quinta-feira, 31 de maio de 2012

Sardenberg, mais um banco quebrado entre oito mil não é nada, né?

GilsonSampaio

Quando Nestor Kirchner mandou a canalha bancária catar coquinho em outra freguesia a mídia vassala do mercado financeiro esgotou farto material condenando a Argentina à mendicância eterna e para comover a audiência chorava lágrimas de crocodilo as perdas dos fundos de pensões do velhinhos italianos. Seria comovente não fosse o lado oculto da notícia. A Argentina chegou a pagar até 500% de juros ao ano aos mesmos coitadinhos velhinhos italianos.

Quando estourou a crise da Grécia a mesma mídia vassala fez o que podia para esconder o risco de quebradeira generalizada no seio da canalha bancária. Nunca houve preocupação com a Grécia e seu povo, o alvo da proteção era o dominó financeiro e seus investidores.

Sardenberg, moleque de recados do mercado financeiro e água no chopp do Brasil deixou de aparecer no jornal da grobo quando assunto é a quebradeira dos bancos europeus. O motivo você pode ver no vídeo a seguir.

Vassalagem excessiva ultrapassa o ridículo

 

Via Esquerda.net

Bankia: Um banco zombie.

 

A crise do Bankia tem vindo a marcar a crise bancária em Espanha, pelo seu peso, pela sua grave situação e pelo envolvimento de altos quadros do PP no banco. O seu presidente, que se demitiu a 7 de maio de 2012, era Rodrigo Rato, antigo ministro da Economia de Aznar e posteriormente diretor-geral do FMI, até 2007. O Bankia, parcialmente nacionalizado a 9 de maio de 2012, terá cerca de 32.000 milhões de euros de ativos tóxicos no seu balanço.

Artigo | 30 Maio, 2012 - 18:11

Bankiarrota 20.000 milhões e paga-los tu - Imagem de acampadalagomera.blogspot.pt

Em janeiro de 2010, Rodrigo Rato chegou a presidente da Caja Madrid, substituindo Miguel Blesa, depois de uma longa crise e de uma acesa disputa entre o presidente da Câmara de Madrid e a presidente da comunidade autonómica pelo controle da Caja Madrid, todos membros do Partido Popular (PP). O presidente da Câmara de Madrid era então Alberto Ruiz-Gallardón, atual ministro da Justiça do Governo de Espanha, apoiante de Miguel Blesa. A presidente da comunidade autónoma de Madrid era e é Esperanza Aguirre também ela do PP e que pretendia demitir Miguel Blesa e deter o controle da Caja Madrid. A saída negociada deste diferendo, apoiada por Mariano Rajoy com o aval do presidente do Banco de Espanha e do governo do PSOE presidido por José Luis Zapataero, foi entregar a presidência da Caja Madrid a Rodrigo Rato.

Em 2010, as cajas de ahorro eram já um grande problema na banca espanhola. As caixas de aforro (cajas de ahorro) são entidades de crédito com objetivos sociais, que não podem ter lucros, mas atuam com critérios de mercado e realizam operações financeiras, tal como qualquer outra instituição financeira1. Durante décadas, as cajas de ahorro foram controladas pelos poderes municipais e regionais, partilhadas entre o PP e o PSOE e estiveram profundamente envolvidas na bolha imobiliária. A crise do subprime estendeu-se a Espanha, as cajas ficaram imersas na crise imobiliária, as políticas de austeridade impostas pela UE e pelo FMI e praticadas pelos governos de Espanha agravaram ainda mais a situação.

Rodrigo Rato, como presidente da Caja de Madrid, encabeçou a fusão da Caja Madrid com a Bancaja2, arrastando outras cinco cajas3 para criar um grande banco de Espanha. Em resultado da fusão, foi criado em junho de 2010 o Banco Financiero y de Ahorros (BFA), que lançou em março de 2011 o Bankia, banco e marca comercial, controlado em cerca de 52% pelo BFA. O Bankia torna-se o quarto maior banco de Espanha, depois do Grupo Santander, do Banco Bilbao Vizcaya Argentaria (BBVA) e do grupo La Caixa de Barcelona.

O Bankia, era a concretização do objetivo de lançar um grande banco, juntando os melhores ativos do BFA, indo buscar 4.000 milhões de euros na bolsa e assim gerir lentamente os ativos tóxicos. Porém, o lançamento na bolsa correu mal. Coincidiu com novo agravamento da crise financeira na Europa, a venda das ações em bolsa prolongou-se e o seu valor caiu 15% em relação ao preço inicial estabelecido.

Por outro lado, o peso dos ativos tóxicos no BFA era muito grande e a política da austeridade agravou-a. Com o BFA criou-se a maior imobiliária de Espanha com uma carteira de créditos problemáticos no montante de 31.800 milhões de euros4.

A auditoria da Deloitte conclui que o BFA-Bankia tem um buraco de, pelo menos, 3.500 milhões de euros. A situação leva à demissão de Rodrigo Rato e à nacionalização do BFA. O Bankia é um banco zombie5, cuja necessidade de fundos do Estado têm continuado a aumentar e chegam no imediato a 19.000 milhões de euros e terá ativos tóxicos no montante de 31.800 milhões de euros na sua carteira de créditos imobiliários6.

1 Ver cajas de ahorro na wikipedia de Espanha.

2 Bancaja - Caja de Ahorros de Valência, Castellón e Alicante.

3 A fusão da Caja Madrid com a Bancaja, presidida por José Luis Oliva, igualmente destacado quadro do PP e ex-presidente da Generalitat de Valência, juntou outras cinco cajas: de Canarias, Rioja, Ávila, Segovia e Laietana.

4 Ver notícia em El Pais.

5 Banco zombie é uma instituição financeira com valor económico menor que zero, mas que continua a operar porque a sua capacidade de pagar as suas dívidas está sustentada no crédito governamental. (ver zombie bank na wikipedia em inglês)

6Ver notícia do El Pais, El Banco de España y Economía ultiman un profundo saneamiento de Bankia, 7 de maio de 2012.

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A luta de classe é sempre pedagógica

Via Palavras Insurgentes

Elaine Tavares

A greve dos trabalhadores do transporte público foi uma linda lição de luta de classe, que durou três dias em Florianópolis. Nesses momentos de ruptura da ordem estabelecida é que se pode ver como todo esse pacto que os ditos liberais fazem de “colaboração e parceria” com os trabalhadores se traduz em nada. Basta que os trabalhadores exijam um direito, melhores salários e melhores condições laborais e o empresariado arreganha os dentes, acompanhado de toda a mídia comercial, mais os poderes da república. Tudo vira contra a luta dos trabalhadores. E eles ainda passam pelos grandes vilões.

Quem mora numa cidade grande, sabe. O trânsito mata. Não só por conta da violência dos acidentes, mas pelo caos diário que provoca estresse e selvageria. Nesse universo, um motorista de ônibus, que faz dezenas de viagens, iguais e repetitivas, está submetido a forte pressão. Não é à toa o pedido de redução de carga horária para seis horas. E a resposta dos empresários? “Isso é impossível, vamos ter de contratar mais gente!”. Mas, ora, e isso não é bom? Mais emprego, mais “colaboradores”? Pois ninguém fala sobre isso. A imprensa, feito papagaio, se limita a reproduzir à exaustão os argumentos pífios dos empresários.

Em todos os canais de televisão foram convidados os empresários do transporte, os lojistas, especialistas em economia e o festival de bobagens se espraiou. Reclamações indignadas dos comerciantes que estavam perdendo dinheiro. E a culpa, de quem? Dos trabalhadores. Declarações indignadas dos empresários do transporte sobre o prejuízo à cidade. E a culpa, de quem? Dos trabalhadores. Também a população era incitada a dar sua opinião, com os telefones abertos, para que reclamassem à vontade. E a culpa, de quem? Dos trabalhadores.

Uma reportagem da RBS mostrou um repórter, dentro de uma empresa de ônibus, no interior de um veículo que tentava furar o cerco que os grevistas faziam em frente ao portão. O espetáculo da defesa do direito daquele trabalhador específico que queria trabalhar, e não podia. Uma minoria entre os motoristas e cobradores, mas foi o que recebeu os holofotes. A maioria dos trabalhadores que enfrenta o trânsito maluco de uma cidade que prioriza o carro não teve sua história contada. As duas seriam boas histórias, as duas, e não apenas um lado da moeda.

Não teve repórter na casa de um motorista mostrando seu cotidiano, sua vida na periferia, seu acordar de madrugada, seu medo de assalto nos madrugadões, o sacrifício para criar os filhos. Não. A dor era a dos empresários que, desgraçadamente, estavam tendo prejuízos por conta do fato de que os trabalhadores estavam exigindo direitos.

Também os números eram manipulados na cara dura. “Os empresários estão dando aumento de 7%, o que querem mais?”, diziam os comentaristas, arvorados subitamente de defensores da ordem e das gentes. Mentira. A proposta era de recomposição salarial de quatro e pouco, mais dois de aumento real. Os mesmos comentaristas, inflamados diante da ousadia dos trabalhadores não eram capazes de falar que em Florianópolis são apenas cinco empresas que cobrem o serviço de transporte, que há um monopólio de linhas, que as gentes não têm opção, que nunca houve licitação para a contratação das empresas, que tem gente graúda da política com ações nessas empresas. Nenhuma confrontação de dados sobre os lucros das empresas, do que a prefeitura joga de dinheiro público no serviço privado. Nada. Hélio Costa foi o único que fez alguma pergunta incômoda ao representante dos empresários, mas acabou incorporando o discurso de que o caos era culpa dos trabalhadores.

O prefeito Dario Berger, como sempre, foi um fiasco, agindo como se a prefeitura não tivesse nada o que fazer diante da “violência” imposta pelos trabalhadores. Seu único arroubo foi dizer que mandaria punir os donos de vans que estariam cobrando a mais dos quatro reais autorizados pela prefeitura. E nenhum repórter ou comentarista para questionar essa omissão.

A procuradoria foi rápida em dar seu parecer, lançando uma nota digna de “nota”. Chegou a propor a demissão de 10% dos trabalhadores de cada empresa, como medida de punição aos trabalhadores em luta. E a nota era lida e relida, como se fosse a verdade verdadeira. Lembrei-me do dia em que entramos na Justiça com pedido de suspensão do show do Bem Harper, no Campeche, que estava sendo proposto em uma área de preservação permanente. Nenhuma palavra da “justiça”. Contra os ricos não há ação “punitiva”. Não há. É fácil ser valente diante daqueles que só têm os “seus corpos nus”, como diria o grande contador de histórias do povo, o repórter Marcos Faerman.

