terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Quem são os grandes operadores financeiros

Via Esquerda.net

No quadro que se descreve, e de acordo com os volumes de investimento que gerem, os fundos de investimento, os fundos de pensões, os fundos soberanos e os fundos de alto risco (hedge funds) constituem na atualidade os grandes operadores financeiros.

Ana Martín García – Attac Madrid

 

Goldman Sachs é um dos atores mais influentes nos mercados financeiros com uma importante capacidade de modificar e distorcer os preços dos ativos financeiros em seu próprio benefício

Goldman Sachs é um dos atores mais influentes nos mercados financeiros com uma importante capacidade de modificar e distorcer os preços dos ativos financeiros em seu próprio benefício

Está longe o ano de 1992 durante o qual a ação de um agente financeiro, concretamente G. Soros, pôs fora do sistema monetário europeu a libra esterlina, um símbolo das finanças. Esta ação mostrou, uma vez mais, que os agentes financeiros atuando no seu próprio interesse geram externalidades negativas que podem pôr em risco a estabilidade financeira tanto dos Estados nação, como foi o caso britânico, como de organizações supranacionais como é o vigente caso da área monetária europeia mediante sucessivos ataques aos países da área considerados mais débeis nos mercados de capitais.

A constelação de agentes financeiros apoiados na desregulamentação normativa, nas possibilidades das novas tecnologias e num âmbito de atuação globalizado não têm deixado de crescer em número e em potência. Desde o lançamento dos primeiros derivados financeiros nos anos 70, a criação de novos produtos financeiros não deixou de crescer tanto em volume como em complexidade, favorecendo a ampliação do campo de ação dos distintos agentes económicos. Estes grandes operadores mundiais têm tido na última década uma grande influência nas mudanças da economia mundial e conseguiram que os investimentos, em grande parte meramente especulativos, dessem lugar a uma nova indústria denominada “Indústria financeira” que, na maioria dos casos ao contrário das indústrias convencionais, não produz nenhum bem ou serviço para o mercado mas simplesmente o enriquecimento dos seus gestores-investidores.

Em geral os investidores, participando diretamente no mercado, isto é, os investidores individuais ou através de investimentos coletivos que se denominam investidores institucionais, procuram nas suas atuações a obtenção de uma maior rentabilidade combinada com o menor risco e a liquidez adequada. Mas esse objetivo comum do qual participam tanto pequenos como grandes investidores não influi de igual forma na marcha dos mercados financeiros, uma vez que os grandes investidores podem condicionar a estabilidade dos mercados devido aos grandes volumes que movimentam e em função das suas preferências na relação da interdependência existente entre liquidez, risco e rentabilidade.

Por outro lado, a globalização económica e a tecnologia atual permitem manter um contacto instantâneo entre os diferentes agentes que operam nos mercados financeiros em todo o mundo que estão atentos a qualquer informação, recebida e por vezes influindo nela mediante transmissões interessadas, pelo que estabelecem estratégias de investimento que podem influir na formação dos preços dos ativos financeiros.

No quadro descrito, e de acordo com os volumes de investimento que gerem, os fundos de investimento, os fundos de pensões, os fundos soberanos e os fundos de alto risco (hedge funds) constituem na atualidade os grandes operadores financeiros.

Fundos de investimento

Os fundos de investimento ou Instituições de Investimento Coletivo, segundo a Asociación de Inversión Colectiva y Fondos de Pensiones (INVERCO), atingia em finais de 2010 um património de 18 biliões (18.000.000.000.000) de euros, isto é dezoito vezes o PIB da Espanha, face aos 1,7 biliões de euros que tinham como património em 1990, o que dá uma ideia do enorme crescimento que tiveram nos últimos anos. Um olhar pela nacionalidade dos fundos alerta-nos que cerca de 48% do património correspondia a instituições dos Estados Unidos, que conta com os maiores gestores do mundo entre os quais se destacam Blackrock ou Pimco.

Por sua vez, os fundos europeus alcançavam um volume de 5,9 biliões de euros, cerca de 33% do volume total, face aos 0,4 biliões de 1990. Destaca-se o alto volume dos fundos radicados no Luxemburgo (1,2 biliões representando cerca de 10% do total mundial) o que está associado às vantagens de radicação que têm naquele território. No caso espanhol o património alcançava 170 mil milhões face aos 9 mil milhões de euros em 1995, ainda que a sua proporção face ao PIB se mantenha na ordem dos 16% em ambos os anos.

