quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

A QUEIMA DO ALCORÃO E OS MANDAMENTOS DA PAZ

Sanguessugado do Mauro Santayana

   (JB) -         A queima, ainda que tenha sido acidental, de exemplares do Corão por soldados norte-americanos no Afeganistão,  talvez tenha sido o mais grave problema para os Estados Unidos, desde a invasão do país. Os homens não podem viver sem alguma fé e, nesse raciocínio, a negação de Deus é, em si mesma,  manifestação de crença. A fé é inerente ao espírito do homem, como o sangue ao corpo. O Ocidente pode, com seu racionalismo, negar a sabedoria do Livro Sagrado dos muçulmanos, da mesma forma que há os que negam importância transcendental à Bíblia e aos livros das religiões asiáticas – mas não convém desprezar a fé alheia.

           Se há uma religião que, ao longo da História, teve conhecida tolerância para com as crenças alheias, foi a muçulmana. A Espanha medieval é disso uma prova. Judeus, cristãos e muçulmanos puderam viver em paz na Andaluzia islâmica, apesar da hostilidade entre os estados católicos e o Crescente. Tal como ocorre em nossos tempos, o que determinava a paz e a guerra eram os interesses do poder.

           Os muçulmanos têm um grande respeito pelos povos do Livro, ou seja, da Bíblia,  mesmo porque se consideram provindos da mesma raiz hebraica. É inimaginável que venham a queimar as Escrituras Sagradas. Não é a primeira vez que essa afronta é cometida pelos norte-americanos. Se os soldados agiram sem a intenção da ofensa (o que parece improvável), outro foi o propósito de episódios anteriores. Em setembro de 2010, o pastor protestante Terry Jones anunciou o seu projeto de promover a queima de exemplares do livro em todo o território americano. Houve protestos, e ele prometeu que não o faria. Mas, em março do ano passado, em sua igreja de Gainesville, na Flórida, promoveu o julgamento do livro e - considerando-o culpado pela queda das Torres Gêmeas em 11 de setembro de 2001 - queimou um exemplar, durante dez minutos, sob o aplauso frenético de seus fiéis.

          O momento é difícil para os Estados Unidos (e para Obama, que disputa a reeleição este ano) e seus aliados no mundo inteiro. A desastrada intervenção na Líbia, no ano passado, está sendo avaliada pelos comentaristas internacionais como um grande erro. Sob a mentira de que defendiam os direitos humanos naquele país, os europeus, sob as ordens de Washington, e o apoio de mísseis norte-americanos,  arrasaram a nação árabe, e cometeram crimes muito mais estúpidos dos que se atribuíam a Kadafi. Os que caçaram e mataram o líder líbio, da forma que o fizeram, sob os aplausos histéricos da Sra. Hillary Clinton, continuam a matar todos os que podem. Os negros, que viviam e trabalhavam na Líbia, sob a proteção do Estado, estão sendo escorraçados e mortos como bichos pelas tropas do frágil governo de transição. Há cidades que se organizam para defender-se dos novos donos do país.

           E temos a situação da Síria, em que islamitas e cristãos convivem, sem atropelos, da mesma forma que no Líbano. Os Estados Unidos estimulam uma intervenção militar no país, com a mesma desculpa da defesa dos direitos humanos. Relatório recente de observadores da ONU denuncia que os opositores ao regime cometem as mesmas atrocidades atribuídas às tropas de Assad. E, na mesma região, encontra-se o Irã. Uma pergunta se faz necessária: devemos e podemos invadir um outro país, a fim de impor, ali, a ordem que nos parece melhor? A paz entre as nações repousa nesse princípio elementar, o da autodeterminação de seus povos e, em conseqüência, da não intervenção, seja a que pretexto for.

          Essa doutrina foi admiravelmente resumida por Benito Juarez, o grande líder mexicano, como resposta aos que lhe pediram perdoar Maximiliano, que invadira seu país e se proclamara imperador: el derecho ajeno es la paz.

          Como se sabe, Maximiliano comandou tropas expedicionárias européias, apoiadas por traidores internos,  que pretenderam assenhorear-se do México, a fim de cobrar dívidas, e foram vencidas pela resistência comandada pelo índio Juarez, que prendeu, julgou e mandou fuzilar o invasor em Querétaro, em 1867. Se cada povo pudesse decidir, ele mesmo, seus problemas internos, as guerras seriam mais difíceis.

         Há várias formas de ingerência, e a América Latina conhece algumas delas, incluídos os golpes sistemáticos, ao longo da História, insuflados, financiados e comandados pelos Estados Unidos – além da intervenção direta dos marines. Os tempos mudam, e não parece que Washington se disponha a correr riscos maiores nessa fase da história do mundo. De qualquer forma, se queremos manter inviolável  nosso território e  nossa soberania política, devemos rechaçar a intervenção estrangeira em qualquer país do mundo, a que pretexto for. Como se sabe, há congressistas norte-americanos que recomendam uma ação militar na Tríplice Fronteira, entre o Brasil, a Argentina e o Paraguai, a pretexto de combate ao “terrorismo muçulmano”. 

          O presidente Obama pediu desculpas aos afegãos pelo incidente, segundo ele, involuntário. O que já era difícil torna-se ainda mais difícil agora: a retirada dos norte-americanos daquele país com um mínimo de ordem e de dignidade.

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