terça-feira, 21 de novembro de 2017

O topete de um ministro sem decoro. Veja o video

Sanguessugado do Tijolaço

Fernando Brito


fuxtopete

Eu não sei se um juiz europeu teria condições de acreditar no que lê ao por os olhos na entrevista do senhor Luiz Fux à BBC, chamá-lo de ministro, após a leitura, é-me desconfortável –  onde ele viola da A a Z a lei orgânica da magistratura, que proíbe que juízes deem declarações sobre casos que estão ou virão a estar sobre sua jurisdição.

Faz isso sem o menor pudor. Diz que a decisão da Assembleia Legislativa sobre a revogação da prisão de Jorge Picciani – em tudo idêntica à que o STF autorizou o Senado a tomar em relação a Aécio Neves -é “lamentável”, “vulgar” e “promíscua”, sabendo que ele terá de agir como o magistrado que deveria ser diante dos argumentos para invalida-la ou confirmá-la.

Vai presidir o processo eleitoral  que escolherá o Presidente da República em 2018, dirigindo o TSE,  mas sente-se no direito de rasgar-se em elogios a uma possível candidatura de Joaquim Barbosa: “entendo que ele seja um grande nome nesse momento que o Brasil precisa de uma repercussão internacional de que seu dirigente é um exemplo de moralidade e de probidade”.

O que, no conceito dele, deve aplicar-se á decisão dele, Fux, que “liberou geral” o auxílio-moradia para juízes e promotores há três anos e, até hoje, não foi ao pleno do STF, certamente  para não fazer certos ministros terem de legitimar, de boca própria, a maracutaia que isso representa.

Para Lula, o tratamento é o inverso do de Barbosa: deixa claro que, cumprido o script da condenação insólita pelo apartamento-que-não-é-dele-mas-é-dele, será um “ficha suja” e não poderá concorrer.

O topete do sr. Fux, vê-se pela entrevista, não é apenas capilar. E não se desfaz, segundo o insuspeito Reinaldo Azevedo, por ter beijado os pés de Adriana Ancelmo, mulher de Sérgio Cabral , como gesto de agradecimento pela cátedra recebida de ministro recebida com o apoio do marido.

Fux é um arremedo de juiz. Este, julga nos autos. Ele, sem sequer ver os autos, já sentencia.


L’Etat c’est moi, mas agora a cabeleira não é uma peruca, como a de Luiz XIV.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Como os bandeirantes paulistas destruíram o Quilombo dos Palmares e mataram Zumbi

Sanguessugado do Socialista Morena

Qual seria o interesse da direita em desmerecer os quilombos como sociedades em que os negros podiam ser livres do domínio branco, chefiados por si mesmos e com suas próprias regras e leis?


A GUERRA DOS PALMARES, ÓLEO DE MANUEL VÍTOR, 1955



Cynara Menezes


Em seu afã de continuar a escrever a história sob a ótica dos vencedores, autores de direita têm se notabilizado por divulgar que no Quilombo dos Palmares também havia negros escravizados. Uma “descoberta” que não chega nem a ser novidade: já aparece no clássico O Quilombo dos Palmares, do baiano Edison Carneiro (1912-1972), publicado em 1947 (leia aqui). “Os escravos que, por sua própria indústria e valor, conseguiam chegar aos Palmares, eram considerados livres, mas os escravos raptados ou trazidos à força das vilas vizinhas continuavam escravos. Entretanto, tinham uma oportunidade de alcançar a alforria: bastava-lhes levar, para os mocambos dos Palmares, algum negro cativo”, diz o livro.

Mas qual seria o interesse da direita em desmerecer os quilombos, especialmente Palmares, como sociedades em que os negros podiam ser livres do domínio branco, chefiados por si mesmos e com suas próprias regras e leis? A primeira intenção certamente é fazer a abjeta escravidão de seres humanos negros parecer “menos cruel” e “normal” –afinal, se até nos quilombos havia escravos, não é? Um destes reaças travestidos de historiadores teve a pachorra de afirmar, por incrível que pareça, que existia a possibilidade de ascensão social para os africanos que vinham para cá à força, acorrentados em navios negreiros…

Deseja-se demolir, portanto, o mito fundador da “consciência negra” entre os negros: se o seu principal herói era um “escravocrata”, que sentido teria imaginar uma outra realidade possível, em que o negro estivesse livre dos grilhões impostos pelos brancos? Cairia por terra Palmares e com ele toda a concepção de um Estado negro para onde fugiam todos aqueles que não queriam viver nas senzalas e que alcançou, em seu auge, na segunda metade do século 17, uma população de cerca de 20 mil pessoas. Sem o Quilombo dos Palmares, sem Zumbi, a direita reforça a ideia do negro conformado com sua desgraça, de cabeça baixa, resignado com o “destino” que a história lhe reservou.

