quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Acorda, São Paulo nº 45.045.545.454.045-45

image CarlosZéfiro

 

GilsonSampaio

Estou a espera de pronunciamentos da Tucanalhada, TFP, Opus Dei e congêneres sobre a denúncia abaixo.

Antes que me rotulem de careta proponho o seguinte:

Imaginem a sua filha ou a sua querida netinha de 16 aninhos, afogadas em hormônios sexuais, convivendo com um  bando de aspirantes a galo também inundados de hormônios sexuais. Tá legal que a molecada de hoje é bastante escolada sexualmente, mas, o estado colocar ao alcance das mãos de alunos/as mal saídos da puberdade esse tipo de literatura, é, no mínimo, falta de bom senso.

Considere também, que por causa dos contos eróticos, este livro vai virar um best seller entre todas as faixas de idades no colégio.

Livro de sacanagem, é assim que a molecada vai encarar o livro.

E as professoras, como vão encarar a molecada?

Agora, podem me chamar de careta.

Nassif via Cappacete

ESTADO DE SÃO PAULO DISTRIBUI LIVROS COM CONTEÚDO IMPRÓPRIO AOS ALUNOS, DE NOVO…

Luís Fernando de Lima Júnior

No ano passado aconteceu coisa parecida: http://professortemporario.wordpress.com/2009/05/29/parece-piada/


Naquele momento, no qual a Secretaria de Estado da Educação protagonizou um episódio deprimente de distribuir atlas geográficos com erros grosseiros, chegou-se ao absurdo de distribuir livros com conteúdo erótico às crianças da 3ª série do Ensino Fundamental. Ainda se fosse uma literatura de educação sexual, com esclarecimentos dessa natureza em uma linguagem própria… Mas, o conteúdo expresso nos livros paradidáticos em questão tinha uma abordagem sarcástica e mesmo erótica, num total descompasso com a proposta pedagógica planejada para essa faixa etária.

O tempo passou, algumas cabeças rolaram, mas os problemas não foram corrigidos. Na mais recente iniciativa de incentivo a leitura protagonizada pela Secretaria de Estado da Educação realizou-se a
distribuição gratuita de livros de literatura a todos os alunos do 3°
ano do Ensino Médio.

Considerando a faixa etária média desses alunos em cerca de 16 anos, o título Os cem melhores contos brasileiros do século certamente sugere qualidade. A publicação da editora Objetiva, do Rio de Janeiro, organizada por Ítalo Moriconi em 2001 abriga contos escritos por grandes nomes da literatura brasileira, como Machado de Assis, Lima Barreto, Graciliano Ramos, Monteiro Lobato, Carlos Drummond de Andrade, Rachel de Queiroz, Érico Veríssimo, Clarice Linspector e outros tantos.

Certamente, é uma bela obra. Mas, dentre todos esses grandes nomes da literatura brasileira, considerando o fato de que livro foi destinado aos adolescentes de 16 anos, roubaram a cena:

Ignácio de Loyoloa Brandão, com o conto Obscenidades para uma dona de casa; p. 471

Myriam Campello, com o conto Olho; p. 548.

Se considerarmos a proposta da obra, descrita por Ítalo Moriconi na sua introdução, “[...] Tratava-se de fazer uma leitura com olhos livres, uma leitura desprovida de preconceitos doutrinários e
teóricos,”[MORICONI, 2001, p.16] em momento algum faz-se a sugestão de que a obra se destine a apreciação de menores de idade. (aliás, subjetivamente, os indícios do discurso sugerem justamente o contrário…).

Nesse sentido, sem ter o objetivo de simplesmente criticar a obra ou condenar seus autores, numa espécie de censura, observamos que a escolha específica dessa obra para distribuição gratuita aos alunos do 3° ano do Ensino Médio (não esqueçamos que isso significa uma licitação avaliada em alguns milhões de reais) não obedece, por exemplo,  à classificação de conteúdo e faixa etária imposta pelo Ministério da Justiça aos grupos de comunicação.

