quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Esquerda social e esquerda política

Via La Jornada

Tradução Renzo Bassanetti

Raul Zibechi

O aprofundamento das diversas crises e a entrada em cena de novos movimentos estão promovendo um debate sobre o papel da esquerda nas mudanças possíveis e desejáveis. Muitos apostam numa profunda renovação ou na unidade como forma de encontrar uma forma de quebrar a hegemonia do setor financeiro,

Em geral, os debates apontam para o papel da esquerda política, ou seja, os partidos que se proclamam de esquerda. Superar as divisões históricas, supostamente alimentadas por diferenças ideológicas, seria um passo decisivo para ir além da situação atual. A unidade entre as três grandes correntes, socialistas e social democratas, comunistas e anarquistas ou radicais, seria um passo imprescindível para que esse setor esteja em condições de ter um papel decisivo na superação da crise atual.

Contudo, a experiência histórica diz outra coisa. A primeira é que os partidos de esquerda não se unem se não existir um poderoso movimento de baixo que lhes imponha uma agenda comum. Ou seja, quero dizer que os partidos de esquerda dependem do estado de ânimo e da disposição dos trabalhadores para resistir ou acomodarem-se ao sistema. Para as pessoas comuns, os debates ideológicos são coisa de pouca importância.

As experiências da Frente Popular, na Espanha republicana, da Unidade Popular no Chile de Salvador Allende e da Frente Ampla no Uruguai, indicam que é a pressão dos diversos “abaixo” que termina por derrubar os sectarismos e impõe, no mínimo, a unidade de ação. Foi a potência do movimento operário que fez os anarquistas apoiarem nas urnas os candidatos da Frente Popular, vencendo suas resistências às eleições.

A segunda é que esses 99%, dos quais se supõe que fazemos parte, diante do um por cento que detém o poder e a riqueza, têm interesses diversos e, nesta etapa do capitalismo, contraditórios. Em linhas gerais, há dois “debaixos”, como dizem os zapatistas. Os mais debaixo, os do porão – índios, afros, imigrantes, clandestinos e informais – compõem o setor mais oprimido e explorado do amplo mundo do trabalho, Esse mundo é composto basicamente por mulheres e jovens pobres, geralmente de pele escura, que vivem em áreas rurais e periferias urbanas. São os mais interessados em mudar o mundo, por que são os que não tem nada a perder.

O outro “debaixo” é diferente. Em 1929, somente um por cento dos norte americanos tinhas ações cotadas na Bolsa de Valores de Wall Street. Em 1965, já eram 10 por cento e, em 1980, 14 por cento. Entretanto, em 2010, 50 por cento dos americanos eram proprietários de ações. Com a privatização do sistema de aposentadorias e a criação dos fundos de pensões, todo um setor da classe trabalhadora ficou vinculado ao capital. A General Motors e a Chrysler foram salvas da quebra em 2009 pelas contribuições de fundos controlados pelos sindicatos.

A segunda empresa mineradora em tamanho no mundo, a brasileira Valle, rechaçada por ambientalistas e sem-terra, é controlada pelo Previ, fundo de pensões dos funcionários do Banco do Brasil, que tem junto ao BNDS uma sólida maioria no conselho de administração da multinacional. Os fundos de pensões do Brasil tem investimentos que representam quase 20% do PIB desse país emergente, e controlam enormes empresas e grupos econômicos. Os fundos são o núcleo da acumulação de capital, e são geridos por sindicatos, empresas e Estado.

Trata-se apenas de dois exemplos bem distantes para ilustrar o fato de que a esquerda social, ou os movimentos, supostamente anti-sistema, tem interesses contraditórios.

A terceira questão é que, se reconhecemos que essa diversidade de interesses é para construir estratégias de mudanças que estão enraizadas na realidade e não em declarações ou ideologias. Como unir trabalhadores braçais que ganham uma miséria com empregados de colarinho branco, que se sentem mais perto dos patrões do que seus irmãos de classe?

Os operários que constroem a gigantesca hidrelétrica de Belo Monte, que será a terceira maior do mundo, se lançaram à greve em dezembro por que ganham 500 dólares mensais por 12 horas diárias de trabalho e a comida que lhes servem está estragada. Os representantes sindicais foram até a obra para convencer os operários à voltarem ao trabalho. Os fundos de pensão de três empresas estatais tem 25% das ações do consórcio que constrói Belo Monte.

Os trabalhadores da Petrobrás, Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil estão interessados no sucesso de Belo Monte, já que seus fundos de pensões, em grande parte controlados por delegados sindicais, repartirão mais dinheiro às custas da exploração dos operários, da natureza e dos índios deslocados pela hidrelétrica.

A quarta é que toda a estratégia para mudar o sistema deve instalar-se solidamente entre aqueles que mais sofrem com esse sistema, ou seja, os do porão. Pensar na unidade orgânica dos debaixo é colocar no timão de controle os que falam e negociam melhor, os que tem mais meios para estar onde se tomam as decisões, ou seja, acima dos debaixo.. São os que se movimentam melhor nas organizações formais, as que contam com locais amplos e confortáveis, funcionários e meios de comunicação e de transporte.

Os do porão se reúnem onde podem, freqüentemente na rua, que é o espaço mais democrático, como os Occupy Wall Street,, os indignados da Espanha e da Grécia e os rebeldes da cidade do Cairo. Não o fazem em torno de um programa, mas sim de um plano de ação. E, é claro, são desorganizados, falam toda hora e aos borbotões.

As estratégias para mudar o mundo devem partir, do meu modo de ver, na criação de espaços para que os diferentes “debaixo” ou esquerdas se conheçam, encontrem formas de se comunicar e fazer as coisas, e estabeleçam laços de confiança. Pode parecer pouco, mas o primeiro passo é compreender que ambos ou setores ou trajetórias precisam um do outro, já que o inimigo concentra mais poder do que nunca.

A ‘engenharia da cooptação’ e os sindicatos no Brasil recente

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