Menos óbvio, em minha opinião, é o propósito de tentar livrar a cara dos “heróicos” bandeirantes paulistas na destruição completa de Palmares, o maior dos quilombos e que existiu por quase um século, ameaçando a autoridade das elites açucareiras e da coroa portuguesa. Propagar que também havia escravos nos Palmares funciona como uma espécie de cortina-de-fumaça para o fato de os bandeirantes terem sido responsáveis pelo fim do mais próspero dos quilombos, pouco importa como fosse o seu funcionamento interno. Detalhe: as terras onde se situava Palmares eram consideradas as melhores da então capitania de Pernambuco, e até por isso cobiçadíssimas. E se Palmares tivesse sobrevivido?

“Os quilombolas viviam em paz, numa espécie de fraternidade racial. Havia, nos quilombos, uma população heterogênea, de que participavam em maioria os negros, mas que contava também mulatos e índios. Alguns mocambos dos Palmares, como o do Engana-Colomim, eram constituídos por indígenas, que pegaram em armas contra as formações dos brancos. O alferes Francisco Pedro de Melo encontrou, na Carlota, apenas seis negros entre as 54 presas que ali fez, pois 27 eram índios e índias e 21 eram caborés, mestiços de negros com índias cabixês das vizinhanças. E os negros chegaram a estabelecer comércio regular com os brancos das vilas próximas, trocando produtos agrícolas por artigos manufaturados. (…)

O motivo das entradas parece estar mais na conquista de novas terras do que mesmo na recaptura de escravos e na redução dos quilombos. (…)Era voz corrente que as terras dos Palmares eram as melhores de toda a capitania de Pernambuco –e a guerra de palavras pela sua posse só não foi menor, nem mais suave, do que a guerra contra o Zumbi. O quilombo do rio das Mortes ficava exatamente no caminho dos abastecimentos para as lavras de Minas Gerais, o que pode dar uma ideia do valor das suas terras e da riqueza econômica que representavam, e é nessa circunstância que se encontra a razão da crueldade de Bartolomeu Bueno do Prado, que de volta a Vila Rica trouxe 3900 pares de orelhas de quilombolas.” (Edison Carneiro)

A construção do mito do bandeirante como “herói” pela elite paulista passa, sem dúvida, pela destruição do Quilombo dos Palmares. Não à toa, Domingos Jorge Velho, algoz de Zumbi, foi eternizado numa pintura de Benedito Calixto, uma das muitas obras de arte encomendadas pelo governo de São Paulo no início do século 20 para enaltecer os bandeirantes como símbolo da “superioridade paulista”. Sintomaticamente, Velho, que era mameluco, foi pintado à imagem e semelhança dos barões do café, em pose idêntica à dos quadros que retratavam a monarquia europeia: branco, bem-vestido, bem-cuidado, altivo e robusto.

DOMINGOS JORGE VELHO MITIFICADO POR BENEDITO CALIXTO, 1903


Com uma estratégia digna de qualquer marqueteiro de hoje, implantava-se assim, no inconsciente coletivo, a ideia de que a elite cafeeira era descendente direta dos “valentes” bandeirantes e que o paulista seria, por natureza, mais “batalhador” que os demais brasileiros. Percepção que, pelo que temos visto, permanece viva na memória de boa parte dos habitantes do Estado até hoje.

Alcunhado mais tarde “herói dos Palmares”, o sanguinário Domingos Jorge Velho, atual nome de rua em 12 cidades de São Paulo, foi contratado pelo governador de Pernambuco para esmagar o Quilombo quando estava “aposentado” no Piauí, vivendo nas terras que tomara dos índios, cercado de concubinas. O governador deu plenos direitos ao “coronel”, como foi logo chamado, inclusive o de prender qualquer branco que ajudasse os negros do Quilombo dos Palmares. Se bem sucedidos, o bandeirante e seus homens seriam recompensados com dinheiro e terras, embora os vizinhos de Palmares preferissem os negros aos “bárbaros” paulistas por perto.