Provavelmente, diante dessa argumentação, algumas pessoas podem questionar se esse excesso de “proteção”  condiz ou não com a realidade cotidiana dos adolescentes de nossa época. Então, passemos a uma coisa mais prática:

No conto “Obscenidades para uma dona de casa”, a narrativa se desenvolve a partir da expectativa de uma personagem que vive como dona de casa e espera diariamente por cartas enviadas pelo correio, com propostas e insinuações sexuais que geram um conflito com os valores de sua criação, de forma que a personagem passa a viver com intensa ansiedade em função da espera de novas cartas. O enredo prende a atenção do leitor e realmente pode ser considerado bom, mas na descrição dos conteúdos das cartas encontramos:

“[...] Mulher, quando quer, sabe ser pior do que homem. Sim, só que conhecia muitas daquelas amigas, diziam mas não faziam, era tudo da boca para fora. A tua boca engolindo inteiro o meu cacete e o meu creme descendo pela tua garganta, para te lubrificar inteira.
Que nojenta foi aquela carta, ela nem acreditava, até encontrou uma
palavra engraçada, inominável. Ah, as amigas fingiam, sabia que uma delas era fria, o marido corria louco atrás de outras, gastava todo o salário nas casas de massagens, em motéis. E aquela carta que ele tinha proposto que se encontrassem uma tarde no motel? Num quarto cheio de espelhos, para que você veja como trepo gostoso em você, enfiando meu pau bem no fundo.”

“[...] Qual pode ser a reação de um homem de verdade, que se preze, ao ver que a mulher está recebendo bilhetes de um estranho? Que fala em coxas úmidas como a seiva que sai de você e que provoquei com meus beijos e com este pau que você suga furiosamente cada vez que nos encontramos, como ontem à noite, em pleno táxi, nem se importou co o chofer que se masturbava. Sua louca, por que está guardando cartas no fundo daquela cesta? A cesta foi a firma que mandou num antigo natal, com frutas, vinhos, doces, champanhe. A carta dizia deixo champanhe gelada escorrer nos pelos de sua bocetinha e tomo embaixo com aquele teu gosto bom. Porcaria, deixar champanhe escorrer pelas partes da gente. Claro, não há mal, sou mulher limpa, de banho diário, dois ou três no calor.
Fresquinha, cheia de desodorante, lavanda, colônia. Coisa que sempre gostei foi cheirar bem, estar de banho tomado. Sou mulher limpa. No entanto, me pediu na carta: não esfregue desse jeito, deixe o cheiro natural, é o teu cheiro que quero sentir, porque ele me deixa louco, pau duro.” (Todo o conteúdo desses dois parágrafos foi extraído de uma única página; 473)

Literatura é democracia. Aceita vários gêneros e com certeza a escrita apresentada no conto tem seu público. Mas, será que é adequado oferecer essa literatura a quem não saiu da adolescência? Será que essa linguagem peculiar de tratamento da sexualidade ajuda a desenvolver a maturidade dos alunos da rede estadual de São Paulo?

“[…] Não consigo ler direito na primeira vez, perco tudo, as letras embaralham, somem, vejo o papel em branco. Ouça só o que ele me diz: Te virar de costas, abrir sua bundinha dura, o buraquinho rosa, cuspir no meu pau e te enfiar de uma vez só para ouvir você gritar.” (477)

Diante dessa abordagem, imaginem um estudante da rede sentado no fundo da classe com a professora de costas para ele, escrevendo no quadro… Isso é que é valorização de mérito!

Alguma pessoa pode até questionar: Mas e trata de apenas um único conto, correto?

No conto “Olho” a narrativa descreve um tema ainda mais polêmico, embora em linguagem menos explícita.

