quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

DEUS NO DIVÃ

Via Marconi Leal

Marconi Leal.

— Bom dia. Então. Por que o Senhor veio até mim?

— Eu nao vim, eu estou. Estou aqui, estou na sala de espera, estou dormindo com a Luana Piovani, vendendo sacolé na praia, vendo a aurora boreal e participando do American Idol. Aliás, por conta da idade, sempre me confundem com o Steven Tyler. Um absurdo. Sou dois anos mais novo.

— Certo. Mas qual é sua queixa?

— Eu sofro de Onipresença, doutor.

— E isso acontece há muito tempo?

— Desde que eu não nasci. Sabe, eu acho que a origem de tudo é esse meu judaísmo sem mãe. A base de todo o judaísmo — e da psicanálise, se me permite — é uma mãe a ser xingada. E eu sou como político. Não tenho mãe.

— Isso o faz se sentir…

Onimpotente.

— Entendo. Muito estresse no trabalho ultimamente?

— O de sempre. Manda um tsunami aqui, faz um vulcão entrar em erupção ali, cria um terremoto, inspira uma música do Luan Santana, essas coisas. Tô no ramo de catástrofes naturais, sabe? Fui eu que inventei o botox, modéstia à parte.

— Uhm. O Senhor se sente realizado profissionalmente?

— Ná. Caí na rotina, anda tudo muito burocrático, repetitivo. No princípio, eu tinha planos, sonhos, o senhor sabe como a gente é na juventude. Quando se tem apenas 300 bilhões de anos tudo parece possível. Eu me sentia imortal.

— E o que aconteceu?

— Elaborei um projeto ambicioso. Queria criar uma espécie inteligente, criativa, alguém com quem conversar, andar sobre as águas, multiplicar pães, tomar um chope, enfim. Mas infelizmente o jumento não deu certo. Acabei tendo de me contentar com o ser humano.

— Fale de sua família.

— Bom, somos só eu, meu Filho e o Espírito Santo. O Espírito Santo é como se não existisse. O senhor já ouviu falar do Espírito Santo no noticiário? Até o Acre aparece mais do que ele. E Jesus entrou numas de jogar poker pela internet. Os fiéis implorando ajuda e ele ali, de headphone no ouvido.

— Alguma coisa mais que o Senhor queira acrescentar?

— Cá entre nós, ando pensando em acrescentar uma boquinha nos joelhos dos homens. Já pensou num coro de joelhos cantando “We Wish You a Merry Christmas” no Natal? Ha, ha. Ia ser hilário.

— Olha, me parece que o Senhor está enfrentado um caso clássico de perda de identidade. Tente encarar a Onipresença de maneira positiva. Por exemplo, vendedor de sombrinha chinesa em dia de chuva. Índio andino tocador de flauta. São onipresentes e estão numa boa.

— O senhor não entende, doutor, eu também sou… eu… eu sou Onisciente, doutor. Eu sei de tudo. Do dia do Apocalipse. Do destino do homem após a morte. Do segredo do molho especial do McDonald’s. Tudo, tudo.

— Nesse caso, não preciso dizer que sua hora acabou, nem que são quinhentos reais a consulta. Em dinheiro, por favor, porque cheque eu só aceito com identidade. Ha, ha. Agora diga: isso, sim, foi hilário.

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