segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Quartim Moraes: Não entregar Battisti à sanha de Berlusconi

GilsonSampaio

Com um currículo como o apresentado abaixo, não poderia ser diferente a decisão do direitista Cesar Peluso.

D.Hélder Cãmara flertou com o integralismo. Caiu em si, foi lutar contra a ditadura e contra a fome dos pobres. É dele a célebre frase:

“Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto porque eles são pobres, chamam-me de comunista.”

D. Hélder é personagem que dignifica a nossa história.

Via Vermelho

Aqueles que imaginam de boa fé que a perseguição cruel desencadeada pelos meretíssimos do STF contra Battisti, desde que o governo Lula lhe concedeu refúgio político, é mera “aplicação” da lei, ganhariam em meditar essas linhas do liberal Kelsen. Uma Corte Constitucional séria não pode fingir que as normas jurídicas têm “sempre e em todos os casos, uma só interpretação”.

João Quartim Moraes*

Os doutos jurisconsultos de direita e de extrema-direita que pontificam no STF ingerem-se acintosamente nos assuntos políticos sem perder a pose de sacerdotes da norma constitucional. Entretanto, um jurista do mesmo campo ideológico dos supra referidos, mas com certeza incomensuravelmente mais douto do que eles, Hans Kelsen, reconheceu enfaticamente em sua Teoria Pura do Direito que “a interpretação jurídico-científica nada mais pode fazer do que estabelecer as possíveis significações de uma norma jurídica. Enquanto conhecimento de seu objeto, ela não pode tomar qualquer decisão entre as possibilidades por si mesma reveladas, mas tem de deixar tal decisão ao órgão que, segundo a ordem jurídica, é competente para aplicar o Direito”. A interpretação jurídico-científica tem de evitar, com o máximo cuidado, a ficção de que uma norma jurídica apenas permite, sempre e em todos os casos, uma só interpretação: a interpretação ‘correta’[...]”.

Aqueles que imaginam de boa fé que a perseguição cruel desencadeada pelos meretíssimos do STF contra Battisti, desde que o governo Lula lhe concedeu refúgio político, é mera “aplicação” da lei, ganhariam em meditar essas linhas do liberal Kelsen. Uma Corte Constitucional séria não pode fingir que as normas jurídicas têm “sempre e em todos os casos, uma só interpretação”. Ao tomar decisões, está escolhendo entre as interpretações possíveis de determinada norma, no caso, as que regem o asilo político. Essa escolha será política ou ideologicamente motivada, já que no plano jurídico, por hipótese, todas as opções estão fundamentadas na análise “jurídico-científica” da lei. Até alguns anos atrás, o STF tinha uma posição fixada por longa jurisprudência, inspirada nas declarações universais dos direitos do homem e do cidadsão, na Carta da ONU e em textos conexos a respeito do refúgio e do asilo, reconhecendo notadamente que esse estatuto ecponhecendo notadamente impede a extradição, que concedê-lo é atributo do Presidente e que crimes comuns conexos com o crime político dele fazem parte.

A proteção a refugiados e perseguidos começou a ser sabotada nos últimos anos, por iniciativa dos dois ministros mais reacionários do STF, Gilmar Mendes e Cézar Peluso. Aquele, que já vinha revelando a que tinha vindo desde sua nomeação por FHC, mostrou-se execrável ao exercer a presidência daquele órgão. Arrogante, exibicionista, provocador, falastrão, não deixou passar nenhuma ocasião de agredir a esquerda e os movimentos sociais.

Peluso não apresenta essas taras comportamentais do colega, mas até por isso pode ser mais eficiente e ideologicamente mais consistente. Sua formação, com efeito, é muito preocupante. Começou seus estudos de pós-graduação com o integralista Miguel Reale e fez sua tese de doutorado em Direito Processual Civil sob a orientação de Alfredo Buzaid, um dos mais abomináveis partidários da ditadura militar terrorista. Com tal curriculum, seria de supor que o autor da indicação de Peluso para o STF fosse um Sarney, um Colllor, um FHC. Infelizmente, o autor foi Lula, muito mal aconselhado não somente por seu então ministro da Justiça, Marcio Tomas Bastos, mas sobretudo, enorme ironia, por um homem que tinha se ilustrado na defesa dos direitos humanos, o cardeal Paulo Evaristo Arns, que escreveu uma carta a Lula recomendando seu protegido. A Igreja é a Igreja: o fato de Peluso ser catolicíssimo certamente influiu na iniciativa do bondoso cardeal.

Lula foi infeliz na escolha, mas teve a lucidez e a honradez de confirmar o asilo a Battisti, concedido inicialmente por seu novo ministro da Justiça Tarso Genro. O atual ministro, Cardozo, nomeado por Dilma, vem mantendo até agora a mesma posição. Veremos.

Não é só, entretanto da extrema-direita que vêm os linchadores de Battisti. Almir Pazzianotto Pinto, um desses espertalhões que fez carreira dizendo-se amigo do trabalho, mas que na verdade estava na tropa do capital, emergiu do banho de formol onde repousa para expelir na seção “Espaço Aberto” do Estadão (22 de janeiro de 2011) uma desabrida diatribe contra “os terroristas”. O editor da seção colocou em destaque uma frase, mais cretina do que injuriosa, em que Pinto dá livre curso à estultice reacionária que sempre o inspirou: “Entre o Direito italiano e um criminoso comum sanguinário e foragido, Lula optou pela Camorra”.

Mas esse pinto de mau agouro não é o único basbaque a encher a boca para reverenciar o Estado de Direito na Itália. Muitos outros, que não são imbecis, sabem que há algo errado numa sociedade que persiste em colocar no poder um desclassificado moral, aliado a fascistas explícitos e a outros cafagestoni. Para justificar sua sanha contra Battisti, eles acham mais apropriado não se referir a Berlusconi, chefe do governo e “dono do pedaço”, mas a Giorgio Napolitano, presidente decorativo de uma República gangrenada. Sem confundi-lo com o rei dos cafagestoni, Napolitano é um desses ex-“eurocomunistas”, em quem a direita gosta de fazer cafuné porque capitularam diante do dólar e do Pentágono. Foi parceiro do renegado D’Alema quando este, em 1999, exercendo a chefia do governo, violou a Constituição italiana, que proibia guerras ofensivas, para abrigar em território italiano os pistoleiros da OTAN afundassem a Sérvia sob uma chuva de mísseis. Capachos do imperialismo como este não têm moral para nos molestar com suas ameaças.

A triste verdade é que a Itália de hoje está carcomida pela corrupção e pelo vírus neofascista. Vejam o que diz a esse respeito próprio Estadão (13/9/2009, p.16-19) na reportagem “Itália mira os ilegais”, com sub-título expressivo: “Contra imigração, país flerta com o fascismo”. Noventa anos “após Benito Mussolini”, a Itália está novamente diante do racismo”. Ela já foi condenada até pela submissa ONU por seus métodos criminosos de bloqueio de imigrantes clandestinos nas águas do Mediterrâneo.

É para a “vendetta” desse regime em deliqüescência que os Peluso e consertes querem enviar Battisti.

*J.Quartim Moraes é cientista político

O jornalismo precisa ser reinventado.

Via  IHU Unisinos

Entrevista especial com Edelberto Behs

Em junho de 2009, o Supremo Tribunal Federal decidiu pela queda da exigência do diploma para atuar na área de Jornalismo. Milhares de estudantes e profissionais ficaram desolados, não sabendo o futuro da profissão. Um ano e meio depois, o curso de Jornalismo volta a ser procurado nas universidades de todo o Brasil.

Coordenador do curso de Jornalismo da Unisinos desde 2003, o professor Edelberto Behs conversou com a IHU On-Line sobre a atual situação deste curso no Brasil e na Unisinos. “Em levantamento realizado pela Agência Experimental de Comunicação (Agexcom), 6% dos que responderam disseram que estavam desmotivados e que procurariam outro curso. Em contrapartida, 42% assinalaram que, independente do diploma, não deixariam o curso de forma alguma, porque essa era a carreira que queriam seguir”, revela.

Behs também reflete sobre as decisões tomadas na Unisinos para garantir a continuidade do curso e sobre o futuro da categoria nas mídias digitais. “Nos Estados Unidos, 105 jornais foram fechados nos últimos anos. O jornalismo precisa, então, ser reinventado”, ressalta. A entrevista foi realizada por e-mail.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Que realidade o jornalismo vive no Brasil, atualmente?

Edelberto Behs - A decisão do STF deixou um vácuo na regulamentação profissional. Hoje, basta nascer para ser jornalista. Sequer foi introduzida a exigência de que só pode exercer a profissão quem tiver algum curso superior, como acontece em países da Europa e da América do Norte. Assim, até uma pessoa semianalfabeta consegue um registro no Brasil.

Quem perde com essa confusão toda é a categoria, mas perde muito mais a sociedade. Um bom parâmetro é a análise da evolução do jornalismo brasileiro nos últimos 40 anos. Outro critério é a comparação de jornais de cidades menores, que não contam com jornalistas profissionais em seus quadros, com o jornalismo praticado por colegas que passaram por curso superior. A diferença fica muito clara.

O curioso é que temos jornalistas que não veem a necessidade do diploma, uma postura inexistente em outras categorias, como advogados, dentistas, engenheiros, arquitetos, que não são acometidos por esse tipo de dilema.

IHU On-Line – Que mudanças ocorreram na Unisinos após a queda do diploma? Houve defasagem de alunos?

Edelberto Behs – Duas semanas após a decisão do STF, pedimos à Agência Experimental de Comunicação (Agexcom) um levantamento junto aos estudantes de jornalismo para detectar o impacto da queda da exigência do diploma para o exercício profissional. Pois bem, 6% dos que responderam disseram que estavam desmotivados e que procurariam outro curso. Em contrapartida, 42% assinalaram que, independente do diploma, não deixariam o curso de forma alguma, porque essa era a carreira que queriam seguir.

Sentimos o impacto na procura pelo curso nos dois processos de seleção seguintes à decisão do STF, tendência que começou a ser revertida no último vestibular, realizado em dezembro.  A queda da procura foi uma tendência geral. A USP, que é uma instituição pública, perdeu candidatos de 2009 para 2010. Embora tenha reduzido em um terço o número de vagas na oferta do jornalismo, a Universidade Metodista de São Paulo viu acontecer o mesmo fenômeno, de acordo com notícias de jornais da época. A Universidade Mogi das Cruzes (UMC) suspendeu o vestibular num semestre por causa da queda de 50% na procura pelo curso.

Na ocasião, reunimos o colegiado do curso da Unisinos com uma pauta única: impactos da decisão do STF. Surgiram várias propostas e algumas iniciativas foram assumidas de imediato. Professores e professoras levaram essa discussão para a sala de aula. Outras proposições, de médio e longo prazos, ainda estão ocorrendo. De qualquer forma, ficou muito claro para o colegiado que, apesar do impacto negativo que a queda do diploma representou, a resposta a essa nova configuração deve vir pela constante atualização do curso e a qualificação do egresso, de tal forma que fica evidente a contribuição que ele traz para a sociedade e para a carreira.

IHU On-Line - Foram aplicadas iniciativas para tranquilizar os estudantes? Que postura foi tomada?