Valorizando a carreira docente, o texto trata de incesto, que do desejo à prática coloca um professor universitário de Botânica diante da própria irmã:

Quando ela acorda, põe imediatamente o seio esquerdo em minha boca. Sei muito bem que não é assim que se começa começa uma história. […]

Português de nascença e ex-seminarista de hábitos metódicos, não que a solidão eu possa suportá-la. Mas na de minha irmã e eu que vivemos sós nesta casa há uma tal qualidade de exílio e afastamento dos homens que por vezes nos sufoca ao impossível. Não há a quem falar. Do que acontece, não se pode dizer por proibido. Vivemos arredios, sem sociedade com outros além de um boa-tarde seco, um bom-dia reservado que marca limites.[...]

Minha irmã se que sente-se como eu, embora minta: não quer aumentar a angústia que lê em meus silêncios. Ou por outra, sente-se como eu embora feita de material diverso. É mais forte, talvez. Talvez mais livre. Onde hesitei sequer pestanejou, radiosa como a Epidendrum fragrans S. W, a mesma nitidez alba, a mesma elegância. Sua paixão tem a firmeza imaculada de certas sépalas, de certas pétalas. Mas tanto a ela quanto a mim se alguém nos oferecesse voltar no tempo faríamos tudo igual, privilégio dos atos perfeitos.” (548-549)

Embora nas primeiras páginas do conto a linguagem não seja um problema, será que essa temática é adequada para um público adolescente?

“[...] A primeira carta anônima meteu-se à minha correspondência mês atrás, caída do azul. Repelente como papéis desse tipo, dizia apenas “eu sei tudo” em letra forçada, velando-se. Estupor e medo subiram por mim. Como podia ter visto algo e o que se minha irmã e eu só em casa nos tocamos?” (549)

“Dando aulas à noite, passo por uma rua escurecida por grandes exemplares de Ficus religiosus, troncos imensos mergulhados na sombra que os namorados aproveitam como ponto de apoio. Por que também não posso levar minha irmã para lá, erguer sua saia e comê-la contra a casca rugosa?” (550)

Além da questão cultural do incesto, imagine uma estudante de 16 anos que volta da escola a noite e passa por uma rua escura, com grandes árvores, após ter lido o conto. Não seria um incentivo a mais a uma atitude sexual precipitada e irresponsável com o seu namorado? (isso, se não fantasiar com um de seus professores…)

“Há cinco dias nova carta anônima chegou-me às mãos. “Estou de olho em vocês”, rezava a mesma letra sob a máscara. […] Inconscientemente, assumo posições escabrosas para agradá-lo. Quando derrubo minha irmã na cama, sei que o olho me vê e meu pau lateja mais duro. Invado-a então com o vigor de quem escava um poço. Ontem a machuquei. Mas, não reclamou, como se por alguma razão também necessitasse disso. Ao contrário, dilacerou-me as costas num êxtase profundo, secreto. Enfiado em sua vagina, vasculhei-a com a violência de um estupro. Agora somos três. A lembrança disso logo me faz enchê-la de um jorro quente e espumante.”

Numa mensagem clara de valorização do magistério:

“Morrendo-me a mãe viúva há quatro anos e não suportando mais o seminário, resolvi abandoná-lo. O sexo aguilhoava-me além do que se pedia a um sacerdote. Para evitar futuro desgosto à Igreja,e a mim um contínua infelicidade, decidi ser professor.” (551)

Um dia, certa greve de professores me fez voltar mais cedo do trabalho. A casa boiava em silêncio, como sem ninguém. Larguei livros e um caderno cheio de meus traços em qualquer lugar e empurrei a porta do banheiro. Com um movimento de susto, minha irmã cobriu-se com a toalha. Acabara de tomar banho e não esperava tão cedo a minha volta. Durante um longo momento ficamos ali, um diante do outro, imóveis. O coração selvagem. Meu primeiro impulso foi virar-se e sair, mas forças contrárias o combateram, paralisando-me. Finalmente, o desejo me sufocou. Fui até ela e puxei a toalha. Ainda tentou resistir, virou-se mas acabou cedendo, posso dizer que muito menos à força do que à minha vontade. O grande espelho do banheiro viu quando beijei sua nuca loura e explorei-lhe o odor, minha boca eriçando os pelos sedosos, a fronteira entre pele e pelo que sempre quisera sondar.”

