segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

PRAGMATISMO DEMAIS ENGORDA E CEGA

Laerte Braga

A maçã nem sempre é um símbolo do “pecado original”. Pode ser só maçã e pronto. Uma das primeiras “xuxas” do Brasil foi George Savalla Gomes, conhecido como CAREQUINHA. Nasceu num circo, literalmente, transformou-se em ídolo do que à época se costumava chamar de “garotada”.

Ele e Fred (seu parceiro), além do programa que apresentavam numa das emissoras de tevê na década de 50, século passado, deitavam-se em shows pelo País, gravavam músicas carnavalescas e numa perspectiva de tempo e espaço terão sido um fenômeno muito maior que Xuxa, à medida que as comunicações não comportavam todo o processo de fabricação de artistas que vemos hoje.

Marlene Matos era assessora do circo e deve ter aprendido ali a possibilidade de fabricar uma fada vazia e insossa. Sou mais Luísa Brunet.

Uma das músicas que gravou para um carnaval de seu tempo falava de fã clube. Um tormento num determinado sentido. Note bem, num determinado sentido. Dizia mais ou menos assim – “ela é fã da Emilinha/não sai do César de Alencar/grita o nome do Cauby/e depois a desmaiar/pega a REVISTA DO RÁDIO e começa a se abanar/...”

Quem se detiver a analisar o fim da letra vai encontrar preconceito puro –“e na minha casa ninguém arranja uma empregada”.

É claro que Carequinha não era preconceituoso e nem vendia preconceito. E tampouco a “garotada” que participava do seu programa na tevê era maltratada ou tratada como rebanho de um show destinado a fabricar alienação em série.

Era o retrato da época no Brasil e pronto.

É impossível uma análise sem que se tenha o todo e as partes, nessa ordem, ou as partes e o todo. Se for o caso de uma análise política o que via de regra se chama de conjuntura. Pode ser maior, menor, localizada, mas é indispensável.

Do contrário é “e depois de desmaiar/pega a REVISTA DO RÁDIO/e começa a se abanar...”

César Alencar, por exemplo, virou dedo duro no meio artístico logo após o golpe militar de 1964. Apresentava um programa de auditório na antiga RÁDIO NACIONAL aos sábados e aos domingos pontificava Paulo Gracindo, um dos maiores comunicadores e atores do Brasil. César foi lá e disse que Gracindo era comunista. Disse de outros tantos.

Um ser abjeto. Terminou seus dias como que num labirinto sombrio e solitário, comum aos canalhas. Se o neon continua brilhando ou não é labirinto do mesmo jeito.

Todo esse conjunto e mais alguma coisa se colocava como “os fatos de hoje que serão a História de amanhã” – noticiarista T-9 de uma emissora de rádio do interior, transmitido em alto falante para os ouvintes das imediações e horários obrigatórios –. Não se conversava, as pessoas apenas paravam e esticavam os ouvidos para o som que saia do alto falante. A última notícia vinha sempre precedida do “e atenção urgente!”

Quando de fato era urgente virava “atenção, urgente, urgentíssimo!”. “Morreu o papa”.

Muitos jornais foram pegos com as calças às mãos quando do suicídio do presidente Getúlio Vargas e se viram obrigados a montar painéis improvisados às portas de suas redações, onde os jornalistas escreviam em letras garrafais os últimos acontecimentos, naquelas folhas de bobinas de papel jornal cortadas às pressas para suprir a curiosidade do distinto público.

E assim foi até que as antigas máquinas impressoras devorassem o que os linotipistas tivessem linotipado e os jornalistas escrito. Os pequenos jornaleiros saíram às ruas gritando ‘EXTRA, EXTRA, GETÚLIO SE SUICIDOU!”

Quando me recordo do suicídio de Getúlio, era menino, logo me vem à mente a imagem de Tancredo Neves segurando uma das alças do caixão. Tancredo enterrou Getúlio, Jango e JK, com a dignidade pessoal que sempre portou de um liberal clássico. Aécio é, como dizem, só um karma na vida de Tancredo, ou foi. Hoje é o que é. Um show político tipo aqueles bonecos cheios de ar e gingas, mas que uma agulha torna imprestável. Não há esparadrapo que vede completamente o furo.

Tudo em Aécio termina em chopp. Ou sei lá o que, uísque por exemplo. Chegou a estar presente no Festival da Juventude em Moscou, na pele de comunista, sem ter a menor idéia de outra coisa que não o espetáculo do dulce far niente de neto.