Edelberto Behs - Sim, destacamos que a decisão do STF não significava o fim do jornalismo, que o curso existe para somar conhecimento, desenvolver habilidades e competências, para servir de espaço da diversidade e de debate dos grandes temas da humanidade e da profissão. Convidamos profissionais que se destacam no mercado de trabalho para conversar com estudantes, promovemos debates trazendo para a universidade representantes do Sindicato dos Jornalistas, o deputado Paulo Pimenta, autor da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que restitui a obrigatoriedade do diploma. Participamos de encontros com representantes da Federação Nacional dos Jornalistas com o intuito de traçar estratégias em defesa do diploma.

IHU On-Line - Um ano e meio se passou e a luta para a retomada da obrigatoriedade do diploma segue. O que podemos esperar para 2011?

Edelberto Behs - Bem, esperamos que o Congresso vote pelo menos uma das duas PECs que restabelece a obrigatoriedade do diploma para o exercício profissional.

IHU On-Line - Que mudanças as mídias digitais estão surtindo na prática jornalística e no curso de Jornalismo em si? O que esperar delas?

Edelberto Behs - Entendo que estamos no meio de uma fantástica transformação, inclusive de mudança de paradigma civilizatório, que trará consequências ainda imprevisíveis, motivada, entre outros, também pelas novas tecnologias. Estamos em plena revolução digital, entrando na era da conectividade.

Essa turbulência tem várias janelas. Uma delas, bem importante, é que as empresas de comunicação não descobriram ainda como atuar comercialmente com a internet. Ou seja, está difícil ganhar dinheiro com o produto notícia na rede mundial de computadores, com reflexos, inclusive, nas outras mídias. Nos Estados Unidos, 105 jornais foram fechados nos últimos anos. O jornalismo precisa, então, ser reinventado.

"O jornalismo precisa

ser reinventado"

As novas tecnologias proporcionam ferramentas que determinam o fim da ditadura das mídias, que representavam o único canal de mediação informativa do cidadão, da sociedade, com os poderes constituídos. Ou seja, o emissor se pronunciava e cabia ao receptor captar essa informação unilateralmente. O fundador e primeiro diretor do El Pais, Juan Luis Cebrián, lembrou, em entrevista para O Estado de S.Paulo, que “a internet é um fenômeno de desintermediação”.

Uma outra janela dessa crise passa pelo modo de fazer jornalismo. Hoje se pratica muito, diria, um “jornalismo preguiçoso”, que se expressa na falta de apuração, de pouca análise crítica, interpretativa e contextualizada, amarrado, muitas vezes, a ideologias, e condescendente ao jornalismo declaratório, que mostra o quadro oficial, nem sempre real do Brasil e do mundo. São questões ligadas à profissão, ao profissional, mas também às empresas de comunicação, que, a título de redução de custos, pouco ou quase nada investem em jornalismo investigativo. A boa prática jornalística passa pela produção de informação de qualidade técnica e ética, passa pela reportagem.

Fatores geradores da crise no jornalismo significam, ao mesmo tempo, excelentes possibilidades para o jornalista. Pela primeira vez na história, o profissional de imprensa não depende de vínculo com empresa para apresentar sua produção. Com o ferramental que a tecnologia digital disponibiliza, o jornalista pode dar vazão ao seu trabalho sendo um empreendedor de si, um “eu mídia”, ou pode inserir-se num empreendimento coletivo com colegas. Ele passa a ser sujeito da sua produção, num mercado de tantos nichos quanto são os temas de interesse da coletividade, de um setor empresarial ou de um segmento social.

Essas facetas devem ser consideradas na qualificação ética, técnica e estética de um futuro profissional que passa pelo curso de jornalismo. Mesmo com toda essa evolução tecnológica, o jornalista sempre será um contador de histórias, um sujeito curioso, que busca o aprimoramento constante nos mais variados temas, para realizar as leituras de realidades.

Num encontro que tivemos com professores em março do ano passado, quando se analisou o futuro do jornalismo, ficou evidente que não serão as novas tecnologias que vão qualificar o jornalismo. A ênfase deve recair na formação ética humanística, com uma visão geral do século XX, de cultura geral, além, claro, das questões técnicas profissionais. Neste ano, vamos trabalhar na proposta de projeto político pedagógico do curso, atendendo às novas diretrizes curriculares do jornalismo. O desafio é grande e animador.

IHU On-Line - O que a iniciativa dos garotos que organizaram o Voz da Comunidade no Morro do Alemão indica?

Edelberto Behs - A iniciativa indica que atores locais, cidadãos comuns, são fontes, não somente fontes, mas difusores da informação. Esses jovens foram produtores de notícias, embora não sejam jornalistas. A notícia ganha outro fluxo. Agora, trabalhar a notícia não é apenas uma questão técnica, e o grande capital do jornalista é a credibilidade.

IHU On-Line - Recentemente tivemos o estouro dos documentos vazados pelo WikiLeaks. O que devemos pensar acerca deste caso? Estamos caminhando para uma "cultura WikiLeaks”?

Edelberto Behs - O professor Eugênio Bucci, da USP, diz que o jornalismo é, acima de tudo, a realização de uma ética  porque ele consiste em publicar o que outros querem esconder, mas que o cidadão tem o direito de saber. O jornalismo “só faz sentido na democracia, na observância dos direitos humanos, numa sociedade que cultive a pluralidade e as diferenças de opinião”, agrega.

Documentos vazados pelo WikiLeaks ganharam espaços em jornais e revistas que firmaram parceria com o portal. É como se tais informações, sem o suporte dessas mídias, não tivessem credibilidade. Entendo que caminhamos, sim, para uma cultura wiki, que se trata de uma partilha de conhecimento, e que ela segue a linha do interesse público comum.

Numa entrevista à repórter Lúcia Guimarães, de O Estado de S.Paulo, o veterano repórter estadunidense Gay  Taylese, do New York Times, definiu o que é jornalismo, do ponto de vista da credibilidade:

- No prédio de qualquer redação de um jornal respeitável, a qualquer momento, há menos mentirosos por metro quadrado do que em qualquer outro prédio. Há mentirosos nos jornais também, mas em menor número. Nos prédios do governo, nas escolas, instituições científicas, estádios de esporte, nas fábricas, a mentira circula num grau mais alto. Os jornais estão mais interessados na verdade, mesmo se cometem erros, às vezes, erros involuntários. E se você ainda quer a verdade, é mais fácil chegar a ela por intermédio de um jornal do que por meio de qualquer outra instituição. Os jornais ainda oferecem a melhor chance de manter a verdade em circulação.

Claro, o assunto WikiLeaks ainda vai gerar muita discussão. Jornalismo tem, entre outros, a função de fiscalizar o poder, de desvendar o que poderosos querem manter debaixo do tapete. WikiLeaks desempenha, pois,  um importante papel difusor, com uma importante contribuição ao jornalismo cidadão.

Egito: a estratégia imperialista

 

Egipto: la apuesta al gatopardismo

Sanguessugado do Rebelion

Atilio A. Boron

Página 12

En el día de ayer Hillary Clinton declaró ante la prensa que lo que había que evitar a toda costa en Egipto era un vacío de poder. Que el objetivo de la Casa Blanca era una transición ordenada hacia la democracia, la reforma social, la justicia económica, que Hosni Mubarak era el presidente de Egipto y que lo importante era el proceso, la transición. A diferencia de lo ocurrido en otra ocasión, el Presidente Obama no exigiría la salida del líder caído en desgracia. Como no podría ser de otro modo, las declaraciones de la Secretaria de Estado reflejan la concepción geopolítica que Estados Unidos ha sostenido invariablemente desde la Guerra de los Seis Días, en 1967, y cuya gravitación se acrecentó después del asesinato de Anwar el-Sadat en 1981 y la asunción de su por entonces vicepresidente, Hosni Mubarak. Sadat se había convertido en una pieza clave para Estados Unidos e Israel –y de paso confirió a Egipto la misma categoría- al ser el primer jefe de Estado de un país árabe que reconoció al Estado de Israel al firmar un Tratado de Paz entre Egipto y ese país el 26 de Marzo de 1979. Las dudas y los rencores que aún abrigaban Sadat y el primer ministro israelí Menájem Begin como consecuencia de cinco guerras y que tornaban en interminables las negociaciones de paz fueron rápidamente dejados de lado cuando tanto ellos como el Presidente James Carter se notificaron que el 16 de enero de ese año un estratégico aliado pro estadounidense en la región, el Sha de Irán, había sido derrocado por una revolución popular y buscó refugio en Egipto. La caída del Sha fue seguida por el nacimiento de la república islámica bajo la conducción del Ayatolá Ruhollah Jomeini, para quien Estados Unidos y toda la “civilización estadounidense” no eran otra cosa que el “Gran Satán”, el enemigo jurado del Islam.

Si la violenta eyección del Sha sacudía el tablero de Oriente Medio, no eran mejores las noticias que provenían del convulsionado traspatio centroamericano: el 19 de Julio de 1979 el Frente Sandinista entraba a Managua y ponía fin a la dictadura de Anastasio Somoza, complicando aún más el cuadro geopolítico estadounidense. A partir de ese momento, el delicadísimo equilibrio de Oriente Medio tendría en Egipto el ancla estabilizadora que la política exterior estadounidense se encargó de reforzar a cualquier precio, aún a sabiendas de que bajo el reinado de Mubarak la corrupción, el narcotráfico y el lavado de dinero crecían a un ritmo que sólo era superado por el proceso de pauperización y exclusión social que afectaba a sectores crecientes de la población egipcia; y que la feroz represión ante los menores atisbos de disidencia y las torturas eran cosas de todos los días. Por eso suenan insoportablemente hipócritas y oportunistas las exhortaciones del presidente Obama y su Secretaria de Estado para que un régimen corrupto y represivo como pocos en el mundo -y al cual Estados Unidos mantuvo y financió por décadas- se encamine por el sendero de las reformas económicas, sociales y políticas. Un régimen, además, donde Washington podía enviar prisioneros para torturar sin tener que enfrentar molestas restricciones legales y la estación de la CIA en Cairo podía operar sin ninguna clase de obstáculos para llevar adelante su “guerra contra el terrorismo.” Un régimen, además, que pudo bloquear la internet y la telefonía celular y que apenas si despertó una mesurada protesta por parte de Washington. ¿Habría sido igual de tibia la reacción si quien hubiera cometido tales tropelías hubiese sido Hugo Chávez?

Dado que Mubarak parecería haber cruzado el punto de no retorno, el problema que se le presenta a Obama es el de construir un “mubarakismo” sin Mubarak; es decir, garantizar mediante un oportuno recambio del autócrata la continuidad de la autocracia pro estadounidense. Como decía el Gatopardo, “algo hay que cambiar para que todo siga como está.” Esa fue la fórmula que sin éxito alguno Washington intentó imponer en los meses anteriores al derrumbe del somocismo en Nicaragua, apelando a la figura de un personaje del régimen, Francisco Urcuyo, presidente del Congreso Nacional cuya primera y prácticamente última iniciativa como fugaz presidente fue la de solicitar al Frente Sandinista, que venía aplastando a la guardia nacional somocista por los cuatro rincones del país, que depusiera las armas. Lo depusieron a él al cabo de pocos días, y en el habla popular nicaragüense el ex presidente pasó a ser recordado como “Urcuyo, el efímero.” Lo que ahora está intentando la Casa Blanca es algo similar: presionó a Mubarak para que designara a un vicepresidente en la esperanza de que no reeditase el fiasco de Urcuyo. La designación no pudo haber sido más inapropiada pues recayó en el jefe de los servicios de inteligencia del ejército, Omar Suleiman, un hombre aún más refractario a la apertura democrática que el propio Mubarak y cuyas credenciales no son precisamente los que anhelan las masas que exigen democracia. Cuando estas ganaron las calles y atacaron numerosos cuarteles de la odiada policía y de los no menos odiados espías, soplones y organismos de la inteligencia estatal, Mubarak designa al jefe de estos servicios nada menos que para liderar las reformas democráticas. Es una broma de mal gusto y así fue recibida por los egipcios, que siguieron tomando las calles convencidos de que el ciclo de Mubarak se había terminado y que había que exigir su renuncia sin más trámite.

