segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Que sejam queimados os presos: a história da tragédia de Honduras - Parte II

Via Opera Mundi

Uma semana depois, a única certeza é que guardas e diretor da prisão não fizeram nada para impedir que detentos fossem queimados vivos. “Essa ordem foi dada”, disse um dos carcereiros

Esta é a segunda parte da reportagem especial do jornal salvadorenho El Faro sobre a tragédia em Honduras.

Os que se salvaram lembram dos mesmos gritos: Fogo! Fogo! Chaveiro! Chaveiro! Está pegando fogo! Tire a gente! Chaveiro! Não deixe a gente morrer! Chaveiro! Estamos queimando! Venha abrir! Abram os portões! Chaveiro! Ajuda! Ajuda! Ajuda! Tirem a gente da aqui! Chaveiro!!!

Os que se salvaram também sabem que houve um que teve que ajudá-los. Pelo menos um. Héctor, o limpador da granja, conhece o chaveiro que estava no turno daquela noite.

– Coitado – disse Héctor. Ele, ao final, seguramente teve que seguir ordens, e agora toda a culpa está caindo sobre ele. Lembre que isso é assim. Eles recebem ordens de cima. Ele é boa gente. Era um dos poucos aqui que se interessavam por ajudar alguém. Eu acredito que não o deixaram. A ordem foi que não deixassem sair ninguém.

Frederick Meza

Do alto das torres de vigilância, guardas impediram que os presos pulassem o muro para fugirem das chamas

Chamavam o chaveiro de “El brujo” (o bruxo), pelo nome só Héctor o conhecia. O nome verdadeiro desse policial está em sigilo pela Promotoria de Comayagua. É, na investigação do incêndio, um dos mais investigados, junto do comandante dos guardas, que respondia pelos atos do chaveiro, e o diretor da penitenciária, Federico Ponce.

Junto deles, outros 27 policiais da penitenciária estão sendo investigados por negligência. Em Honduras, os centros penitenciários são administrados pela Polícia Nacional, uma instituição agora intitulada de corrupta, que trocou duas vezes sua direção em menos de dois meses, e que agora tem 80 elementos investigados pela Promotoria. Cinquenta e dois estão sendo investigados desde outubro por ligação com o crime organizado, as gangues, com o narcotráfico, calote, sequestro e assassinato. Os outros trinta agora começaram a ser investigados por um possível ato de negligência, ao permitir que um incêndio se convertesse na pior tragédia do sistema carcerário, não apenas de Honduras, mas de toda a região latinoamericana, com 359 mortos e dezenas de feridos.

Esta não é a primeira vez que se aponta a Polícia como responsável direta pela morte de dezenas de reclusos. Em 2003, morreram dezenas de presos na cidade de La Ceiba e, em 2004, morreu uma centena de detentos em San Pedro Sula. Entre esses incêndios e o de Comayagua, as vítimas fatais foram mais de 500.

Dentro da penitenciária de Comayagua, entre o comando da guarda e as celas que pegaram fogo, não há nem 30 metros de distância. Se El Brujo tivesse evacuado os internos, muitos mais teriam se salvado no pátio onde Jhony e outros jogavam água para abrandar o calor. Mas o chaveiro não chegou, e todos os sobreviventes não sabem explicar por quê. Por que deixaram que fossem queimados vivos?

Álex e Liro

As celas da prisão de Comayagua que se queimaram eram como embarcações a vela de uns 25 metros de comprimento por sete de largura. Nas bordas, estavam ancoradas duas fileiras de camas beliche com quatro andares cada uma. Um colchão por detento. Durante as noites, entre as fileiras dos beliches, e mesmo debaixo delas, também havia detentos dormindo. A noite de 14 de fevereiro não foi uma exceção. Liro, um “peseta” (membro aposentado de uma gangue) do grupo Bairro 18, dormia na quarta cama do beliche de número quatro, na décima cela de Comayagua.

A cela 10 foi a última a se queimar por completo. Álex, um jovem de 18 anos que ingressou no presídio há dois meses por posse de pouco mais de meio quilo de maconha, dormia na terceira cama do beliche número três. Ambos foram acordados pela fumaça que transpunha as grades e pelos gritos vindos das celas vizinhas. Liro, em sua cama, colocou os sapatos e pulou em direção ao chão. Álex viu que as chamas já estavam no corredor principal, e Liro descobriu o mesmo quando caiu no solo. Tal como um gato, Liro pulou novamente da cama dois à cama três, e depois voltou à quatro, quando sentiu que Álex tocou suas costas com as pernas. Liro deciciu se salvar no teto e Álex, nas grades da porta.

