segunda-feira, 12 de março de 2012

Tostão: Ciência e arte

Via O Tempo

Caminho, todos os dias, por prazer e para tentar prolongar a vida. Pretendo ainda ver muitas coisas belas, como gols de Messi e Neymar. Aproveito também as caminhadas para conversar com as pessoas. É minha rede social, já que não tenho blog, Twitter nem coloco e-mail na coluna.

Um leitor disse que tenho sido muito crítico com o futebol brasileiro. Sou, porque minhas referências são as de grandes times e seleções do mundo. Esse é o lugar em que o Brasil tem de ficar. Estou mal, ou melhor, bem acostumado. Preocupa-me muito a falta de craques, fora Neymar, e o jogo coletivo feio e ruim. Em lugar de os jogadores se aproximarem, para triangulações, se distanciam. É um jogo fragmentado, de sobressaltos e arranques.

Outro participante de minha rede social perguntou qual é o meu técnico preferido. É Marcelo Loco Bielsa, mestre de Guardiola. Para se formar um grande time, é preciso uma pitada de loucura. Na quinta-feira, o modesto Athletic Bilbao, dirigido por Bielsa, não só venceu o poderoso Manchester United, no campo do time inglês, por 3 a 2, como também deu um show de futebol coletivo.

Os sonhadores, quando não têm boa técnica, disciplina e garra, quebram a cara. Mas são os sonhadores, como Bielsa, que mudam as coisas e o futebol.

Outro leitor me questionou por que o Real Madrid, mesmo com dez pontos na frente do Barcelona, no Campeonato Espanhol, sendo o time que mais fez gols na competição e tendo o artilheiro, Cristiano Ronaldo, não recebe a metade dos elogios do Barcelona. Respondo-lhe, com as palavras do grande poeta Manoel de Barros: "A ciência pode classificar e nomear os órgãos de um sabiá, mas não pode medir seus encantos".

No meio de semana, Messi e Neymar deram show. Os dois correm com a bola, sem deixá-la escapar, mesmo entre vários defensores. O cientista brasileiro Miguel Nicolelis, em seu livro "Muito Além do Nosso Eu", escreveu, baseado em inúmeras experiências científicas, que, para o cérebro dos grandes craques, a bola é uma extensão do pé. A bola não cola no pé. Ela faz parte do corpo.

Quando Messi e Neymar iniciam uma jogada, que vai resultar em um belíssimo gol, os dois não planejam o que vão fazer nem sabem explicar, depois, o que fizeram. Para isso, além de muita criatividade e habilidade, é necessário ter muita técnica. Não existe arte sem técnica nem ciência sem improvisação e fantasia. A expressão humana não é apenas racional, técnica, nem apenas existencial.

Jogo coletivo

O Cruzeiro, sem Wellington Paulista e Montillo, goleou o Rio Branco, do Acre. Apesar de ser um time fraquíssimo, seis gols são relevantes. Interessante que, na goleada sobre o Atlético, por 6 a 1, no Brasileirão do ano passado, Montillo também não jogou. Isso não significa que a equipe é melhor sem ele. Montillo é um excelente jogador, mas é bom lembrar que, em 2011, ele tentava resolver tudo sozinho, perdia a bola e dava o contra-ataque ao adversário. Importante ainda foi a ótima atuação de Wallyson, que tem tudo para recuperar o eficiente futebol do ano passado.

Futebol é coletivo. Não é o craque que faz o time jogar bem. É o bom conjunto que faz o craque brilhar.

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