Fundos de pensões

Por sua vez e segundo a mesma fonte, em finais de 2010 o património estimado a nível mundial dos Fundos de Pensões situou-se em 13,7 biliões, cifra que pressupõe um crescimento de 11% em 2010. Do total do património estimado, 54,7% corresponde aos Estados Unidos o que significa 74,5% do PIB dos EUA; 9,5% correspondem ao Reino Unido (88,5% em relação ao seu PIB). O caso da Holanda é especial já que detém 5,8% do total do património dos fundos de pensões representando 167,4% do seu PIB; por sua vez 0,6% corresponde a fundos de pensões espanhóis o que significa 8,1% em relação ao PIB. Estas diferenças de peso estão ligadas com os diferentes sistemas de pensões, ao facto de serem públicos de repartição ou sistemas privados de capitalização.

Fundos soberanos

Um fundo de investimento soberano é um fundo de propriedade de um país cujos fundos procedem dos seus superavits orçamentais ligados à sua capacidade exportadora, especialmente ao petróleo.

A maior parte dos fundos soberanos mais ativos estão radicados no Médio Oriente e na Ásia. O Fundo Monetário Internacional (FMI) estima que estes organismos controlam cerca 3 biliões de dólares em ativos e alguns analistas assinalam que serão possuidores de um terço dos ativos da bolsa de Londres.

Têm uma política de investimento a longo prazo e destinam o seu dinheiro tanto à dívida (pública e provada) como a rendimento variável. Os 15 maiores fundos soberanos gerem ativos avaliados em 2,5 biliões de auros. Os principais fundos correspondem a Abu Dabi, Noruega, Arábia Saudita, China, Kuwait, Singapura, Rússia e Qatar.

Hedge funds

Também chamados Fundos de alto risco, Fundos de cobertura ou Fundos de investimento livres, são carteiras de investimentos privados pouco regulamentados, geridos agressivamente, procurando rendimentos positivos em oportunidades especulativas independentemente da direção do mercado, com uma base de alavancagem1 importante.

Os Hedge Funds operam utilizando técnicas que não estão permitidas aos fundos tradicionais, como venda a descoberto, operação que consiste em vender a prazo valores que não se detêm na perspetiva de poderem comprá-los num momento mais próximo a um preço inferior; derivados financeiros, produtos financeiros cujo valor se baseia no preço de outro ativo (credit default swaps – CDS) ou seguros contra o risco de incumprimento; permutas financeiras ou swap; contratos de futuros; opções financeiras...); ou compra de valores mediante alavancagem agressiva.

Com o desaparecimento de Bear Stearns, Lehman Brothers e a absorção de Morgan Stanley e Merrill Lynch, podemos dizer que Goldman Sachs é um dos atores mais influentes nos mercados financeiros com uma importante capacidade de modificar e distorcer os preços dos ativos financeiros em seu próprio benefício.

A elevada capacidade que os grandes operadores têm de provocar impactos em determinados mercados convertem-nos na mais nítida expressão de um capitalismo financeiro atroz. Assim, no caso da dívida espanhola, estes operadores realizam compras massivas de seguros contra o risco de incumprimento sobre a dívida espanhola (credit default swap, CDS, na terminologia inglesa), apesar de não serem proprietários de títulos da dívida pública espanhola e não terem nenhum risco para cobrir. A compra massiva desses CDS faz subir uma e outra vez o seu preço e dá a falsa impressão de que o país corre o risco crescente de suspensão de pagamento. E, como consequência disso, a taxa de juro que o mercado reclama para a dívida pública espanhola sobe também e o denominado prémio de risco sobre os títulos de dívida alemães também aumenta2.

Quando todos estes grandes investidores põem em mira um objetivo especulativo determinado (quer seja a moeda ou a dívida de um país, o ouro e matérias primas, alimentos, etc.) podem pôr em cheque governos, levar empresas à bancarrota e até países ou provocar a fome subindo o preço dos alimentos básicos. “O mercado dos alimentos converteu-se num casino”, declarou Joerg Mayer da UNCTAD (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) ao “The Guardian”. E por uma única razão: fazer com que Wall Street ganhe sempre mais dinheiro.

Como nota final, assinala-se que a potência dos grandes agentes investidores e a sua influência nos desequilíbrios financeiros nacionais e supranacionais impulsionou uma crescente exigência para que se regule os mercados financeiros e muito em concreto que se proíba a opacidade com que atuam e certamente a imposição de um imposto sobre as transações financeiras (taxa Tobin) para controlar minimamente este casino financeiro.

Documento publicado na revista “Temas para el debate” nº 206 e disponível em ATTAC EspanhaTradução de Carlos Santos para esquerda.net

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