quarta-feira, 27 de abril de 2011

Os interesses e os partidos

Sanguessugado do Conversa Afiada

Mauro Santayana

Dizia Tancredo que Fernando Lyra tem narinas de cheirar os ventos da política. O pernambucano foi cáustico, mas não lhe faltaram argúcia e coragem, para dizer que não há partidos políticos no Brasil. Poupou, devido a razões aceitáveis, o PSB, hoje liderado, entre outras personalidades, pelo governador de seu estado. É também certo que o PSB teve origem ideológica, tendo nascido da famosa Esquerda Democrática da UDN, que surgiu em Minas, com o Manifesto dos Mineiros. Fundado por João Mangabeira, que não pensava exatamente como seu irmão, o partido era liderado por homens de convicção, como os intelectuais Domingos Velasco e Hermes Lima.  Mesmo com essa origem, o PSB sofreu sucessivas crises de identidade, servindo de garupa para notórios oportunistas, como é o caso exemplar do locutor de rádio Garotinho e de sua mulher.

No processo de transição constitucional de 1945-46, contrapôs-se à UDN o PSD (Partido Social Democrático) também fundado em Minas, por iniciativa de Benedito Valadares. O terceiro partido, em ordem de grandeza, o PTB, já nasceu nacional, por ter sido criado por Getúlio Vargas. Por isso mesmo, no Brasil, foram os líderes que fizeram e desfizeram os partidos – e sempre de acordo com as circunstâncias regionais.

O PSDB nasceu de uma ruptura do PMDB, nos dois estados em que o partido de oposição à ditadura era mais forte, em São Paulo e em Minas. Alguns dirigentes, sem apetite para a luta interna, insurgiram-se contra o governador Orestes Quércia, em São Paulo, e Newton Cardoso, em Minas. Não tiveram  paciência, essa indispensável virtude política – e sob o pretexto da ética, promoveram a cisão. Enquanto os dissidentes se limitaram ao comando de Minas e de São Paulo, as coisas caminharam. Mas, quando o mineiro Itamar Franco levou Fernando Henrique à presidência da República, os tucanos paulistas se sentiram em condições de transformar sua hegemonia econômica sobre o Brasil em ditadura política sobre o partido nos estados, e, em conseqüência, por intermédio do governo federal. No fundo se trata de uma velha disputa entre as elites de São Paulo,  de visão favorável à internacionalização da economia, e os outros brasileiros, de sentimentos nacionalistas, que são mais nítidos em Minas, como se revelou na ruptura de Itamar com Fernando Henrique, na defesa da Cemig e de Furnas. Essa situação se torna mais complicada hoje, quando a presidência da República está ocupada pela mineira Dilma Roussef. Assim como ninguém nasce impunemente em São Paulo, ninguém nasce sem Weltanschauung nacionalista em Minas. Quinta-feira, em Ouro Preto, não só ao evocar Tiradentes, mas ao solidarizar-se com o povo de Ouro Preto que, pela palavra do prefeito Ângelo Oswaldo, denunciou o saqueio de Minas pelas empresas mineradoras, ela reafirmou o seu DNA político montanhês. E não era para menos: na paisagem da região, aos buracos das lavras de ouro se acrescentam as paisagens amputadas e áridas, pela desmedida ânsia de lucro, fácil e rápido, das mineradoras de hoje.

Na base do raciocínio político, há apenas dois partidos: os conservadores e os progressistas. Na confusão semântica de nosso tempo, os conservadores se identificam como liberais, e os liberais políticos do passado se encontram hoje na esquerda.

Como bem apontou Lyra, o PT tampouco chega a ser um partido. Sendo uma federação de tendências, não foi capaz de impor um candidato seu à sucessão de Lula que, para não fragmentar a agremiação, foi buscar Dilma, um quadro recente, vinda do PDT de Brizola, para vencer o pleito presidencial.

A crise do PSDB de São Paulo é o início de nova reconfiguração do quadro político, com o surgimento de novas legendas, sempre chochas de idéias, mas, como de costume,  infladas de interesses.

E é com esse leviano simulacro de organizações partidárias que querem instituir o sistema de listas fechadas.

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