quinta-feira, 31 de março de 2011

Um brinde ao Golpe de 1964 e à sua herança maldita

Sanguessugado do Sakamoto

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Hoje, celebra-se o aniversário da Gloriosa, quando o Brasil entrou em sua última longa noite. E que melhor forma de celebrar a memória da ditadura, neste 31 de março, que continuar seu modelo de desenvolvimento, sua herança maldita? Bem, vamos fazer um apanhado do que a gente vem dizendo só para não me chamarem de oportunista.

Como sempre os grandes projetos de desenvolvimento vêm acompanhados de promessas de rios de leite e mel para a população local, mas na maioria das vezes os impactos negativos são tão grandes senão maiores que os positivos. Bom mesmo é para a gente do Sul e Sudeste ou das grandes cidades que vai consumir grande parte dos produtos e da energia, exportada para cá em nosso benefício.

O atual governo, que começou com um discurso lembrando os que tombaram pelo caminho na luta pela redemocratização, não pode esquecer que muitos dos que ficaram não morreram apenas por direitos civis e políticos – mas também pelos sociais, econômicos e culturais, ou seja, por uma outra forma de ver e fazer o Brasil.

Quem enfrentou a ditadura, que não era apenas militar, mas tinha uma parte da elite nacional à frente, não buscava apenas poder se expressar e participar dos rumos políticos do país, mas que aqueles que eram vítimas de arbitrariedades e tinham suas casas derrubadas em nome do progresso, desse que é “um país que vai pra frente”, pudessem ter uma alternativa além do “ame-o ou deixe-o”. Aliás, descobri que tem gente que cola aquela adesivo da bandeira nacional com esses dizeres horrendos na popa do seu possante. Afe…

De uma maneira geral, como justificar diferenças entre o discurso de uma época em que abríamos grandes estradas para o momento em que construímos gigantescas hidrelétricas, xingando os opositores de “arautos do atraso” ou acusando-os de fazer o jogo do inimigo externo?

Trabalhadores eram tragados pela pressa em crescer durante os Anos de Chumbo. E, agora, os protestos da massa nas obras do Programa de Aceleração do Crescimento , o Quac!, como no canteiro de obras de Jirau, mostra que as sementes plantadas continuam gerando frutos.

Muita coisa mudou desde que os verde-oliva deixaram o poder, naquela abertura “lenta, gradual e segura”, mas mantivemos modelos de desenvolvimento que dariam orgulho aos maiores planejadores daquele período: de que, para crescer rapidamente e atingir nosso ideal de nação, vale qualquer coisa. Aliás, parte daqueles planejadores é, hoje, ovacionada e vira conselheiro real. E parte dos executores continua em cargos-chave, como na presidência do Senado.

Se quiser fazer valer os direitos humanos, o governo terá que impor mais critérios e limites a atores de áreas consideradas chave para o desenvolvimento, mas que amargam graves denúncias, como o setor elétrico, o agronegócio e a construção civil (em suma, os doadores de campanha). O crescimento tem que estar sujeito ao respeito dos direitos fundamentais e não flanar sobre eles.

Ah, e cansei de ouvir meio intelectuais, meio de esquerda fazendo coro com setores retrógrados ao pedir que o meio ambiente não seja um entrave para o crescimento. Que se cuide do planeta, adapte-se modelos de desenvolvimento, mas que o “progresso” não seja alterado. Tipo, que se faça um omelete sem quebrar um ovo. Fazem contas para mostrar que a vida de algumas centenas de famílias camponesas, ribeirinhas, quilombolas ou indígenas não pode se sobrepujar sobre o “interesse nacional” (ou seria, pessoal). Defendem a energia nuclear como panacéia. Taxam de “sabotagem sob influência estrangeira” a atuação de movimentos e entidades sérias que atuam para que esse “progresso” não trague o país. Não, não, esse discurso não foi enterrado junto com a Gloriosa. Certas coisas nunca morrem, só trocam de farda.

Esse é o problema de sermos o país do “deixa disso” ou mesmo do “esquece, não vamos criar caso, o que passou, passou” e ainda do “você vai comprar briga por isso? Ninguém gosta de briguentos”.

Enquanto não acertarmos as contas com o nosso passado, não teremos capacidade de entender qual foi a herança deixada por ele – na qual estamos afundados até o pescoço e nos define. Foram-se as garrafas, ficaram-se os rótulos. A Dita se foi, sua influência permanece.

Não queremos olhar para o retrovisor não por ele mostrar o que está lá atrás, mas por nos revelar qual a nossa cara hoje. E muitos de nós não suportarão isso.

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