En la tradición del socialismo marxista se dice que una situación revolucionaria se constituye cuando los de arriba no pueden dominar como antes y los de abajo ya no quieren a ser dominados como antes. Los de arriba no pueden porque la policía fue derrotada en las luchas callejeras y los oficiales y soldados del ejército confraternizan con los manifestantes en lugar de reprimirlos. No sería de extrañar que alguna otra filtración tipo Wikileaks devele las intensas presiones de la Casa Blanca para que el anciano déspota abandone Egipto cuanto antes para evitar una re-edición de la tragedia de Teherán. Las alternativas que se abren para los Estados Unidos son pocas y malas: (a) sostener el régimen actual, pagando un fenomenal costo político no sólo en el mundo árabe para defender sus posiciones y privilegios en esa crucial región del planeta; (b) una toma del poder por una alianza cívico-militar en donde los opositores de Mubarak estarán destinados a ejercer una gravitación cada vez mayor o, (c) la peor de las pesadillas, si se produce el temido vacío del poder que sean los islamistas de la Hermandad Musulmana quienes tomen el gobierno por asalto. Bajo cualquiera de estas hipótesis las cosas ya no serán como antes, pues aún en la variante más moderada la probabilidad de que un nuevo régimen en Egipto continúe siendo un fiel e incondicional peón de Washington es sumamente baja y, en el mejor de los casos, altamente inestable. Y si el desenlace es el radicalismo islamista la situación de Estados Unidos e Israel en la región se tornará en extremo vulnerable, habida cuenta de que el efecto dominó de la crisis que comenzó en Túnez y siguió en Egipto ya se está dejando sentir en otros importantes aliados de Estados Unidos, como Jordania y Yemen, todo lo cual puede profundizar la derrota militar estadounidense en Irak y precipitar una debacle en Afganistán. De cumplirse estos pronósticos, el conflicto palestino-israelí adquiriría inéditas resonancias cuyos ecos llegarían hasta los suntuosos palacios de los emiratos del Golfo y la propia Arabia Saudí, cambiando dramáticamente y para siempre el tablero de la política y la economía mundiales.

O fantasma fardado e outras histórias

Via CartaCapital

Mino Carta

Alguns dos motivos pelos quais o Brasil não é ainda aquele que merece ser. Por Mino Carta. Foto: Miguel Mendez/AFP

A presidenta Dilma Rousseff parte dia 31 para uma visita a Buenos Aires e está previsto seu encontro com as “mães da Plaza de Mayo”, as valentes cidadãs argentinas cujos filhos foram assassinados ou desapareceram durante a ditadura. Hoje elas frequentam a Casa Rosada, recebidas pela presidenta Cristina Kirchner, em um país que puniu os algozes, a começar pelos generais ditadores.

Há quem diga e até escreva que Dilma se expõe ao risco de uma “saia-justa” (não aprecio a enésima frase feita frequentada pelos nossos perdigueiros da informação, mas a leio e reproduzo) ao encontrar as mães da praça. Quem fala, ou escreve, talvez funcione como porta-voz de ambientes fardados. Ocorre, porém, que a reunião foi solicitada pela própria presidenta do Brasil, e ela sabe o que faz.

No discurso de posse, Dilma mostrou-se orgulhosa do seu passado de guerrilheira e homenageou os companheiros mortos na luta. Conta com o aplauso de CartaCapital. Foi o primeiro sinal de um propósito claro do novo governo: aprofundar o debate em torno das gravíssimas ofensas aos Direitos Humanos cometidas ao longo dos nossos anos de chumbo. O encontro de Buenos Aires confirma e sublinha a linha definida pela presidenta, a bem da memória do País.

Cada terra tem suas características, peculiaridades, tradições. O Brasil não é a Argentina. Ambos foram colônias. Nós padecemos, contudo, três séculos de escravidão. A independência não veio com a rebelião contra a metrópole e sim graças aos humores contingentes de um jovem príncipe brigado com a família. A república foi proclamada pelos generais. A resistência e a luta armada na Argentina tiveram uma participação bem maior do que se deu no Brasil, e nem por isso o terror de Estado deixou de ser menos feroz aqui do que no Prata.

Já li mais de uma vez comparações entre o número de mortos e de desaparecidos brasileiros e argentinos, de sorte a justificar que a nossa foi ditabranda. Bastaria um único assassinado. A violência, de todo modo, foi a mesma, sem contar que os nossos torturadores deram aulas aos colegas de todo o Cone Sul, habilitados por sua extraordinária competência. Se a repressão verde-oliva numericamente matou, seviciou e perseguiu menos que a argentina foi porque entendeu poder parar por aí.

Fernando Henrique Cardoso disse na terça-feira 25 ao Estadão ser favorável à abertura dos arquivos da ditadura. Surpresa. Foi ele, antes de deixar a Presidência, quem referendou a proposta do general Alberto Cardoso, que comandava seu gabinete da Segurança Institucional, de manter indevassável a rica documentação por 50 anos. No elegante português que o distingue, FHC agora declara: “Aquilo ocorreu no meu último dia de governo e alguém colocou um papel para eu assinar lá”. Deu para entender que alguém pretendia enganá-lo e que o presidente assinava sem ler. Resta o fato de que, ao chegar ao poder, o príncipe dos sociólogos recomendou: “Esqueçam o que eu disse”. Dilma teve um comportamento de outra dignidade. E não há como duvidar que saberá dar os passos certos na realização da Comissão da Verdade.

Certos significa também cautelosos, sempre que necessário. E sem o receio da “saia-justa”. Adequados a tradições que, infelizmente, ainda nos perseguem. Colonização predatória, escravidão etc. etc. As desgraças do Brasil. E mais, daninha além da conta, o golpe de 64 a provar no País a presença insuportável de um exército de ocupação, pronto a executar os planos dos Estados Unidos com a inestimável colaboração da CIA e a servir às conveniências dos titulares do privilégio e seus aspirantes. Os marchadores com Deus e pela liberdade. Que Deus e que liberdade é simples esclarecer.

O fantasma brasileiro é fardado e não há cidadão graúdo que não o tema, e também muitos miúdos. Todas as desculpas valem, na hora em que se presume seu iminente comparecimento, para, de antemão, cancelar o debate ou descartar as soluções destinadas a provocá-lo. Nada disso é digno de um país em ascensão e de democracia conquistada. Carta-Capital acredita que a presidenta saberá exorcizar o fantasma sem precipitar conflitos. Saias-justas, se quiserem.

Um leitor escreve diretamente para Wálter Fanganiello Maierovitch. Lamenta a posição dele e de CartaCapital a favor da extradição de Cesare Battisti. Com urbanidade, felizmente. Enaltece a figura de Tarso Genro, louva a decisão que precipitou o caso e cita, para demonstrar seu teo-rema, um livro intitulado Terrorismo e Criminalidade Política, em que o falecido Heleno Fragoso, professor universitário e célebre criminalista carioca, se refere às inúmeras leis de exceção promulgadas na Itália durante os anos de chumbo. Nada disso também é digno do Brasil.

Fragoso não é o único entre os professores brasileiros que ignoram a história recente com toda a solenidade condizente com suas becas. A Itália dos anos 70, entregue ao comando da operação ao general Alberto Dalla Chiesa, venceu o terrorismo sem recurso a leis de exceção. Houve sim leis de emergência, que um Fragoso não poderia confundir com aquelas. Na semana passada publicamos uma entrevista do filho de Dalla Chiesa, que fez menção a outras leis aprovadas illo tempore, entre elas a redução a 36 horas da jornada de trabalho por obra da poderosa atuação do Partido Comunista e dos sindicatos, e a descriminalização do aborto, que aqui é quimera.

Nas eleições políticas de 1976, o PDC teve 36% dos votos e o PCI 34%, enquanto os pleitos administrativos davam aos comunistas a maioria das prefeituras. A  Itália dos anos 70, contudo, não era somente de Aldo Moro e Enrico Berlinguer, mas também de primorosa cultura, representada por figuras como Norberto Bobbio, Italo Calvino, Pasolini, Sciascia, Fellini, De Sica, Montale, Visconti e assim por diante. Não bastaria esta página para nomear a todos, e ninguém era de direita. Um importante colaborador de Berlinguer, Giorgio Napolitano, atual presidente da República italiana, enviou uma carta tocante à presidenta Dilma. Ele renova os cumprimentos pela eleição, mas mira no caso Battisti.

“Não são aceitáveis distorções, negações ou leituras românticas de crimes de sangue”, escreve Napolitano. A negativa à extradição, acentua “significa motivo de desilusão e amargura para a Itália”. “Não foi plenamente compreendida – prossegue – a necessidade de justiça experimentada por meu país e pelos familiares das vítimas de brutais e injustificados ataques armados, bem como dos feridos por aqueles ataques, sobrevividos às duras penas.” E ao cabo lembra que o terrorismo foi derrotado “dentro das regras do Estado de Direito”.

O Brasil no caso não deve satisfações ao governo italiano, o atual, aliás, o pior desde o imediato pós- guerra, e sim ao Estado, que o presidente da República representa. Talvez seja igual a pregar no deserto recomendar uma boa pesquisa sobre os anos de chumbo italianos a políticos, magistrados, jornalistas, irados cidadãos atolados em uma patética patriotada, indigna do país que o Brasil merece ser. Isento o trabalho, aconselhamos, da singular influência da hipocrisia francesa.

Falo deste nosso atual país onde ainda se verificam cenas do faroeste. Na sexta-feira 21, o caminhão que carregava para o Rio o reparte de CartaCapital foi assaltado ao longo da Dutra. Os assaltantes não eram ávidos de boa leitura: a carga não tinha para eles a menor serventia, queriam era o próprio caminhão. Renderam e aprisionaram o motorista, ficaram com o veículo, imediatamente remetido para outro canto do País.

A última edição da revista não circulou no Rio. Na noite da mesma sexta tentamos reunir um número suficiente de exemplares para reabastecer as bancas cariocas. Infelizmente não havia sobras, na manhã de sábado todos os repartes tinham sido distribuídos. Pelo gravíssimo percalço pedimos desculpas muito sentidas aos leitores do Rio. Com uma derradeira observação. Ao recordar os assaltos às diligências dos filmes western, murmurei para meus espantados botões: a presença de bandos armados no trajeto da mais importante rodovia do País não é digna do Brasil que queremos. Os botões me acharam comedido.