O bispo de Pernambuco assim descreveu o “heróico” bandeirante em carta ao rei: “Este homem é um dos maiores selvagens com que tenho topado: quando se avistou comigo trouxe consigo língua (intérprete), porque nem falar sabe, nem se diferencia do mais bárbaro tapuia mais que em dizer que é cristão, e não obstante o haver-se casado de pouco, lhe assistem sete índias concubinas, e daqui se pode inferir como procede no mais”.

O que aconteceu em Palmares foi um banho de sangue e o aprisionamento de mulheres e crianças. “Foram tantos os feridos que o sangue que iam derramando serviu de guia às tropas que os seguiram”, escreveu o governador Caetano de Melo e Castro. Ficara acertado que as presas menores de 12 anos seriam vendidas aos paulistas. Os meninos menores de 12 anos ficariam em Pernambuco. Às negras com crias também foi permitido permanecer na capitania até que os rebentos chegassem à idade de três anos, quando “poderão viver sem o leite de suas mães”. Somente um ano depois da queda dos Palmares, porém, é que Zumbi foi capturado e morto.

Conta Edison Carneiro:

“Os moradores do Rio São Francisco (Penedo) conseguiram prender um dos auxiliares imediatos do Zumbi –’um mulato de seu maior valimento’, como dizia o governador Caetano de Melo e Castro.

O prisioneiro estava a caminho do Recife, sob escolta, quando o grupo deu com uma tropa, ‘que acertou ser de paulistas’, comandada pelo capitão André Furtado de Mendonça. Provavelmente os paulistas torturaram o mulato, pois este, ‘temendo… que fosse punido por seus graves crimes’, prometeu que, se lhe garantissem a vida em nome do governador, se obrigava a entregar o ‘traidor’ Zumbi. A oferta foi aceita –e o mulato cumpriu a palavra, guiando a tropa ao mocambo do chefe negro.

O chefe dos Palmares já se tinha desembaraçado da família e se encontrava apenas com 20 negros. Destes, distribuiu 14 pelos postos de emboscada e, com os seis que lhe restavam, correu a esconder-se num sumidouro ‘que artificiosamente havia fabricado’. A passagem, porém, estava tomada pelos paulistas. O Zumbi ‘pelejou valorosa ou desesperadamente, matando um homem, ferindo alguns, e não querendo render-se, nem os companheiros, foi preciso matá-los…’.

Somente um dos homens do Zumbi foi apanhado vivo.

Domingos Jorge Velho, mais tarde, em requerimento a Sua Majestade, dizia, expressamente, que o Zumbi fora liquidado por ‘uma partida de gente’ do seu Terço, que topara com o chefe negro a 20 de novembro de 1695.

A carta do governador, em que contava detalhadamente o episódio, está datada de 14 de março de 1696, mas Caetano de Melo e Castro conhecia a notícia muito antes, pois já recebera dos Palmares a cabeça do Zumbi e a mandara espetar num poste, ‘no lugar mais público desta praça’ (o Recife), para satisfação dos ofendidos e para atemorizar os negros, que consideravam ‘imortal’ o chefe palmarino. O atraso certamente decorreu das dificuldades de navegação: o governador viu-se forçado a mandar a sua carta por um patacho que seguia para a ilha da Madeira, na esperança de que ali houvesse navio que ‘com maior brevidade’ chegasse a Lisboa, pois não queria ‘dilatar’ a nova a Sua Majestade.

A morte do Zumbi teve lugar, como o indicam esses documentos, a 20 de novembro de 1695 –quase dois anos depois de destroçado o reduto do Macaco.”

Diz-se que o negro Zumbi foi morto com 15 ferimentos a bala e mais de 100 golpes de armas brancas. Um de seus olhos teria sido arrancado, assim como a mão direita. O pênis foi cortado e enfiado em sua própria boca. A cabeça foi salgada e levada para o Recife para ser exposta em praça pública. O bandeirante Domingos Jorge Velho morreu em 1705, aos 64 anos, em sua fazenda na Paraíba.


Para mim, parece bem claro quem é o herói desta história. Para a direita, não.