Mas essa gente aguerrida fez a sua luta. Mostrou que esse papo de conciliação entre capital e trabalho não existe. Não há como existir. Os trabalhadores estarão sempre em busca de melhoria no seu fazer cotidiano que, dentro do capitalismo, sempre será de exploração. É uma corda esticada no limite. E nesse cabo de guerra, os empresários nunca – eu disse nunca – serão bonzinhos. Cada pequeno avanço só vem com luta, luta forte, luta renhida. Assim, quando a luta de uma categoria se faz, o certo mesmo é haver a união de classe. Os trabalhadores todos, juntos, apoiando a luta daqueles que tiveram coragem de fazê-la.

Aí, agora, os papagaios dos poderosos já estão atuando ideologicamente. Os trabalhadores venceram essa queda de braço, arrancaram mais uma coisinha dos patrões. Isso não pode ficar impune. Então, o braço duro da vingança vem com força. Já começam a falar em aumento da tarifa. E aí, a culpa será de quem? Dos trabalhadores que lutaram. Falar-se-á em conluios, em tramoias entre o sindicato dos trabalhadores e os patrões. Dir-se-á que foi tudo armado, que era jogada. E mais uma vez os trabalhadores serão punidos, porque ousaram lutar e vencer.

Então, quem tiver ouvidos para ouvir, que ouça. A greve é a expressão da luta de classe. A greve é a ruptura da ordem que impõe a exploração aos trabalhadores. A greve é um dos poucos recursos de força que os trabalhadores têm para negociar. Ela é necessária para que os direitos avancem. Se vier aumento, não é por causa da greve. É porque os empresários não querem diminuir em um centavo sequer os seus lucros. Então, eles, não satisfeitos em sugar os trabalhadores, ainda sugam o povo. Se vier aumento, a causa é a ganância pelo lucro, a omissão de uma prefeitura que não se importa com os cidadãos.

E se ele, o aumento, de fato vier? Então, será hora de a população aprender com os motoristas e cobradores. Lutar e vencer!

Fiscais flagram escravidão em uma das principais obras rodoviárias do PAC

Via Brasil de Fato

Além da libertação de quatro trabalhadores, fiscalização constatou outras irregularidades na duplicação da rodovia BR-060

Bianca Pyl, da Repórter Brasil

Quatro trabalhadores foram libertados de condições análogas às de escravos nas obras da duplicação da rodovia federal BR-060, que liga Goiânia a Jataí, no sudoeste de Goiás. A obra faz parte de um pacote de investimentos de R$ 1,4 bilhão de recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do Governo Federal, destinados a ampliar a capacidade da rodovia. A duplicação é considerada estratégica para o escoamento de grãos e etanol produzidos no Centro-Oeste.

Os empregados trabalhavam para a CCB Construtora Central do Brasil, que faz parte do Consórcio Cerrado, formado também pelas empresas Construmil Construtora e Terraplanagem Ltda. e Cetenco Engenharia S.A. O consórcio é responsável pela duplicação do trecho que vai do km 228,3 ao km 277,8 da rodovia. O Ministério do Trabalho e Emprego lavrou 15 autos de infração contra a construtora. Em nota à Repórter Brasil, representantes do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), do Ministério dos Transportes, afirmaram que providências estão sendo tomadas para sanar o problema. A CCB Construtora, por sua vez, não se posicionou.

A operação realizada em maio pela Superintendência Regional do Trabalho e Emprego de Goiás (SRTE/GO), pelo Ministério Público do Trabalho e pela Polícia Rodoviária Federal, foi motivada por denúncias. Os trabalhadores estavam sem receber salários, alojados em uma barraca de acampamento, armada às margens do rio Capivari. O acesso ao alojamento era difícil "praticamente mata fechada", segundo Juliano Baiocchi Souza, auditor fiscal da SRTE/GO que participou da ação. "Não havia comunicação. Era um local que só chegava quem já conhecia bem a área", complementou. Durante o dia, o grupo replantava a grama no canteiro da rodovia.

Barraca de acampar era utilizada como alojamento de quatro trabalhadores. Fotos: SRTE/GO

Não havia camas para o grupo. Após uma jornada de onze horas diária, os trabalhadores libertados ficavam instalados em barracas apertadas. "Mal dava para esticar as pernas ou ficar em pé dentro da barraca", descreve Juliano. As ferramentas de trabalho e alimentos eram armazenadas no mesmo local. O café da manhã, almoço e jantar eram preparados pelos próprios empregados, que comiam sentados no chão.

"Não havia também instalações sanitárias no alojamento e nem nas frentes de trabalho", disse o auditor fiscal. Os trabalhadores utilizavam o mato como benheiro, correndo riscos de serem picados por animais peçonhentos. Ainda segundo a fiscalização, a água consumida pelos empregados era retirada no rio Capivari e a construtora não forneceu equipamentos de proteção individual aos trabalhadores.

Após a fiscalização, os trabalhadores receberam as verbas rescisórias, no total de quase R$ 18 mil, e retornaram as cidades de origem. Por conta das irregularidades, a obra chegou a ser embargada e a construtora obrigada a apresentar soluções para os problemas constatados pelo Ministério do Trabalho e Emprego.

Conjunto de problemas

Espaço apertado dentro da barraca mal dava para os trabalhadores esticarem as pernas

A fiscalização também verificou problemas graves relacionados às condições de trabalho em outros trechos da duplicação da Rodovia BR-060. Todas as obras de quatro consórcios fiscalizados, responsáveis pelos trechos de Goiânia até Acreúna, chegaram a ser embargadas pela equipe de fiscais devido às irregularidades, que, segundo o Ministério do Trabalho, colocavam em risco à segurança dos trabalhadores.

Em nota à Repórter Brasil, o Ministério dos Transportes informou, por meio do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), que, por conta da fiscalização, "abriu processo administrativo para apurar responsabilidades e vai aumentar a fiscalização nas obras". Os representantes da pasta informam ainda que desde então "vem promovendo reuniões nos canteiros de obras, exigindo que os consórcios se adaptem aos apontamentos da Delegacia Regional do Trabalho". Em setembro do ano passado, o ministro de Transportes Paulo Sérgio Passos e o superintendente regional do DNIT, Alfredo Neto, participaram de uma vistoria para verificar o andamento da duplicação.

Obras de duplicação receberam R$ 1,4 bilhão de recursos do PAC

Além da terceirização de atividades fim, a fiscalização constatou também atrasos de até 60 dias no pagamento de salários. "As condições de trabalho em todos os consórcios fiscalizados são precárias e muito preocupantes", avaliou Juliano, coordenador da fiscalização. Assim como no trecho em que houve a libertação, as demais construtoras envolvidas não disponibilizam instalações sanitárias aos empregados, que utilizavam o mato como banheiro. Também não havia fornecimento de água potável ao longo da jornada de trabalho, que, em alguns casos, chegava a durar cerca de 15 horas, acima do permitido pela legislação. Os trabalhadores não tinham um dia de folga semanal e o horário de almoço não passava de 20 minutos.

Durante os trabalhos, empregados foram alojados em casas alugadas em diversas cidades ao longo do trecho da duplicação. O transporte para as frentes de trabalho era feito em ônibus com pneus carecas, sem cinto de segurança, assentos soltos e motoristas sem autorização para transportar passageiros.

Confira abaixo a relação dos consórcios em que problemas foram constatados. De acordo com o DNIT, todas as irregularidades foram corrigidas e as obras embargadas foram liberadas.

Campanha pela desapropriação imediata das terras da usina Cambahyba

Via MST

No livro “Memórias de uma guerra suja” (Topbooks), o ex-delegado do DOPS Cláudio Guerra denuncia vários crimes da ditadura. O que mais causa indignação é saber que os corpos de dez militantes que lutaram contra o regime militar foram incinerados no forno da Usina Cambahyba, de propriedade de Heli Ribeiro Gomes.

João Batista Rita, Joaquim Pires Cerveira, Ana Rosa Kucinsk Silva e Wilson Silva, David Capistrano, João Massena Melo, Fernando Augusto Santa Cruz Oliveira, Eduardo Coleia Filho, José Roman e Luiz Ignácio Maranhão Filho tiveram seus corpos incinerados, para que não ficassem vestígios das torturas impostas pela ditadura militar.

MST luta para desapropriação de área onde militares incineravam militantes

Segundo o ex-delegado do DOPS, a Usina, em troca, recebia facilidades como créditos e financiamentos. A Usina Cambahyba,  cúmplice da violência do Estado, era beneficiada e protegida. Consta no livro:

“O local foi aprovado. O forno da usina era enorme. Ideal para transformar em cinzas qualquer vestígio humano. A usina passou, em contrapartida, a receber benefícios dos militares pelos bons serviços prestados. Era um período de dificuldade econômica e os usineiros da região estavam pendurados em dívidas. Mas o pessoal da Cambahyba, não. Eles tinham acesso fácil a financiamentos e outros benefícios que o Estado poderia prestar." (Cláudio Guerra, ex-delegado do DOPS)

Prossegue, hoje, a proteção às terras da Usina Cambayba. E a violência continua. O Poder Judiciário Federal vem impedindo a desapropriação do complexo de 7 fazendas que totalizam 3.500 hectares.

Em 1998, as fazendas da Usina foram consideradas improdutivas e passíveis de desapropriação para fins de Reforma Agrária pelo INCRA, e objeto de um decreto presidencial.

Mas, ao longo desses 14 anos, o Poder Judiciário vem impedindo a desapropriação e promovendo despejos violentos das famílias que reivindicam a terra.

No ano 2000, frente à morosidade do INCRA e do Poder Judiciário, 470 famílias organizadas no MST ocuparam o complexo de fazendas da Usina.

No mesmo ano, a Procuradoria da Fazenda Nacional de Campos dos Goytacazes iniciou um processo de arrecadação das terras da Usina, cujas dívidas  com a União, ultrapassam R$ 100 milhões. Porém, esta tentativa foi frustrada pelo Governo Federal em 2003/2004, através do Plano de Refinanciamento das Dívidas dos empresários com a União (Refis).

A proteção do Estado ao latifúndio permanece. Em 2006, as Polícias Federal e Militar, por decisão da Justiça Federal de Campos, despejaram com violência famílias que viviam nas terras da Cambahyba. Houve agressões e prisões, casas e plantações foram destruídas.

A história da Usina Cambahyba ilustra o poder do latifúndio em nossa sociedade. É inaceitável que essa violência continue. Por isso, exigimos a imediata desapropriação das terras da Cambahyba para assentamento das famílias.