Mino Carta

Mino Carta é diretor de redação de CartaCapital. Fundou as revistas Quatro Rodas, Veja e CartaCapital. Foi diretor de Redação das revistas Senhor e IstoÉ. Criou a Edição de Esportes do jornal O Estado de S. Paulo, criou e dirigiu o Jornal da Tarde. redacao@cartacapital.com.br

Miséria Moral e Ética

Via O Diario.info

Filipe Diniz

Chegou ao fim a Comissão Turkel, nomeada pelo governo israelense para analisar o ataque terrorista contra a Flotilha da Solidariedade. O relatório é uma farsa, como denuncia Filipe Diniz.

A «comissão de inquérito» (comissão Turkel) nomeada pelo governo de Israel para analisar o ataque pirata – desencadeado em Maio passado por esse mesmo governo de Israel – contra a flotilha de solidariedade com o povo de Gaza fez entrega do seu relatório. As conclusões são as esperadas. Repetem o que a contra-informação sionista e os grandes média internacionais repetiram desde o início: legitimam a agressão, fazem de vítima o agressor e de agressores os militantes humanitários embarcados na flotilha.

Esta «comissão» constitui uma farsa desde o início. Tendo o governo sionista recusado uma comissão internacional de inquérito, e para fingir que não se tratava de uma operação de branqueamento meramente interna, integrou duas individualidades exteriores: David Trimble, da Irlanda do Norte, e Ken Watkin, do Canadá. Não se podendo dizer que agiram como simples cúmplices nesta operação, não pode ignorar-se que se prestaram a um papel vergonhoso. Aceitaram integrar a comissão sem direito a voto em relação às conclusões finais.

Conclui o relatório que as tropas de elite sionistas agiram em legítima defesa e no quadro da legalidade internacional. Entre as 300 páginas do relatório não devem constar os resultados das autópsias: todas as nove vítimas mortais foram atingidas por balas de 9 mm na parte superior do corpo. Várias foram atingidas com 4, 5 e até seis tiros. Algumas foram mortas com tiros na cabeça disparados à queima-roupa ou a curta distância. Tratou-se de um assassínio em massa, deliberado e executado com precisão profissional.

Este relatório é bem revelador da miséria moral e ética a que chegou o poder sionista. Quando o terrorismo, o racismo e a violência fascista se tornam políticas de Estado, todos os valores humanos, democráticos e éticos são arrasados.

Tiveram pouca sorte os criminosos nazi-fascistas em serem julgados pelo Tribunal de Nuremberga. Tivessem eles sido julgados por uma comissão de inquérito como esta e não apenas teria sido aceite o argumento invocado por tantos desses criminosos de que «apenas cumpriam ordens». Provavelmente teria também sido concluído que agiam em legítima defesa e no respeito pela lei.

Este texto foi publicado no Avante nº 1.939 de 27 de Janeiro de 2011.

Fidel: La grave crisis alimentaria

Via CubaDebate

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Hace solo 11 días, el 19 de enero, bajo el título de “Es hora ya de hacer algo”, escribí:

“Lo peor es que en gran parte las soluciones dependerán de los países más ricos y desarrollados, quienes llegarán a una situación que realmente no están en condiciones de enfrentar sin que se les derrumbe el mundo que han estado tratando de moldear…

“No hablo ya de guerras, cuyos riesgos y consecuencias han transmitido  personas sabias y brillantes, incluidas muchas norteamericanas.

“Me refiero a la crisis de los alimentos originada por hechos económicos y cambios climáticos que aparentemente son ya irreversibles como consecuencia de la acción del hombre, pero que de todas formas la mente humana está en el deber de enfrentar apresuradamente.

“Los problemas han tomado cuerpo ahora de súbito, a través de fenómenos que se están repitiendo en todos los continentes: calores, incendios de bosques, pérdidas de cosechas en Rusia [...] cambio climático en China [...] pérdidas progresivas de las reservas de agua en el Himalaya, que amenazan India, China, Pakistán y otros países; lluvias excesivas en Australia, que inundaron casi un millón de kilómetros cuadrados; olas de frío insólitas y extemporáneas en Europa [...] sequías en Canadá; olas inusuales de frío en ese país y en Estados Unidos…”

Mencioné igualmente las lluvias sin precedentes en Colombia, Venezuela y Brasil.

Informé en aquella Reflexión que “Las producciones de trigo, soya, maíz, arroz, y otros numerosos cereales y leguminosas, que constituyen la base alimenticia del mundo -cuya población asciende hoy, según cálculos a casi 6 900 millones de habitantes, ya se acerca a la cifra inédita de 7 mil millones, y donde más de mil millones sufren hambre y desnutrición- están siendo afectadas seriamente por los cambios climáticos, creando un gravísimo problema en el mundo.”

El sábado 29 de enero el boletín diario que recibo con noticias de Internet, reprodujo un artículo de Lester R. Brown publicado en el sitio web Vía Orgánica, fechado el 10 de enero, cuyo contenido, a mi juicio, debe ser ampliamente divulgado.

Su autor es el más prestigioso y laureado ecologista norteamericano, quien ha venido advirtiendo el efecto dañino del creciente y cuantioso volumen de CO2 que se viene lanzando a la atmósfera. De su bien fundamentado artículo, tomaré solo párrafos que explican de forma coherente sus puntos de vista.

“Al comenzar el nuevo año, el precio del trigo alcanza niveles sin precedentes…

“…la población mundial, casi se ha duplicado desde 1970, aún seguimos creciendo a un ritmo de 80 000 000 de personas cada año. Esta noche, habrá 219 000 bocas más que alimentar en la mesa y muchas de ellas se encontrarán con los platos vacíos. Otras 219 000 se sumarán a nosotros mañana por la noche. En algún momento este crecimiento incesante comienza a ser demasiado para las capacidades de los agricultores y los límites de los recursos terrestres e hídricos del planeta.

“El aumento en el consumo de carne, leche y huevos en los países en desarrollo que crecen rápido no tiene precedentes.

“En los Estados Unidos, donde se cosecharon 416 000 000 de toneladas de granos en 2009, 119 000 000 de toneladas se enviaron a las destilerías de etanol a fin de producir combustible para los automóviles. Eso bastaría para alimentar a 350 000 000 de personas al año. La enorme inversión de los Estados Unidos en las destilerías de etanol crea las condiciones para la competencia directa entre los automóviles y las personas por la cosecha de granos mundial. En Europa, donde buena parte del parque automotor se mueve con combustible diesel, existe una demanda creciente de combustible diesel producido a partir de plantas, sobre todo a partir del aceite de colza y de palma. Esta demanda de cultivos portadores de aceite no solo reduce la superficie disponible para producir cultivos alimentarios en Europa, sino que también acelera el desbroce de los bosques tropicales en Indonesia y Malasia a favor de las plantaciones productoras de aceite de palma.

“…el crecimiento anual del consumo de granos en el mundo desde un promedio de 21 000 000 de toneladas anuales en el período de 1990 a 2005 ascendió hasta  41 000 000  de toneladas al año en el período 2005 a 2010. La mayor parte de este salto enorme puede atribuirse a la orgía de inversiones en destilerías de etanol en los Estados Unidos entre 2006 y 2008.

“Al propio tiempo que se duplicaba la demanda anual de crecimiento de granos, surgían nuevas limitaciones por el lado de la oferta, inclusive cuando se intensificaban aquellas de larga data como la erosión de los suelos. Se calcula que la tercera parte de las tierras cultivables del mundo pierden la capa vegetal más rápido que el tiempo que se necesita para la formación del suelo nuevo a través de los procesos naturales, perdiéndose así su productividad inherente. Están en el proceso de formación dos grandes masas de polvo. Una se extiende por el noroeste de China, el oeste de Mongolia y el Asia Central; la otra se ubica en el África Central. Cada una de ellas es mucho mayor que la masa de polvo que afectó a los Estados Unidos en el decenio de 1930.

“Las imágenes de satélite muestran un flujo constante de tormentas de polvo que parten de estas regiones y generalmente cada una de ellas transporta millones de toneladas de capa vegetal valiosa.

“Mientras tanto, el agotamiento de los acuíferos reduce rápidamente la extensión de las áreas irrigadas de muchas partes del mundo: este fenómeno relativamente reciente es propiciado por el empleo a gran escala de las bombas mecánicas para extraer el agua subterránea. En la actualidad, la mitad de la población del mundo vive en países donde los niveles freáticos descienden a medida que el bombeo excesivo agota los acuíferos. Una vez que se agota un acuífero hay que reducir necesariamente el bombeo según el ritmo de reposición si no se quiere que se convierta en un acuífero fósil (no renovable), en cuyo caso el bombeo cesará totalmente. Pero más tarde o más temprano los niveles freáticos descendentes se traducen en una elevación de los precios de los alimentos.

“Las extensiones irrigadas disminuyen en el Oriente Medio, sobre todo en Arabia Saudita, Siria, Iraq y posiblemente Yemen. En Arabia Saudita, que dependía totalmente de un acuífero fósil hoy agotado para su autosuficiencia en cuanto al trigo, la producción experimenta una caída libre. Entre 2007 y 2010, la producción de trigo saudita descendió en más de dos tercios.

“El Medio Oriente árabe es la región geográfica donde las escaseces de agua crecientes provocan la mayor reducción de la cosecha de granos. Pero los déficit de agua realmente elevados están en la India donde según las cifras del Banco Mundial hay 175 000 000 de personas que se alimentan de granos producidos mediante el bombeo excesivo [...] En los Estados Unidos, el otro gran productor de granos del mundo, se reduce el área irrigada en estados agrícolas fundamentales como California y Texas.

“El ascenso de la temperatura también hace que resulte más difícil aumentar la cosecha mundial de granos con la rapidez suficiente para ir a la par del ritmo sin precedentes de la demanda. Los ecologistas que se ocupan de los cultivos tienen su propia regla generalmente aceptada: por cada elevación de un grado Celsio en la temperatura por encima del nivel óptimo durante la temporada de crecimiento cabe esperar un descenso del 10% en el rendimiento de los granos.

“Otra tendencia emergente que amenaza a la seguridad alimentaria es el derretimiento de los glaciares de montañas. Esto es especialmente preocupante en los Himalayas y la meseta del Tibet, donde el hielo que se derrite procedente de los glaciares alimenta no solo a los grandes ríos de Asia durante la estación seca como el Indo, el Ganges, el Mekong, el Yangtzé y el Amarillo sino también los sistemas de regadío que dependen de estos ríos. Sin este derretimiento de los hielos la cosecha de granos experimentaría una gran caída y los precios ascenderían proporcionalmente.

“Por último, y a largo plazo, los casquetes de hielo que se derriten en Groenlandia y el oeste de la Antártica, unido a la expansión térmica de los océanos, amenaza con elevar el nivel del mar hasta seis pies durante este siglo. Incluso una elevación de tres pies provocaría la inundación de las tierras arroceras de Bangladesh. También dejaría bajo agua a buena parte del Delta del Mekong, donde se produce la mitad del arroz de Viet Nam, el segundo exportador de arroz del mundo. En total, hay aproximadamente 19 deltas fluviales productores de arroz en Asia donde las cosechas se reducirían considerablemente a causa de la elevación del nivel del mar.

“La inquietud de estas últimas semanas es sólo el principio. Ya no se trata de un conflicto entre grandes potencias fuertemente armadas sino más bien de mayores escaseces de alimentos y precios ascendentes de los productos alimentarios (y del trastorno político a que esto conduciría) que amenazan a nuestro futuro mundial. A no ser que los gobiernos procedan pronto a revisar las cuestiones de seguridad y desvíen los gastos de usos militares hacia la mitigación del cambio climático, la eficiencia hídrica, la conservación de los suelos y la estabilización demográfica, según toda probabilidad el mundo enfrentará un futuro de más inestabilidad climática y volatilidad de los precios de los alimentos. Si se siguen haciendo las cosas como hasta ahora, los precios de los alimentos solo tenderán a subir.”

