sábado, 31 de dezembro de 2011

2011: o ano das bicadas no PSDB

Sanguessugado do Miro

Altamiro Borges

Duas entrevistas recentes confirmam que 2011 foi um péssimo ano para o PSDB, o partido dos neoliberais tupiniquins. Apesar dos 43,7 milhões de votos obtidos por José Serra na eleição presidencial e da conquista de seis governos estaduais, a sigla atravessa uma grave crise interna, talvez a maior da sua história. As bicadas tucanas são cada vez mais sangrentas e o partido está à deriva!

FHC confessa a perda de rumo

Nesta semana, o governador do Paraná, Beto Richa, escancarou os problemas: “O melhor é o PSDB parar com essa bobagem de briga, de grupos disputando... O partido encolheu na última eleição. Se não tiverem juízo, a coisa tende a se agravar. Ou existe uma união, um desprendimento de todas as partes pensando no fortalecimento do partido, ou a situação tende a piorar”.

Dias antes, no início de dezembro, o chefão dos tucanos, o ex-presidente FHC, foi ainda mais sorumbático numa sabatina do UOL e da Folha: “Passou a ser um pouco repetitivo dizer que o PSDB não tem saída, que perdeu o rumo, e é verdade até certo ponto”. Para ele, o partido, que já sonhou deter a hegemonia no país por várias décadas, está sem programa, sem identidade própria.

Expressão do neoliberalismo

O PSDB surgiu no Brasil como expressão da avalanche mundial do neoliberalismo, do chamado “Consenso de Washington”, nos anos 1990. FHC foi eleito e reeleito no primeiro turno e aplicou o programa de desmonte do estado, da nação e do trabalho. Mas, aos poucos, as ilusões neoliberais foram se dissipando com o aumento do desemprego, a quebradeira da produção, a privataria.

A vitória de Lula em 2002 marcou o início da reversão da hegemonia neoliberal, com todas suas limitações. No ano passado, com a terceira derrota consecutiva num pleito presidencial, a crise dos tucanos se agravou. Fora do núcleo de poder, o oportunismo e o fisiologismo ficaram mais patentes. Um rápido apanhado evidencia as enormes dificuldades do PSDB no ano que termina.

Brigas internas e “arenização”

Logo no início do ano, uma das jovens promessas de uma legenda cada vez mais envelhecida, Gabriel Chalita, abandonou o ninho. Criticou a linha oposicionista dos tucanos e a total ausência de democracia interna. Culpou o presidenciável José Serra pela saída. “Senti que não havia mais espaço no PSDB para continuar o trabalho que eu estava desenvolvendo. Me senti perseguido por ele”.

Pouco depois, em março, a sigla sofreu forte baque no seu principal reduto, em São Paulo. Seis vereadores da capital deixaram o partido, criticando o maior rival de Serra, o governador Geraldo Alckmin, que perseguiria os antigos serristas. Num documento bastante duro, eles condenaram a “arenização do PSDB” e a guerra fratricida no interior da legenda:

A fuga para o PSD de Kassab

“Mais do que destruir a sua concepção original, o partido agora adota caminhos que antes abominava e considerava nocivos ao país. Perde a credibilidade como defensor da democracia – já que nem sequer consegue praticá-la dentro de casa – e do debate político, visto que sugere resolver divergências de seus parlamentares ‘a peixeiradas’”.

A fundação do PSD do prefeito Gilberto Kassab, um fiel aliado de Serra, foi a válvula de escape para vários tucanos descontentes. Sete deputados federais trocaram de ninho. A crise interna se exacerbou, sendo verbalizada inclusive por intelectuais orgânicos do PSDB e por vários articulistas da mídia, ex-entusiastas da “massa cheirosa tucana”.

Intelectuais se afastam e criticam

Em maio, Luiz Carlos Bresser-Pereira, um dos fundadores da sigla e intelectual de renome, deu adeus ao PSDB. Num texto incisivo, ele alegou que a sigla abandonou o seu projeto original, social-democrata, rumo à direita. “Nesses últimos dez anos, eu mudei, e o partido que ajudei a criar, o PSDB, também mudou. A mudança foi tão grande que chegou a hora de dizer adeus a esse partido”.

Na mesma época, outro intelectual influente nas hostes tucanas, Leôncio Martins Rodrigues, afirmou à Folha que “o PSDB corre o risco de virar uma legenda maldita”. Desgostoso, ele reclamou das intermináveis disputas internas. “Nunca houve uma crise assim tão forte... O PSDB está sem uma mensagem e não tem liderança. Ou melhor, tem liderança demais”.

Mídia lamenta “demolição do PSDB”

Prova maior da decepção entre a intelectualidade foi dada na semana passada por Marco Antônio Villa, o tucaninho travestido de historiador. Num texto jururu no Estadão, intitulado “Um ano para se esquecido”, ele decretou: “O partido inexiste como partido, no sentido moderno. O PSDB é um agrupamento, quase um ajuntamento. Não se sabe o que pensa sobre absolutamente nada”.

A crise é tão violenta que chegou até a mídia declaradamente tucana. Ela lamenta o desastre e faz apelos à unidade da direita. O Estadão, que declarou apoio aberto a Serra, chegou a publicar editorial criticando “a demolição do PSDB”, responsabilizando o governador Geraldo Alckmin pela destruição do “enfermiço partido no seu berço e reduto mais consolidado” – São Paulo.

Os “zumbis da oposição”

“As fraturas no PSDB paulista ocorrem na pior hora e no pior lugar. Elas são um entrave para o soerguimento do partido, em sua dimensão nacional... Os erros de Alckmin não só o enfraquecem no plano regional, como sufocam as aspirações tucanas na esfera nacional. Assim os brasileiros não terão uma alternativa viável ao projeto de poder do PT”, lamenta a oligárquica famiglia Civita.

Outros jornais também dedicaram editoriais e artigos para chorar a decadência tucana. Um dos mais curiosos foi o texto sobre os “zumbis da oposição”, de Fernando de Barros e Silva. “É notável a vocação dos tucanos para destruir o próprio legado (a começar do que fizeram com FHC). Transmitem sucessivamente a idéia de que não há nada mais importante que suas brigas internas”.

Quem sobrará no ninho neoliberal?

“De maneira ainda mais determinada do que Serra havia feito com o seu grupo, Alckmin está dando aval ao estrangulamento do serrismo no partido. O ressentimento da turma de Pinda está em marcha... Emparedado por Aécio Neves no país e agora por Alckmin em São Paulo, Serra, de certa forma, já é um zumbi no PSDB”, lamentou o colunista anti-lulista da Folha.

E todo este tiroteio ocorreu antes da publicação, em 9 de dezembro, do livro “A privataria tucana”, do jornalista Amaury Ribeiro. A obra desmascara as privatizações e falcatruas do partido e instiga ainda mais as divergências internas. Será que alguém sobreviverá às sangrentas bicadas tucanas? A conferir!

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