Vai ver que é por isso que o Governo manda a tropa em cima dos professores durante as manifestações de greve…

“Virei-a de frente. Nosso banheiro tem uma antiga pia de mármore, muito sólida. Ergui minha irmã e sentei-a ali, naquela borda. Quando abri a boca ela sentiu minha respiração dolorida, apressada como a de um animal que sofre, só podia fazer mesmo o que fez. Pegou o seio duro com a mão e o pôs em minha boca. A mucosa incendiada de febre o envolveu. Minha língua rolou pelo mamilo tentando derretê-lo, açoitando o botão de carne em todas as direções. Chupei, mastiguei, devorei seus seios com uma fome antiga. Sempre os mastigo longamente antes de caminhar pelo resto de seu corpo. Azeitonas que se enrijecem, vermelhas, e largam seu suco em minha boca”

“Puxei-a para o quarto e joguei-a na cama. Com a língua, umedeci sofregamente e por muito tempo as fendas de seu corpo. Quando a cobri, ela quis. Abriu-se como uma fruta que se racha no solo. O desejo é um vagalhão enfurecido, avalanche que se nutre do próprio excesso para melhor derrubar e engolir. Iniciado, nada pode detê-lo. Se abrissem a porta e me vissem dentro de minha irmã, gozando-a, meu sêmen se estancaria? Penso que não. Uma vez explodindo, é esperar que a convulsão cesse por si mesma. Assim, fomos de roldão nas asas da carne até que o esgotamento nos fez dormir, eu ainda com o membro dentro dela.” (todo conteúdo desses três parágrafos está escrito na página 552)

Imagine uma casa, onde um rapaz de 16 anos, estudante do 3° ano do Ensino Médio da rede estadual de São Paulo, lê esse conto, enquanto escuta sua irmã de 14 anos a cantar sob o chuveiro, no momento em que seus pais não estão em casa…

De qualquer forma, não tenho a menor intenção de levantar um estandarte de moralidade. Muito menos, compartilhamos da visão autoritária que varreu o país do inicio da década de 1960 e permaneceu sufocando nossa sociedade até recentemente.

Censura, nunca mais. Mas, existe uma diferença fundamental entre censura e adequação de conteúdo à determinada faixa etária. Tanto existe, que certas publicações vendidas em bancas de jornal ou certos filmes disponibilizados para locação devem ter um espaço reservado, de maneira que seu acesso não seja indiscriminado.

Além disso, na televisão, existe uma classificação indicativa, por faixa etária, para cada programa a ser veiculado, não para bloquear o acesso, mas para alertar os espectadores, no sentido educativo.

Assim, longe de isso representar um TROLOLÓ, a Secretaria de Estado da Educação e o Governo do Estado de São Paulo, que tanto se manifestam sobre valorização de mérito e trabalho bem feito, têm a obrigação de explicar à sociedade, e possivelmente à Justiça, quais foram os critérios pedagógicos utilizados para a escolha dessa obra de conteúdo adulto para ser distribuída aos adolescentes do Ensino Médio da rede.

Talvez, a ironia mais absurda dessa história, que acaba por atenuar o efeito desse conteúdo, é o fato de que hoje, depois de quase 20 anos de uma política educacional equivocada, a maioria absoluta dos alunos da rede estadual não teria condições de compreender o conteúdo desse livro, simplesmente por não conseguirem lê-lo… (Será que a Secretaria de Estado da Educação considerou isso quando aprovou a escolha desse livro?)

MORICONI, Ítalo. Os cem melhores contos brasileiros do século. Organização: Ítalo Moriconi. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. 618p. ISBN 85-7302-306-6

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