sábado, 31 de dezembro de 2011

O ano do grande naufrágio da Europa

Via CartaMaior

O que vem pela frente são tempos obscuros, de medidas malvadas que já se fazem sentir. Conquistas sociais asseguradas durante décadas estão ruindo feito castelos de pó. Tecnocratas de coração de gelo e alma vendida assumiram a gestão de países como a Grécia e a Itália. Portugal tomou de vez o caminho do brejal e a economia britânica vive sua terceira recessão em dois anos. Talvez o retrato mais nítido desse processo de desmoronamento vivido pela Europa esteja na Espanha.

Eric Nepomuceno, de Buenos Aires

Uma das grandes marcas do ano que termina veloz, voraz e sombrio, é a de uma Europa que naufraga aos sabores do apetite incansável do mercado financeiro. A prepotência imperial de uma Alemanha implacável somou-se aos ares napoleônicos de um francês insosso e furtivo para pôr ordem na casa, ao preço que for.

O que vem pela frente são tempos obscuros, de medidas malvadas que já se fazem sentir. Conquistas sociais asseguradas durante décadas estão ruindo feito castelos de pó. Tecnocratas de coração de gelo e alma vendida assumiram a gestão de países como a Grécia e a Itália. Portugal tomou de vez o caminho do brejal, e se a city de Londres, coração da especulação financeira do mundo, vai de vento em popa, a economia britânica vive sua terceira recessão em dois anos. Aliás, entre as fanfarras que celebraram, nesta reta final de 2011, o fato de o Brasil ter se tornado a sexta economia do mundo, superando a Grã Bretanha, restou lembrar que isso se deve mais a deméritos britânicos que a méritos nossos.

Talvez o retrato mais nítido desse processo de desmoronamento vivido pela Europa esteja na Espanha. Lá, um senhorito catolicão e galego assumiu o poder, depois de uma vitória eleitoral tão insólita quanto previsível, e estreou escancarando a porta de conquistas sociais que o país já não pode pagar, porque se pagar, não paga os bancos.

Não deixa de ser simbólico que no dia 20 de novembro – quando se registrava o 36º aniversário da morte de outro galego chamado Francisco Franco, o ditador mesquinho e perverso que sufocou o país em atraso e brutalidade ao longo de mais de três décadas – tenha sido eleito Mariano Rajoy. Uma figura esquiva, que concentrou o poder num círculo tão fechado que nem mesmo se sabe quem dentro dele faz o quê, e não mostra o que pensa ou o rumo que dará a um país que se desmilingüe.

De saída, Rajoy anunciou que irá reformar as legislações que asseguravam direitos à mulher e às minorias. A questão do aborto, que ele tratou de maneira melíflua durante a campanha eleitoral, agora foi escancarada: a chamada ‘Ley de Salud Sexual y Reproductiva’, aprovada durante a gestão do socialista José Luis Rodríguez Zapatero, será profundamente reformulada. Deixará, assim, de ser uma das mais avançadas da Europa, e voltará a ser o que era há décadas, num retrocesso espetacular.

Outra lei, que assegurava aos homossexuais o matrimônio civil (com todos os direitos de adoção de filhos, de pensão e aposentadoria, de divisão de patrimônio), e que também colocou a Espanha na vanguarda européia, irá pelos ares.

O pêndulo da história oscilou para a direita, e com força. Reformas conquistadas ao longo dos anos deixam espaço para os ditames do catolicismo mais recalcitrante. Pesquisas de opinião pública realizadas periodicamente, e que reiteram a aprovação da maioria dos espanhóis, e principalmente das espanholas, a essas conquistas foram ignoradas. Venceram as forças mais obscuras do conservadorismo.

Mariano Rajoy também começou urgentes negociações com as grandes centrais sindicais, para reformar a legislação trabalhista. Considerada uma das mais protetoras da Europa, será ‘flexibilizada’. Os trabalhadores conhecem bem essa palavra. Portanto, nenhuma surpresa: salários congelados, investimentos públicos cortados. Pela primeira vez desde que foi criado, em 1980, o salário mínimo não será reajustado pela inflação. Embora sejam poucos os trabalhadores espanhóis que recebam o salário mínimo (cerca de 135 mil), ele serve como referência para fixar os ajustes de todas as categorias. Daí a perda que afetará a todos.

A política que está sendo discutida entre centrais sindicais, patronais e o novo governo não deixa espaço para otimismo algum. O estímulo que vem do ministério do Trabalho está dirigido à criação de vagas temporárias, ou de tempo parcial, e também à transformação dos atuais contratos de trabalho com prazo fixo para outros, de prazo indefinido, que permitiriam a demissão sumária a qualquer momento.

O novo premiê espanhol deu a seus ministros um prazo restrito – exatos cinco dias – para dizer onde cortariam, em seus respectivos orçamentos, 16 bilhões e 500 milhões de euros. É o que o Estado deixará de gastar em 2012.

De qualquer ângulo que se observe a Espanha, é evidente que haverá um acúmulo de medidas drásticas que imporão, em seu conjunto, um pesado, pesadíssimo, sacrifício para a população. Já se anunciou que 2012 será um ano de recessão, e que não serão criados novos postos de trabalho. Ao contrário: o desemprego, que é o mais alto da Europa e já afeta a cinco milhões de espanhóis, deverá aumentar ainda mais.

Nada, porém, supera o significado da escolha do novo homem forte do governo. Para ocupar o ministério da Economia, Mariano Rajoy escolheu um conhecido funcionário do sistema financeiro internacional, Luis de Guindos. Ao ser convidado, ele ouviu de Rajoy uma síntese de qual será sua missão: determinar a política econômica, concretizar a reforma do sistema financeiro, enfrentar os mercados, reconquistar a confiança dos investidores.

Em seu currículo, se destaca uma seqüência de empregos vistosos no mercado financeiro – que, claro, o recebeu com sorrisos luminosos e braços escancarados.

Um desses empregos chama a atenção: Luis de Guindos foi o presidente regional, para Espanha e Portugal, do banco Lehman Brothers. Sim, aquele mesmo que faliu ruidosamente nos Estados Unidos e contribuiu de maneira determinante para toda essa crise que vem sacudindo o mundo desde 2008.

Quer dizer: de causar desastres, ele deve entender. E entender muito.

Pobre Espanha

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