El orden mundial existente lo impuso Estados Unidos al final de la Segunda Guerra Mundial, y reservó para sí todos los privilegios.

Obama no tiene forma de administrar la olla de grillos que han creado. Hace unos días se derrumbó el gobierno de Túnez, donde Estados Unidos había impuesto el neoliberalismo y estaba feliz de su proeza política. La palabra democracia había desparecido del escenario. Es increíble como ahora, cuando el pueblo explotado derrama su sangre y asalta las tiendas, Washington expresa su felicidad por el derrumbe. Nadie ignora que Estados Unidos convirtió a Egipto en su aliado principal dentro del mundo árabe. Un gran portaaviones y un submarino nuclear, escoltados por naves de guerra norteamericanas e israelitas, cruzaron por el Canal de Suez hacia el Golfo Pérsico hace varios meses, sin que la prensa internacional tuviera acceso a lo que allí ocurría. Fue el país árabe que más suministros de armamentos recibió. Millones de jóvenes egipcios padecen el desempleo y la escasez de alimentos provocada en la economía mundial, y Washington afirma que los apoya. Su maquiavelismo consiste en que mientras suministraba armas al gobierno egipcio, la USAID suministraba fondos a la oposición. ¿Podrá Estados Unidos detener la ola revolucionaria que sacude al Tercer Mundo?

La famosa reunión de Davos que acaba de concluir se convirtió en una Torre de Babel, y los estados europeos más ricos encabezados por Alemania, Gran Bretaña y Francia, solo coinciden en sus desacuerdos con Estados Unidos.

Pero no hay que inquietarse en lo más mínimo; la Secretaria de Estado prometió una vez más que Estados Unidos ayudaría a la reconstrucción de Haití.

Fidel Castro Ruz

Egipto, Mubarak se despede com um banho de sangue

Via Somos Todos Palestinos

Said Alami

Os recentes acontecimentos no Egito, onde o presidente Mubarak, nomeia vice-presidente o chefe do Serviço de Inteligência, general Omar Solaiman, e ao ministro da Aviação Civil e ex-chefe da Força Aérea Egípcia, Ahmad Shafiq, primeiro-ministro, supõem a primeira parte de uma saída diabólica do gigantesco atoleiro onde está metido o regime, em conseqüência da rebelião popular sem precedentes que vive o país. Se trata de uma saída posta em marcha pelo regime militar egípcio, com o serviços de inteligência no comando, em obediência castrense aos seus amos em Washington.Há um fato que se deve levar em conta: o Egito vive sob o jugo da Lei de Estado de Emergência, desde a chegada ao poder de Mubarak, em 1981 , após o assassinato do então presidente Anwar El Sadat.

Pois bem, a segunda parte desta saída diabólica, consistiu nas ordens dadas pelo governador militar da república, cargo que sustenta o próprio Mubarak, graças à referida lei, às forças policiais, para que se retirassem das ruas . Ao mesmo tempo, o Ministério do Interior ordenou que todos os postos policiais, delegacias e prisões libertassem os detidos e prisioneiros que estavam sob a guarda da repressão estatal. Em conseqüência, a maioria destas estações, quartéis e prisões ficaram vazias e abandonadas. Assim, milhares de bandidos e criminosos comuns foram libertados com claras instruções de semear o pânico nas ruas e bairros.

A terceira parte desta solução foi enviar os tanques para as ruas, mas ao som de paz e na esperança de que as horda de bandidos fariam das suas e, assim, se espalhasse que a população, a propriedade privada e pública se encontravam desprotegidas e em grave perigo

Este é um cenário reproduzido daquele que aconteceu há duas semanas na Tunísia, onde gangues aterrorizaram os moradores de diferentes bairros da capital, roubando e agredindo pessoas e, em seguida, justificasse o uso da força bruta pelo exército . No entanto, o Exército da Tunísia retirou seu apoio ao ditador Bem Ali, que não teve outro remédio que fugir do país.

Uma vez entregue todo poder ao Exército, na pessoa do Brigadeiro-General Omar Sulaiman, um homem nitidamente americano e pró Israel, como vice-presidente e ao general Ahmad Shafiq, como primeiro-ministro, o quarto episódio da perversa solução egípcia consiste em dar carta branca as forças militares para utilização de todas as forças e definitivamente controlar a situação nas ruas.

Assim, dezenas de milhares de soldados, muitos com uniformes e equipamento anti-distúrbios , têm presença nas ruas de muitas cidades do Egipto. Em 29 de janeiro, à noite, o Brigadeiro-General Ismail Othman, porta-voz do Exército, advertia que os militares "tratarão com extrema dureza àqueles que burlarem o regime de toque de recolher” imposto já há 3 dias por ordem do governador militar, Mubarak.

No mesmo dia, 29 de janeiro, o toque de recolher foi ampliado para que entrasse em vigor às quatro horas em lugar de sete da tarde, como era antes. Os manifestantes em muitas cidades egípcias ignoraram as ordens de toque de recolher obrigatório e os protestos aumentaram provocando mais mortes e centenas de feridos.

Com quatro fases bem estruturadas, a solução imposta ao povo egípcio, mostra suas intenções de forma  bem clara e cristalina. Não há dúvida. O regime de Mubarak quer converter o povo egípcio em refém de seu Exército.

Pois bem, se o regime egípcio e a cúpula do Exército continuam empenhados em se enfrentar com o povo e resistir a sua vontade , haverá certamente um banho de sangue sem precedentes no Egito.

De acordo com os correspondentes de emissoras de televisão que transmitem em árabe ao vivo do Cairo e, segundo comunicações telefônicas realizadas por esses meios, com testemunhas em diferentes partes do Egito, o genocídio está em andamento. Médicos de vários hospitais no Cairo e Suez pediam ao vivo que se pare a matança, a chegada dos mortos e feridos nos hospitais é incessante.

Correspondentes, testemunhas, e observadores profissionais em campo assinalam que o Exército e a polícia estão representando um drama trágico em que gangues criminosas estão causando caos nas ruas e bairros, essas gangues são compostas por bandidos e membros da polícia, enquanto o exército dispara suas armas contra os manifestantes, sob o pretexto de que eles estão lutando contra criminosos.

Essas quadrilhas estão fortemente armadas, o que é inconcebível num país como o Egito, onde as armas são praticamente inexistentes nas mãos de civis e onde o crime organizado nunca teve uma presença significativa. Enquanto isso, os franco atiradores da polícia e do Exército reapareceram em vários pontos e vários civis caíram em conseqüência de seus tiros, disparados dos telhados e terraços, especialmente perto da sede do Ministério do Interior, onde se concentram dezenas de milhares de manifestantes.

No entanto, seja qual for o resultado da atual "intifada"egípcia, incluirá a saída forçosa e vergonhosa de Mubarak do poder e a eliminação de qualquer esperança de que seu próprio filho, Gamal, vice-presidente do Partido Democrático Nacional, vá sucedê-lo como chefe de Estado, coisa que antes do início da "intifada" egípcia, há somente 5 dias, se dava por certo e garantido.

Já certo do iminente abandono do poder, o ditador foi obrigado a nomear um vice-presidente, medida que resistiu a tomar desde sua instalação na Chefia do Estado, há 30 anos. Três décadas no poder, sem nomear um vice-presidente, e só o faz agora, por que assim lhe ordena e manda a Casa Branca, que aceita, com relutância, a perda de Mubarak, figura-chave no Mundo Árabe, mas defenderá com os dentes seu regime, que agora será custodiado por seu novo homem forte, Omar Solaiman.

Estados Unidos, ao contrário da declaração da Secretária de Estado, Hilary Clinton, e do próprio Barak Obama, quando em público pediram a não utilização da violência contra os manifestantes, na verdade, o que eles pediram ao regime egípcio, a julgar por tudo que esta acontecendo, é que se mantenham no poder, mesmo que isso custe massacrar milhares de cidadãos egípcios, coisa que já está em andamento. Simplesmente por que a permanência do regime de Mubarak, ainda que encabeçado num futuro próximo por Solaiman é primordial e essencial para segurança de Israel.

Aparentemente, a cúpula do Exército egípcio está absolutamente controlada pelos EUA através do típico método utilizado por Washington, reiteradas vezes, no Iraque, Afeganistão e outros países do mundo: o suborno e a compra de vontades. Na cúpula do Exército e do regime,algumas pessoas e máfias vendidas aos EUA estão bem posicionadas; cujo único propósito é servir os interesses dos Estados Unidos e Israel, e garantir, por todos os meios possíveis, a existência criminosa do estado sionista.

Assim vemos como o exército egípcio, heróico no passado, derrotando Israel em 1973, recuperando o canal de Suez e parte do Sinai (que mais tarde foi recuperado pela vergonhoso Acordos de Camp David, assinado por Sadat e que lhe custou a vida ), tornou-se o protetor de Israel e um inimigo do povo egípcio.

Sem dúvida,, é uma situação artificial que não pode durar para sempre!

Uma democracia de mentira

Via Direto da Redação

Enquanto sobe o tom da voz rouca nas ruas da Tunísia, do Egito, do Iêmen, da Argélia, do Marrocos e da Jordânia, em Israel, o país considerado pelo senso comum com uma democracia, nestes dias ocorreu a criação de uma comissão especial para investigar as atividades de cidadãos e grupos de esquerda.

No mais puro macarthismo, a extrema direita israelense, estimulada pelo Ministro do Exterior Avigdor Lieberman, uma figura nefasta e fascista, está vomitando ódio não apenas contra os palestinos, mas também contra israelenses de esquerda que, envergonhados, denunciam uma série de violações dos direitos humanos cometidas contra os palestinos. Os extremistas guiados por Lieberman acusam de “financiados por terroristas” os grupos progressistas israelenses que denunciam a ação do Exército nos territórios palestinos.

A mesma extrema direita israelense mais uma vez utilizou-se do Holocausto, lembrado no Dia 27 de janeiro, para aparecer como vítima. De fato são seis milhões de judeus assassinados pelo nazismo na II Guerra, juntamente com outros segmentos como ciganos, eslavos, comunistas, socialistas, homossexuais, seres humanos com problemas mentais etc.

Realmente, o Holocausto ser lembrado por extremistas como Lieberman, Benyamin Netanyahu e outros do gênero, é não apenas uma hipocrisia, como até mesmo ofensivo às próprias vítimas da bestialidade nazifascista do século passado. Exatamente porque, segundo denúncias dos próprios israelenses, estão vestindo a camisa do opressor de ontem, os nazistas.

Quem imaginava que isso pertencia ao passado, engana-se. Lieberman e Netanyahu são exemplos concretos de que o ideário extremista continua vivo. O Ministro do Exterior de Israel, egresso da extinta União Soviética, pregou em várias ocasiões uma solução final contra os palestinos e manifesta claramente ódio aos árabes. . 

Quem veste a camisa do racismo não tem condições morais de falar em Holocausto, no caso de Lieberman & Netanyahu, aproveitando o sentimento de repulsa da humanidade pela barbárie da II Guerra Mundial para usá-la em proveito de uma ideologia que prega também o ódio e a exclusão do outro. 