Frente a essa situação de permanente injustiça, solicitamos que enviem cartas:

Ao Juiz da 2ª Vara Federal de Campos

02vf-ca@jfrj.jus.br

Praça São Salvador, 62 – 4º andar

28010-000 - Campos dos Goytacazes - RJ

Ao Ministro-Chefe da Secretaria Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho:

gilbertocarvalho@presidencia.gov.br

Praça dos Três Poderes, Palácio do Planalto, 4ºandar

70.150-900 - Brasília-DF

Ao Ministro do Desenvolvimento Agrário, Pepe Vargas:

agendaministro@mda.gov.br

Esplanada dos Ministérios, Bloco A/Ala Norte

70050-902 - Brasília-DF

Pedimos que nos enviem uma cópia para o endereço: secretariamst.rj@gmail.com

Mais uma vez a Veja pauta vida política nacional em associação com mídia corporativa. Até quando?

Sanguessugado do Mello

No último final de semana repetiu-se o modus operandi da verdadeira oposição aos governos populares Lula e Dilma: a mídia corporativa, a partir de uma reportagem de Veja, articulou mais um ataque ao governo, seguindo orientação que foi explicitada pela presidente da ANJ (Associação Nacional de Jornais), Judith Brito, que é diretora-superintendente da Empresa Folha da Manhã S.A., que edita a Folha:

Na situação atual, em que os partidos de oposição estão muito fracos, cabe a nós dos jornais exercer o papel dos partidos. Por isso estamos fazendo [isso]

Não importou que a matéria da revista, que afirma que o ministro do STF Gilmar Mendes teria sido pressionado por Lula a adiar o julgamento do chamado mensalão, numa reunião na sala do ex-ministro Nelson Jobim, tenha sido categoricamente desmentida por dois dos presentes (Lula e Jobim).

Seguindo estratégia explicitada pela presidente da ANJ, Folha e Estadão - com seu público restrito - e especialmente as Organizações Globo (O poder das Organizações Globo é um risco para a democracia no Brasil) mudaram a agenda política do país, desviando o foco da CPMI do Cachoeira para o tal encontro entre Lula, Jobim e Mendes.

Se a reporcagem de Veja sobre o tal encontro foi desmentida por dois dos três participantes, e depois até pelo terceiro - o ministro Mendes - que, numa entrevista à Globo, disse que Lula não lhe pediu nem ofereceu nada, tudo ele teria apenas "inferido" das palavras do presidente, por que então durante cinco dias o tal encontro pautou a vida política do país?

Por que o depoimento cínico, até debochado, do ainda senador Demócrita (hipócrita Demóstenes) Torres, parodiando o ex-presidente FHC que teria dito "esqueçam o que disse", enquanto Demócrita disse que nem tudo que se fala se faz - por que o depoimento ficou sem segundo plano, atrás das bravatas de Gilmar Mendes que pensa que fala com o Brasil como se estivesse com seus capangas (como denunciou certa vez o também ministro do STF Joaquim Barbosa, num aparte antológico que reproduzo a seguir)?

 

 

O Brasil quer saber é do esquema Cachoeira, que a CPMI investigue a fundo todo o funcionamento da quadrilha, que envolve políticos, empresários e jornalistas.

Por falar nisso, cadê as gravações do Policarpo com a quadrilha do Cachoeira?

Fome nos EUA: doze milhões de crianças à beira da morte

Sanguessugado do Burgos

O império e seus miseráveis

Estudo revela que uma em cada seis crianças norte-americanas menores de cinco anos passa fome e insegurança alimentar

Cenas de pobreza e miséria aparecem com freqüência em jornais de todo o mundo. Imagens que mostram geralmente a situação extrema em que vivem os povos na África, na América Latina ou no Sul da Ásia.

Muito comum também é conhecer através da imprensa mundial a riqueza e o desenvolvimento nos países acima da linha do Equador. Europa, EUA, Rússia e Japão são sempre relacionados com avanço tecnológico, poder aquisitivo e alto nível de bem-estar social.

Isso não quer dizer, no entanto, que o mundo seja exatamente assim. O colapso econômico mundial, a maior crise da história do regime capitalista, está levando à tona o que os países ricos sempre fizeram questão de esconder.

No país mais rico do mundo, os EUA, milhões de crianças estão muito abaixo da linha de pobreza e denunciam uma realidade cada vez mais difícil de esconder.

O último informe da organização Feeding America (Alimentando a América), que defende a criação de um banco de alimentos nos EUA, revela que pelo menos 12 milhões de crianças estão à beira da fome em todo o país e mais de três milhões e meio de crianças com menos de cinco anos passam fome, uma cifra equivalente a 17% (um em cada seis) das crianças norte-americanas de cinco anos de idade ou menos.

O informe “Insegurança alimentar infantil nos EUA: 2005-2007”, publicado no dia 7 de maio, é a primeira análise por estado que avalia a situação de crianças e bebês que vivem em regiões pobres do país.

A organização se baseou em dados coletados pelo Departamento Federal de Agricultura (USDA, na sigla em inglês) e pelo Censo de 2005 e 2006.

Os dados revelam a deterioração das condições de vida da classe trabalhadora nos últimos cinco anos. A partir de 2005, a fome e a pobreza se extenderam rapidamente junto com o aumento do desemprego e com os rebaixamentos salariais.

“Feeding America concluiu que neste período precedente à aparição da crise econômica, em 11 estados mais de 20% das crianças pequenas corriam perigo de passar fome.

Lousiana, com 24,2%, tem o índice mais alto de insegurança alimentar, seguido da Carolina do Norte, Ohio, Kentucky, Texas, Novo México, Kansas, Carolina do Sul, Tennessee, Idaho e Arkansas”.

Na Califórnia, os estudos concluíram que uma média 1,6 milhão de crianças se encontravam na extrema pobreza entre 2005 e 2007.

No Texas, a média era de 1,47% milhão no mesmo período. Nenhum estado tem menos de 10% de sua população infantil exposta à fome.

Até mesmo a “escassamente povoada” Dakota do Norte registrou um índice de 10,9%.

Segundo a USDA, mais de um milhão de pessoas foram inscritas em programas de assistência federal desde setembro do ano passado. Atualmente são 32, 5 milhões de norte-americanos recebendo auxílio alimentar do governo, mas o número pode ser bem maior em razão do aumento do desemprego e da pobreza. Uma grande parcela não teve ainda a oportunidade de se cadastrar.

A organização Food Research and Action Center estima que mais de 16 milhões de pessoas estão procurando assistência alimentar federal, mas não conseguiram se inscrever no programa.

Uma reportagem publicada pelo New York Times no dia 9 de maio identificou uma profunda insuficiência dos programas de assistência nos estados.

Na Califórnia, por exemplo, só a metade das pessoas que passam fome conseguiu se cadastrar em um programa de vale alimentação.

Em outros estados, como Missouri, onde a inscrição das pessoas que reúnem os critérios do programa é de 98%, centenas de milhares de famílias trabalhadoras pobres inscritas estão recebendo cada vez menos ajuda a cada mês que passa.

Em conseqüência disso, cada vez mais famílias norte-americanas estão recorrendo a restaurantes populares e organizações de caridade. Ou então cortam as despesas e passam a consumir produtos mais baratos e de menor qualidade.

Esta é a situação da maior potência econômica que a humanidade já conheceu. Cada vez mais milhões de famílias passam fome e perdem suas residências, sendo obrigadas a se alojarem em acampamentos improvisados ou até mesmo dentro de veículos.

Estes são os ingredientes para a eclosão de uma enorme situação revolucionária que fermenta no seio da maior classe operária do mundo.

Fonte: pco.org.br

Hillary Clinton confessa: Al Qaeda é criação do terrorismo americano

Via CubaInformación

Hillary Clinton admitió en una entrevista concedida a la cadena estadounidense Fox News que el gobierno de EEUU creó Al Qaeda. Fuente: teleSUR.

cubainformacion.tv

Que comportamento se deve exigir de um ministro do STF?

Sanguessugado do Conversa Afiada

JOAQUIM FALCÃO

ESPECIAL PARA A Fôia Ditabranda

O encontro entre o ex-presidente Lula e o ministro Gilmar Mendes levanta vários debates. Os mais imediatos são sobre comportamento pessoal e impacto deste encontro no julgamento do mensalão. Levanta também outra importante discussão.

Na democracia, precisamos de um Supremo independente e imparcial. Não é privilégio que a Constituição lhe concedeu. É direito e necessidade dos cidadãos. É um dever dos ministros. Por isso, a sociedade precisa decidir qual comportamento profissional e pessoal dos ministros melhor assegura esse direito.

Além de reputação ilibada e notável saber jurídico, o que mais se deve exigir de um ministro do STF? Essa questão é muito atual porque Dilma deve indicar neste ano pelo menos dois novos ministros. Qual perfil ela escolherá?

Excluindo a presidência do STF, que tem obrigações próprias, no STF há hoje dois perfis distintos. De um lado ministros mais discretos, que não se pronunciam, exceto nas audiências, e que mantêm distância de Executivo, Legislativo e representantes de interesses em julgamento. Vida pessoal recatada.

Por outro lado há ministros que se pronunciam fora dos autos, estão diariamente na mídia, mantêm contatos políticos, participam de seminários e reuniões com grupos de interesse.

A questão crucial, dizem uns, não é se o ministro deve falar fora dos julgamentos, estar na mídia ou se relacionar social e politicamente. A questão é haver transparência antes, durante e depois dos relacionamentos. E que não faça política. As agendas, os encontros, as atividades dos ministros deveriam ser publicados de antemão.

Em alguns países o juiz não recebe uma parte sem a presença da outra tão grande é a preocupação com a imparcialidade. O que alguns ministros praticam aqui no STF. Ou grava-se a conversa para assegurar a fidelidade do que ocorreu e proteger o ministro de propostas inadequadas.

Como aperfeiçoar o direito dos cidadãos a magistrados independentes e imparciais e evitar situação como esta é a grande tarefa democrática.

JOAQUIM FALCÃO é professor de direito constitucional da FGV Direito-Rio

Um pogrom em Israel.

Sanguessugado do Olhar o Mundo

Para quem não está a par,“pogrons” eram ataques que turbas de racistas faziam contra aldeias ou bairros de população judaica

Comuns durante séculos, especialmente na Europa Oriental, mobilizavam bandos que saqueavam e destruíam casas e lojas de judeus, ferindo e até matando.

Por uma ironia do destino, os “pogrons” reviveram em Israel, na noite de quarta-feira da semana passada.Só que as vitimas de ontem foram os algozes.

