segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Há mundo, depois da guerra no Afeganistão!

Sanguessugado do redecastorphoto

Em vez de alguma Pax Americana”...

MK Bhadrakumar, Indian Punchline

It’s time to look beyond Afghan war

Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Talvez soe estranho, mas a primeira vez que viajei até a Amu Darya (terra-de-ninguém) no norte do Afeganistão, viajei a pé. Há 18 anos, ainda não havia embaixada da Índia em Kabul (e o Paquistão, além do mais, não me autorizaria a caminhar pelo Desfiladeiro Khyber).

Meti-me naquela “trilha”, para visitar Rashid Dostum em seu famoso castelo em Shibirghan (província de Jowzjan) – via Tashkent até Termez, na fronteira uzbeque-afegã, entrando por ali no Afeganistão.

Para um diplomata indiano, foi situação absolutamente estranha, atravessar a pé a ponte Termez-Heiraton que cruza a terra-de-ninguém, e chegar ao Afeganistão dos Mujahideen, com os quais a Índia dizia ter laços “civilizacionais”.

A ponte, de montantes de aço, foi construída pelos soviéticos e era então, de fato, uma ponte ferroviária que acabava no “porto” afegão de Heiraton. Termez, claro, era imensa base militar, então a maior base soviética na Ásia Central, e coordenava o fluxo de suprimentos para as tropas soviéticas no Afeganistão. O próprio general Boris Gromov também atravessou a pé aquela ponte, numa ventosa manhã de inverno, à frente, pessoalmente, do último destacamento soviético que deixou o Afeganistão em 1989. Tecnicamente falando, portanto, o Afeganistão não é exatamente debutante, no fascinante mundo das ferrovias.

Mesmo assim, a abertura, hoje, da ferrovia que liga Heiraton a Mazar-i-Sharif é sempre mostrada com certa dose de mal disfarçada emoção.

O sistema ferroviário promete abrir um novo mundo ao mundo afegão. Quanto a isso, é o mesmo em toda parte, incluída a Índia Britânica. Da chegada do sistema ferroviário fazem-se as lendas. (...)

Imaginem um afegão de Bamyan que pela primeira vez embarca num trem, com suas esposas e muitos filhos e filhas pequenos: o mesmo êxtase sem palavras, boquiaberto, de quando ele, pela primeira vez, vê o mar e as ondas lambendo as praias. Pois a geopolítica do sistema ferroviário afegão também será assim, emocionante, quase indescritível. Para muitos observadores, a nova linha em Mazar-i-Sharif é mais um dente na engrenagem da guerra do Afeganistão, que facilitará o transporte, mais rápido e mais barato, de suprimentos para as tropas da OTAN, via Termez.

Mas por trás de tudo isso descortina-se um panorama que mudará fenomenalmente a face do Afeganistão.

Falo sobre os planos em desenvolvimento, para a implantação de uma ampla malha ferroviária regional, na qual o Afeganistão pode vir a operar como principal centro de irradiação.

Rotas da seda

Importante, quanto a isso, é que esse é o sistema ferroviário que a China planeja para todo o Afeganistão, destinado a alterar todo o tabuleiro regional incluído na Rota da Seda (a tradicional chinesa, não a “nova”, com a qual sonham os EUA). A linha que os chineses projetaram, já em construção em vários segmentos, parte de Xinjiang e entra no Afeganistão pelo Quirguistão e Tadjiquistão. Dali podem partir dois grandes ramais, levando, um ao Irã, o outro ao Paquistão. 

Para a China, a estrada de ferro abre passagem estratégica, que a leva ao Golfo Pérsico e ao Sul da Ásia, contornando o Estreito de Malacca. Se o Paquistão jogar suas cartas com sabedoria – e já me parece bem claro que, afinal, o Paquistão começou a entender a quintessência do grande jogo e está sabendo encadear suas jogadas – o país terá papel chave a desempenhar nos ambiciosíssimos planos chineses de expandir a Rota da Seda na direção dos portos de Karachi e Gwadar. Sim. Os presidentes do Quirguistão e do Tadjiquistão, que se reuniram no início dessa semana em Moscou, trocaram notas sobre providências para acelerar a construção da linha ferroviária que ligará China e Afeganistão.

O quadro que está emergindo naquela região já olha para muito além da guerra do Afeganistão. O que acontecerá nessa região?

Em vez de Pax Americana, tudo leva a crer que se constrói por aqui, cada vez mais claramente, um acordo regional entre Rússia, China, Paquistão e Irã, como base que garantirá estabilidade e segurança para o Afeganistão.

Será preciso ainda um “salto de fé”, um movimento de “conversão espiritual”, para que os especialistas indianos entendam e assimilem essa nova realidade geopolítica, que se vai construindo lentamente, mas inexoravelmente.

[No Brasil, precisamos muito mais, até, que alguma “conversão espiritual”; os especialistas brasileiros – pelo menos, com certeza, todos os que falam e escrevem nos jornais do Grupo GAFE (Globo/Abril/FSP/Estadão) – ainda não atravessaram, sequer, el Rio Grande, e, na cabeça deles, a única ponte que existe no planeta é a que une as cidades cenográficas da Rede Globo e da Bolsa de Valores de NY, passando pelas agências norte-americanas de “notícias” & propaganda (NTs)].

Assim sendo, países vizinhos da Índia, como Sri Lanka ou Bangladesh estão-se reposicionando para “para outro jogo de futebol”. O Sri Lanka já se aproxima, mesmo, de converter-se em mais um país de renda média, na Ásia. 

 

*MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comentários são como afagos no ego de qualquer blogueiro e funcionam como incentivo e, às vezes, como reconhecimento. São, portanto muito bem vindos, desde que resvestidos de civilidade e desnudos de ofensas pessoais.
As críticas, mais do que os afagos, são benvindas.