sábado, 23 de abril de 2011

Que a Líbia seja a Líbia

Sanguessugado do redecastorphoto

 Gamal Nkrumah, Al-Ahram Weekly, Cairo

Let Libya be Libya

Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

“A cada dia, e pelos dois lados de minha inteligência, fui-me aproximando de uma verdade cuja descoberta arrastava-me para o mais terrível naufrágio: o homem não é um, mas dois”. Robert Louis Stevenson, O Estranho Caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde

Opositores de Gaddafi são vistos numa nuvem de pesada tempestade de areia na entrada leste de Ajdabiya, que os empurra de volta às posições iniciais e corta-lhes as esperanças de avançar rumo ao leste e tentar pôr fim à guerra na Líbia.

Substitua-se “homem” por “Líbia” na citação acima e pode-se começar a entender como a Líbia não é uma, mas duas. A história contemporânea da Líbia gira em torno de desafios e respostas – e respostas invariavelmente revolucionárias. E o país está sendo arrastado “para o mais terrível naufrágio”.

Mas, por mais que pareça surda, a Líbia vibra, carregada de potência criativa. Ativistas pró-democracia pegaram em armas contra o regime de Muammar Gaddafi. Ativistas pró-Gaddafi pegaram em armas, em defesa da Líbia, como a entendem. E o Irmão Gaddafi, por hora, só se preocupa com manter longe da Líbia a besta OTAN-EUA.

Encontrar solução que satisfaça tanto os opositores quanto os defensores do regime de Gaddafi não é tarefa fácil. Assim como os opositores parecem obcecados com um único objetivo (“Cortem a cabeça de Gaddafi!”), Gaddafi, embora talvez com menos empenho ingênuo, não quer ver o Leviatã apoiado pelo ocidente converter a Líbia em completa monstruosidade. Gaddafi está decidido a varrer do léxico líbio o monstro OTAN-EUA.

O Conselho Nacional de Transição [ing. National Transitional Council (NTC)] em Benghazi está à mercê da OTAN-EUA. Impedir que a ajuda ocidental chegue até lá é instrumento tão seguro quanto difícil de implantar, que deterá qualquer avanço dos opositores e, no longo prazo, decidirá a batalha a favor de Gaddafi.

Em nenhum outro momento, alguma vitória parecerá mais amarga aos vitoriosos, se os opositores de Gaddafi conseguirem derrotá-lo. A política líbia entrou em fase nova, de alta instabilidade. É hora de Gadaffi, de longe o político mais talentoso que a Líbia conheceu, parar e pensar; e mostrar o seu melhor talento para a acomodação política – que é o que Gaddafi mais sabe fazer. Oficialmente, é como se Gaddafi não interferisse na política, como se fosse líder acima das diferenças políticas. Na prática, é claro, Gaddafi governa o oeste do país exatamente como deseja, embora esteja na difícil posição do encantador de serpentes que tem de encantar a serpente pelo rabo.

Gaddafi, como Moisés, rapidamente cercou seu próprio pessoal e essa metamorfose de cobra paralisou os lacaios do ocidente, que se enrolam como vermes. Reclamação perene dos desorganizados ‘rebeldes’ é que o ocidente não lhes dá proteção suficiente.

A questão que ninguém explica é a seguinte: por que a saída de Gaddafi parece ser conditio sine qua non para que o oriente implante seus planos para o futuro da Líbia?

Gaddafi é mais socialmente liberal que o líder dos seus opositores e isso, provavelmente, explica por que o ocidente tanto reluta em apoiar completamente o Conselho Nacional de Transição, com seus vários grupos islâmicos (entre os quais, até a al-Qaeda). Mas Gaddafi está por demais empenhado na luta contra os imperialistas; é homem muito intelectualmente ativo e não se deixa derrotar antecipadamente por propaganda, pela mídia ou por pessimismo. Do modo como Gaddafi vê as coisas, a específica situação atual das lutas históricas no Oriente Médio exige que ele permaneça na liderança da Líbia.