Na região sul de Telaviv, uma multidão de mil pessoas atacaram  e destruíram casas, carros e pequenos negócios de uma zona habitada por africanos, que vieram a Israel em busca de asilo. Feriram dezenas, felizmente não houve mortes.

Foram liderados e açulados por membros do Parlamento israelense: Michael Bem-Ari, Miri Regev e Danny Danon.

Bem-Ari é membro da União Nacional de extrema direita, que conclamou a turba a fazer justiça com as próprias mãos, afirmando que o “o tempo das palavras já passou”.

Ele pertenceu ao movimento ortodoxo, racista e fascista, Kach, fora da lei em Israel e considerado organização terrorista nos EUA.

A deputada Miri  Egev é do Likud, partido do premier Netanyahu e chamou os imigrantes negros africanos de “câncer na sociedade israelense” – expressão muito usada pelos nazistas ao se referirem aos judeus na Alemanha.

Ela deve ter copiado o coronel Effi Eitan, que há poucos anos referiu-se aos árabes israelenses como “um câncer.”

Posteriormente, ela desculpou-se por mencionar o Holocausto e o câncer mas, somente às vítimas de um e aos doentes do outro. Manteve o que havia dito dos africanos.

Também do Likud é Danny Danon, que dirige um lobby que propõe como única solução para o problema dos africanos o seguinte: ‘’Precisamos expulsar os infiltrados de Israel. Não devemos ter medo de usar as palavras “expulsão já”.

Milhares de africanos da Eritreia e do Sudão Sul tem chegado a Israel, fugindo da extrema miséria, da fome, de governos opressivos e das barbaridades praticadas por bandos armados nos seus países.

Vem pela fronteiras com o Egito, trazido por grupos de indivíduos que  os exploram ao máximo.

Em Israel, são cuidados por ONGs israelenses e pelo Alto Comissário de Refugiados da ONU. Onde ficam semanas e até meses, esperando que seus pedidos de asilo para poderem trabalhar sejam aprovados.

Muito antes disso, o governo os solta na estação central de Telaviv, sem dinheiro, sem agasalhos, sem nada. E que se virem até a decisão final sobre os pedidos deles.

A maioria vai viver nas zonas mais pobres de Telaviv.

Enquanto esperam alguns trabalham ilegalmente em funções tão humildes que os israelenses rejeitam. Outros pedem esmolas ou roubam.

Uns poucos abrem pequenos negócios.

Raros recebem licenças de trabalho. Segundo o 2011 Country Reports on Human Rights Practices: “dos 4,603 novos pedidos de asilo, 3,692 foram rejeitados.

Acabam concorrendo com os trabalhadores israelenses pobres, especialmente nas épocas de crise econômica, quando o desemprego aumenta.

Parece que isso está acontecendo agora.

A raiva contra a concorrência dos negros africanos, aos quais também se atribui um certo aumento no número de crimes, vem sendo estimulada.

Solidário com seus eleitores pobres, Netanyahu declarou que a onda de migrantes ameaça o “caráter judeu e democrático” do estado de Israel.

Novamente repetem-se considerações de líderes nazistas aplicadas contra os judeus.

Acho muito estranho esta insistência em preservar o caráter judeu do estado de Israel, ameaçado pela população negra africana.

Em primeiro lugar, porque significa um desejo de rejeitar as misturas com outras raças como algo maléfico, que prejudicaria a pureza da raça judaica.

Em segundo lugar porque sendo os africanos em Israel apenas 60 mil, representam 0,8% da população do país, sem condições, portanto, de modificar muito o quociente racial de Israel.

Bibi também condenou as violências” mas, depois de sua afirmação acima, essa condenação fica um tanto hipócrita.

No “pogron” de Telaviv, a multidão gritava coisas como: “fora com os negros”, “mande os sudaneses de volta para o Sudão”, enquanto outros, mais tranqüilos, limitavam-se a condenar “os esquerdistas de coração sangrento que trabalham para ajudar os negros.”

Não faziam mais do que ecoar ao apelo do Ministro do Interior, Eli Yishay: “Precisamos por todos esses infratores atrás das grades em centro de detenção, e os mandar  para casa porque eles vieram  para tomar empregos de israelenses.”

Seria a solução final para o problema dos africanos de Israel.

Voltando para a fome, a miséria, os massacres, as doenças epidêmicas e endêmicas e às torturas que os espera na Eritréia e no Sudão Sul, eles teriam destino semelhante ao dos judeus do holocausto.

É simples assim.

Agentes da tortura falam pela primeira vez: MP ouve depoimento de Guerra e Marival por 16 horas

Via Sul21

 

 

Luiz Cláudio Cunha

Especial para o

Em sigilo, começou esta semana a autópsia da ditadura brasileira. Durante 16 horas de depoimento em Vitória, ES, ao longo de segunda (28) e terça-feira (29), o ex-delegado do DOPS Cláudio Antônio Guerra e o ex-sargento do DOI-CODI Marival Chaves Dias do Canto falaram pela primeira vez e formalmente ao Ministério Público Federal, na presença da coordenadora da Comissão Memória, Verdade e Justiça da Câmara de Deputados, deputada Luiza Erundina de Souza (PSB-SP).

Uma força tarefa de cinco procuradores do MP de quatro Estados (SP, RJ, MG e ES) foi enviada discretamente à capital capixaba pela subprocuradora geral da República, Raquel Elias Ferreira Dodge, para a inédita oitiva dos dois únicos agentes da repressão brasileira que ousaram testemunhar e confessar os abusos e crime praticados nos porões da ditadura. O depoimento de Guerra e Marival acontece apenas doze dias após a instalação oficial pela presidente Dilma Rousseff da Comissão Nacional da Verdade, ainda enrolada na discussão burocrática de seu regimento de trabalho.

Reprodução / Topbooks / iG

Cláudio Guerra, ex-delegado do DOPS | Foto: Reprodução / Topbooks / iG

Ninguém da imprensa teve acesso ou soube dos depoimentos em Vitória. Uma equipe da TV Câmara, que acompanhava Erundina e o deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ), membro da Comissão Memória, Verdade e Justiça, não teve permissão dos procuradores para presenciar o ato. Uma equipe da própria Procuradoria Geral da República gravou os dois depoimentos na íntegra.

O ex-delegado Guerra, autor do livro recém-lançado Memórias de Uma Guerra Suja, em depoimento aos jornalistas Marcelo Netto e Rogério Medeiros, falou durante 12 horas — nove horas na segunda-feira, entre as 9h e as 18h, e outras três horas na manhã seguinte, respondendo a uma bateria de perguntas dos procuradores. Na tarde de terça-feira, entre as 14h e as 18h, o ex-sargento Marival deu o seu testemunho, o primeiro que faz desde a histórica entrevista que concedeu em novembro de 1992 ao repórter Expedito Filho, da revista Veja.

No livro, o delegado do DOPS admite que matou com disparos à queima roupa, envolveu-se em atentados como o Riocentro e coordenou a incineração de corpos de presos políticos no forno de uma usina de açúcar em Campos, interior fluminense. Na revista, o sargento do DOI confirma, na frase dura que ilustra a reportagem de capa: “Eles matavam e esquartejavam”.

“É a primeira vez que o Estado brasileiro ouve formalmente os seus depoimentos”, observou o procurador Sérgio Gardenghi Suiama, que acompanhou o histórico evento na sede do Ministério Público Federal em Vitória, na companhia dos procuradores Antônio Cabral, Ivan Cláudio Marx, Silmara Goulart e Paulo Augusto Guaresqui. Os dois agentes da repressão falaram longamente sobre o que viveram e viram, apontando nomes e locais que servirão para instruir os três procedimentos criminais já abertos no MP.

Marival Chaves, sargento do DOI-Codi | Reprodução

Ex-sargento do DOI-CODI Marival Chaves Dias do Canto | Foto: Reprodução

Guerra, apesar de se sentir ameaçado por ex-colegas que serviram à rede do DOPS, DOI-CODI e SNI, dispensou a sua inclusão no Programa de Proteção a Testemunhas, instituído em 1998 pela Secretaria Especial de Direitos Humanos do Ministério da Justiça. Apesar disso, a deputada Erundina, como coordenadora da Comissão Memória, Verdade e Justiça, formalizou ali mesmo, em Vitória, um pedido ao procurador da República em Campos dos Goytacazes, RJ, Eduardo Santos de Oliveira. “O depoente encontra-se sob frágil proteção policial executada pela PM do Espírito Santo”, ressaltou Erundina no ofício de terça-feira, 29, solicitando a cobertura da Polícia Federal ao ex-delegado.

“O Estado brasileiro, a partir desse ato formal perante o MP, é o responsável pela segurança pessoal de Guerra e de Marival e pela preservação dos locais e endereços onde foram praticados os crimes de tortura, morte e desaparecimento forçado”, observou Luiza Erundina, animada com as revelações detalhadas e as novas pistas oferecidas.

A deputada da Comissão Parlamentar Memória, Verdade e Justiça espera, agora, que outras pessoas se inspirem no exemplo dos dois agentes da ditadura, contando o que viram e sabem sobre os porões da repressão. “Guerra e Marival provam que podemos e devemos buscar e revelar a verdade, por mais terrível que ela seja. A verdade está aí, basta ter vontade e coragem para ir atrás dela”.

Luiz Cláudio Cunha é jornalista

(cunha.luizclaudio@gmail.com)

Verdugos e vítimas

Via PCB 

imagemCrédito: Cid Benjamin

Cid Benjamin

Um país que desconhece o passado está condenado a repetir os erros. Por isso, se a Comissão da Verdade trouxer à luz as entranhas da ditadura militar terá ajudado a consolidar a democracia e a criar anticorpos para que a barbárie não se repita.

No que diz respeito ao resgate da memória estamos muito atrasados em relação aos demais países do Cone Sul. A Comissão da Verdade já deveria ter sido criada. Sarney ou Collor, por terem apoiado a ditadura, não o fariam. Mas Fernando Henrique poderia tê-lo feito. E não há justificativa para a omissão de Lula.

É verdade que, se o Congresso não modificar a Lei da Anistia, os responsáveis por tortura ou assassinato de presos não poderão ser levados aos tribunais. Essa situação resulta da absurda interpretação da Lei da Anistia feita recentemente pelo STF, beneficiando os integrantes do aparelho repressivo. Quando da aprovação da lei, em 1979, militantes que participaram do que os militares chamaram de “crimes de sangue” (ações que resultaram em mortos ou feridos, mesmo que em troca de tiros) foram excluídos da anistia e continuaram na prisão cumprindo suas penas. Mas, desde abril do ano passado, por conta da interpretação do STF, torturadores, estupradores e assassinos de presos políticos estão entre os beneficiados pela anistia. Quem sabe não cometeram “crimes de sangue”...