Imbuída pelo sentimento de repulsa pelo que o governo Netanyahu continua a fazer com os palestinos, inclusive os residentes no território israelense, considerados pelas autoridades sionistas na prática como cidadãos de segunda classe, a esquerda israelense não se cala, exatamente para mostrar ao mundo que há repúdio interno em relação às atrocidades contra os palestinos.

A resposta foi dada pelo Parlamento, onde a direita tem maioria e, como afirma o jornalista israelense Gideon Levy, do jornal Haaretz, “o que este governo está fazendo ruborizaria até (Joseph) McCarthy”, o senador estadunidense que promoveu uma caça às bruxas nos anos 50.

Como temas desta natureza dificilmente são apresentados nos jornalões e telejornalões, não só do Brasil como pelo mundo afora, é necessário que a opinião pública seja informada do que está acontecendo em Israel e nos territórios palestinos, isso para evitar que o atual governo extremista de Netanyahu &Lieberman e outros do gênero continue levando adiante na prática a eliminação do outro, ou seja, do povo palestino. O jornal Brasil de Fato foi o único por estas bandas a informar a vergonhosa caça às bruxas.

Por sinal, mais dois países da América  Latina, o Paraguai e o Peru, acabaram de reconhecer o país  Palestina com as fronteiras de 1967, somando-se ao Brasil, Argentina, Uruguai, Equador, Bolívia etc. Os respectivos governos, alguns não de esquerda, não se dobraram as pressões do lobby sionista.

Enquanto isso, depois dos tunisinos terem mandado para o lixo o ditador-ladrão Ben Ali, os egípcios estão dando o claro recado de que não suportam mais Hosny Mubarak e o seu regime corrupto e autoritário, que além de governar o país com mão de ferro há mais de 30 anos é o principal responsável pelo arrocho salarial, pobreza e desemprego, para não falar da subserviência aos Estados Unidos, que banca o governo com uma polpuda mesada de 1,3 bilhões de dólares anuais para se alinhar a Washington.

A voz rouca das ruas no Egito e Tunísia é clara: chega de ditaduras, de submissão ao Fundo Monetário Internacional, que em 2007, juntamente com o Fórum Econômico Mundial para a África, considerava o país do ex-ditador Ben Ali o mais competitivo do continente, mais inclusive do que a África do Sul. E tudo isso com a chancela dos sucessivos governos estadunidenses nos últimos 30 anos.

Embora os povos tenham perdido o medor da violenta repressão há também o perigo dos ditadores abandonarem o cargo, mas o regime continuar o mesmo, havendo apenas uma troca do seis pelo meia dúzia. Daí Mubarak nomear pela primeira vez em 32 anos um vice, o chefe da inteligência, Omar Suleiman. Pode ser até que esteja preparando o terreno para cair fora e deixar em seu lugar alguém que mantenha o mesmo esquema de dominação que levou os jovens a ir para as ruas protestar e pedir o fim do regime chancelado pelo Ocidente.

Quando este artigo estava sendo elaborado veio a informação do Cairo sobre a proibição do canal da Al Jazeera de atuar no Egito. Coisas de uma ditadura. Resta saber se as entidades internacionais  que se consideram defensoras da liberdade de imprensa vão protestar. E o que dirão os governos ocidentais?

Wikileaks revelam sabotagem contra Brasil tecnológico

GilsonSampaio

As investigações sobre a explosão do VLS(Veiculo Lançador de Satélites) na base de Alcântara, a mesma que FHC queria presentear o império, terminaram sem uma conclusão convicente.

É só uma lembrança que passou pela minha cabeça.

Via CartaMaior

Beto Almeida

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Os telegramas da diplomacia dos EUA revelados pelo Wikileaks revelaram que a Casa Branca toma ações concretas para impedi dificultar e sabotar o desenvolvimento tecnológico brasileiro em duas áreas estratégicas: energia nuclear e tecnologia espacial. Em ambos os casos, observa-se o papel anti-nacional da grande mídia brasileira, bem como escancara-se, também sem surpresa, a função desempenhada pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, colhido em uma exuberante sintonia com os interesses estratégicos fo Departamento de Estado dos EUA, ao tempo em que exibe problemática posição em relação à independência tecnológica brasileira. O artigo é de Beto Almeida.

Beto Almeida

O primeiro dos telegramas divulgados, datado de 2009, conta que o governo dos EUA pressionou autoridades ucranianas para emperrar o desenvolvimento do projeto conjunto Brasil-Ucrânia de implantação da plataforma de lançamento dos foguetes Cyclone-4 - de fabricação ucraniana - no Centro de Lançamentos de Alcântara , no Maranhão.

Veto imperial

O telegrama do diplomata americano no Brasil, Clifford Sobel, enviado aos EUA em fevereiro daquele ano, relata que os representantes ucranianos, através de sua embaixada no Brasil, fizeram gestões para que o governo americano revisse a posição de boicote ao uso de Alcântara para o lançamento de qualquer satélite fabricado nos EUA. A resposta americana foi clara. A missão em Brasília deveria comunicar ao embaixador ucraniano, Volodymyr Lakomov, que os EUA “não quer” nenhuma transferência de tecnologia espacial para o Brasil.

“Queremos lembrar às autoridades ucranianas que os EUA não se opõem ao estabelecimento de uma plataforma de lançamentos em Alcântara, contanto que tal atividade não resulte na transferência de tecnologias de foguetes ao Brasil”, diz um trecho do telegrama.

Em outra parte do documento, o representante americano é ainda mais explícito com Lokomov: “Embora os EUA estejam preparados para apoiar o projeto conjunto ucraniano-brasileiro, uma vez que o TSA (acordo de salvaguardas Brasil-EUA) entre em vigor, não apoiamos o programa nativo dos veículos de lançamento espacial do Brasil”.

Guinada na política externa

O Acordo de Salvaguardas Brasil-EUA (TSA) foi firmado em 2000 por Fernando Henrique Cardoso, mas foi rejeitado pelo Senado Brasileiro após a chegada de Lula ao Planalto e a guinada registrada na política externa brasileira, a mesma que muito contribuiu para enterrar a ALCA. Na sua rejeição o parlamento brasileiro considerou que seus termos constituíam uma “afronta à Soberania Nacional”. Pelo documento, o Brasil cederia áreas de Alcântara para uso exclusivo dos EUA sem permitir nenhum acesso de brasileiros. Além da ocupação da área e da proibição de qualquer engenheiro ou técnico brasileiro nas áreas de lançamento, o tratado previa inspeções americanas à base sem aviso prévio.

Os telegramas diplomáticos divulgados pelo Wikileaks falam do veto norte-americano ao desenvolvimento de tecnologia brasileira para foguetes, bem como indicam a cândida esperança mantida ainda pela Casa Branca, de que o TSA seja ,finalmente, implementado como pretendia o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Mas, não apenas a Casa Branca e o antigo mandatário esforçaram-se pela grave limitação do Programa Espacial Brasileiro, pois neste esforço algumas ONGs, normalmente financiadas por programas internacionais dirigidos por mentalidade colonizadora, atuaram para travar o indispensável salto tecnológico brasileiro para entrar no seleto e fechadíssimo clube dos países com capacidade para a exploração econômica do espaço sideral e para o lançamento de satélites. Junte-se a eles, a mídia nacional que não destacou a gravíssima confissão de sabotagem norte-americana contra o Brasil, provavelmente porque tal atitude contraria sua linha editorial historicamente refratária aos esforços nacionais para a conquista de independência tecnológica, em qualquer área que seja. Especialmente naquelas em que mais desagradam as metrópoles.

Bomba! Bomba!

O outro telegrama da diplomacia norte-americana divulgado pelo Wikileaks recentemente e que também revela intenções de veto e ações contra o desenvolvimento tecnológico brasileiro veio a tona de forma torta pela Revista Veja, e fala da preocupação gringa sobre o trabalho de um físico brasileiro, o cearense Dalton Girão Barroso, do Instituto Militar de Engenharia, do Exército. Giráo publicou um livro com simulações por ele mesmo desenvolvidas, que teriam decifrado os mecanismos da mais potente bomba nuclear dos EUA, a W87, cuja tecnologia é guardada a 7 chaves.

A primeira suspeita revelada nos telegramas diplomáticos era de espionagem. E também, face à precisão dos cálculos de Girão, de que haveria no Brasil um programa nuclear secreto, contrariando, segundo a ótica dos EUA, endossada pela revista, o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, firmado pelo Brasil em 1998, Tal como o Acordo de Salvaguardas Brasil-EUA, sobre o uso da Base de Alcântara, o TNP foi firmado por Fernando Henrique. Baseado apenas em uma imperial desconfiança de que as fórmulas usadas pelo cientista brasileiro poderiam ser utilizadas por terroristas , os EUA, pressionaram a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) que exigiu explicações do governo Brasil , chegando mesmo a propor o recolhimento-censura do livro “A física dos explosivos nucleares”. Exigência considerada pelas autoridades militares brasileiras como “intromissão indevida da AIEA em atividades acadêmicas de uma instituição subordinada ao Exército Brasileiro”.

Como é conhecido, o Ministro da Defesa, Nelson Jobim, vocalizando posição do setor militar contrária a ingerências indevidas, opõe-se a assinatura do protocolo adicional do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, que daria à AIEA, controlada pelas potências nucleares, o direito de acesso irrestrito às instalações nucleares brasileiras. Acesso que não permitem às suas próprias instalações, mesmo sendo claro o descumprimento, há anos, de uma meta central do TNP, que não determina apenas a não proliferação, mas também o desarmamento nuclear dos países que estão armados, o que não está ocorrendo.

Desarmamento unilateral

A revista publica providencial declaração do físico José Goldemberg, obviamente, em sustentação à sua linha editorial de desarmamento unilateral e de renúncia ao desenvolvimento tecnológico nuclear soberano, tal como vem sendo alcançado por outros países, entre eles Israel, jamais alvo de sanções por parte da AIEA ou da ONU, como se faz contra o Irã. Segundo Goldemberg, que já foi secretário de ciência e tecnologia, é quase impossível que o Brasil não tenha em andamento algum projeto que poderia ser facilmente direcionado para a produção de uma bomba atômica. Tudo o que os EUA querem ouvir para reforçar a linha de vetos e constrangimentos tecnológicos ao Brasil, como mostram os telegramas divulgados pelo Wikileaks. Por outro lado, tudo o que os EUA querem esconder do mundo é a proposta que Mahmud Ajmadinejad , presidente do Irà, apresentou à Assembléia Geral da ONU, para que fosse levada a debate e implementação: “Energia nuclear para todos, armas nucleares para ninguém”. Até agora, rigorosamente sonegada à opinião pública mundial.

Intervencionismo crescente

O semanário também publica franca e reveladora declaração do ex-presidente Cardoso : “Não havendo inimigos externos nuclearizados, nem o Brasil pretendendo assumir uma política regional belicosa, para que a bomba?” Com o tesouro energético que possui no fundo do mar, ou na biodiversidade, com os minerais estratégicos abundantes que possui no subsolo e diante do crescimento dos orçamentos bélicos das grandes potências, seguido do intervencionismo imperial em várias partes do mundo, desconhecendo leis ou fronteiras, a declaração do ex-presidente é, digamos, de um candura formidável.