Bob Fernandes/Diogo, negro, assaltado e espancado... Ainda frutos de 350 anos de escravidão


Bob Fernandes



Exibido nos últimos dias o vídeo do espancamento do ator Diogo Cintra, 24 anos.
Diogo foi assaltado por dois homens à entrada do terminal de ônibus Dom Pedro, em São Paulo. Diogo correu para dentro do terminal e pediu socorro.
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Uma segurança recomendou: "Corra". Com porretes nas mãos, três homens se juntaram aos assaltantes gritando que Diogo era "ladrão".
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O ator Diogo Cintra é negro. Seguranças e passageiros se limitaram a assistir Diogo, o assaltado, ser espancado. Vários dos espectadores, e seguranças, também negros.
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No Brasil, a cada 100 mortos por homicídio, 71 são negros. Quase sempre adolescentes ou jovens.
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Dos mortos pela polícia, 76% são negros. Que são 67% entre os mais de 620 mil presos.
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Manchetes nos últimos dias: IBGE mostra que "negros e pardos ganham o equivalente à metade dos salários dos brancos".
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A atriz Taís Araújo é casada com o ator Lázaro Ramos. Excelentes atores e, à revelia, definidos como isso que chamam de "celebridades".
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Ambos já sofreram injúria racial. Ambos são ativistas. E enfrentam a ignorância racista, quando não também fascista.
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Ignorância fascistóide que se expõe também quando zurra a expressão "vitimísmo". A atriz Taís Araújo resume:
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-No Brasil, a cor do meu filho (dela e de Lázaro Ramos) é a cor que faz com que as pessoas mudem de calçada, escondam suas bolsas e blindem seus carros.
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Ano que vem, 130 anos da Abolição da Escravidão.
As expressões "escravos", "escravidão", foram sendo naturalizadas. Os motivos para tanto são incontáveis. Mas num dia como hoje é importante recordar...
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...Imagine o que é você ter um dono. Que te espanca ou açoita quando quiser. Que te usa e aos seus filhos a vida inteira, para tudo. Como quiser, inclusive sexualmente.
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Assim foram mais de três séculos e meio de "Senhores" e seus escravos. Três quartos da história na formação da nação.
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A Casa Grande e a Senzala, nas suas mais amplas, diversas e complexas formas e derivações são definidoras do Brasil.

sábado, 18 de novembro de 2017

Santayana: Fux, saia da frente e deixe que o holofote foque a Constituição Federal

Sanguessugado do Mauro Santayana

 FIAT LUX, IUDEX FUX, FIAT LUX.


Destinado a ocupar a Presidência do Tribunal Superior Eleitoral de fevereiro a agosto do ano que vem, o Ministro Luiz Fux, do STF, se indagou, a respeito da eventual candidatura de Lula, em recente entrevista à jornalista Monica Bergamo:  

"Pode um candidato denunciado concorrer, ser eleito, à luz dos valores republicanos, do princípio da moralidade das eleições, previstos na Constituição? Eu não estou concluindo. Mas são perguntas que vão se colocar"...

A resposta seria sim, claro que pode, como já ocorreu com centenas de candidatos no passado.

Caso contrário, a justiça estaria admitindo que bastaria que uma mera denúncia - eventualmente anônima - de um desafeto, viesse a ser acatada,  para que se interrompesse, se inviabilizasse, em pleno pleito, ou antes dele, a carreira política de qualquer pessoa. 

Mesmo se provocadas pela pergunta, as divagações do Ministro Fux parecem sinalizar que a Justiça brasileira, ou ao menos parte dela, está disposta a correr o risco de atravessar um perigoso, temerário, Rubicão, e interferir não apenas no processo político mas no próprio rumo da História, mesmo que venha, com isso, a entregar o país ao fascismo nas eleições de 2018.

Se condenar Lula em segunda instância, por um crime que não cometeu - e, no limite do entendimento surreal do Juiz Sérgio Moro e do Ministério Público da Operação Lava Jato, ao menos não chegou a concluir - seguindo o mesmo raciocínio frouxo e esdrúxulo - que será visto aos olhos do mundo como um golpe branco, tão injusto e absurdo como o que derrubou Dilma em 2016 - a Justiça teria de, no mínimo, investigar e eventualmente condenar e igualmente impedir a candidatura do pré-candidato que se encontra em segundo lugar nas pesquisas de intenção de voto, por ter recebido e depois estornado às contas bancárias do partido, substituindo-o por recursos do fundo partidário, dinheiro da JBS.          