Para que a comissão cumpra seu papel, uma condição é importante: a abertura dos arquivos dos órgãos das Forças Armadas usados na repressão política. Não pode ser aceita a justificativa de que essa documentação foi queimada. Não se destroem arquivos, salvo em situações extremas, o que não ocorreu no Brasil. E, no caso de documentos oficiais, é preciso haver ordem escrita para a destruição. Onde está essa ordem e quem a deu?

Os arquivos podem mostrar quem torturou e matou, quem deu ordens para tal e onde estão os restos mortais dos “desaparecidos”, além de tornar público quem financiou a repressão. Se, por ora, os responsáveis por esses crimes não podem ser punidos, que, pelo menos, o País saiba seus nomes.

A presidente da República é a comandante-em-chefe das Forças Armadas. Cabe a ela garantir acesso a esses arquivos.

Devem ser conhecidos também os decretos secretos do regime militar. Sim, por estranho que pareça, na ditadura houve decretos que tinham força de lei, mas não eram divulgados. É hora de torná-los públicos.

A comissão é formada por figuras respeitáveis, mas tem apenas dois anos para seu trabalho e precisa ajustar seu foco. Deve apurar os crimes de agentes do Estado e cometidos em seu nome. “Investigar os dois lados”, como quer o ministro do STJ Gilson Dipp, seria algo como defender investigação sobre os “crimes” da Resistência Francesa contra colaboradores dos nazistas.

Seria, também, criminalizar a resistência, mesmo armada, contra um regime ilegítimo – direito reconhecido pela Declaração Universal dos Direitos do Homem.

Isenção não pode ser confundida com equidistância entre verdugos e vítimas.

Cid Benjamin

Jornalista

Ministro do STF, Gilmar Mendes entra na mira da CPMI e poderá ser convocado

Via Correio do Brasil

Redação - de Brasília e São Paulo

CPMI

O delegado Protógenes (PCdoB-SP) abriu processo contra Gilmar Mendes e considera a hipótese de convocá-lo à CPMI

O nome do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes passou a figurar, a partir desta quarta-feira, na lista dos possíveis convocados à Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) que investiga as relações do bicheiro Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, com empresas, parlamentares e governadores. O objetivo de uma possível convocação de Gilmar visa a apuração dos fatos referentes ao encontro, em Berlim, na Alemanha, com o senador Demóstenes Torres (ex-DEM-GO), apontado pela Polícia Federal como o principal braço político de Cachoeira.

Mendes tenta, com uma série de entrevistas aos veículos de comunicação que integram o rol dos jornais e revistas que apoiaram a ação do esquema criminoso do bicheiro contra seus adversários, em busca de uma blindagem contra as denúncias de que ele teria voado em jatinhos pagos pela quadrilha de Cachoeira. Segundo o líder do PT na Câmara, Jilmar Tatto (SP), esta seria uma oportunidade a mais para se “desvendar a farsa do ‘mensalão”. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de posse da informação que poderá comprometer Mendes, teria atendido ao convite do próprio ministro para um encontro, em 26 de abril, no escritório do ex-ministro da Defesa Nelson Jobim. De acordo com a revista semanal de ultradireita Veja, no encontro, Lula pediu o adiamento do julgamento do ‘mensalão’ e teria oferecido, em troca, a disposição da maioria governista da CPI de livrá-lo de uma investigação. A notícia foi desmentida, posteriormente, tanto por Lula quanto por Jobim.

O ex-presidente negou ter conversado sobre o ‘mensalão’ no encontro. Segundo Lula, foi Mendes quem marcou a reunião, pois soubera por um assessor que acompanha os trabalhos na CPMI que alguns parlamentares obtiveram a informação da viagem com Demóstenes a Praga e Berlim. O motivo que o levou a somente tocar no assunto agora, mais de um mês após a reunião com Lula, seria uma forma de embaralhar o cenário político e institucional do país e, desta forma, minar as investigações em curso.

Este levantamento, no entanto, vai além dos aviões utilizados por Demóstenes e Gilmar Mendes em seus deslocamentos dentro e fora do país. Outra linha de apuração contra Mendes situa-se sobre a provável influência dele sobre o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, na decisão de não abrir uma ação penal contra Demóstenes no STF após receber os dados da Operação Vegas, em 2009.

– Se o ministro viajou a Berlim com Demóstenes, alguém pagou a passagem. Se o grampo (de Mendes com Demóstenes) não ocorreu, alguns dados estão sendo levantados e vamos verificar. Está sendo levantado tudo na CPMI. Gilmar não está (diretamente) no foco da CPMI. (Mas) Todos, indiretamente, estão no foco da CPMI. Vamos verificar o conteúdo disso e verificar os limites de cada um. Não vamos partidarizar a CPMI, o que não significa que seremos omissos – afirmou Tatto.

Os petistas tentaram mas ainda não conseguiram aprovar, na CPMI, a convocação Gurgel para falar sobre o assunto, embora o depoimento de Demóstenes, nesta terça-feira, ao Conselho de Ética, possa significar uma alteração neste quadro. O senador investigado por quebra de decoro parlamentar concordou com o senador Fernando Collor de Mello (PTB-AL) que há irregularidades no processo sobre a Operação Vegas. Na semana passada, o procurador encaminhou à CPMI sua justificativa: a de que detectou apenas desvios no “campo ético”, insuficientes para a abertura de ação judicial.

O ex-diretor da Polícia Federal, Paulo Lacerda, segundo um parlamentar, tem colaborado na operação. Lacerda esteve no Congresso, há algumas semanas, e conversou com líderes da base aliada. Sua motivação seria o afastamento do posto maior da PF após Mendes denunciar grampo, nunca comprovado em seu gabinete, que teria flagrado um diálogo dele com Demóstenes. Nesta linha de investigação, Mendes também corre o risco de se ver ligado ao ex-policial Jairo Martins, ex-funcionário da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), preso durante a Operação Monte Carlo. Pesa sobre o ministro do STF a suspeita de ter pedido a Martins para detectar o suposto grampo no gabinete do ministro. Este foi mais um dos episódios publicados por Veja, que resultou na demissão de Lacerda.

Processado

Gilmar Mendes terá, porém, que responder ao processo que move contra ele o deputado Protógenes Queiróz (PCdoB). Mendes teria dirigido “afirmações mentirosas e criminosas” contra o parlamentar, quando este ainda conduzia as investigações da Operação Satiagraha, que prendeu o banqueiro Daniel Dantas sob a acusação de uma série de crimes, entre eles a formação de quadrilha e a lavagem de dinheiro. Queiróz divulgou, na noite passada, uma nota sobre a questão.

Leia agora a nota do deputado, na íntegra.

“Ao povo brasileiro: como todos e todas puderam recentemente testemunhar, o ex-presidente do STF, Sr. Gilmar Mendes, fez declarações à revista Veja, ao site Conjur, aos jornais Globo e Folha de S. Paulo nesta semana, repercutido em diversos meios de comunicação, envolvendo o ex-presidente Lula e também o ex-ministro Nelson Jobim. Tanto foi assim que o próprio Gilmar Mendes teve que retificar tais declarações em seguida, na Rede Globo em 29/05.

“Desta vez a tentativa de blindar o crime organizado não deu certo. Felizmente, o trabalho da CPMI do Cachoeira já transcendeu o poder de obstrução dos corruptos, corruptores e do Sr. Gilmar Mendes. Não adianta mais tentar ganhar no grito ou querer dispersar o foco objetivo da CPMI por meio de mentiras.

“Convém lembrar que, há pouco menos de quatro anos, em 2008, quando o mesmo Gilmar Mendes, então presidente do STF, concedeu dois habeas-corpus em 48 horas ao banqueiro condenado Daniel Dantas, previa e devidamente preso por desviar bilhões de reais dos cofres públicos. Inaugurou naquela época o “foro privilegiado” para banqueiro bandido.

“Naquele momento de crise institucional no Brasil, advindo da Operação Satiagraha, a falta de credibilidade na justiça brasileira foi alertada, também, pelo ministro Joaquim Barbosa, ocasião em que abriu o debate na própria corte com o ex-presidente do STF Gilmar Mendes.

“Os atos incomuns praticados no STF pelo ex-presidente Gilmar Mendes tinha, então, respaldo de um super poder judicial acima da lei e da Constituição da República. Hoje ele não tem mais. As coisas mudaram no Brasil. E continuarão mudando.

“As afirmações mentirosas e criminosas dirigidas por ele contra mim, serão apreciadas em instrumentos próprios e no foro adequado, registrando que não tem indícios e documentos que classifiquem qualquer conduta na minha atividade como policial ou parlamentar vinculados ao esquema Cachoeira.

“Talvez, o destempero, nervosismo e arrogância de Gilmar Mendes se explique ao longo da CPMI do Cachoeira na ampliação da coleta de dados, documentos e informações que aprofundem as investigações com o objetivo final de revelar as infiltrações nos Poderes da República, que ameaçam o Estado Democrático de Direito.

“Por isso, é bom lembrar que as mudanças abrem novos caminhos para o futuro da mesma forma em que resgatam a memória. Assim, retroativamente, podemos desimpedir a evolução de um país que permanece obstruído por um legado de corrupção ética, moral e material. Ressalto ao final que a instauração da Comissão da Verdade e do Acesso à Informação dá para entender que a busca pela verdade é a ordem do dia no Brasil de hoje e de amanhã.

Deputado Delegado Protógenes

Venezuela denuncia afronta de Gilmar Mendes contra país

Via Vermelho

Em nota oficial distribuída nesta quarta-feira (30), a embaixada da Venezuela no Brasil condenou a frase dita por Gilmar Mendes ao jornal carioca O Globo, de que o Brasil "não é a Venezuela de Chávez, onde o mandatário, quando contrariado, mandou até prender juiz". Caso seja verdadeira, a frase reflete a profunda ignorância do membro do Superior Tribunal Federal sobre o país vizinho.

Mendes teria soltado a "pérola" em uma entrevista no jornal carioca, que repercutem a suposta "solicitação" do ex-presidente Lula para que ele interferisse a favor dos réus no processo do "mensalão", em trâmite no STF.

Leia abaixo a íntegra da nota distribuída pela Embaixada da República Bolivariana da Venezuela no Brasil

As declarações do ministro do STF Gilmar Mendes ao jornal O Globo (leia em http://migre.me/9in9g), se de fato ocorreram, constituem uma afronta à população venezuelana, e demonstram profunda ignorância sobre a realidade de nosso país.

