sábado, 30 de abril de 2011

Não há negócio como a guerra

Via Correio Internacional

Pepe Escobar

Não há negócio como a guerra

Mentiras, hipocrisia e agendas às escondidas. Isso é o que o presidente dos Estados Unidos não fez bem ao explicar para os EUA e o mundo sua doutrina para a Líbia. A surpresa é grande ao se ver tantos buracos negros envolvendo essa esplêndida pequena guerra que não é uma guerra (uma “ação militar de duração e escopo limitados”, como é para a Casa Branca) – unida à inabilidade do pensamento progressivo de condenar ao mesmo tempo a crueldade do regime de Muammar Gaddafi e os bombardeios “humanitários” anglo-franco-estadunidenses.

A resolução 1973 Conselho de Segurança das Nações Unidas serviu como um cavalo de Troia, permitindo que o consórcio anglo-franco-estadunidense – e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) – se tornasse a força aérea da ONU em apoio de um protesto armado. À parte de não ter nada a ver com a proteção de civis, esse acordo é absolutamente ilegal em termos de direito internacional. O objetivo embutido, como até as crianças africanas mal-nutridas sabem agora, mas que nunca foi ostentado, é a mudança do regime.

O tenente-general Charles Bouchard, do Canadá, comandante da OTAN para a Líbia, pode insistir que tudo o que quer é que a missão seja puramente designada para proteger civis. No entanto, os “civis inocentes” operando tanques e disparando Kalashnikovs como parte de um grupo selvagem e heterogêneo são soldados de verdade em uma guerra civil – e, o foco deveria ser sobre se a OTAN a partir de agora continuará sua força aérea, seguindo os passos do consórcio anglo-franco-americana. Aliás, a “coalizão dos wiling” combatendo a Líbia é composta por apenas 12 membros da OTAN (de 28) mais o Catar. Isto não tem absolutamente nada a ver com uma “comunidade internacional”.

[…]

Por um momento, é bastante fácil identificar os ganhadores.

O Pentágono

O chefe do Pentágono, Robert Gates, disse, com uma cara séria, que só existem três regimes repressivos em todo o Oriente Médio: Irã, Síria e Líbia. O Pentágono está tirando o elo mais fraco – a Líbia.

[…]

Quanto a essa guerra “agora você vê, agora você não vê”, o Pentágono está conseguindo combatê-la não uma, mas duas vezes. Tudo começou com o Africom [Comando Estadunidense para a África] – instituído pelo governo de George W Bush, reforçado com Obama e rejeitado por dezenas de governos africanos, acadêmicos e organizações de direitos humanos. Agora a guerra está em transição para a OTAN, que é essencialmente o controle do Pentágono sobre seus subordinados europeus.

Essa é a primeira guerra africana do Africom [...]. O Africom, como Horace Campbell, professor de estudos africanos americanos e da ciência política na Universidade de Syracuse, coloca, é uma farsa, “fundamentalmente uma frente para contratantes militares dos EUA como Dyncorp, MPRI e KBR operar na África.”

[...]

OTAN

O plano mestre da OTAN é governar o Mediterrâneo como um lago próprio. Nessas “ópticas” [...] o Mediterrâneo é infinitamente mais importante hoje em dia como um teatro de guerra do que Afeganistão e Paquistão.

Apenas três das 20 nações no Mediterrâneo não são membros de pleno direito da OTAN ou aliados a seus programas “parcerios”: Líbia, Líbano e Síria. Não se enganem, a Síria é o próximo. Líbano já está sob um bloqueio da OTAN desde 2006. Agora, o bloqueio se aplica também à Líbia. […]

Arábia Saudita

Que negócio. Rei Abdullah se livrar de seu eterno inimigo Gaddafi. [...] A atenção da opinião pública mundial é desviada dos sauditas invadindo o Bahrein para esmagar um movimento legítimo, pacífico, de protesto pró-democracia.

[…]

Os ‘rebeldes’

Não obstante todas as aspirações democráticas válidas do movimento juvenil da Líbia, o grupo de oposição mais organizado coincidentemente é a Frente Nacional de Salvação da Líbia – financiado há anos pela Casa de Saud, a CIA e o serviço secreto francês. O “Conselho Nacional de Transição provisório” rebelde é pouco mais do que a boa e velha Frente Nacional, além de alguns desertores militares. Essa é a elite dos “civis inocentes” que a “coalizão” está “protegendo”.

[…]

Os franceses

[…]

Sarkozy tem estado muito entusiasmado ao posar como o novo libertador árabe, [porque] foi o primeiro líder de uma potência europeia a reconhecer os “rebeldes” (para o desgosto de muitos na União Europeia) e foi o primeiro a bombardear forças de Gaddafi .

[…]

O exterminador Sarkozy é irrefreável. Ele advertiu cada governante árabe que eles enfrentarão bombardeio semelhante ao da Líbia se reprimirem seus manifestantes. Ele ainda disse que a Costa do Marfim era “próxima”. Bahrein e Iêmen, é claro, estão isentos.

[...]

Al-Qaeda

[…] O consórcio anglo-franco-estadunidense – e agora a OTAN – está (novamente) lutando ao lado da al-Qaeda, representada pela Al-Qaeda no Magreb (AQM).

[…]

No início de março, a AQM apoiou publicamente os “rebeldes”. O fantasma de Osama bin Laden deve estar puxando um gato Cheshire; novamente ele consegue que o Pentágono trabalhe para ele.

Os privatizadores de água

Poucos no Ocidente devem saber que a Líbia – juntamente com o Egito – está sobre o Aqüífero Arenito Núbia, isto é, um oceano de água doce extremamente valiosa. Então, essa guerra “agora você vê, agora você não vê” é uma guerra de água crucial. O controle do aqüífero é sem preço – como “resgatar” valiosos recursos naturais dos “selvagens”.

[...] A quantidade de água é estimada pelos cientistas em algo equivalente a 200 anos de água percorrendo o Nilo.

[...] Todos os olhos devem imperativamente se focar nos dutos e se eles são bombardeados. Um cenário muito possível é que, se eles forem bombardeados, ótimos contratos de “reconstrução” beneficiarão a França. Esse será o último passo para privatizar toda essa água – no momento livre. […]

Bem, isso é apenas uma pequena lista de especuladores – ninguém sabe quem vai ficar com o petróleo – e o gás natural – no final. Enquanto isso, o show (de bombardeios) deve continuar. Não há nenhum negócio como o negócio da guerra.

Tradução de Alexandre Piffero Spohr

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