Mas não parece ser esse o caminho que está disposta a percorrer, por estas plagas, a velha dama da espada e da balança.

Para não deixar dúvidas sobre que ovelha estava tosquiando, na mesma entrevista, depois de afirmar que o STF não deve fazer pesquisa de opinião pública para tomar suas decisões e que ele mesmo não pode julgar uma pessoa apenas ouvindo a sociedade, contraditoriamente o Ministro Luiz Fux fez questão de frisar - quem avisa amigo é - que o descrédito no Judiciário, derivado de uma eventual mudança de posição da Suprema Corte neste momento, a respeito da possibilidade de prisão a partir de condenação em segunda instância - tema também diretamente ligado ao futuro do próprio Lula - poderia levar o “povo” a “fazer justiça pelas próprias mãos”.

Pegando o fio da meada, ou melhor, da bola que o Ministro Fux inocentemente colocou em campo, como se não quisesse antecipar, embora já antecipando, o resultado da jogada, não seria o caso de se lembrar outras perguntas, começando pela mais óbvia, sobre o que ele tem a dizer sobre a diferença entre denunciados e condenados com trânsito em julgado? 

Ou de perguntar a que “povo” Sua Excelência se referiu na entrevista?

Afinal, não se pode confundir os ataques obscenos de grupelhos inspirados por um senso aparentemente comum e distorcido, que nada tem a ver com o bom senso, com a opinião dominante em nosso país.

Até porque 70 milhões de brasileiros ainda não têm acesso à internet, e a maioria dos cidadãos não dispõe de tempo para ficar destilando ódio na “rede”. Há quem precise levantar-se cedo e trabalhar para cuidar dos filhos e pagar tributos, sim, no mínimo os que estão embutidos na eletricidade, na água, no arroz, no feijão e na farinha do pão que ganha com o suor do rosto.

Como qualquer  energúmeno que se assume de  certa “classe média” conservadora, entreguista,  viralatista, gosta de propalar, em maiúsculas, nas seções de comentários da internet, afirmando que só eles pagam impostos e obedecem à legislação, se auto-intitulando, enquanto isso, ainda por cima, cinicamente, “homens de bem”.

Ou será que o Ministro Fux estaria se referindo ao "povo" - de seletiva indignação - que o ódio a determinado partido político levou às ruas, vestido de verde e amarelo, com patos de borracha e babás de uniforme,  para derrubar Dilma, e que, apesar da sucessão de escândalos que se seguiram, nunca mais voltou?

Por outro lado, também se poderia perguntar a Sua Excelência se ele já percebeu que, no Brasil, de juristas à população de baixa renda, passando por empresários, policiais, procuradores, nem todo mundo apóia ou professa o rasteiro punitivismo savanarolista lavajatiano e o denuncismo deletério e destrutivo que se impôs e transformou em regra no país, em detrimento do Estado de Direito, da engenharia, da economia, dos empregos, da estratégia de longo prazo e dos perenes interesses nacionais, ou ao menos um terço da população não estaria disposta, segundo a maioria das pesquisas de opinião, a  expressar o seu inconformismo com o que está ocorrendo votando em Lula, apesar do permanente e implacável  massacre movido contra o ex-presidente nos tribunais, na mídia e  nas redes sociais.

Não se trata, aqui, caro Ministro, de atacar ou defender o PT.

Mas de evitar, pelo bem desta maltratada República que aniversaria hoje, que a justiça, caso impeça a  candidatura Lula por um crime difuso, inconcluso, condicional e polêmico, venha a interferir no processo político e eleitoral brasileiro e a apunhalar a Democracia, mudando, na caneta,  o rumo da história, entregando o país ao fascismo no final do ano que vem.

Até porque caso desistir da compra de um apartamento fosse crime, devolver dinheiro de doação de campanha oriundo de empresa investigada pela justiça, como já dissemos, depois que ele já estava na conta, também o seria.

Afinal, o que cabe, o que vem ao caso, segundo a absurda e consagrada jurisprudência da República de Curitiba, não é a prova, o cometimento, o crime, mas a suposta - na mente de quem  acusa - intenção do investigado.

É claro que, rezam antigas máximas latinas, ne procedat iudex ex officio; nemo debet - mesmo que indiretamente - esse iudex in própria causa.