Nossa Constituição, elaborada pela Assembleia Constituinte e referendada pelas urnas, determina a separação de poderes, estabelece direitos de cidadania e configura os instrumentos judiciais cabíveis, ou seja, o presidente da Venezuela não manda prender cidadão algum, independentemente do cargo que ocupe.

Recorrer à desinformação para envolver a Venezuela em debates que dizem respeito apenas aos brasileiros é uma atitude indecorosa – ainda mais partindo de um ministro da mais alta corte da nação irmã – e não reflete a parceria histórica entre Brasil e Venezuela.

Maximilien Arveláiz, embaixador da República Bolivariana da Venezuela no Brasil

“Gilmar Mendes foi leviano e mente”, diz Paulo Lacerda, ex-diretor da PF e Abin

Via Terra Magazine

 

Em entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo publicada nesta quarta-feira, 30, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes lançou acusações contra Paulo Lacerda, ex-diretor da Policia Federal e da Abin (Agência Brasileira de Inteligência):

- Dizem que ele (Lacerda) está assessorando o PT. Tive informação em 2011 que o Lacerda queria me pegar.

Segundo O Estado de S.Paulo, Gilmar Mendes suspeita que Lacerda estaria divulgando "informações falsas" para atingi-lo. E, também, que estaria assessorando o ex-presidente Lula. Terra Magazine ouviu Paulo Lacerda no início da tarde desta quarta-feira. Feita a ressalva "não sei se ele disse isso", Paulo Lacerda, habitualmente sereno e cordato, respondeu a Gilmar Mendes com dureza:

- Se ele falou isso, ele foi leviano e mente.

Lacerda, que hoje trabalha numa associação de empresas de segurança privada, conta que não vê Lula há anos, assim como Gilmar Mendes, e rebate as acusações:

- Estou aposentado, não trabalho com investigação (…) não trabalho para partido nenhum, não assessoro nem à CPI nem ao ex-presidente Lula (…) Se as informações que ele diz ter recebido são dessas mesmas fontes, se foram essas fontes e informações que o levaram a dizer o que anda dizendo, tá explicado porque ele está dizendo essas coisas e dessa forma.

Por fim, sobre informação atribuída também ao ministro e publicada no sábado, 26, em O Globo, dando conta que o espião Dadá seria seu homem de confiança,  Paulo Lacerda devolve:

- Eu nem conheço o Dadá, jamais tive contato com ele e nunca estive com ele. Portanto, faço a ressalva: se o ministro Gilmar Mendes de fato disse isso… essa é mais uma informação leviana, irresponsável e mentirosa.

Terra Magazine: O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, disse em entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo: "Lacerda tinha como missão me destruir", e que o senhor queria "pegá-lo". Disse também que "dizem" que o senhor estaria assessorando o PT e municiando o presidente Lula com informações…

Paulo Lacerda: Soube pelo jornal. O absurdo é tamanho que não sei como ele se permite dizer aquilo. Se ele disse aquilo, respondo: primeiro, o ministro Gilmar está totalmente desinformado sobre a minha vida profissional e pessoal. Estou aposentado da Polícia Federal depois de dois anos e meio de adidância em Lisboa e trabalho hoje para a Associação de Empresas de Segurança Privada. Não trabalho com nada, nada de investigação, e quem me conhece e à minha vida hoje sabe disso. Sabe o que é mais espantoso?

- O quê?

- É que é com base nesse tipo de informações que o ministro está recebendo é que se criou essa crise toda. Se as informações que ele diz ter recebido são dessas mesmas fontes, se foram essas fontes e informações que o levaram a dizer o que anda dizendo nos últimos dias, tá explicado porque ele está dizendo essas coisas e dessa forma. Ele, de novo, mais uma vez, está totalmente mal informado.

- O senhor não presta assessoria à CPI, ao PT ou ao ex-presidente Lula?

- Não vejo o presidente Lula, assim como o ministro Gilmar Mendes, desde que deixei o governo. Isso é ridículo. Não assessoro o PT nem a partido algum e é um delírio supor, achar e dizer que assessoro o ex-presidente Lula. Basta perguntar aos senadores e deputados da CPI se assessoro à CPI ou a algum parlamentar. Basta perguntar aos assessores do Lula se alguém tem algum vestígio de presença minha, de contato meu com ele. Sou aposentado, até poderia trabalhar para quem me convidasse e eu quisesse, mas isso não é verdade. É absoluta inverdade. Impressiona e é preocupante como um ministro do Supremo não se informa antes de dizer esses absurdos.

- Mas o que exatamente é absurdo?

- Tudo isso. São informações totalmente tendenciosas. Eu não estou trabalhando para partido algum, político nenhum. Ele está exaltado, sem controle, não sei se por conta dessa conversa com o ex-presidente, mas nada disso é verdade. E isso é muito fácil de checar.

- O senhor e o ministro Gilmar Mendes já tiveram um problema sério…

- Em setembro de 2008, ele procurou o presidente Lula e acusou a Abin, que eu dirigia, de ter feito grampos ilegais na Operação Satiagraha. Aquilo era mentira. Não foi feito grampo algum ilegal por parte da Abin… aliás, a CPI de agora é uma ótima oportunidade para investigarem aquela armação. Não existiu grampo algum, mas o ministro Gilmar Mendes foi ao presidente da República com base em uma informação falsa. Espero que agora apurem tudo aquilo.

- O que mais o incomoda?

- Eu não vi o ministro Gilmar Mendes falar isso, eu li no jornal. Não sei se ele falou, mas se ele falou, foi leviano e mente. Se falou isso o ministro Gilmar Mendes mentiu. Estou aposentado da área pública, todos sabem disso. Não teria nenhum impedimento, de ordem alguma, para trabalhar com investigação, mas não quero, e isso que ele disse, se disse, não é verdade.

- Alguma vez, depois do episódio em 2008, do tal grampo cujo áudio nunca apareceu, o ministro Gilmar e o senhor falaram sobre o episódio? Em algum momento ele reconheceu não ter ouvido o tal grampo, se desculpou?

- Não. Repito, não vejo o ministro e o ex-presidente Lula há anos. E não houve desculpa alguma… e acho que a CPI agora seria ótima oportunidade para esclarecer isso de uma vez por todas, embora a Polícia Federal já tenha concluído que não houve grampo algum da Abin…

- Essa CPI de agora, a do Cachoeira, tem alguns personagens comuns com aquele caso, fala-se muito no espião Dadá…

- A propósito. O ministro Gilmar Mendes teria dito ao jornalista Moreno que esse cidadão, Dadá, é ou era meu braço direito, meu homem de confiança. Respondi por escrito, mandei um e-mail para o Moreno, que é um jornalista… ele recebeu uma informação de um homem público e a publicou. Por isso enviei a resposta direto para ele e para o jornal O Globo.

- E qual é a resposta?

- Eu nem conheço o Dadá, jamais tive contato com ele e nunca estive com ele. Portanto, faço a ressalva: se o ministro Gilmar Mendes de fato disse isso…

- Sim, a ressalva está registrada

- Se ele disse isso, essa é mais uma informação leviana, irresponsável e mentirosa.

Foto: Agência Brasil

Izaías Almada e o samba do togado doido

Via Escrevinhador

Izaías Almada

Não! Não pense o leitor que vou aqui destilar mais uma catilinária contra o ministro Gilmar Mendes em defesa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Até por que o ex-presidente é maior de idade e saberá se defender muito bem, pois tem grande experiência política e sabe lidar com situações de saia justa.

O que chama a atenção no atual episódio do encontro no escritório do ex-ministro Jobim é o emaranhado de versões repercutidas na imprensa com o propósito simples e cristalino de desviar o foco das investigações da Polícia Federal e, sobretudo, das sessões da CPMI Cachoeira/Veja/Demóstenes no Congresso Nacional.

A “defesa” do senador Demóstenes na Comissão de Ética do Senado e as novas acusações do ministro Gilmar Mendes ao ex-presidente Lula, bem como o silêncio do contraventor Carlos Cachoeira na CPMI, formam um painel expressivo de como a bandidagem insiste em tentar melar a CPMI e livrar a própria cara e de outros meliantes envolvidos, em particular em órgãos de imprensa comprometidos com toda essa semvergonhice.

Um escárnio com o Brasil que tenta trabalhar, vencer enormes desafios nas áreas da educação, da saúde, de saneamento básico. De um Brasil que tenta passar seu passado ditatorial a limpo, que tenta acabar com os juros escorchantes cobrados pelos bancos privados. De um Brasil que quer incentivar e aumentar o seu parque industrial, consolidar seu mercado interno, desenvolver regiões como o nordeste e tirar milhões da pobreza.

O discurso do senador Demóstenes na Comissão de Ética é uma pérola de cinismo e deboche com a sociedade brasileira, delatando alguns companheiros de viagem, invocando a proteção divina e sugerindo, vejam só quanta honradez, que a CPMI cumpra a sua função de ir a fundo na sua tarefa, como se ele – Demóstenes – estivesse ali por acaso ou, como cinicamente afirmou, por uma grande perseguição pessoal.

Antes dele, os jornais já haviam estampado a fotografia do silêncio de Cachoeira, com aquela expressão de quem encara o país de frente e – como o célebre personagem do saudoso Chico Anísio – pergunta: “Sou, mas quem não é?” Milhões não são, bicheiro Carlinhos, milhões não são. E esses muitos milhões exigem justiça e, acima de tudo, respeito. O seu silêncio na CPMI é o silêncio dos covardes.

E agora vem o valente e destemido ministro Gilmar Mendes, esse exemplo de profissional discreto para o cargo que ocupa, a lançar suspeitas para todos os lados, sempre e quando essas suspeitas possam atingir o ex-presidente Lula, o Partido dos Trabalhadores, alguns de seus aliados e a esquerda de um modo geral.

Há quem diga que não existe crise nenhuma e que o Brasil real não está dando bola para essas diatribes de Gilmar Mendes & Cia. Será? É sempre recomendável que em política nenhum de nós se comporte como os avestruzes que enfiam a cabeça no buraco. Crises políticas e institucionais podem surgir em 24 horas a pretexto deste ou daquele acontecimento.

Senão vejamos: militares da reserva e alguns da ativa, segundo se depreende por manifestos aqui e ali, estão receosos ou mesmo contra a instalação e os trabalhos da Comissão da Verdade; fazendeiros e usineiros estão descontentes com os vetos da presidenta ao Código Florestal; os bancos privados ainda não engoliram a baixa dos juros e não vão abrir mão assim sem mais nem menos de seus escorchantes lucros; os conglomerados mediáticos andam assustados com medidas ou leis que possam vir a regular a atuação do setor com a criação de uma nova Lei de Meios. Tudo isso a um só tempo.

