quinta-feira, 28 de abril de 2011

Clive Stafford: ‘A verdade de Guantánamo é cem vezes pior’

Via Adital

Ana Carbajosa

O diretor da organização britânica que assumiu a defesa legal de dezenas de detidos na Base assegura que ainda falta muito para descobrir sobre a realidade de Guantanamo.

Falar com Clive Stafford Smith é perder-se no mar de números e referências com que os militares estadunidenses identificaram os 756 presos que desde janeiro de 2002 passaram pelo penal de Guantanamo. O diretor de Reprieve, a organização britânica que assumiu a defesa legal de dezenas de detidos, conhece seus casos em detalhes. Agora, se alegra de que os chamados papeis de Guantanamo tenham sido divulgados. Em sua opinião, mostram como militares sem experiência fabricaram evidências onde não havia nada para justificar a detenção e o traslado de centenas de prisioneiros no marco da chamada "guerra contra o terror” que a Casa Branca declarou após o 11 de Setembro. Porém, adverte que o que consta nas fichas secretas é somente a ponta do iceberg; pois o que acontece lá "é cem vezes pior”; 15 clientes seus ainda estão presos.

Leia em espanhol:

· Los abusos de Guantánamo, al descubierto

· De los 15 a los 24 años encarcelado

· Ocho años con intentos de suicidio

· Los médicos del penal, cómplices

 

A prisão de Guantanamo (espanhol)

GRÁFICO - El Pais - 25-04-2011

Que lições podemos extrair dos papeis de Guantanamo?

R: Os documentos representam somente 1% dos existentes; porém, de alguma maneira, são uma espécie de destilação dos piores procedimentos. Neles se pode ver os abusos aos prisioneros, a falta de confiabilidade dos testemunhos e o naif dos militares estadunidenses. As supostas evidências que mencionam são falsas. Se compararmos o conteúdo dos papeis com o ditame dos juízes federais estadunidenses, fica claro que utilizam fontes nada confiáveis e completamente inúteis. Basta ver o caso de Mohammed El Gharani. A pessoa que o delatou disse que ele fazia parte da chamada célula de Londres. Porém, o rapaz tinha 11 anos quando se supõe que preparava atentados e nunca havia estado no Reino Unido!

Por que o senhor crê que os papeis são apenas uma destilação do pior?

R: Porque os documentos são um lixo quanto á sua confiabilidade. Dos 756 encarcerados inicialmente, um total de 584 foram libertados por não serem considerados uma ameaça à segurança dos Estados Unidos. No entanto, nos papeis, se diz que são sujeitos perigosos. Como advogado, tive acesso a 5.000 folios de documentos de clientes meus e posso assegurar-lhe que 1% que agora vemos são um exemplo de fabricação de evidências.

As fichas secretas descrevem dezenas de detidos com enfermidades psiquiátricas. Em sua opinião, são um reflexo do estado em que se encontram os prisioneiros no penal?

R: A maioria dos enfermos mentais não aparecem nas fichas. São muitos mais. Conhecemos muitos casos de enfermos graves; porém, nos papeis estão registrados como saudáveis. Dos 172 que restam, mais da metade sofre de algum tipo de enfermidade. Os que estavam doentes quando chegaram, pioraram; e os que estavam saudáveis ao chegar, adoeceram. A verdade é que Guantanamo é 100 vezes pior do que o que aparece nas fichas de WikiLeaks. É pior enquanto a abusos e a evidências. Ainda assim, creio que é positivo que esses papeis tenham sido divulgados.

O senhor crê que a filtração dos papeis acelerará o fechamento de Guantanamo?

R: Creio que será um longo processo. Os republicanos utilizam o tema Guantanamo para dividir e causar danos à imagem de Obama.

O senhor pensa que as revelações abrem a porta para novas ações legais para pedir compensações?

R: Há documentos que falam da implicação britânica. Isso abre a porta para novas demandas no Reino Unido.

E nos Estados Unidos?

R: Lá é muito difícil. A justiça é muito tendenciosa. Não creio que possamos ganhar muitos casos nos Estados Unidos.

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