segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

O naufrágio do Costa Concórdia quebra o imaginário espetacular dos cruzeiros destinados à classe média

Rebelion

Tradução Renzo Bassanetti

Exotismo “low cost”: cruzeiros e tripulantes

Diagonal

Valentina Longo e Devi Sacchetto

As férias em cruzeiros são um fenômeno de massas. Por trás das grandes cidades flutuantes, há uma realidade trabalhista precária.

É eloqüente a atenção dirigida por parte da imprensa aos passageiros do Costa Concórdia, depois do seu naufrágio próximo à ilha de Giglio, na Itália, no dia 13 de janeiro, se comparada com as notícias sobre a sorte do que aconteceu com a tripulação do navio. Muitas das críticas dos meios à tripulação freqüentemente não podiam ocultar um sutil racismo.

Nos cruzeiros, coloca-se em cena uma representação exótica e pós-colonial, na qual corresponde a cada pessoa um papel em função de sua nacionalidade, cor da pele, sexo e idade. O cruzeiro é uma forma de espetáculo dedicado aos que se querem passar como classe média internacional. Essa performance requer uma meticulosa divisão do trabalho, baseada em refinadas formas de discriminação e estereotipização, em muitos casos mais extremas do que as existentes em terra firme.

O sorriso é uma exigência fundamental no trabalho do pessoal que se relaciona com os turistas

Ao longo de 2010, cerca de 300 mil tripulantes, dos quais 20% são mulheres, tomaram conta de mais de cinco milhões de turistas embarcados em portos europeus. A grande maioria (entre 80 e 85%) da tripulação trabalha no setor hoteleiro e, no seu tempo livre, cuida dos passageiros 24 horas por dia. Somente entre 15 e 20% dos empregos estão relacionados com a condução do navio. Embora a tripulação devesse embarcar com licença de navegação, os que trabalham no setor hoteleiro freqüentemente não a tem, especialmente quando se trata de seu primeiro contrato.

Os horários de trabalho rondam entre 10 e 12 horas diárias, seguidamente sem nenhum dia de descanso, com leque de salários que vai dos cinqüenta aos vários milhares de dólares mensais. Parte do pessoal vive de gorjetas, ou seja, da capacidade de desenvolver suas tarefas com competência e reverência, dependendo muito da benevolência dos passageiros. Os contratos temporários, que oscilam entre os três e os oito meses, são diferenciados: uma pessoa pode ser contratada diretamente pela companhia de navegação ou por uma agência internacional de empregos, que atua como filtro para encontrar a mão-de-obra mais adequada para cada uma das condições de trabalho a bordo.

Por outro lado, é necessário para a companhia ter acesso a um conjunto de pessoal disponível: os horários extenuantes, a disciplina rígida e os baixos salários fazem com que se torne difícil manter um quadro estável, especialmente entre o pessoal da área hoteleira.

A nacionalidade dos tripulantes é freqüentemente “ocidental”, ou seja, brancos (italianos, da Europa do leste, e às vezes ingleses), e talvez algum filipino. Em troca, no setor hoteleiro e de serviços há mais variedade: asiáticos e latinos, junto a europeus e a um punhado de africanos. Geralmente, à medida que as diferentes tarefas realizadas à bordo se tornam visíveis, assiste-se a um branqueamento do quadro, embora perdurem algumas exceções que reforçam os mecanismos de reprodução da inferioridade.

Abaixo da linha de flutuação, freqüentemente se encontram: nas lavanderias, chineses; nas cozinhas, hindus; alguns pisos mais acima, malgaxes e indonésios limpam os camarotes e europeus do leste servem nas copas de bares e cafeterias. A segurança é israelense ou hindu; os animadores, assim como os oficiais de ponte e cobertas são italianos, e os marinheiros, romenos. Com o melhor espírito colonialista, não faltam animadoras e animadores brasileiros, que envolvem os turistas em danças supostamente desenfreadas. As tarefas que implicam em um contato direto com os turistas requerem habilidades lingüísticas que normalmente não são necessárias para o pessoal que realiza tarefas segregadas.

Quando termina o confete

Contudo, além das habilidades para os idiomas, requerem-se as referentes ao relacionamento: os passageiros estão em férias, querem divertir-se e relaxar, e o pessoal à bordo é pago (ou teria que sê-lo) para continuamente mostrar um sorriso protocolar. São principalmente as mulheres, quase sempre empregadas em posições que prevêem um contato direto com os turistas as que sustem um sorriso perpétuo e se desvelam pelo bem-estar emocional dos passageiros, mercantilizando as ferramentas que as mulheres historicamente desenvolveram no quadro do trabalho reprodutivo. O reverso da moeda é a síndrome do sorriso permanente e o cansaço emocional e muscular, decorrente dessa atitude.

Os horários de trabalho nos cruzeiros chegam às 10 ou 12 horas diárias, e freqüentemente não há nenhum dia de descanso.

Depois do impacto do Costa Concórdia, provavelmente o eterno sorriso no rosto de homens e mulheres da empresas se apagou. Os passageiros, acostumados com a deferência, se assustaram. O naufrágio, um verdadeiro apagão, estraga qualquer apresentação, e os passageiros perdem a segurança oriunda do fato de serem constantemente mimados, reverenciados e servidos. É preciso assinalar que o pessoal e os passageiros se encontram somente quando os primeiros estão em serviço e se suas tarefas prevêem isso. Por exemplo, os que trabalham nas lavanderias nunca entram em contato com os clientes.

Seus dias transcorrem nos locais de trabalho, freqüentemente abaixo da linha de flutuação. Durante o horário de folga, com efeito, os tripulantes estão confinados em uma parte do navio destinada a eles, dentro do apertado espaço de seus camarotes ou no bar da tripulação, partes ocultas aos olhares dos turistas, tanto que uma pergunta freqüente dos passageiros é: “E vocês, onde dormem?”. O ventre do navio, local destinado ao trabalho e à força de trabalho – não reflete o luxo, ou melhor, o suposto luxo – da parte reservada aos passageiros: tapetes, luzes cálidas e madeira são substituídas por aço, luzes de neon e plástico.

O acidente do Costa Concórdia foi uma ocasião perdida. Teria sido interessante que a atenção da mídia se centrasse não somente no anedótico, mas também no estrutural: uma vez mais, o protagonismo dos passageiros ocultou a vida e a tragédia da população, os habitantes estáveis dos navios e os que vivem por trás do glamour que os turistas procuram.

Valentina Longo e Devi Sacchetto são sociólogos.

Fonte:http://www.rebelion.org/noticia.php?id=144383

Tradução do espanhol:

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