Juntos, esses setores, mesmo que com alguns conflitos de interesses entre eles aqui e ali, sempre estiveram nas trincheiras do obscurantismo, do conservadorismo, apenas em defesa de seus negócios e contra os direitos dos trabalhadores que constituem a maioria da população brasileira. Não há que superestimá-los, concordo, mas também não se deve subestimá-los.

Quando um país que inicia sua caminhada para a maioridade tem na sua mais alta corte de justiça um togado cuja atuação e o linguajar lembram mais nossas jagunçadas interioranas, torna-se necessário que botemos as barbas de molho. Ninguém é bandido até prova em contrário… E muito menos santo.

Izaías Almada é escritor, dramaturgo e roteirista cinematográfico, É autor, entre outros, dos livros TEATRO DE ARENA, UMA ESTÉTICA DE RESISTÊNCIA, da Boitempo Editorial e VENEZUELA POVO E FORÇAS ARMADAS, Editora Caros Amigos.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Trevas: O lado escuro do império

Via Rebelion

David Brooks

Tradução: Renzo Bassanetti

La Jornada

Às vezes a luz desaparece neste país e brotam raios escuros, como se surgissem de um buraco negro no universo, desses que engolem a luz, e há vislumbres de um país anulado, sufocado pelo medo e pela ignorância, ou simplesmente profundamente desencantado entre tantas promessas não cumpridas de “mudanças”, e, por ser super potência, as conseqüências disso se estendem pelo universo.

Uma gama demasiadamente ampla de políticos, religiosos e outros nega o fenômeno das mudanças climáticas; outra rechaça a teoria da evolução documentada por Darwin; outros se sentem ameaçados por mexicanos, centro-americanos, muçulmanos, judeus, africanos, gays, lésbicas, certos livros, certas idéias, etc.

Parte do temor provém da sensação de viver em um país onde tudo o que pensavam que era seu e permanente se desfaz diante deles em função de forças que eles não entendem e sobre as quais não tem nenhum poder, sejas elas empresas multinacionais, bancos, políticas econômicas feitas por e para outros, e que de repente os fazem perder suas moradias, seus empregos, suas fazendas. Ninguém lhes explica como foi que, agindo conforme as regras, ficaram sem nada, como se tudo tivesse sido uma armadilha.

Eles se armam – mais de 200 milhões de armas de fogo em mãos privadas – com a justificativa de que tem direito a defenderem-se diante de forças que ameaçam suas vidas. A televisão e outros meios não param de falar das ameaças que provém do estrangeiro, como das que nascem aqui dentro no país.

Daí surgem as milícias armadas de ultra-direita, os milhões que integram os movimentos cristãos fundamentalistas, e a proliferação de agrupações de “ódio”. Segundo o Southern Powerty Law Center, centro que se dedica a observar a extrema direita, há hoje em dia 1001 “grupos de ódio” que atuam no país. Incluindo neo nazistas, integrantes da Ku Klux Kan, nacionalistas brancos e “vigilantes” fronteiriços, entre outros. Reporta que, desde o ano 2000, o número de grupos de ódio cresceu 69%, nutrido pela ira e temor sobre condições econômicas, o fluxo de imigrante e a diminuição da população branca (que, segundo o censo, em 30 ou 40 anos passará a ser mais uma minoria neste país). O número de “milícias“ cresceu 755% nos primeiros anos do governo de Barack Obama (em parte, devido à eleição do primeiro afro-norte americano para a Casa Branca), e agora somam 1274, informa o Centro (um desses grupos esteve envolvido no atentado terrorista contra o edifico federal em Oklahoma City).

“Esse crescimento do extremismo tem sido ajudado pr figuras dos meios de comunicação de massa e políticos, e políticos que tem utilizado suas bases para legitimar propaganda falsa sobre imigrantes e outras minorias e difundir teorias de conspiração paranóicas que nutrem esses grupos de milícias”, informa o Centro.

Outras expressões de tudo isso são mostradas na onda anti-imigrantes que tem tomado conta da política em estados como Arizona, Alabama e Carolina do Norte. Também se expressa em ataques contra a educação, como no Arizona, onde o governo estadual tem tentado anular os estudos sobre os latinos, ou seja, o estudo da história dos latinos (mexicano-norte americanos, nesse estado), suas contribuições, sua literatura e seus vínculos e raízes no hemisfério. No ano passado, o procurador-geral desse estado declarou que um programa de estudos mexicano-estadounidenses em Tucson era ilegal conforme uma nova lei promovida por ele quando era diretor de educação publica do estado, com o argumento de que somente promove uma identidade separada, em vez de fundi-la com a história oficial (anglo), e que tem efeitos perigosos. Entre os livros assinalados como perigosos, está Pedagogia dos Oprimidos, de Paulo Freire. O novo diretor de educação pública quer promover a proibição desses estudos nas universidades estatais.

Outros governos estaduais tem proibido certos livros “perigosos”, e tem obrigado as escolas a oferecer, juntamente com a teoria da evolução, a teoria bíblica da criação do mundo. No Texas, é desenvolvido um esforço não somente para dar uma visão “cristã” das ciências, mas também aos textos de História, ressaltando as figuras ortodoxas cristãs e omitindo a palavra “escravidão”, entre outras revisões.

Por outro lado, continuam os esforços estaduais contra o direito das mulheres optarem pelo aborto, incluindo mais violência (são investigados os incêndios em dois consultórios de médicos que ofereciam serviços de aborto na Geórgia), enquanto que grupos de defesa desse direito emitiram alertas para as clínicas de todo o país, reportou o Atlanta Journal- Constitution.

Por sua vez, continua a ofensiva contra a comunidade gay, com estados que aprovam medidas para proibir toda a união ou casamento homossexual, enquanto que não faltam as expressões homofóbicas, como a do reverendo Charles Worley na Carolina do Norte, que na semana passada comentou com seus fiéis que as lésbicas e os gays deveriam ser “confinados em campos de concentração” rodeados de cercas elétricas até que morressem, “já que não podem se reproduzir”.

Há até ecos do macartismo. No mês passado, o representante federal republicano Allen West, da Flórida, declarou em um fórum público: “creio que há entre 78 e 81 membros (do Congresso) do Partido Democrata que também são membros do Partido Comunista”. Seu chefe de campanha indicou, como evidência, que alguns tinham viajado a Cuba e elogiado a Fidel Castro, e sublinhou que o representante defende seus comentários, já que essa gente “se opõe ao capitalismo e ao mercado livre e à liberdade econômica individual”.

Estas são somente algumas das forças obscuras das quais padece nosso país, juntamente com as expressões de luz que também tem surgido em rebeliões cívicas em locais como Wisconsin, o fenômeno Occupy Wall Street. Com toda essa crise, brota o pior juntamente com o melhor. Nuca se sabe quem ganhará, mas que seja bem vinda qualquer luz dentro das trevas estadounidenses.

A sanha golpista na América Latina

Via Diário Liberdade

Laerte Braga

A revelação que militares e empresários brasileiros participaram ativamente do golpe que derrubou o presidente Chile Salvador Allende e as articulações feitas nos preparativos para a ação na embaixada do Brasil em Santiago, conduzidas pelo embaixador Antônio Castro da Câmara Mello, são o primeiro susto da Comissão da Verdade, instituída pelo governo Dilma Roussef para apurar os crimes cometidos pela ditadura militar no Brasil.

De saída mostram um fato que é importante observar. Militares golpistas foram instrumento de potência estrangeira, de empresas multinacionais em estreita ligação com empresas brasileiras. A repressão, dentre outros financiadores, teve plena participação do empresariado brasileiro e particularmente o paulista.

Os condutores do golpe de 1964 no Brasil, como o golpe contra Allende e outros, foram os reais senhores do mundo e de muitas forças armadas, no caso, os golpistas brasileiros e chilenos.

Pinochet era "leal" a Allende e foi "cooptado" para o golpe pelo embaixador do Brasil no Chile. Esse "cooptado" significa que um preço foi pago ao general chileno, logo, golpistas são agentes a serviço desses donos e o tal "patriotismo" que arrotam é canalha sim.

Como os torturadores brasileiros, que se escondem atrás da lei da anistia, das próprias forças armadas – que carregam enquanto a verdade não vier plena, a mácula da tortura e das barbáries de 1964.

O golpe no Brasil foi articulado pelo embaixador dos EUA, Lincoln Gordon, comandado pelo general Vernon Walthers (à época adido militar no Brasil) e foi parte de um plano que cobria toda a América Latina. Os fatos começam a aparecer com tal força e com tal transparência que negá-los não é tapar o sol com a peneira, é covardia típica de quem tortura, de quem mata.

As revelações implicam um general francês na montagem da Operação Condor, aliança terrorista que representou ação conjunta das ditaduras sul-americanas na perseguição a refugiados políticos. Orlando Letelier, por exemplo, ex-ministro das Relações Exteriores do Chile, foi assassinado em New York a mando da DINA – polícia secreta de Pinochet . O major Cerveira, refugiado na Argentina foi capturado naquele país, levado para o Uruguai de onde veio para o Brasil. Morreu no Rio, depois de estupidamente torturado em São Paulo. Brilhante Ustra era o comandante do esquema de repressão.

A escritora chilena Monica Gonzáles cita o trabalho da jornalista francesa Marie-Monique Robin, no documentário "Esquadrão da Morte – A Escola Francesa", para mostrar o envolvimento da extrema direita daquele país em ações patrocinadas pela CIA. O general Paul Aussaresses montou no Brasil uma escola de tortura que deu ensejo a Operação Condor.

O tal patriotismo dos golpistas brasileiros é esse. Submissão a interesses internacionais, covardia absoluta com os adversários e resistentes.

Esses fatos foram revelados pelo site OPERA MUNDI e toda a história da participação brasileira na derrubada de Allende está ali.

É preciso lembrar que no governo Castello Branco o Brasil enviou tropas à República Dominicana para avalizar um golpe de estado que anteriormente havia deposto o presidente Juan Bosch e não foi pequena a participação dos golpistas no movimento chamado "contras", financiado pelo governo Reagan para derrubar o regime sandinista na Nicarágua.

O Itamaraty, chegou a ter um "serviço de inteligência" sob o comando do embaixador Pio Corrêa que admitiu seus crimes em uma autobiografia e numa entrevista concedida ao jornalista Cláudio Dantas Sequeira, do jornal CORREIO BRAZILIENSE. Pio Corrêa era encarregado da perseguição ao que chamava de "pederastas, bêbados e vagabundos que trabalhavam como diplomatas no Itamaraty". Entre os perseguidos e afastados estava o poeta Vinicius de Moraes. Era dos quadros da carreira diplomática e chegou a ser adido cultural em Paris.

