sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

O totalitarismo dos banqueiros

Via Jornal do Brasil

 Mauro Santayana 

A crise econômica e financeira, iniciada há três anos, longe de ser debelada, agravou-se, levando o mundo a nova encruzilhada, entre a revolução e o totalitarismo contrarrevolucionário. O confronto não é novo. Nele se encontra o eixo da História, com a predominância de uma ou de outra situação, o que leva alguns historiadores a considerarem a revolução um fenômeno permanente, assim como permanente é a reação conservadora.

Em suma: os ricos e poderosos agem com astúcia e com violência, a fim de manterem os seus privilégios, e os pobres resistem e, em certas situações, respondem também com violência, em busca da sobrevivência com dignidade. Há uma diferença, na semântica política, apesar da semelhança entre os dois vocábulos, entre reagir e resistir.

Os poderosos reagem às reivindicações que fazem os pobres

Os ricos e poderosos reagem às reivindicações de justiça que fazem os pobres; os pobres resistem contra a opressão e, quando encontram líderes dispostos, atuam a fim de mudar as estruturas do poder e as leis que as sustentam. A isso se chama revolução, haja, ou não, o emprego das armas.

As verdadeiras revoluções não buscam esconder-se em seus propósitos, mas os movimentos reacionários, fundados na mentira, na mentira se identificam, ao se autodenominarem “revoluções”, como ocorreu no Brasil e em outros países latino-americanos na segunda metade do século passado. E quanto mais totalitários sejam esses movimentos, mais se dizem “inovadores”.

O que marcou este ano que passa foi a atrevida desfaçatez dos donos do mundo, os grandes banqueiros. Depois de desmascarado o seu assalto aos estados, aos fundos de pensão, aos acionistas e à economia dos trabalhadores, os grandes bancos, em lugar de sofrerem a intervenção radical do Estado, com sua encampação, como seria natural, converteram-se em interventores diretos nos estados europeus em crise, e em mentores indiretos em alguns dos principais países do planeta.

Por enquanto há a resistência dos países emergentes, liderados pelos Brics, a entregar seus estados aos banqueiros, mas é necessária a constante vigilância dos povos a fim de impedir que essa intromissão venha a universalizar-se. Quando os delegados dos grandes bancos — com o Goldman Sachs no comando — não conseguem a chefia direta dos governos (como ocorreu na Itália, com Mário Monti, e na Grécia, com Papademus), exigem e obtêm o controle das finanças (e do orçamento, entenda-se), a fim de garantirem a continuidade do saqueio, mediante o arrocho fiscal. Ao cortarem os gastos sociais como os da educação, da saúde e da segurança, obtêm-se os chamados superávits orçamentários a fim de pagar novos juros aos bancos especuladores.

Ainda agora, Mariano Rajoy, o novo primeiro-ministro espanhol, acaba de nomear para o Ministério da Economia Luis de Guindos — ex-diretor do Lehman Brothers para a Espanha e Portugal, até a “falência” do banco. O homem que foi cúmplice das falcatruas do Lehman Brothers (o banco quebrou, mas seus dirigentes ficaram ainda mais ricos) vai agora cuidar da economia e das finanças da Espanha.

O Estado cedeu diretamente o seu espaço nas sociedades italiana, grega e espanhola 

O neoliberalismo acaba de triunfar: o Estado não existe mais, e cedeu diretamente o seu espaço nas sociedades italiana, grega e espanhola ao mercado financeiro e, indiretamente, em toda a Europa, mediante o Banco Central Europeu, cujo presidente, Mario Draghi, é, como os interventores na Itália e na Grécia, funcionário do Goldman Sachs. Conforme todas as informações disponíveis, trata-se do mais espetacular assalto da História: os banqueiros  —  incompetentes ou larápios, conforme o juízo dos observadores  —  apossaram-se do governo nos estados emblemáticos, e, mediante isso, podem controlar a economia mundial.

A reação dos povos, com as manifestações populares, é ainda débil. Falta-lhes o necessário engajamento da intelligentsia mundial, que está sendo lento, porque, entre outras astúcias do capital financeiro, houve a cooptação de muitos homens de pensamento, como os professores das grandes universidades, jornalistas conhecidos e chefes religiosos, com o uso dos recursos costumeiros  —  e conhecidos.           

O livro e os documentos

Os editores de grandes jornais e revistas, e alguns diretores de outros meios de comunicação se esquecem da regra máxima dos deveres da imprensa — vista aqui como a expressão geral para definir as comunicações de massa — ao silenciar-se sobre o livro do jornalista Amaury Ribeiro Jr. O trabalho trata do processo de privatização e suas consequências. A regra se resume na máxima de Charles Prestwich Scott, proprietário e editor do Manchester Guardian por quase 60 anos. Em 1921, no centenário do jornal, ele a redigiu a fim de reafirmar os compromissos do veículo: “Comment is free; but facts are sacred”. Sim, a opinião deve ser livre, mas os fatos são sagrados. A máxima das antigas redações brasileiras é a de que não podemos brigar com os fatos. Eles devem ser divulgados.

Há um fato que não pode ser omitido: um livro foi editado, amparado em uma série de documentos. Uma das personalidades citadas, a filha do ex-governador José Serra, desmentiu o seu envolvimento, em nota divulgada. Há, portanto, duas versões. A explicação da senhora Verônica Serra também faz referência a um papel oficial.

Como as acusações são graves, caberia ao Ministério Público — enquanto não se constitui a CPI requerida pelo deputado Protógenes Queiroz — intervir, quando mais não seja para aferir a autenticidade dos documentos apresentados de um lado e do outro.

Se forem falsos, os fraudadores, quaisquer tenham sido, devem ser levados aos tribunais. Se forem autênticos, a sociedade brasileira tem o direito de exigir a prestação de contas à Justiça dos prejuízos causados à nação, durante o processo de desestatização de setores estratégicos da economia nacional, com a transferência a empresários privilegiados, nacionais e estrangeiros, dos bens do povo.

O colunista se sente à vontade: foi um dos primeiros a insurgir-se contra o desmantelamento do Estado e a entrega, de mão beijada, de um patrimônio construído pelos trabalhadores brasileiros ao longo de cinco séculos.

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