sexta-feira, 29 de abril de 2011

O destino do ocidente

Via JB

Mauro Santayana

HÁ MAIS DE CEM ANOS alguns observadores vêm anunciando o declínio do Ocidente, essa idéia funda­da na razão grega, que inves­tigava os fenômenos físicos e as inquietações da alma, sob o exercício da liberdade. Mas a liberdade estava limitada pelas restrições sociais e econômicas. Ao admitir o insti­tuto da escravidão, e discri­minar as mulheres, os gregos a reduziam. E certo que mui­tos dos atenienses combatiam as ações práticas que embaçavam o ideal do huma­nismo. Isso não impediu que crimes brutais fossem come­tidos, durante a Guerra do Peloponeso. A repressão aos habitantes de Melo, bem do­cumentada por Tucidides, mostra que o Ocidente tra­zia, desde a origem, os sinais de suas contradições. Os ar­gumentos dos enviados de Atenas à pequena ilha, a fim de subjugá-la pelo engodo, e, em seguida, pela ameaça, an­tes das armas, servem de mo­delo histórico ao comporta­mento das nações mais pode­rosas da História.

Os mesmos atenienses que mataram todos os homens de Melo, e escravizaram suas mulheres e suas crianças, se­riam derrotados, primeiro pelos macedônios e, em se­guida pelos romanos. O ar­quipélago perdeu sua auto­nomia política e se transfor­mou em colónia, que trocou sucessivamente de mãos, até se submeter a um monarca estrangeiro, já no século 19. A orgulhosa república, que trouxera à História o concei­to de democracia, só se reen­contraria no século 20, com a 2a. Guerra Mundial.

Os valores do Ocidente, vin­dos da Grécia Antiga, que ocuparam, mal ou bem,toda a Europa, e encontraram seu momento mais alto nas revo­luções intelectuais e políti­cas dos séculos 17 e 18, foram violados pela ocupação colo­nial. Em 1884, na Conferên­cia de Berlim, com a demarcação da África em áreas de domínio, o saqueio se reafir­mou como direito internacio­nal dos brancos. Os mesmos argumentos - o de que algu­mas nações não conseguem governar-se por si mesmas, e violam os "direitos huma­nos", tal como os concebem os mais bem armados - retor­nam, de vezem quando. Como ocorre agora, para justificar a guerra, que já se iniciou, con­tra os países árabes. Depois do Iraque, do Afeganistão, da Lí­bia, que estão sendo arrasados, prepara-se a invasão da Síria. E Israel repete o discurso dos atenienses a Melo, ao rea­gir contra o entendimento en­tre as duas organizações da re­sistência palestina.

O medo assusta o governo submisso do Marrocos, que ocupa o território dos saarauis e atribui, em segunda versão, a explosão de cilin­dros de gás em Marrakech a uma ação "terrorista". É mais fácil entender a tragé­dia de ontem como negligên­cia dos proprietários, que não foram capazes de arma­zenar os cilindros de gás lon­ge da chama dos fogões.

As revelações do Wikileaks sobre Guantánamo exibem as chagas repulsivas desse perempto Ocidente

E não faltam advertências, dos pró­prios norte-americanos, de que sua orgulhosa civilização está sendo estiolada pelo egoísmo e pela ganância. Por mais que pretendam dissimular, o medo, esse sócio do desatino, domina os governan­tes do norte. A revogação, na prática, do Tratado de Schen­gen, condena a Europa a des­mantelar sua unidade conti­nental. A Europa teme ser ocupada pelos "bárbaros", da mesma forma que ocorreu com o espaço romano.

Os governos europeus, sob a influenciados Estados Uni­dos, da França e da Inglater­ra, renunciaram aos poucos princípios que restavam do humanismo do Ocidente. Ho­je, quem conduz a história não são os intelectuais gre­gos que, com sua espantosa descoberta da lógica, enten­deram que a sobrevivência do homem estava na busca do bem comum. São os banquei­ros - em todo o mundo. Isso pode apressar o cumprimen­to da conhecida tese de Toynbee sobre a aliança entre o proletariado interno e o pro­letariado externo, em inevi­tável processo revolucioná­rio contra os opressores.

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