Em ditaduras como a ditadura líbia, quando uma crise da magnitude da atual abate-se sobre o país, sempre se pode dizer que a tarefa de superar a crise é tarefa do ditador em questão. Se conseguir, sobrevive no poder. Gaddafi sabe que suas forças ainda podem voltar a unir-se e sobreviver. Se não for assim, será o colapso da Líbia.

As especificidades do quadro político na Líbia, dentro do mundo árabe, são visíveis a qualquer observador, mesmo que não seja especialista. A Líbia de Gaddafi é o único estado árabe e africano que não tem banco central semelhante aos bancos centrais ocidentais e coligado ao sistema internacional de bancos centrais. Não surpreende, portanto, que um dos primeiros atos do Conselho Nacional de Transição tenha sido criar um banco central que já nasceu coligado ao sistema bancário ocidental.

Por que o ocidente interveio militarmente na Líbia, e não no Bahrain, Síria ou Iêmen? Em vez de recorrer às velhas estratégias imperialistas de eleger vencedores nas neocolônias, as potências ocidentais, dessa vez, estão obrigadas a encorajar vencedores “locais” no mundo em desenvolvimento, para que se imponham, digamos, “espontaneamente”.

Mas para os líbios, o Islã ainda é fator de grande peso emocional. E o islã líbio é mistura altamente complexa, onde há simpatias que se aproximam da Al-Qaeda e grupos de militantes salafistas. Mas há, na mesma mistura, inúmeras tradições islâmicas positivas, como as veneráveis tradições sufistas do Norte da África, muito especialmente prevalecentes na Líbia. É significativo que as ordens sufistas tenham-se aliado a Gaddafi; enquanto os salafistas, convenientemente esquecidos dos mandamentos do Islã que proíbem a usura, embarcaram rapidamente no bonde do Conselho Nacional de Transição. É possível que os dias mais difíceis para a Líbia ainda estejam por vir.

Os líbios agora têm de escolher entre a feroz independência de que é exemplo o herói nacional líbio Omar Al-Mukhtar, e a incorporação na ordem global ocidental, como neocolônia mediterrânea fornecedora de petróleo aos senhores sedentos de energia escassa.

Se um autor de romances de suspense estivesse criando o personagem de um beduíno sobrevivente, que alcança riqueza de Creso imediatamente depois de comandar revolução popular vitoriosa, certamente encontraria bom modelo no líbio Muammar Al-Gaddafi. Até a Operação Alvorada, o controverso mercador de petróleo – e Gaddafi é isso, apesar do ímpeto revolucionário – pouco fizera para alterar essa imagem. E Gaddafi gosta de lembrar seus visitantes de que é filho de modesta família de beduínos nômades.

Disputar a independência com os senhores do mundo é jogo mortal, como Gaddafi está aprendendo pela via mais difícil. Há 50 anos, Gaddafi inspirou-se na Revolução Egípcia de 23 de julho de 1952 comandada pelo presidente Gamal Abdel-Nasser. Ascendeu muito rapidamente ao poder. Depois, jovem oficial do exército, Gaddafi promoveu sua própria Revolução Fateh, nacional. Nada jamais o fez supor que seria fácil o trânsito para a plataforma pública nacional (e, agora, internacional). De início, não negociou com os críticos, mas mais tarde, prevaricou. Gaddafi é um dos maiores enigmas da história contemporânea.

É homem rude, que não faz concessões e é espírito combativo. Mas não se recomenda que, nas atuais circunstâncias, ceda corda demais aos inimigos, que, se puderem, o enforcarão. Hoje, trabalha para fazer da Líbia um monstro gigantesco, capaz de abalar o ocidente. Construiu um império multibilionário, no deserto. Saberá agora sobreviver à instabilidade da areia?

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