Figuras como o ex-ministro da Comunicações Hélio Costa e o apresentador de tevê (canal VIVA/GLOBO) Aristóteles Drummond, tiveram participação ativa no processo. Eram agentes. Costa foi tradutor de Dan Mitrione, enviado pela CIA para dar "aulas" de tortura. Drummond era contrabandista de armas num esquema da CIA para golpistas chilenos, financiando e armando o grupo de extrema-direita Pátria y Libertad. Decisivo no golpe contra Allende.

O que essas revelações feitas pelo site OPERA MUNDI mostram é que não houve defesa de democracia, de liberdades, de direitos coisa nenhuma no golpe de 1964, ou contra Allende, nos golpes na Argentina, no Uruguai, ou no apoio a ditaduras em toda a América Latina. Houve "cooptação" de setores das forças armadas desses países, inclusive o nosso, num esquema amplo e que se voltava para toda essa parte do mundo, montado a partir de Washington e seus interesses, com participação de empresas multinacionais e nacionais.

E pior, que a democracia que temos é frágil, enquanto farsa à medida que não existe participação popular no processo político. O mundo institucional está repleto de figuras ligadas ao golpe em funções chaves, caso do presidente do Senado no Brasil, José Sarney, aliado do governo Lula e agora do governo Dilma, ex-governador do Maranhão em 1964.

Os desafios da Comissão da Verdade são maiores que mostrar que Brilhante Ustra era um torturador, um assassino. Ou que o jornal FOLHA DE SÃO PAULO emprestava seus caminhões para a desova de corpos de presos políticos mortos. Os paralelepípedos de qualquer rua, como dizia Nélson Rodrigues, sabem disso. Que VEJA é imprensa marrom, sórdida, vive de chantagem e extorsão, dominada por quadrilhas como a de Carlos Cachoeira, ou que o império da GLOBO se construiu por obra e graça da ditadura militar e da submissão aos interesses dos EUA.

Exibem toda a dimensão dos golpes de estado em países latino-americanos, com ênfase para a América do Sul e particularmente o chamado Cone Sul, Brasil, Argentina e Uruguai, já que o Paraguai vivia sob a ditadura de Alfredo Stroessner, aliado natural dos golpistas. Quando derrubado se exilou no Brasil.

A verdade, para além da covardia dos militares golpistas (que fizeram uma limpa nas forças armadas, afastando e eliminando militares legalistas), chega aos arranjadores dos golpes e seus maestros especialistas em boçalidade, como revela a presença de figuras hoje disfarçadas de democratas, escondidos na escuridão da verdade oculta. Caso de Hélio Costa e Aristóteles Drumond e tantos outros.

O assassinato do general Carlos Pratt (chileno) no seu exílio no Uruguai, do ex-presidente da Bolívia Juan José Torres, também no Uruguai, de Orlando Letelier, do major Cerveira, do ex- presidente brasileiro JK, com toda a certeza de João Goulart e das tentativas contra Leonel Brizola.

E centenas de adversários dos regimes militares.

Lula, quando presidente, optou pelo equilibrismo político, compondo com forças que serviram a ditadura para o que chamou de "governabilidade". Os avanços se perdem quando mantida a cortina de silêncio sobre esse período na América Latina. Não deixou de alinhar-se com as políticas neoliberais.

Golbery do Couto e Silva, um dos ideólogos do golpe de 1964, chamava isso de "movimento de sístole e diástole". Ou seja, expansão e contração, abertura e fechamento em linguagem política. Ora ditadura, ora "democracia" como a temos.

Dilma Rousseff ainda tem um contorno errático, ainda que esteja buscando se afirmar. E a Comissão da Verdade é uma tentativa de afirmação se for capaz de trazer a público toda a barbaridade dos golpes de estado e a participação de militares e empresários brasileiros na orgia de sangue.

É um governo que segue as regras neoliberais na economia, cede ao latifúndio no perverso negócio dos transgênicos (o veto ao Código Florestal não resolve nada, só adia a questão, ainda que permita espaços para organização e luta popular) e neste momento, finge que ignora o escândalo Carlos Cachoeira que pega figuras do governo e da oposição. Arranca a máscara dos três maiores partidos do Brasil, o PT, o PSDB e o PMDB.

Hora da verdade ou ora do embuste? Do passar ao largo desses fatos repulsivos ou enfrentá-los?

Essa resposta não vai ser encontrada no mundo institucional, mas nas ruas, na conscientização que a luta continua sendo de sobrevivência. A crise internacional, que afeta países da União Europeia, os EUA, torna o capitalismo mais agressivo, violento e irracional – mais do já é.

Os movimentos populares eclodem em várias partes do mundo e a violência de organizações terroristas do complexo ISRAEL/EUA TERRORISMO HUMANITÁRIO S/A aumenta de forma estúpida. Têm o controle da mídia de mercado, em caso de necessidade têm Xuxa para fazer "confissões" que desviem o foco do principal e retomem a linha do espetáculo. Ou a diretora do FMI para insultar os gregos, desnudar-se em sua absoluta insensibilidade diante da fome, do desemprego, na preocupação de salvar bancos.

É um momento agudo, vai ser mais ainda se permitirmos que o estado autoritário se mantenha no terror nuclear com que ISRAEL/EUA TERRORISMO HUMANITÁRIO S/A ameaçam o mundo, seja por si, seja por braços como a OTAN.

E até o Canadá acorda diante da barbárie capitalista. As revelações do OPERA MUNDI abrem um barril que continham fechado na marra, que agora tem que ser exposto. A luta é nas ruas.

Verdades incômodas sobre o mensalão

Via Época

 Paulo Moreira Leite

O leitor que tiver paciência de ler esta nota até o fim terá elementos melhores para julgar o debate envolvendo Lula e Gilmar Mendes.

Escrevi em nota anterior que o pano de fundo deste conflito envolve o ambiente político em torno do mensalão.

Uma das partes tem interesses em politizar o debate no ponto máximo. A outra tem esperança de convencer os ministros a apoiar-se em argumentos de natureza técnico, no exame das provas.

A leitura do relatório do delegado da Polícia Federal Luiz Flávio Zampronha, disponível na internet, é rico em detalhes e bastante completo na abordagem.

Só para o leitor ter uma ideia da radicalização da situação. Tratado pela imprensa, o relatório já foi exibido como prova definitiva da existência do mensalão. Também foi apontado como prova do contrário.

Em suas conclusões, o relatório mostra que se o PT não pode estar feliz com as denúncias apuradas, a oposição não tem o direito de festejar por antecipação.

É por isso que o julgamento é aguardado com tensão. Todo mundo espera um proveito político mas ninguém sabe o que pode acontecer.

Ninguém quer prestar atenção ao relatório.

Zampronha juntou os fios dos empréstimos bancários e dos contratos de publicidade do Banco do Brasil e concluiu que houve sim desvio de dinheiro público para pagar os compromissos assumidos pelo PT. Os dados estão lá.

O PT pode alegar, corretamente, que o mensalão de Delúbio Soares é igual ao mensalão mineiro e até pode dizer que o esquema dos tucanos mineiros está melhor demonstrado. Tudo isso é verdade. Mas a culpa de Marcos Valério em Minas pode até ajudar a denúncia em seu devido lugar. Mostra que o esquema do PT tinha antecedentes.

Mas nada disso ajuda a demonstrar que ele era inocente quando se juntou ao PT.

Pelo relatório, petistas e não petistas que deixaram sua assinatura em algum documento oficial terão dificuldades muito grandes para demonstrar que são inocentes.

O problema, para a oposição, é que essas conclusões estão longe de demonstrar a culpa dos 38 réus. Pior ainda. Para quem transformou José Dirceu no cérebro e gênio do mal, a investigação da Polícia Federal é uma decepção.

Evitando mencionar hipóteses que estão na mente de muitas pessoas, mas não podem ser comprovadas com fatos, o relatório não apresenta uma linha contra Dirceu.

Embora Zampronha não dê entrevistas, é fácil concluir o que aconteceu.

A culpa de Dirceu não foi registrada pela equipe de policiais encarregada de apurar os fatos capazes de incriminá-lo. Não há provas contra ele.

Não há uma denúncia nem uma testemunha. O próprio Roberto Jefferson, que fez acusações políticas a Dirceu em 2005, não apontou um caso específico nem uma situação precisa. Aliás: quem voltar à entrevista de Jefferson a Renata Lo Prete, na Folha, irá encontrar palavras em que ele testemunha a reação de Dirceu de crítica ao próprio Delúbio. Jefferson contou a Lo Prete que, ao ser informado do que ocorria, Dirceu até deu socos na mesa. (Ele também disse que Lula chorou).

Puro teatro maquiavélico, você pode dizer. Coisa de tem treinados profissionais do crime. São todos farsantes, mentirosos…Esses políticos são todos iguais. Quem sabe?

Falando para os autos, Jefferson também não falou sobre o esquema de “compra de votos no Congresso” nem de “compra de consciências”.  Jefferson repete nos vários depoimentos que deu à Polícia que jamais votou em projetos do governo em troca de dinheiro. Lembra que ele e sua bancada estavam de acordo com as propostas de Lula. Dá exemplos.

Fala que o problema é que os petistas combinaram e não entregaram recursos para a campanha de 2004.

Jefferson, neste aspecto, concorda com aquilo que Delúbio sempre disse. Era dinheiro de campanha.

Já estou ouvindo um grito do leitor do outro lado: “P…que p…!”

“Não é possível!”

“O PML enlouqueceu de vez!”

“Não percebe que a Polícia Federal faz o que o governo quer?”

Todos nós temos direito a uma opinião sobre o caso e seus protagonistas mas, acionada pela Procuradoria Geral da República, aquela que denunciou o governo pela montagem de uma “organização criminosa”, a Polícia Federal  chegou a outro caminho.

Não demonstra o “mensalão”.  Tampouco aponta para José Dirceu. Mas incrimina quem foi apanhado numa operação que implicava em desvio de recursos públicos. Não é pouca coisa, num país de altíssima impunidade. Mas não irá agradar quem acredita que estava tudo provado e demonstrado sobre a “quadrilha criminosa.”

Isso quer dizer que o Supremo irá seguir as recomendações da Polícia Federal? Nem de longe. Cada ministro tem o direito a suas convicções e próprias conclusões. O relatório da Polícia Federal pode inspirar alguns ministros, a maioria, a minoria, ou nenhum. Com certeza não será um julgamento unânime como a votação sobre cotas.

Não é inteiramente bom para nenhum lado. Nem totalmente ruim.