São conhecidas as sintonias entre a política externa da década anterior e a linha editorial da grande mídia em sustentação às diretrizes emanadas pela Casa Branca. Por isso esses pólos midiáticos do unilateralismo em processo de desencanto e crise se encontram tão embaraçados diante da nova política externa brasileira que adquire, a cada dia, forte dose de justeza e razoabilidade quanto mais telegramas da diplomacia imperial como os acima mencionados são divulgados pelo Wikilieks.

(*) Beto Almeida é jornalista

Todos os números

Via Outros Cadernos de Saramago

José Saramago

O nome não é mais do que uma espécie de muro não voluntário que nos impede de saber quem é o outro. Depois, os nomes que temos são cada vez menos importantes, o que conta verdadeiramente no sistema que nos governa, e que não sabemos identificar bem, é o número do cartão de crédito.

domingo, 30 de janeiro de 2011

A PROPÓSITO DA CARTA DE DILMA

GilsonSampaio

Leia a matéria - Cai fora Dilma – Chega de cair de quatro,  que deu origem à reação furibunda e não tão furibunda assim contra o jornalista Laerte Braga.

Os cardeais da blogosfera progressista não deram a matéria e nem dela fizeram referência, aliás, quase não se lê algo defendendo a soberania do país neste Caso Battisti e, tem mais, defendendo a equipotência entre os três poderes, que é o que está em jogo. Laerte parece jogado no arquivo dos jornalistas malditos, assim foi quando “furou” toda a mídia progressista e denunciou a reunião de Foz de Iguaçu em que FHC prometeu a investidores estrangeiros a entrega de papel passado se Serra fosse eleito. Poucos foram os que creditaram a ele a denúncia.

Maldito seja em sua coerência.

Laerte Braga

Não houve nem precipitação, tampouco fazer o jogo da direita ao criticar a carta enviada pela presidente Dilma Roussef ao presidente da Itália, a propósito do caso Cesare Battisti.

O fato da presidente da República pertencer a um partido supostamente comprometido com lutas populares e ter sucedido a um governo – Lula – que malgrado as críticas possíveis e passíveis, superou obstáculos e dificuldades os mais variados, bombas de efeito retardado deixadas pelo governo FHC, é preciso enxergar além de um outro fato, ver o todo, o conjunto.

A carta de Dilma foi resultado de uma discussão ampla sobre o assunto – a extradição de Cesare Battisti – e foi sim um ato de submissão, qualquer que tenha a expressão usada ou o “STF DECIDIR”, ou o “STF MANIFESTAR-SE”.

A corte dita suprema já se manifestou em julgamento anterior e como bem alertou o ministro Marco Aurélio Mello, a competência é do presidente da República. A de extraditar ou não.

Dilma Roussef teve conhecimento da decisão do então presidente Lula e apoiou-a. Mesmo porque fez parte do seu governo até a desincompatibilização para candidatar-se à presidente.

O assunto Battisti virou preocupação dentro do governo federal, o atual, seja pela reação do governo italiano, da carta do presidente da Itália ou pela descabida e lamentável atitude do presidente do STF o ministro Cesar Peluso. Ato contínuo ao decreto de Lula deveria ter sido expedido o alvará de soltura, ou mandado de soltura de Battisti e o ministro iria fazê-lo, cientificou o ex-presidente disso, até que contatado por Gilmar Mendes e o embaixador italiano resolveu participar, dar a partida nessa farsa de tentar um confronto com o Executivo.

A visão pragmática de Dilma levou-a em reuniões com assessores a lamentar o fato num primeiro momento, para em seguida, reclamar, notem bem RECLAMAR da “tardia decisão de Lula que teria deixado a bomba em suas mãos”.

Os que tiverem boa memória hão de lembrar-se de uma reprimenda do ex-presidente ao seu ministro da Fazenda, Guido Manteca – que permanece no cargo – dias antes da posse de Dilma. Manteca anunciou cortes no orçamento e paralisação e suspensão de algumas obras previstas. A reprimenda de Lula foi para lembrar ao ministro que ainda era ele o presidente da República e não havia autorizado nada daquilo que Manteca falara.

Este fato serve para ilustrar a campanha sórdida desfechada por figuras como Marco Aurélio Garcia (pelego petista) contra os ministros Celso Amorim e Samuel Pinheiro Guimarães. E coincidentemente parte dos documentos revelados pelo WIKILEAKS mostram Garcia íntimo dos embaixadores dos EUA, funcionando como uma espécie de consultor.

A luta interna que precedeu a posse de Dilma tinha objetivos claros como manter Jobim na Defesa, afastar Amorim e Samuel Pinheiro Guimarães. O chanceler e o ministro, apesar de todo o esforço de Marco Aurélio Garcia para destruir, construíram uma política externa que transformou o Brasil em protagonista da história que vivemos nos dias atuais.

Neste momento o que poderíamos chamar de lado pragmático do governo Dilma, os que pensam e transformam a economia em fator principal deixando de lado o político, os compromissos de mudanças, fizeram ver a presidente que era necessário entender que se preciso for “sacrificar” Battisti para evitar um confronto com o Judiciário, que Battisti seja sacrificado.

Apostam em convencer ministros do STF a reiterar a competência final do presidente para extraditar ou não, no que estaria convalidado um ato de Lula e isenta Dilma de qualquer responsabilidade no processo.

É evidente que o ex-presidente Lula não vai falar sobre o assunto. Tomou o bonde errado e começa a amargar o abandono de alguns “companheiros” ávidos, sempre, de poder, cargos para ser mais franco.

Vai até o fim da linha, ou enquanto suportar e isso é dele, ninguém pode marcar data para suportar ou não suportar.

As concessões feitas no governo Lula, vamos admitir, por conseqüência das bombas de efeito retardado deixadas pelo governo FHC foram superadas com êxito. O papel da presidente Dilma seria o de buscar caminhos de mudanças estruturais e avanços efetivos em todas as áreas, mantendo o Brasil, acima de tudo, como o que assumia posição de destaque no primeiro plano mundial, deixava de ser coadjuvante.

O governo da Itália enfrenta uma grave crise. O primeiro-ministro é um banqueiro repulsivo por si e por tudo, precisa exibir um escalpo para suportar pressões entre elas a de evitar que a crise arraste o país a uma situação de desemprego elevado, de quebradeira em alguns setores, enfim, esse momento vivido pelo mundo neoliberal.

A carta de Dilma se insere nesse contexto.

As pressões para entregar Battisti não são apenas da Itália. Diplomatas norte-americanos já “aconselharam” o Brasil a ser “livrar” desse problema.

A mídia privada brasileira é cúmplice dessa ordem mundial. Faz o jogo dos interesses internacionais, dos grandes conglomerados.

O latifúndio aqui não está sendo aquinhoado pelo DEM, mas por trabalhos do líder do PT deputado Vacarezza (semente terminal), pelo deputado do PC do B Aldo Rebelo (código florestal).

Patrulhar críticas ao governo Dilma tentando rotulá-las de “fazer o jogo da direita, do PIG” é tão somente agarrar-se a achegos num governo que vive uma disputa interna intensa, da qual a presidente não está dando conta, e na qual as forças à direita começam a triunfar.

Ou não perceber todo esse jogo.

É claro que algumas reações ao artigo que escrevi são leais e refletem aspirações de companheiros e camaradas íntegros.

“Lula elege até um poste” foi uma frase do ex-ministro da ditadura Delfim Neto.

Dilma, evidente, não é Lula. Mas é produto dos resultados do governo Lula e dos compromissos assumidos em praça pública quando da campanha eleitoral. Isso está longe do aparelhamento do Estado, ou da doação de partes do Estado a “aliados” que nada têm a ver com os compromissos de avanços políticos, econômicos e sociais.

Não passam nem pelo latifúndio, nem pelos bancos, muito menos, noutra ponta, pelo peleguismo de grupos sindicais.

A política de alianças pode implicar em concessões, evidente, mas nunca em realmente cair de quatro e a expressão não significa nenhuma ofensa à condição de mulher da presidente, pois é usual até em conversas informais, corriqueiras.

O que se pretendeu com a carta, reitero, onde a expressão DECIDIR, ou MANIFESTAR-SE é submissão, o ato final é privativo do presidente, ou da presidente, foi apenas jogar o problema para a frente e em qualquer situação, atribuí-lo a Lula.

Se for o caso de extraditar Battisti uma capitulação e uma traição sem tamanho, embora ache isso difícil, tudo bem (mas não impossível, depende de como vai ser encaminhado). Caso contrário, para o governo da Itália a presidente vai dar de ombros e dizer que o problema foi criado por Lula.

Foi isso que ela fez.

A carta poderia, tranquilamente ter reafirmado os laços que unem Brasil e Itália, mas ao mesmo tempo a soberania do Brasil sobre a matéria, tanto quanto lamentar, no mínimo, a interferência do governo italiano em questões internas do Brasil. O envolvimento de dois lamentáveis ministros do STF no assunto, à revelia, rasgando a constituição.

Ou tentando rasgar.

Por fim, se qualquer crítica a Dilma, dura ou não, for vista como “equívoco”, “conclusão apressada”, expondo o crítico a execrações quaisquer que sejam elas, aí some qualquer prurido ou chance de debate político sério no Brasil.

E é aí que vamos cair nas mãos da direita.

Dilma não é Lula, repito, mas os compromissos assumidos e o respeito devido a Lula transcendem a jogos e disputas por cargos, vantagens, por aparelhar o Estado num burocratismo economicista que não vai nos levar a lugar algum, a não ser abrir espaços para figuras como Aécio Neves, loucos travestidos de políticos sérios.

Entramos num jogo de clube de amigos e inimigos cordiais.

Vale lembrar as declarações de Marco Aurélio Garcia em 2000, quando do Congresso do PT em Belo Horizonte e as reivindicações de um amplo debate político sobre programa, etc.

“A minha base me obedece e não quer saber disso, Nem entende disso”.

Tomara que o governo Dilma não mergulhe no economicismo burocrático desse jogo dito institucional (mas eu duvido, vai cair direitinho, está caindo, nessa armadilha).

A certeza que essa luta não vai ser ganha nesse plano.

E como disse, se criticar Dilma for sacrilégio, que ela seja ungida papisa. A infalível.

A real concessão dos palestinos

Via Carta Maior

 

Os grupos rivais palestinos sabem usar tanto a resiliência como a criatividade de seu povo para enfrentar diariamente a tortura que é a dominação externa. Mas eles não ajudam a traduzir essa capacidade de resistência pessoal e coletiva numa estratégia de luta popular desarmada. O Hamas e a OLP são reféns de seu falso status como dois governos cuja existência e manutenção se tornaram um fim em si mesmo. Não tivessem desistido de seu povo como um fator decisivo, as duas forças rivais os teriam escutado, e antes de qualquer outra coisa teriam encontrado uma maneira de encerrar o comando duplo. O artigo é de Amira Hass.

Amira Hass - Haaretz

A verdadeira concessão da liderança palestina está no seu povo ocupado como uma força ativa na luta pela independência. Para isso não é preciso que vaze documentos.

Na verdade, os “Palestine Papers” [“Documentos Palestinos”, vazados pela cadeia de TV Al Jazeera] confirmam um segredo aberto. Ao contrário das declarações recitadas em público, as liderança da OLP e a Autoridade Palestina estão preparadas para concessões muitíssimo maiores, no santo graal da posição palestina tradicional: o direito de retorno dos refugiados da “nakba” palestina de 1948.