É como o PT. Acha que inventou a esquerda no Brasil. Rasgou os livros de História e pisoteou sobre milhares de trabalhadores que tombaram na luta popular desde o século XIX e se formos acrescentar outras tantas lutas na perspectiva dessa História como processo, muito antes até.

Puros, imaculados. O diferente.

Não percebeu – existem exceções, lógico – que foi uma conseqüência, extraordinária até um determinado ponto – de todo esse amontoado de cartas espalhadas sobre a mesa de nada mais, nada menos que a sempre História.

Sem Lula é um barco à deriva agarrado ao poder na disputa pelo poder sem ter a menor idéia de uma frase antológica de Luís Carlos Prestes – “estamos no governo, não somos o poder”. Dita pouco antes da queda de Goulart por conta do golpe de 1964.

A chamada esquerda católica surgiu a partir dos embriões da Teologia da Libertação, mais tarde nos pontificados de João XXIII e Paulo VI, nas encíclicas MATER ET MAGISTRA, POPULORUM PROGRESSIUM e, pois é, na ebulição provocada pela leitura de Jean Paul Sartre, Jacques Maritain, nos filmes de diretores como Godart, a NOUVELLE VAGUE francesa e em seguida o neo-realismo italiano.

Tudo isso e todos esses precederam a 1968. Nem os Estados Unidos escaparam incólumes. Aconteceu WOODSTOCK.

É preciso saber que para além de “verdades absolutas” do dia a dia entre um chopp e outro existe EROS E CIVILIZAÇÃO de Herbert Marcuse. E que Federico Felini está longe de ser um “chato incompreensível”. É um gênio.

Ah! O culto à personalidade. “Ela é fã da Emilinha/não sai do César de Alencar/grita o nome do Cauby/e depois a desmaiar...”

Mineiro quando ia ao Rio pela primeira vez costumava olhar o mar de Copacabana e ter um trem proclamando solene e perplexo – “meu Deus que piscinão!”

EROS E CIVILIZAÇÃO está longe de ser pernosticismo, se não foi possível ler não tem importância, mas é preciso saber entender o que significou e o que esparramou no dia a dia na história de cada dia.

Do contrário é oba oba.

Ivo viu a uva, só isso.

É preciso pelo menos saber ou sentir Richie Havens em Woodstock numa dor/vida lancinante de uma beleza/vida transformadas em ‘FREEDOM”. E sem dentes

Não é que toda a verdade esteja em Marx, ou Freud, em Marcuse, mas Marx é verdade, como Freud, como Marcuse.

Gilbert Bécaud canta uma canção notável e de sua autoria, NATALIE. Fala do ardor revolucionário, romântico, leal, integro de NATALIE. Há momentos que lembra a dança dos cossacos. Traz a imagem das lágrimas escorrendo na Praça Lenine vazia.

Quem buscar encontra a verdade em MANUELÃO nas páginas de Guimarães Rosa, vai encontrar. Não tinha a menor idéia do que foi Marx, muito menos Freud, ou Marcuse, pelo simples fato que não se abanava com a REVISTA DO RÁDIO, não era fã da Emilinha ou desmaiava ao ouvir o nome do Cauby.

Não. Colhia a vida na natureza esplendida do sertão mineiro.

Onde a maçã não precisa necessariamente ser algo mais que uma simples maçã.

O fantástico da internet, entre todos os seus “fantásticos”, está na possibilidade desse besteirol saudosista da primeira à última linha, mas repleto de história e vida em linhas retas e curvas, sempre na mesma direção.

Pragmatismo demais engorda e cega.

Quando você descobre costuma não dar tempo, o sapato está apertando e não há como tirá-lo. E nem toda atriz vai encontrar um bueiro espalhando um vento capaz de mostrar formas perfeitas, até porque nem toda atriz é atriz, que dirá Marilyn Monroe.

Não importa andar de bengalas, importa sentir e perceber as bengalas. É bem diferente o ser manco aqui, do ser manco acolá.

Ou como dizia Felini aos técnicos. “Coloque sombra”. E os técnicos. “Mas não dá sombra, vai ser ridículo”. “Eu quero sombra”, exigiu Felini. Era Roberto Benigno subindo uma escada do lado de fora de um celeiro com uma vela acesa em uma de suas mãos.

Roma e o mundo levaram um ano descobrindo e discutindo a sombra exigida por Felini. Quando lhe perguntaram a razão de ser foi simples – “se há luz, há sombra”. Algo como se há vida há História

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