudamos os processos de mudanças na América do Sul (Venezuela, Bolívia e Equador), neste momento decisivo, uma encruzilhada entre o avanço dos processos ou sua derrota.

Saudamos nossos irmãos colombianos que, nas cidades e nas montanhas, resistem, através de variadas formas de luta, contra o estado terrorista de seu país, a grande base militar norte-americana na América Latina. Saudamos os revolucionários colombianos, na expressão de seu partido comunista e guerrilhas.

Não há solução militar para o conflito colombiano. Por isso, saudamos os diálogos que têm como objetivo buscar uma solução política. Este diálogo só foi possível pelo surgimento e desenvolvimento da Marcha Patriótica, um combativo e amplo movimento de massas, e pela constatação da impossibilidade de vitória militar do estado contra a guerrilha.

Sabemos que não será simples este diálogo, pois as classes dominantes colombianas e o imperialismo querem a paz dos cemitérios. Assim sendo, propomos que este Encontro assuma a organização de uma campanha mundial de solidariedade ao povo colombiano por uma verdadeira paz democrática com justiça social e econômica

Finalmente, reiteramos nossa proposta de criação de coordenações políticas internacionais e regionais dos Partidos Comunistas, tendo como princípio fundamental o internacionalismo proletário.

Beirute (Líbano), 22 de novembro de 2012

PCB – Partido Comunista Brasileiro

[*] Secretário-geral do PCB. Intervenção no XIV Encontro Mundial dos Partidos Comunistas e Operários, em Beirute, 22-24/Novembro/2012

O original encontra-se em pcb.org.br/...

Europa: Alguns números da crise

Via Rebelion

Pascual Serrano

Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti

Mundo Obrero

Um pingar de notícias e dados pode nos ajudar a vislumbrar a bancarrota econômica da qual a Europa se aproxima e na qual estão submersos países como Grécia, Portugal, Espanha e Itália.

Em Portugal, os jovens estão migrando para suas ex-colônias na África e para o Brasil. Nos primeiros quatro meses de 2012, 85 portugueses por dia deram baixa no Instituto do Desemprego para emigrar, segundo dados desse centro. No total, 10.200 pessoas anularam seus pedidos de emprego, mais do que o dobro que em 2008. Outros nem se incomodam em passar pelos escritórios de emprego, das universidades vão direto para o aeroporto. Segundo dados do Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, em 2011 emigraram entre 120 e 150 mil portugueses, cifras que ficam próximas às maiores ondas de imigração nos anos sessenta e setenta. Seu destino: Moçambique, Angola ou Brasil (Eldiário.es, 17.10.2012).

Outra cifra eloqüente é a saída de imigrantes que chegaram à Europa em busca de melhores condições de vida. Nos últimos cinco anos, 1,2 milhões voltaram da Espanha para seu país de origem, segundo Diego López de Lera, professor da Universidade de La Coruña (Efe, 07.10.2012). 72% dos emigrantes equatorianos na Espanha deseja voltar para seu país neste mesmo ano ou, o mais tardar, em 2013, segundo revelam os dados do Governo do Equador, que colocou em andamento uma série de projetos com o objetivo de facilitar seu retorno ao país(Huffington Post, 24.10.2012)

Na Grécia, diante da alta descontrolada dos preços da comida, o governo vai permitir a venda de alimentos vencidos a um preço inferior ao original (El Mundo, 15.10.2012). Até agora, essa redução de preços era permitida em alguns países quando a data de vencimento estava próxima, e parece que com a crise, os governos declararam que os alimentos podem ser consumidos mesmo que vencidos. O pessoal grego da área de saúde também deu o alarme sobre o aumento do número de cidadãos que acorrem aos hospitais fingindo estar doentes, quando na realidade o que precisam é alimentar-se. “Pessoas vêm pedir um prato de comida. Fingem que tem um problema de saúde, e pedem comida”, afirma o presidente da Associação de Médicos do Hospital de Salônica, Jristos Papasteriyu. A situação afeta também os menores no país, que com freqüência apresentam sintomas de desnutrição e não estão vacinados. Segundo o presidente da Associação dos Médicos de Hospitais da Grécia, Dimitris Varnavas, “30% das crianças estão sem vacinação, conseqüentemente foi rompida a barreira do contágio das doenças infecciosas, e torna-se fácil a irrupção de epidemias” (Rússia Today, 10.09.2012). Na Grécia, 27,7% da população vive na pobreza (El Mundo, 05.05.2012), o salário mínimo diminuiu uns 22% (perto de 32% para os menores de 25 anos) (El País,03.03.2012).

Na Espanha, são 21,1 % da população que vivem abaixo da linha da pobreza neste ano, e o mais grave é que o grupo social que não está piorando é justamente o que não está condenado a diminuir, os pensionistas com mais de 65 anos. A taxa de pobreza diminui entre os maiores de 65 anos e aumenta entre as pessoas em idade de trabalhar, entre 16 e 64 anos (Eldiario.es, 22.10.2012). O último estudo do Observatório Social da Espanha (OSE), detectou que a pobreza infantil disparou perto de 45% desde o início da crise em 2007, o que provocou novos cenários de pobreza relacionados com a subnutrição, a falta de escolarização e as dificuldades de acesso à saúde. (Europa Press, 20.11.2012). Até alguns anos atrás, associava-se os anciãos ao setor da população que estava obrigado a viver em condições econômicas mais precárias, mas agora os responsáveis pelas casas de repouso para anciões tem assinalado que, de um par de anos para cá, está se detectando que há unidades familiares que retiram aos mais idosos desses asilos da terceira idade para levar a vida adiante com o valor da suas aposentadorias(Málaga Hoy,13.08.2012).

A precariedade na Espanha atinge de forma dramática a alimentação. A Cáritas informou, neste verão que passou, que cerca de 17% dos galegos depende de auxílios de caridade para comer(ABC, 23.07.2012). Em alguns refeitórios públicos da Catalunha, é preciso esperar 23 dias para obter um lugar na mesa. Em outro refeitório de Sevilha, atendem 150 pessoas por dia, e não dão conta, por que muitas ficam sem seu prato. Refeitórios de Madri que atendiam 100 pessoas há três anos, hoje atendem 400(Teinteresa.es,23.04.2012). Em 19 de novembro passado, segunda-feira, um empresário assaltou uma agência bancária com o objetivo de ir para a prisão, já que se sentia afogado pelas dívidas e pela sua situação pessoal(Europa.press,21.11.2012).

Mas fiquem tranqüilos. Nem todas as cifras são negativas para todos. Quatro filhos de Emilio Botin, presidente executivo do Banco Santander, receberam de seu pai 26 milhões de ações do grupo, avaliadas em 147 milhões de euros(El País, 19.11.2012).

Pascual Serrano é jornalista. Seu último livro é: “Contra la neutralidad. Tras los pasos de John Reed, Ryzard Kapuścińsky, Edgar Snow, Rodolfo Walsh y Robert Capa" . Editorial Península. Barcelona

www.pascualserrano.net