“Quando exigimos uma solução dos dois estados não queremos dizer dois estados palestinos”, disse-me um experiente membro do Fatah, a respeito da questão do direito de retorno dos refugiados de pré-1967 a Israel. Se a OLP tivesse respeitado o seu povo não estaria falando alto de ambos os lados com sua boca, mas conduzindo um debate aberto a respeito dessa demanda. Teria compartilhado suas conclusões com seu público (que estão em casa ou no exílio): o sonhado direito de retorno não é possível, ao menos no atual momento na história, e que não é justo continuar a manter quatro milhões de pessoas refugiadas em campos com esse propósito. Outros teriam respondido que sob o manto das negociações e a despeito das concessões palestinas, Israel simplesmente segue expandindo os seus assentamentos, de todo jeito.

Não são problemas técnicos que impedem um debate democrático assim, mas o fracasso em ver o povo como agente de mudança.

A OLP depende da generosidade e da diplomacia das nações ocidentais que cooperam com a política de ocupação. O Hamas, adicto da luta armada e suas pretensas conquistas é dependente das doações de suas próprias fontes, e está esperando pela derrubada dos regimes árabes pró-Ocidente por meio dos movimentos islâmicos radicais.

Os rivais palestinos sabem como usar tanto a resiliência como a criatividade do seu povo frente à tortura diária que é a dominação externa. Mas eles não ajudam a traduzir essa resistência pessoal e coletiva numa estratégia de luta popular desarmada.

Uma estratégia de luta popular é um compromisso diário, primeiro e antes de tudo de quem quer que se apresente como líder. Essa é a única opção que restou depois dos desastres causados pelas negociações amadoras dos anos 90, e do uso das armas, sobretudo contra civis na última década. Israel prova cotidianamente o quanto perigosa é essa opção para a ocupação, senão não estaria investindo tanto no esforço de sua repressão.

Mas a estratégia de uma luta popular geral não apenas em cinco cidades exemplares não aceita as benesses do poder de que a OLP e a liderança do Fatah tem usufruído e que são diretamente dependentes dos vistos de viagem da Administração Civil e dos contratos da USAID.

Então, a Autoridade Palestina está ficando entrincheirada como um canal de pagamento de salários e uma elite desconectada de seu povo. Onde estão os membros do Conselho Revolucionário do Fatah? Onde estão os membros do Comitê Executivo da OLP? Por que eles não estão disseminando a palavra da luta popular em outras partes da Cisjordânia?

E quando se trata do Hamas, o potencial democrático de atividades populares esbarra no caráter militar desenvolvido pelo movimento, com a obediência intelectual que exige, como mostra seu estilo de comando em Gaza.

O Hamas e a OLP são reféns de seu falso status como dois governos cuja existência e manutenção se tornaram um fim em si mesmo. Não tivessem desistido de seu povo como um fator decisivo, as duas forças rivais os teriam escutado, e antes de qualquer outra coisa teriam encontrado uma maneira de encerrar o comando duplo.

Os EUA fazem exigências e estabelecem condições? O Irã e a Irmandade Muçulmana sussurram instruções? Com licença, as duas lideranças diriam, há um povo cuja opinião deve ser considerada.

(*) Amira Hass é jornalista israelense, colunista do Haaretz.

Tradução: Katarina Peixoto

Riscos do economicismo

GilsonSampaio

Ufa! Achei alguém que compartilha comigo a mesma opinião de que a crise econômica-financeira EUA-UE vai espalhar a tsunami para outros lugares.

Via Brasil de Fato

    O bordão é sempre o mesmo. Variam os cálculos técnicos de índices e/ou nuances do jargão do economês

 

Alipio Freire 

Economistas do campo da esquerda, inclusive vários deles não ligados ao Governo da presidenta Dilma Rousseff, anunciam que as finanças e a economia brasileira vão bem-obrigado; que a política desenvolvida particularmente nos últimos oito anos para esta área é sólida; e que a crise que neste momento afeta, sobretudo, o Hemisfério Norte, pouco ou nada atingiria o nosso país.

No campo da esquerda, os que não participam desse consenso, se existem, estão em silêncio.

O bordão é sempre o mesmo. Variam os cálculos técnicos de índices e/ou nuances do jargão do economês. Mas, noves-fora, no final das contas, as contas dão no mesmo.

O problema é que esquecem que, além do capital estar cada vez mais globalizado, seus movimentos continuam a depender da política a ser adotada pelos grandes centros. Não falamos apenas das políticas econômicas.

Resumindo: o Governo dos EUA não deixará sua economia sucumbir sozinha. Pelo bem, ou pelo mal, a Casa Branca arrastará todos os que puder, para pagar sua falência. Ilusão imaginar que "O Império" se submeterá à legalidade e acordos internacionais. Inútil esperar que apenas fóruns econômicos e/ou políticos mundiais (e menos ainda regionais) possam arbitrar a possível bancarrota de Washington.

Enfim, mísseis não existem para garantir a paz, e produtos da indústria armamentista não se realizam enquanto mercadorias sem as guerras, além das guerras reativarem diretamente muitos setores da economia. Mais que isto, sabe-se que toda a indústria estadunidense pode rapidamente ser redirecionada para a produção para guerras.

Ou seja, é necessário começarmos a pensar desde agora o que fazer com a crise do grande capital. E não esqueçamos jamais, que esse grande capital tem uma forte base social interna no nosso país.

Talvez seja isto que a doutrina de segurança nacional – que está sendo reescrita pelo ministro da Defesa, doutor Nelson Jobim – queira significar, quando diz que as Forças Armadas não mais têm que se ocupar do inimigo externo, pois esse inimigo hoje está no interior das nossas fronteiras.

Bem, é tudo uma questão de ponto de vista de classe.

Alipio Freire é jornalista e escritor

Texto publicado originalmente na edição 413 do jornal Brasil de Fato

Mídia e corrupção

Sanguessugado do Que será que me dá?

 

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Corromper ou subornar são verbos tão antigos como a própria história da humanidade. No Brasil, vão desde aquela singela cervejinha para o guarda de trânsito – mais conhecida como o “jeitinho brasileiro” – até o que Chico Buarque expressou genialmente em “Vai Passar”:

Dormia a nossa Pátria mãe

tão distraída

Sem perceber que era subtraída

Em tenebrosas transações

Os mecanismos de “subtração” aos quais Chico se referia florescem muito mais onde não há democracia, direitos humanos e justiça social. No Brasil, ganharam maior consistência nos bastidores da ditadura militar, onde a classe política foi imobilizada após o fechamento do congresso pelo AI-5 em 1968. Num cenário destes, qualquer “favorzinho” era negociado na base de propina. Do segundo escalão para baixo do governo militar, a corrupção corria solta enquanto a “Pátria mãe dormia”.

Muita gente usou deste recurso, muitas empresas cresceram quando tiveram “visão de mercado” aliando-se aos governos militares de forma pragmática. Falha e Globo são exemplos clássicos disso.

Quando recebeu das mãos dos militares a concessão pública para operar em território nacional, a Globo era associada ilegalmente ao grupo americano Time-Life. Significa que além de darem suporte logístico e até militar aos generais (frota marítima americana estacionada na costa brasileira pronta para qualquer intervenção que se fizesse necessária para garantir a “normalidade da ordem golpista”) – os americanos também atuaram na outra ponta do esquema. Para sustentar-se, o governo militar precisava ter voz e apoio na mídia. Isso é fundamental em qualquer golpe (até o surgimento da Internet). Assim, associados à Time-Life que injetou o capital necessário, os militares e o jornalista Roberto Marinho vitaminaram o grupo Globo – Jornal e TV para tornarem-se a potência que são hoje. As diretrizes básicas: alinhamento e subordinação total do país aos interesses americanos na região.

Devemos lembrar que naquela época, os monopólios midiáticos ainda estavam engatinhando no Brasil. A Record – que era a vanguarda da TV brasileira – possuía uma única emissora e um auditório com estúdio na Rua da Consolação. Silvio Santos começava a engatinhar com seu Baú e o horário “nobre” da Globo era um pastelão de luta livre que apresentava Ted Boy Marino – o “galã” da emissora. Havia um enorme espaço a ser ocupado para quem incorporasse a ideologia de subserviência aos EUA. A Falha era um jornaleco provinciano. Ofereceu-se como uma prostituta barata à ditadura. O Estadão representava a ultradireita 100% nacionalista.

No ambiente de 64 e nos anos que se seguiram, os caminhos eram estreitos: hipocrisia ou clandestinidade. No prisma da hipocrisia formaram-se políticos como Maluf e Serra. Um lambeu muita botina de milico até adquirir “maioridade” e caminhar com as próprias pernas, recebendo verbas públicas através do voto popular. “Roubou mas fez” – como dizem os paulistas “espertos” que o fazem campeão de votos em cada eleição que participa. O outro chutou a UNE para o alto e deu no pé quando sentiu o cheiro de botina de milico. Só retornou para lamber os sapatos da elite paulista e através dela e de sua imprensa, conseguir eleger-se a cargos públicos.

O exemplo mais grave de corrupção no Brasil deu-se no final do primeiro mandato de FHC: a compra de votos parlamentares para aprovar a emenda constitucional que garantiria a reeleição do presidente. Foi um golpe de estado do colarinho branco. E, mais uma vez, precisava da mídia. Ou melhor, de sua omissão. O PIG não fez cerimônia: tratou o caso como um mexerico que não merecia mais do que algumas notas de rodapé em seus jornais. Há transgressão maior do que corromper para obter mais um mandato?

Já em 2005, as doações ao caixa dois do PT – que foram usadas para o financiamento de campanhas de diversos parlamentares e envolveram TODOS os partidos – foram um banquete para o PIG. A partir da denúncia de Roberto Jefferson (que embolsou R$ 4 milhões) armou-se um circo “nunca antes visto neste país”. Em seu embalo golpista, a imprensa amplificou e batizou o esquema de Mensalão. Plantou a idéia de que as verbas do esquema eram roubadas dos cofres públicos através de um labirinto de factoides e personagens emaranhados em intermináveis conexões. E essa percepção continua a ser alimentada ou, para se dizer o mínimo, nunca foi contestada. Até hoje não foi provado que o tal Mensalão era um procedimento mensal. Muito menos que utilizava verbas públicas. Rendeu a cabeça de José Dirceu, e quase derrubou Lula. José Dirceu, aliás, não renunciou para garantir elegibilidade, como a maioria dos acusados fez na época. Preferiu submeter-se à cassação e perder seus direitos políticos convicto de que, mais tarde, provaria sua inocência. A conferir.

Enquanto FHC e os que o antecederam controlavam a mídia e a Polícia Federal, engavetando denúncias e processos de diversas falcatruas que “subtraiam a Pátria”, Lula fez o oposto: deu total autonomia à PF e não impediu nenhuma CPI. Isso gerou números bem contrastantes (veja aqui). E o PIG tratou de configurar estes números como uma avalanche de corrupção orquestrada pelo PT. Colou? Além de colar fácil nas cabeças preconceituosas que não admitiam um operário ser presidente, também criou uma legião de cães raivosos empesteando a sociedade com palavras de ordem fascistas.

O episódio do Mensalão ainda aguarda julgamento para ser passado a limpo. É uma dívida que a justiça e o PT têm com a sociedade brasileira. E a imprensa corrupta e golpista? Continuará impune até quando?