quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Islândia: o tamanho dos Vikings

Sanguessugado do Informação Incorrecta

Vamos falar da Grécia, eh? Vamos falar da Grécia?

Não. Vamos falar da Islândia.

Lembram-se da ilha no meio do Oceano Atlântico, cheia de gelo e de dívidas, à beira da falência?

Como sabemos, um dia os Islandeses disseram "Svín!", que no idioma deles significa:

"Agora basta, e que raio, vamos substituir estes políticos incapazes, vamos também nacionalizar os bancos e afastar estas melgas do Fundo Monetário Internacional!".

E assim fizeram.

A partir daí a Islândia desapareceu dos noticiários internacionais. Porquê? Porque as coisas começaram a correr bem.

É destes dias a notícia que a agência Fitch aumentou o rating da ilha até BBB, com outlook (perspectiva) estável.

A previsão da OCDE sugere um crescimento de 2,4% este ano, depois de 2,9% em 2011.

O desemprego vai cair desde 7% do ano passado para 6,1 este ano, e, em seguida, até 5,3 em 2013.

O deficit tinha sido de 11, 2% em 2010, fica em 3,4% este ano, irá quase desaparecer no próximo.

A estratégia de desvalorização e dos controles sobre os capitais salvou a economia: o País conseguiu salvaguardar o seu nórdico bem-estar e preservar a coesão social. E de novo prospera. Serão precisos alguns anos antes de reabsorver por completo a recente "maçada", mas o caminho está traçado.

Fora dos delírios da Zona Euro, longe dos FMI, sem tecnocratas que chefiam o governo, sem austeridades ou cortes, o parlamento mais antigo do mundo (fundado no ano 930 d.C.) defende a moeda soberana como meio para contrastar eficientemente a crise.

Eis algumas linhas do comunicado da agência Fitch:

A Fitch Ratings elevou o rating do crédito (IDR) da Islândia de longo prazo pela emissão em moeda estrangeira de BB + para BBB- e alterou a avaliação da emissão de longo prazo em moeda local em BBB +.

A IDR de curto prazo para as emissões em moeda estrangeira foi promovida de B para F3 e a avaliação para o montante em dívida de BB + para BBB-. A perspectiva do rating de longo prazo é estável.

Afirma Paul Rawkins, director sénior da equipe do rating da dívida:

A recuperação de longo prazo na avaliação do investimento reflecte o progresso que tem sido feito para restaurar a estabilidade macroeconómica, a promoção de reformas estruturais para restaurar a solvência da crise monetária e bancária de 2008.

A Islândia saiu com sucesso do programa do FMI e recuperou um novo acesso aos mercados de capitais internacionais. Há uma recuperação económica promissora, a reestruturação do sector financeiro está bem avançada enquanto o rácio da dívida pública e o PIB parece estar perto dum vigoroso programa de consolidação fiscal.

[...] A Islândia foi um dos primeiros das economias avançadas a operar uma consolidação fiscal: o deficit primário encolheu de 6,5% do PIB em 2009 para 0,5% em 2011, e parece poder alcançar um superavit fiscal primário em 2012 e um superavit em 2014.[...]

A resposta política não ortodoxa da Islândia perante a crise foi capaz de preservar a solvência soberana, apesar das dificuldades financeira sem precedentes no sector. Até agora, a Islândia tem sido relativamente pouco afectada pela crise da dívida soberana da zona do euro e, embora espera-se que o crescimento abrande para 2-2,5% em 2012-13, Fitch não espera um retorno em recessão

Os problemas da Islândia ainda não acabaram: a dívida pública é ainda muito elevada, o problema da dívida afecta o sector privado também, é normal prever um longo período antes que o governo da ilha possa abandonar os controles sobre os capitais. Além disso, os limites da capacidade produtiva abrandam o ritmo das exportações.

A Islândia não está "curada", está em fase de convalescença.

No entanto, encontrou o caminho certo: não precisa de resgates, consegue reabsorver o desemprego, não privatiza o Estado, não corta os ordenados mínimos ou as reformas, não apaga os serviços, não entrega a própria soberania, que fica de maneira firme nas mãos dos Islandeses, afasta o espectro da recessão e fica à espera de superavit.

Não é preciso dizer mais nada, pois não?

O tamanho conta?

A objecção mais frequente quando se fala de Islândia é a seguinte: "Ah, mas a Islândia é tão pequena, eles são tão poucos, assim é fácil..".

Muito bem, vamos ver os números.

Habitantes: Portugal 10.5 milhões, Islândia 320.000 (rácio Portugal e Islândia: 32)

Superfície: Portugal 92.000 km2, Islândia 103.000 km2.

Dívida/Pib: Portugal 93.3%, Islândia 126%

Força trabalho: Portugal 5.5 milhões, Islândia 183 mil pessoas (rácio: 30).

Electricidade: Portugal gasta 48.2 milhões de Kwh, a Islândia 16.5 milhões (rácio: 2.9 )

Exportações: Portugal 56.600 milhões de Dólares, Islândia 5.300 milhões de Dólares (rácio: 10).

Importações: Portugal 78.810 milhões de Dólares, Islândia 4.495 milhões de Dólares (rácio 17).

Agora confrontemos Portugal com os Estados Unidos.

Os EUA têm:

uma população de 310 milhões de habitantes (mais de 29 vezes Portugal)

uma superfície de 9 milhões de km2 (97 vezes Portugal)

um rácio dívida/Pib de 94% (dado do FMI)

uma força trabalho de 154 milhões de pessoas (29 vezes Portugal)

gasta 3.741 milhões de Kwh (77 vezes Portugal)

exporta 1.511.000 milhões de Dólares (26 vezes Portugal)

importa 2.314.000 milhões de Dólares (29 vezes Portugal).

Se for apenas uma questão de tamanho, a crise de Portugal não tem justificação. Comparado com os Estados Unidos (outro País em crise), Portugal é um anão, em alguns casos até mais pequeno de quanto a Islândia é em relação ao mesmo Portugal.

Porquê nos EUA não deveriam pensar "Portugal é tão pequeno, são tão poucos, não é possível comparar..."?  

Ipse dixit.

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