Na cama quatro, Liro começou a fazer o mesmo que Coli, que estava perto da entrada, na cela 5: romper o teto. Esforçou-se para romper a madeira, mas quando chegou a uma canaleta e ao teto de zinco, já tinha perdido as forças, o colchão de sua cama havia se desintegrado e a cela inteira, debaixo dele, estava envolta às chamas. Liro, então, virou-se de cabeça para baixo, travou os pés junto às barras e se segurou na canaleta para não cair no rio de fogo que já tomava o local.

Enquanto isso, na grade, Álex lutava com outros presos para se manter nas barras. Os outros queriam ocupar sua posição para se salvar do fogo que alcançava suas costas, tal como fizera Quique, que, na cela 6, estava a ponto de se salvar.

Atrás dele estava Tiberio, o dono de uma das mercearias da prisão. Tiberio puxava Álex quase sem forças, queria arrancá-lo dali, mas Álex havia se agarrado às barras, e não afrouxava.

– Em pouquíssimo tempo, um a um foi afrouxando, e eu sentia como se minhas costas caíssem – recorda Álex.

Logo se virou para ver o que se passava atrás dele, e observou que um grupo fazia o mesmo aos que haviam se refugiado perto da pia localizada nos banheiros da cela. Neste grupo, estava Katya Figueroa, de 30 anos, que passava aquela noite com Jaime Aguirre, um nicaraguense de 49 anos que coordenada a cela e tinha boas relações com os guardas e com os presos.

Enquanto estava preso, Jaime equipou sua cela com um ginásio e tinha os contatos para que sua mulher chegasse a dormir na prisão, quando o normal era que as visitas íntimas ocorressem apenas às quartas-feiras, pois as de sábado e domingo estavam destinada aos familiares.

Álex e Liro lembram-se de ter visto, entre o grupo que correu em direção à pia, Jaime e sua mulher.

– Todos corriam das grades para os banheiros, para salvar-se no banheiro, mas foi em vão. A água estava fervendo e aí morreram cozidos – disse Liro.

Jaime, que colocou sua mulher na pia, caiu enquanto tentava se pendurar no teto. Caiu por debaixo de muitos outros, e talvez possa ser isso o que o tenha salvado.

* * *

Houve um momento em que Liro pensou que era melhor se deixar cair, porque já não tinha forças, porque as minavam os velhos que morriam debaixo dele. Abelino Canales e Mario Guevara, “outro senhor que também dava conselhos”, gritavam por ajuda, mas Liro não podia fazer nada.

Na cela 10, também havia dois jovens cujas vidas foram tiradas por conta de uma má decisão de seus pais, e vê-los quaimando acabou com Liro.

– Há mães que, no intuito de emendar seus filhos, os mandam para uma temporada em granjas como esta. Eu dizia a esses loucos que dissessem a suas mães que os tirassem, porque aqui podiam encontrar a morte...

Um desses de quem Liro fala ficava na cela 7. Chamava-se José Reynaldo Romero, de 22 anos. Por ser viciado em drogas, desocupado e bêbado, nesta ordem, sua mãe o colocou na granja-penitenciária cinco meses antes do incêndio. Agora, não há quem console Noelia Suazo. Ela sabe que condenou seu filho à morte. Chorou naquela quita-feira, dia 16, enquanto cheirava os corpos que se decompunham fora do necrotério na cidade de Tegucigalpa. Dois dias após o incêndio, só três corpos haviam sido reconhecidos e os cadáveres, que não cabiam no lugar, continuavam empilhados dentro de um furgão que tentava mantê-los congelados. Mas, 48 horas depois, a decomposição fez alguns estragos, inundava o ambiente e, da maca do furgão, gotejava um líquido aquoso e avermelhado, que logo foi lavado e escorreu pelos pés das centenas de familiares que esperavam seus mortos, que respiravam seus mortos, que presenciavam a ida ao esgoto dos fluidos decompostos de seus mortos.

* * *

– Liro, Liro, nos ajude, Liro! Nos ajude, Liro! – diziam os velhos Abelino e Mario Guevara, estendendo os braços ao “peseta” que se pendurava no teto, sem poder fazer nada. Liro se contorce, chora e para, com cuidado, porque tem os brazos, o pescoço e as costas queimadas, quando se lembra dos últimos momentos dos velhos.

– Eu não podia ajudá-los e, ainda por cima, caí em cima deles, porque quando me virei para ver embaixo, ao mudar de posição, eu escorreguei, e terminei de afundá-los.

Quando se viu no chão, Liro ainda não entende de onde tirou forças para saltar sobre o beliche, e logo de volta ao teto. Debaixo dele, ninguém mais gritava e tudo estava sendo consumido.

Nas grades, Álex pressentiu o pior:

– Aquela chama era como um redemoinho adentro. Parecia um inferno. As pessoas que corriam se perdiam entre as chamas. Por isso, não quis sair do portão. Se eu saio, vou simplesmente morrer, pensei. Se vou morrer, vou morrer aqui. E aí só me lembrei de Deus.

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