Tendo, segundo ele mesmo, praticamente implorado apoio ao ex-ministro José Dirceu, ao deputado petista Cândido Vacarezza, e até, por carta, ao Presidente do MST, João Pedro Stédile - entre outros luminares da legenda - para ser indicado para o cargo que ocupa, ninguém esperava que o Ministro Luiz Fux fosse pagar ao PT pelo favor recebido.

Mas que ao menos se declarasse impedido, moralmente e por uma questão de princípios, de julgar - e evitasse, por pudor, opinar, ainda mais antecipadamente, a respeito de - processos que envolvessem tal partido e seu principal líder.

Ao menos pela razão de que a necessidade de provar o tempo todo que não está beneficiando seus benfeitores - tendo quase sempre obrigatoriamente que puni-los - poderia eventualmente afetar-lhe a isenção ou embotar-lhe o julgamento.

A justiça brasileira, com o STF à frente, precisa afastar-se da ambigüidade, das meias verdades, das meias palavras e das pressões circunstanciais, apesar das chantagens, parar de decidir  “contra legem” e voltar a adotar a luz da Constituição e a percorrer os estreitos, e muitas vezes penosos, caminhos da Lei, usando-a como bússola e farol para guiá-la na noite tenebrosa de uma nação enlouquecida, nos últimos quatro anos, pela hipocrisia, a ignorância, o preconceito e s ira, sob pena de abrir para o país, Senhor Ministro,  os portais do caos, da violência, do obscurantismo, do autoritarismo.

Fiat Lux na justiça brasileira e que Deus ilumine também a mente e o espírito de Vossa Excelência e de seus pares, porque o país está mergulhado em trevas e anseia por  um mínimo de decência, de responsabilidade, de equilíbrio e de razão.


Fiat lux, Iudex Fux, Fiat lux.

Eric Hobsbawm (1963): São Paulo e Recife.

feicibuqui do Rudá Guedes Ricci

Os paulistas têm dificuldades para entender o Brasil. A dificuldade aumenta quando se trata de entender o nordeste. Um problema cognitivo grave.

Hobsbawn, num texto de 1963, retrata ligeiramente o que percebeu como diferença abissal entre São Paulo e Recife. Um olhar estrangeiro normalmente não captura as nuances, mas percebe os traços mais gerais ao contrário daquele que está mergulhado até a medula no ambiente em que sempre viveu.

Vale a pena dar uma lida nas observações do historiador inglês:

RECIFE

"Qualquer pessoa que queira saber o que é uma região subdesenvolvida poderia começar pelo Recife, a capital do empobrecido Nordeste brasileiro. (...) Metade vive nos barracos indescritíveis (...). Como vivem ninguém sabe. (...) A população parece não ter tido uma refeição completa há dez gerações: raquítica, baixa e doente. Ao mesmo tempo, há sinais de rebelião. As bancas de jornal estão repletas de literatura de esquerda: Problemas da Paz e do Socialismo, China em Reconstrução e o jornal das Ligas Camponesas, que são fortes na região (mas há também abudância de Bíblias).

SÃO PAULO

É assombroso pensar que estou no mesmo país do Recife. Os arranha-céus brotam, as luzes de néon brilham, os carros (a maioria feita no Brasil) rasgam as ruas aos milhares, numa anarquia tipicamente brasileira. (...) Esta cidade gigantesca (...) e corrupta. Um líder político local [Adhemar de Barros], agora estimado pelos norte-americanos por seu anticomunismo, costumava fazer campanhas eleitorais com um slogan muito franco: "Rouba, mas faz". (...) O mercado interno para a indústria brasileira é extremamente pobre: aqui, até camisas e sapatos são vendidos a prazo. (...) Os interesses industriais brasileiros são os únicos que não parecem ter medo da revolução social ou de [Fidel] Castro. (...) De certa forma, eles me lembram dos velhos industriais radicais da Inglaterra do século XIX, que tinham o mesmo sentimento de ter a história ao seu lado. (...) O Brasil é um país muito estranho para previsões de visitantes casuais."


Além de sugerir paralelos com personagens atuais, a descrição indica os motivos para o nordeste rejeitar tucanos e Temer e se apoiar no lulismo. Na Era Lula, o BNDES aumentou em mais de 630% os recursos para a região, destinados a apoiar investimentos empresariais. Mesmo com este aumento incrível, a fatia de investimentos em relação ao bolo total do banco de fomento brasileiro chegou a.... 16%. Acho que dá o tom do descaso do centro-sul para com o nordeste.