sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Il Manifesto: Jornalismo contra as leis de mercado

Via Marcha

Tradução Renzo Bassanetti

Em seu 40° aniversário, o famoso jornal comunista italiano enfrenta um processo de liquidação administrativa ordenado pelo governo Monti

Marcha

Il Manifesto, histórico jornal cooperativo italiano, enfrenta hoje uma profunda crise econômica. Um pedaço da cultura e da política internacional corre o risco de apagar-se.

“Nossas dificuldades são o espelho da profunda crise política e efeito dessa contra-revolução que cultivou as sementes da anti-política, do “todos são iguais”, até uma limpeza ética das idéias e da informação””, explicou o jornal Il Manifesto, da Itália, em um editorial em resposta a um anúncio do Ministério do Desenvolvimento Econômico do processo administrativo de liquidação, procedimento através do qual o Estado, por meio de comissários ministeriais, começa a avaliação para fazer a chamada dos credores de empresas cooperativas. “Virão funcionários do governo que substituirão nosso conselho administrativo. É um procedimento ao qual fomos obrigados a nos submeter pela nova lei editorial. Mario Monti e o ministro Passera poderão conseguir o que nem Berlusconi nem Tremonti puderam. Usamos a forma condicional por que não abandonamos o campo de batalha e estamos ainda mais determinados a lutar contra as leis de mercado, que queriam fazer uma fogueira com a liberdade de informação”, explicou o jornal, que vive uma de suas piores crises econômicas em 40 anos de história.

Um projeto de comunicação

“Jornal Comunista” é a epígrafe ou slogan que acompanha a capa de um dos jornais mais importantes para a cultura e a política européias desde 1969. Il Manifesto, diário que soube e sabe juntar as canetas mais talentosas do jornalismo e da literatura mundial, vive uma de suas piores crises econômicas. De suas páginas, Osvaldo Soriano deslumbrou um continente inteiro com suas crônicas sobre o Mundial da Espanha de 1982, e Eduardo Galeano contou sobre os avatares de uma América Latina convulsionada pelas lutas para se desfazer dos governos neoliberais no princípio deste século. Da mesma forma, Toni Negri, Umberto Eco e outros tantos intelectuais escolheram a diferenciada capa laranja e preta para contar histórias, dar a conhecer opiniões e fazer experiências com seus escritos.

Il Manifesto nasceu para contar e fazer outro jornalismo. Todos, inclusive os técnicos, fazem parte da cooperativa editorial e recebem o mesmo salário. Ele tem a sã costume de não sair às segundas feiras, por que no domingo seus trabalhadores merecem seu descanso.

Nascido entre o turbilhão das revoltas estudantis italianas de 1968, o jornal começou a funcionar em sua versão mensal, graças à iniciativa de um grupo de intelectuais expulsos do Partido Comunista Italiano por serem considerados “divisionistas”. Da batalha pela democratização do PCI, o primeiro coletivo editorial passou a publicar um periódico que teve grande sucesso entre as esquerdas italiana e européia, que nesse momento viviam um de seus mais importantes impulsos políticos. Já desvinculado do partido, Il Manifesto cresceu, cultivando um forte interesse pelo debate e pela cultura e transformando-se num jornal onde se encontrava o que os demais não diziam. Um projeto de comunicação com uma perspectiva política clara, independente de estruturas partidárias e distanciado do “panfletarismo”, com um forte sentido solidário ainda presente nos dias de hoje, que, por exemplo, levou seu vice-diretor, Ângelo Mastrandrea, a colaborar com Marcha .

Os avatares vividos pela redação nestes últimos 40 anos são muitos. Entre os mais transcendentes, o caso da enviada pelo jornal ao Iraque, Giuliana Sgregna, raptada por um comando em 2005 foi um dos mais conhecidos a nível mundial.

Depois de um mês de cativeiro, Sgregna foi entregue a um agente dos serviços secretos italianos, Nicola Calipari, assassinado durante o resgate pelo “fogo amigo” dos soldados norte-americanos. Nessa ocasião, assim como em muitas outras, Il Manifesto colocou-se na ponta de iniciativas culturais, manifestações de protesto e coleta de assinaturas para a libertação da jornalista, que investigava atuação das tropas invasoras durante a guerra.

Logo, vieram as complicações econômicas. Em 2006 e 2009, o jornal viveu crises econômicas muito fortes, em ambos os casos devido à impossibilidade de competir na indústria editorial, cada vez mais dominada pelas leis de livre mercado e pela competição desenfreada. A intervenção dos leitores sempre foi fundamental para contornar essas situações. O jornal conseguiu juntar quase dois milhões de euros em poucos meses através das doações de seguidores e personagens da cultura, e dessa forma sair das crises econômicas. Essa é a mesma estratégia que tenta hoje. A entrada em vigor da nova lei editorial, que retira o financiamento estatal aos jornais e limita sua atuação à simples leis de competição de mercado foi um golpe duríssimo. Através de suas páginas, fez-se o chamado para que auxiliem o jornal, que é mais do que uma publicação, ou seja, um projeto político em franca oposição ao neoliberalismo e à economia de mercado, que lentamente vão afundando a Itália e o velho continente.

Fonte: http://www.marcha.org.ar/index.php/latinoamericayelmundo/106-europa/620-periodismo-contra-las-leyes-del-mercado

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